quinta-feira, 19 de abril de 2012

Estudos e relatórios

Uma das coisas que se aprende no técnico é a fazer estudos e relatórios. Outra coisa que se aprende é que os "estudos" dão o resultado que nós quisermos dar. Basta alterar a formula usada para calcular o que se quer. Fácil. Por isso estes "estudos" usados para fundamentar ideias já aprovadas previamente são sempre muito bons. Tal como romances do Boucherie Mendes ou papel higiénico usado numa estação de serviço perto de si.

E já tens este alf?

Ontem cheguei a casa e estava la a espera. Uma prenda não esperada. Uma maravilha visual para quem já teve o privilégio de tocar algumas das coisas que lá estão. ó Alf ainda falta para o teu aniversário, mas já é uma hipótese :)

Post profundamente (e com muito gosto) ressabiado.

Toda a gente teve, algures durante a imparável marcha do tempo, uma professora de Geografia completamente enlouquecida (pronto, talvez o José António Saraiva não tenha tido) mas apenas eu tive uma que, enrolando os curvilíneos e ruivados caracóis na ponta de dois dedos carcomidos pela combustão do tabaco, dizia: «parece-me que é altura de pararem para pensar sobre o que andam aqui a fazer». E nós, incrivelmente, parávamos, embora não fizessemos a mínima ideia do que estávamos ali a fazer. Eu, pessoalmente, estava a tentar reduzir o meu insuportável sofrimento, e lembro-me que atingia alguma satisfação tribalmente alienante, desenhando motivos florais nas margens das pirâmides demográficas, numa clara influência que Anthony Blunt caracterizaria como provinda do barroco siciliano. Mas não tive sucesso, e daí em diante, enchi cadernos com as mais variadas especulações decorativas e estudos antropomorfizantes de proveniência muito variada, desde o Egipto Ptolomaico (eu sempre gostei de exageros helenizantes) até esquematismos caros aos funcionalistas alemães, os gajos que inventaram essa coisa monstruosa chamada design, até que, finalmente, extenuado, fui obrigado ao clássico expediente de levar livros escondidos no interior dos cadernos de apontamentos, a fim de suportar as torturantes elocubrações a que era injustamente exposto e que chegaram ao ponto de incluir um relato completo e detalhado das operações do MFA para tomar a Rádio Televisão Portuguesa na madrugada de 25 de Abril de 1974.




Pois é, pois é. Sabiam disto? Eu não. Pois é, pois é. Não me digam que não sabiam disto? Peço desculpa pelo facto de agora passarem a saber. Nada será como dantes. As pessoas continuam a achar que a inveja é o grande motor do mundo, e negligenciam o poder criador do ressentimento, esquecendo com frequência a enorme importância da estupidez, das más opções, dos enganos, da confusão mental na determinação dos maus momentos porque passam as comunidades políticas. Que raio está acontecer-nos? Será que o mundo, afinal, vai mesmo acabar? As pessoas estão preocupadas com os gays, com os touros, com o Paulo Pereira Cristovão e esquecem com frequência que por cada criança que olha, confusa e perdida, para o triunfo mediático do Pedro Boucherie Mendes, o destino, abrindo a sua garganta de fogo, desfere um poderoso golpe de martelo no último prego que acaba de encerrar no caixão a nossa Atenas eterna, de belas asas e pés velozes. Dirão que o verdadeiro triunfo é o da inteligência silenciosa, mas estamos todos fartos de poemas em linha recta e empregados de escritório afogados em ginga e vinho tinto, a que ninguém apertaria a mão, com medo que tivessem estado a esgalhar no pessegueiro, por serem esquisitos e lerem livros a mais, e andarem cabisbaixos, e não terem paciência para tomar banho, e que depois de mortos, são levados aos nojentos corredores da Fundação Gulbenkian para celebrar, entre cabeleiras tufadas e os fatos de mau gosto dos professores de literatura, a melosa movimentação da língua portuguesa e o caralho que os fodesse a todos, que não compreenderam uma palavra do que lhes foi dito.


A verdade é que estou demasiado cansado para os movimentos marciais que seriam necessários para enfrentar o enigma deste autêntico terramoto de subjectividade rasteira que se derrama sobre mim e os portugueses em geral. No fundo, somos sempre os piores inimigos de nós próprios, uma glória que ninguém nos tira. Podemos finalmente declarar o emporcalhamento do romance, uma forma literária que, agora sim, pode dizer-se que está morta, pelo menos em Portugal, ou, de outro modo, recusar-se-ia a ser colonizada por esta monstruosa forma de imbecilidade e saltaria para fora do livro, recusando-se a figurar por baixo do nome deste trolha dos canais temáticos. Bm sei, bem sei, não se inquietem, os cães ladram e a caravana vai a caminho do único local que verdadeiramente interessa, a saber, o reino eterno da moralidade serôdia, onde já está uma legião de inúteis cordeiros que passaram a vida a praticar cinismos e indiferenças. O problema é que este tipo de corte para canto, cheira-me a cântico litúrgico e eu sei que no último dia não ressuscitarei. Por agora, prefiro ir para os lençois brincar com a pilinha do Freud ou sonhar com um amanhã que cante, mas muito alto para se não ouvirem os gemidos do bom senso a ser torturado nas cavernas da actualidade. Deus vos proteja a todos dos maus livros.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Já lá vamos ao pensamento crítico


que agora ando ocupado com uma dúvida. Quer-se diminuir a indemnização a pagar quando se despede um trabalhador, de um mês por cada ano de casa, para meia-dúzia de dias. O argumento é simples. Diminui-se o custo de despedimento, logo diminui o custo de contractar um trabalhador.

Apesar do meu limitado entendimento, até eu consigo perceber o argumento. Para além do salário, há que incluir  o custo de romper o contracto antes do tempo. Diminui-se o segundo, sem mexer no primeiro, e fica mais barato contractar pessoas. Daqui salta-se pavloviamente para a conclusão de que as empresas vão começar a contractar magotes de gente.

Mas é exactamente a conclusão que me escapa. Se fica mais fácil contractar, porque na mesma proporção se tornou menos oneroso despedir, porque é que ceteris paribus o desemprego vai diminuir em vez de aumentar ? Ou porque os dois efeitos não se anulam, ficando tudo razoavelmente na mesma ?

Ou perguntado de outra forma. Se o empregador entra com a indemenização para os custos do empregado, é porque razoavelmente considera como cenário provável o despedimento antecipado. Então porque é que se conclui que o mesmo empregador vai criar trabalho para meio mundo à segunda, só porque na terça vai despedir outro tanto ?

terça-feira, 17 de abril de 2012

Jovem, se queres ser subversivo, rebelde, e o capitalismo te assusta, não desesperes: haverá sempre a homossexualidade.



A proficiente gestão deste blog fez-me chegar um triste comentário ao meu generoso comentário a uma igualmente triste crónica da autoria do maricas do José Luís Peixoto (vinde a mim, vós todos que procurais o escritor do Concelho de Ponte de Sor, entre as fibrosas redes do mundo virtual). Fico sempre repetidamente surpreendido com a falta de cultura das pessoas, sobretudo sabendo que os meus pais, entre 1990 e 2000, isto é, no decorrer do período crítico e formativo da minha espectacular maquinaria cognitiva, auferiam, agregadamente falando, um rendimento mensal que não ultrapassava os 250.000$00, 250 contos, isto em moeda antiga, mas que pode ser nova outra vez. Como supria eu nessa época, as minhas necessidades de entendimento, perguntam os espíritos mais ousados que ainda se mantêm agarrados a este ecrã? Naturalmente, nas bibliotecas públicas, instituições sempre mal frequentadas, mas apesar de tudo, dotadas de instrumentos mínimos que poderiam ter possibilitado às pessoas não fazerem a figura ridícula que abundantemente fazem na blogosfera e nos respectivos locais de trabalho, respondo eu, embora sem grande confiança. Na verdade, há dois problemas, graves e profundos, implícitos nesta questão da inteligência crítica: a) as pessoas são estúpidas porque o sistema de transmissão de conteúdos fuciona mal, ou na pergunta esfíngica de Protágoras, será que a virtude se ensina? ou b) as pessoas aprendem e transmitem todos os instrumentos cognitvios mas utilizam esse conhecimento segundo critérios particulares, sempre hipoteticamente orientados por desejos irracionais, ou viciosos, ou particulares, conforme os credos antropológicos, ou conforme as intenções estratégicas, como diriam os economistas.



Na verdade, nem uma coisa, nem outra. Por exemplo, a minha simpática comentadora, além de me ameaçar com o arremesso de uma lista telefónica à gloriosa fronte, qualifica a minha intencionalidade como produzida por uma arrepiante frustração, mas o nível de violência com que reaje é a prova consistente de que atingiu a irrelevância intelectual do seu escritor amado - o que a magoa - e como retaliação, arremete contra mim, a fim de salvar toda a genealogia que forjou a sua interpretação do mundo. Ora, isto constitui um eloquente exemplo da forma como o conhecimento se forma numa complexa teia de relações entre os nossos desejos e os nosso intrumentos cognitivos. Creio que toda a historiografia do saber podia ser reorientada a partir dos discursos que pretendem estudar a forma como estudamos os discursos, ou seja, tal como em relação ao tempo, é quando não pensamos nos objectivos do conhecimento, que mais claro se torna para nós que o sistema nervoso central se complexificou para regular a articulação entre estímulos externos e o funcionamento interno do nosso organismo. Uma pessoa pode compreender que o José Luís Peixoto é uma merda, ou que o treinador do Benfica exorbita as suas competências querendo triplicar as capacidades psico-motoras de Axel Witsel, o internacional belga, fazendo-o correr sem a mínima economia de esforço colectivo, mas isso deve ser ponderado em relação aos objectivos que essa mesma pessoa pretende extrair do acto de conhecer.



Isto significa que nós não sabemos nada de nada, nem sequer se o conhecimento crítico é realmente uma coisa importante. Só sabemos fazer coisas que operam ou desempenham acçoes no meio, mas o significado da realidade é, em termos matemáticos, uma função da nossa taxa de esforço para sobreviver, e como ninguém sabe porque razão existe vida, não estamos em condições de responder ao sentido do conhecimento que essa vida produz. A carteira do José Luís Peixoto dirá que isso do conhecimento crítico não é determinante, e a sua consciência, na segunda-feira, e após ter vestido aquela camisa negra, é até capaz de concordar, embora na quinta, e já envergando um blazer caqui, é bem capaz, por outro lado, de lançar dúvidas sobre a pertinência da liberdade comercial e o não taxamento do preço de produtos considerados nocivos à inteligência crítica. Por exemplo, o José António Saraiva, julga, e passo a citar, «ser um facto notório que a comunidade gay está a crescer». Eu julgo ser um fato notório que o José António Saraiva é uma das figuras públicas mais estúpidas e ignorantes de toda a história mundial. Mas isso é a minha opinião, e eu ando aqui apenas a ver se não levo com uma lista telefónica pelos cornos abaixo.


Com extraordinário efeito, aquilo a que chamamos crítica, é sempre uma dada forma de hierarquizar a realidade, uma disposição de valores que tem uma adaptação funcional em relação ao nosso corpo, e aos objectivos que pretendemos concretizar. Mas como esses objectivos são condicionados por outros corpos, igualmente em movimento, e dotados de objectivos próprios, isto significa que para compreender a multiplicação de efeitos causais implícitos em qualquer processo cognitivo, necessitariamos de uma física especialmente complexa, como Einstein não se cansou de afirmar. A produção de conceitos tem uma economia distributiva de que nada sabemos. Manipulamos os discursos e a formalização matemática, ou somos manipulados por esses intrumentos? E que parte deste fenómeno é condicionado pelas nossas decisões, e que parte emerge precisamente da relação entre necessidades individuais e os fenómenos de organização colectiva, que são no fundo o resultado de necessidades conceptuais para neurtralizar o potencial de perigo que há em todo o ambiente «não-crítico»? Será que aqueles que colocam José Luís Peixoto à cabeceira da cama, estão melhor preparados para enfrentar o mundo onde emerge a decadência, e flui a propaganda gay? Quero tranquilizar os meus leitores, invocando os meus vastos conhecimentos de história mundial: o mundo não vai acabar, e mesmo que acabe, graças a deus, não há problema - o que tem de ser, tem de ser, e além disso, caramba, como diria Artur Jorge, fizemos coisas bonitas.



Tenho pena de não poder oferecer ao meu estimado público respostas espirituais ou religiosamente profundas, religando as suas angústias ao sentido do cosmos, mas Cristiano Ronaldo está quase a evoluir sobre o relvado, e apetece-me fazer um pouco de propaganda homossexual, contemplando a sua escultural compleição física. Longa vida a Píndaro, aos atletas, e aos gregos em geral.

domingo, 15 de abril de 2012

Do pensamento crítico

A propósito da qualidade das universidades portuguesas, venho aqui relatar a minha experiência. Eu fui durante pouco mais de dois anos, professor no Politécnico de Tomar. E logo na primeira cadeira que tive como responsabilidade organizar, lembrei-me de incentivar o espírito crítico no alunos. Pedi-lhes um trabalho, pouco mais que uma recolha da literatura e respectiva crítica, mas indiquei apenas o tópico e dei liberdade total no resto. Resultado, a maior parte não fez nada e os que fizeram limitaram-se a copiar da wikipédia. A experiência terminou ali mesmo, e partir daquele dia críticas na sala de aula só aos árbritos dos jogos do Sporting.

Não pondo desde já a hipótese de eu ser uma nódoa como professor, a minha experiência foi basicamente esta. Quando os alunos têem liberdade para pensar, parecem umas baratas tontas sem saber para onde se virar.

Por isso fica a dúvida: é possível ensinar-se o pensamento crítico ? Talvez. E a universidade actual é o local para isso ? Não. Disso estou eu convicto. Passei seis anos num doutoramento no Técnico, e do que pude vislumbrar do ambiente científico internacional, o pensamento crítico é expressamente proibido. E nem poderia ser de outra, já o Paul Feyerabend dizia que a ciência é sistema mais reacionário e conservador jamais criado pelo ser humano.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Pensamentos desorganizados porque estou a meio de um raciocínio importante.

O Miguel Real está definitivamente preocupado com Portugal e eu estou cada vez mais preocupado com o Miguel Real. Esta semana confrontei os meus prodigiosos cornos com dois excelsos títulos do nosso Professor Mamadu do ensaio: O romance português, 1960-2010, (ou coisa parecida), Caminho, 2012, e A vocação histórica de Portugal, Esfera do Caos, 2012. No primeiro título, pelo que pude constatar, Miguel Real tenta fazer o ponto da situação sobre o romance português e abre a reflexão com uma citação de João Tordo, aspecto que me fez imediatamente fechar o livro, com um retumbante estrondo, e devolvê-lo placidamente à prateleira. Justifico. Uma das dificuldades que se apresentam ao habitante do século XXI é a capacidade de processar informação, criticamente, pois em matéria de compilação e sistemática extensiva e intensiva, a máquina já nos inflinge goleadas desde os anos 60 do século XX. Ora, um autor que não conseguiu ainda afinar mecanismos que lhe permitam seleccionar qualidade literária, sem ler efectivamente todos os livros, não sobreviverá um segundo no ambiente adverso que se avizinha e constitui uma perigosa perda de tempo para todo aquele que, medusamente, se deixar empedernir perante a sua prosa. Cerca de 45 segundos foram mais do que suficientes para me banhar num charco de água suja, entre Patrícia Reis, Peixoto, mãe (estão a ver o que dá escolher apelidos esquisitos), Cruz, aquela pessoa retornada que escreveu sobre os retornados e outras irrelevâncias. Dirão aqueles em quem ainda permanece uma certa nobreza combativa que o conservadorismo da crítica educada e erudita constitui, em todas as épocas, uma barreira à emergência da originalidade. A esses eu direi: exactamente, e essa função sagrada, tal como aquela que é desempenhada pelo mercado de massas, despejando continuamente torrentes de pedra e lama sobre o génio, é absolutamente essencial para que pessoas como eu, adestrem na resistência, e forjem na adversidade, as suas maravilhosas asas de seda e ouro, investindo, resplandecentes de impetuosa cultura, e reforçados por uma firme potência intelectual (cá está), contra os furiosos ventos da actualidade e as vagas da descerebrada natureza, sempre vital e cega nas determinação dos seus movimentos. Se alguma coisa existe ainda que possa coroar de glória uma inteligência humana, será a recusa da morte anunciada do homem, ultrapassado pela computação e a máquina, pois, como diria Faulkner no discurso do nobelização (uma mau escritor, mas uma pessoa a quem as bebidas brancas e as dificuldades da vida ensinaram coisas inauditas), o nosso passado, repleto de dramas incomportáveis, terrivelmente violentos e profundos, exige que não deixemos cair a forma material humana, cansada e bela, pelo menos em certo sentido, sem que o estrondo da sua voz percorra os quatro cantos da terra.


Na verdade, não nego que haja escritores com mérito em Portugal. O que não entendo é a tentativa de intelectualizar, criticamente, uma actividade que seria melhor esclarecida do lado da econometria, e estou a referir-me ao romance português, em particular, e ao europeu em geral. Os temas são enfadonhos, o estilo é cansativo, os caracteres são postiços, a psicologia é superficial, a poesia é medonha, a estrutura é recorrente de banalidade. Não admira que quando aparecem casos como o de W. G. Sebald, os clarins do paraíso apontem ao sol luminoso da eternidade as suas flâmulas carmesim e consagrem, numa revoada de sons vibrantemente prateados, a simples conclusão: finalmente, uma pessoa inteligente, caralho.


Calma. Não vou apresentar aqui uma recensão crítica dos referidos livros de Miguel Real, uma vez que ainda não perdi completamente a capacidade de hierarquizar o meu tempo em função da minha crescentemente inflacionada taxa de esforço. Quero simplesmente noticiar que as elites portuguesas começaram a escrever livros. Constitui isso uma novidade? Logicamente, não. Novidade seria se as elites portuguesas tivessem começado a ler livros. Por enquanto, e até à minha entrada em cena, está tudo bem.

Olha a minha posição é sentado

Mas não tarda estou a sair que isto de trabalhar custa.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A minha posição

Apresento aqui a minha posição relativamente ao debate sobre o Tratado Orçamental Europeu, que neste exacto e preciso momento decorre, com assinalável altitude intelectual e elevação democrática, no seio materno da Casa da Democracia. Senhoras e Senhores, convosco, em qualquer televisão, de preferência sem som, entre o triângulo resplendoroso de uma chamuça e a elegância melancólica (e este é, sem margem para hesitações, o melhor adjectivo de todos os tempos) de uma refrescante imperial, repito, convosco, o reverendíssimo e excelentíssimo Parlamento da República Constitucional Portuguesa.




A minha posição.

Chamo a atenção dos ouvintes para o arpejo-argumento que sucede (e desbarata qualquer dúvida, eventualmente existente, em torno dos efeitos profiláticos da regra de ouro, inscrita indirectamente na constituição, e todas as benéficas tensões macro-económicas daí resultantes, de um ponto de vista da ortodoxia monetarista neo-liberal) no preciso momento em que o relógio atinge 1 minuto e 48 segundos.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Afinal, sempre há salvação para o Instituto Superior Técnico.

Como sempre acreditei nas vantagens da racionalidade cumulativa e da computação, aqui está mais uma prova de que as inteligências sempre se encontram, sobretudo se estiverem devidamente programadas para conhecer o mundo real e não para se auto-contemplarem na mais confusa comiseração sentimental. Na verdade, nunca engoli aquela estratégia argumentativa que para depreciar a educação extensiva e intensiva do cálculo e da poesia, saca do Terceiro Reich e das suas fabulosas competências intelectuais com o intuito de arrastar pela lama os tesouros do raciocínio desta pobre espécie que tanto fez pelo planeta, ao contrário do que diz a propaganda francesa. Como todos sabem, dificilmente alguma vez na história se reuniram tantos ignorantes numa agremiação fardada como no dito Terceiro Reich, o que diz tudo sobre a capacidade crítica das pessoas que utilizam este tipo de argumentação, e estou a lembrar-me, por exemplo, do inútil do George Steiner. Quem conhecer algumas das respostas dadas pelo programa ELIZA, desenhado pelo ilustre Weizenbaum (aqui lembrado pelo ngonçalves) num exercício experimental sobre a capacidade de relacionamento sentimental de um computador, levado a cabo pelo autor do livro que encabeça este post, rapidamente se entristecerá pelo facto dos diálogos dos livros do José Luís Peixoto, e da Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, não serem elaborados por uma máquina, o que só comprova a superioridade da razão sobre o sentimentalismo rastejante. Como estamos em maré de generosa orientação bibliográfica das massas, aproveito para interrogar, em directo, a quem de direito, se este gajo, postado aqui em cima, se recomenda ou se acabei de ser banhado pelos vertiginosos links que as máquinas me foram estendendo até que eu me deparasse com o referido volume. Eu também gosto muito do Sá Pinto, simplesmente desejo que ele vá para o caralho.

Uma vénia a todos os derrotados em geral


chegou vão para lá uns 3 ou 4 anos, de um autor se pode considerar o Sporting da inteligência artificial sendo que o Raymond Kurzweil será o Pinto da Costa. Comparado com os restantes, Weizenbaum é um derrotado em todos os aspectos excepto um. Não se levava a sério. Numa entrevista confessou ter feito uma foto todo nú com a medalha que recebeu das mãos do presidente alemão porque, e passo a citar, "não tinha o smoking que mandam as regras vestir para se poder usar a medalha em público". Foi também o senhor que me deu a conhecer a Marian Anderson.

Uma vénia a todos os colegas de blogue


incluindo os que não tiraram o curso no Técnico. Chegou hoje e estou em crer que tem mais páginas que o do alf. Não que o tamanho importe.

No Técnico não se dão aulas de português

E só assim se explica, que concordando eu em quase tudo com o alf, acabe a escrever exactamente o contrário. Aliás, e segundo a senhora minha esposa, eu sou um tótó no que respeita a tudo o que não involva integrais triplos e derivadas parciais. Por pontos.

Eu não odeio o Soares, antes pelo contrário. O homem é realmente um grande político, mas eu estou convencido que é só isso. O que eu achei interessante na notícia foi o próprio comando da GNR querer abafar a coisa. O que para mim significa que o militar da gnr vai em breve conhecer a fila do desemprego.  Caso contrário algo vai mal nas forças policiais.

A mudança de poder só se faz, é certo, com o apoio da força. Ignorante confesso que sou da história de Portugal e do mundo em geral, digo isto sem uma pinga de ironia, aceito que cada evento tem o seu contexto. Mas isso não invalida que sem o aval dos militares nada se faz.Podemos tentar procurar os sinais de mudança em vários sítios, ou olhar para o catalizador directamente. O arroto do militar da gnr é representativo do resto da coorporação ? Não sei, mas a polícia não anda contente e já não há dinheiro para os calar como houve nos tempos do Guterres.

Próximo. Qual é a universidade do planeta Terra que incentiva nos alunos a crítica, o pensamento independente ? Sabendo que é necessário ganhar hábitos de estudo, retórica, análise e sintese antes que sejam possíveis a crítica e o pensamento livre, e que sabendo que a minha geração passeou o cú num dolce fare niete até ao 12º ano de escolaridade, é razoável esperar que a universidade portuguesa seja capaz de motivar o aluno para algo mais que não seja o safar-se com o mínimo trabalho possível ? Triste é que apenas e só chegado à universidade é que o tuga finalmente aprenda algo que mais tarde lhe permitirá ganhar o pão. Se ele quer cultivar o pensamento livre, que o faça fora das horas de expediente e quando os putos estão a dormir.

Tudo isto para dizer que amanhã vou fazer a preparação para defesa da tese doutoramento. No IS of T. Um título académico que não me diz nada. Uma resma de pouco mais de 120 páginas, que nada acrescenta ao conhecimento humano. Então porque o faço ? Não sei bem, mas em parte porque me comprometi a fazê-lo. E se um gajo não tem palavra, não tem mais nada.

Terminemos. O Sá Pinto percebeu, sem ser preciso eu lho dizer, que o Sporting este ano apenas tem equipa para jogar como se fosse um clube da 2ª B a tentar não descer. Que os adversários sejam incapazes de ver isso, é problema deles. E ganhar ao Benfas é o mais íntimo desejo de qualquer lagarto que se preze.

Dedicado a todos aqueles que roubam o Estado, em particular (e os portugueses em geral) para comprar livros aos ingleses.


Partilho-o com uma justa e sincera vénia a todos os antigos alunos do Instituto Superior Técnico e companheiros de blogue.

e mesmo para acabar

Tens razão alf: o técnico é uma merda, assim como o sporting. Mas digo-te que valeu a pena andar lá (so assim terias aqui o ngoncalves, o maior seguidor de salazar mesmo antes dele existir) e que ganhar ao benfica, mesmo que fiquemos em ultimo lugar, enche-me os dias. São estas coisas que levamos daqui. E acho que tu sabes isso muito bem.

E o dia está completo: johnny cash e um gatinho

Do Sá Pinto para o Alf, com amor

A fnac, naturalmente, não diligencia os prodigiosos títulos que aqui apresento.

Uma das gigantescas vantagens do leitor deste blogue é poder contemplar como os seus membros, de quando em vez, se engalfinham em polémicas absolutamente estéreis. A esterilidade polémica é, aliás, talvez a grande marca distintiva entre o homem e mundo dito animal, uma vez que o uso da linguagem, com maior ou menor destreza, está longe de ser um privilégio dos humanos. Como os jornalistas não fazem o seu trabalho, tenho de ser eu e o ngonçalves a garantir a discussão cabal dos problemas que nos afligem, quer como comunidade científica, quer como República de Cidadãos. Aproveito o mal entendido sobre livros gamados na Fnac, e pedindo desde já, desculpa pelos excessos (e mandando Sá Pinto para o caralho) passo então a polemizar.

1. A primeira prova manifesta da ignorância congénita aos licenciados pelo Instituto Superior Técnico é o seu sentido corporativo e o orgulho escondido que transportam por terem obtido uma licença, com o intuito de serem remunerados por vários desempenhos práticos e teóricos, à custa do sacrifício de um desenvolvimento integral da sua inteligência. Quem conhece um pouco dos exercícios abstractos a que são submetidos os licenciados pelo Técnico, compreende como os exercitados teriam que optar por uma de três soluções: ou o ressentimento contra a torturante falta de tempo para disfrutar da entrada na vida munidos de uma visão dos problemas orientada por extensos conhecimentos disciplinares (por exemplo, Biologia, História, Economia); ou a dignificação da vida prática e da utilização «real» dos seus conhecimentos em trabalhos «criadores de riqueza»; ou a defesa intransigente da especulação tecnológica ao serviço do «progresso» (risos, risos, risos) e da automação da vida humana (risos, risos, risos), e tudo isto envolvido no cabal respeito pela vetusta instituição onde foram manifestamente infelizes, o que só serve para apimentar a relação afectuosa que mantém, pela vida fora, com a referida instituição. Quando mais me bates, mais gosto de ti, diz Nelo Monteiro num album de 1987. Com efeito, já dizia o velho Kant que a introspecção é um ladeira que custa a subir e é sempre mais fácil dar largas à furiosa imaginação e pegar em armas contra um inimigo que nos permite saber quem somos. Julgo que não será necesário elaborar mais sobre este ponto.

2. É impressão minha ou foi feita aqui uma insinuação sobre a forma como obtenho os livros com que enriqueço a minha prodigiosa inteligência e a de todos aqueles (incluindo os licenciados pelo Instituto Superior Técnico) que têm a sorte de acompanhar (a título totalmente gracioso, numa inacreditavelmente eficiente manifestação de serviço público) a elegância do meu frasear? Em primeiro lugar, devo dizer que multiplicando por mil os livros que generosamente aqui desfilam, dificilmente o resultado escatológico dessa simples operação aritmética ultrapassaria o resultado da soma dos custos de uma hora de brincadeira científica na referida instituição de ensino técnico. Claro que é muito difícil combater os poderosos efeitos retórico-argumentativos do conceito de utilidade (como vêm, eu escolho inimigos poderosos), conceito que, curiosamente, foi forjado por pessoas que tinham tempo para pensar. A trajectória dedutiva que valoriza um tipo de trabalho publicamente pago, em relação a outros tipos de trabalho publicamente pagos, é sintomática da falta de tempo que as pessoas dedicam à introspeção da sua interferência como sujeitos de conhecimento no mundo real, tão convencidas que foram, pelas instituições que deram forma aos seus intrumentos cognitivos, da natureza linear das relações entre os custos públicos, a estrutura fiscal, e o papel reprodutivo da riqueza no agregado de vidas humanas que constitui uma comunidade política. Para desmontar esta insistente falta de clarividência, seria necessário efetuar um trabalho crítico sobre o conceito de progresso (e deixar de assumir a bolorenta enciclopédia de Diderot e D'Alembert – dois pacóvios tão fascinados pela tecnologia de produção de alfinetes como os hodiernos parolos fascinados pelas realizações de um braço robotizado – como um credo definidor das relações humanas, das leis da economia e dos critérios de justiça da república).

3. Logicamente, a relação entre a queda da monarquia e a utilização de armas por professores primários e empregados do comércio, tal como a estafada relação entre a saloiada militar montada em tanques de guerra e a deprimente combustão do regime mais parolo que vigorou em toda a Europa Ocidental, liderado por um camponês licenciado pela Universidade de Coimbra (outra produtora de ignorantes sem paralelo acima da linha do Equador) é problemática, difícil, e pouco consistente com as abundantes evidências que qualquer pessoa, com tempo e paga pelo Estado, se dê ao trabalho de recolher; factos como a evolução da distribuição monetária e o crescimento demográfico, o índice de livros importados, a descida da mortalidade infantil, o crescimento da descrença nos sacedortes, tudo coisas bastante mais significativas na alteração dos sistemas políticos do que a utilização, alegórica ou não, das armas. Tal como é muito difícil convencer o ignorante das leis da física e das deduções astronómicas, de que é a terra que se move em torno do sol e não o contrário, é muito difícil convencer o ignorante das ciências sociais de que uma arma tem um efeito alargado bastante menos poderoso do que os artifícios da linguagem ou a estrutura do parentesco. Bastaria estudar um pouquinho de lógica formal com os herdeiros de Newton, em Cambridge, e não com os burros dos Professores do Instituo Superior Técnico, para apreender os problemas relacionados com a denotação das preposições que levam à crença num dado fenómeno, e que a relação entre as séries de palavras e os factos que tornam as palavras verdadeiras, implica um trabalho profundo sobre a nossa interferência enquando operadores da lógica. A título de exmplo, gostaria de saber em que país do mundo, e em que momento das séries temporais que nos antecederam, é que o sistema político muda aparentemente, e sublinho aparentemente, sem ser pela força da armas? As razões que levam as armas a emergir é que diferem minuciosamente, e é por sabermos tão pouco sobre isso que continuamos a investir em cursos superiores técnicos (e não vou especular sobre o financiamento da ciência e a guerra porque me cheira a esquerdalho) convencidos de que resolveremos os problemas, enquanto nos afundamos alegremente, conduzidos pelos Antónios Guterres deste mundo, uma pessoa que, alegadamente, terminou o Instituto Superior Técnico com a esplendorosa média de 18 (dezoito) valores. Quanto a Mário Soares, continuo a não perceber o ódio colectivo ao maior político do século XX (exceptuando o ódio movido pelos retornados, onde a experiência de convivência com o meu retornado avô, ao contrário do meu retornado pai, serviu para desmontar, em silêncio, para não me arriscar a levar um tiro, toda a maquinaria de ressentimento contra o descolonizador-mor, um homem a quem estou eternamente grato pelo facto de me ter salvo de um nascimento em África).

4. Agora passemos ao que verdadeiramente interessa e à clarificação da única coisa que verdadeiramente me irrita. Não seria necessário colocar Torres ou Nené (não cheguei a tempo de ver jogar nenhum deles) mas simplesmente tirar Cardozo do campo. Em Londres, quando Cardozo saiu, o Benfica passou a jogar o dobro e se Jesus saisse do banco, passaria a jogar o triplo. No entanto, constato com grande prazer que, mais uma vez, o Sporting se afunda a caminho da extinção, comemorando, não já o segundo lugar à frente do Benfica, mas o quarto (ou quinto) lugar atrás do Benfica, desde que pelo meio apareça uma qualquer vitória alcançada com os joelhos condoídos de Rui Patrício, as dores de Xandão, a fina educação de João Pereira, e a inestimável certidão de nascimento de Artur Soares Dias, produzida,entre champanhe e aplausos, há já algumas décadas, no Distrito do Porto. E já agora, o Sá Pinto que vá para o caralho.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Efeitos prácticos da crise (II)

No prédio, os sacos do lixo antes eram grandes, verdes ou negros, próprios para o lixo. Agora são os da compra no mini-preço. Continuo a ser eu a ir pôr o caixote na rua, que certos hábitos são imunes à crise.

Efeitos prácticos da crise

As alternadeiras do Elefante Branco, que antes chegavam de táxi e nunca antes da meia-noite, agora ainda não onze  e é vê-las a pé, de salto alto pela calçada acima. Bons motivos para ficar à janela de noite.

E mete quem ? O Néné ? O Torres ?

Tudo perguntas pertinentes, mas não é isso que me traz aqui hoje. Sucede que um militar da gnr lamentou-se de ter gasto 30 peças de chumbo na carreira de tiro, que segundo ele eram mais bem empregues no Mário Soares.

Chamo a atenção para a vontade do comando da GNR em deixar o assunto morrer. Tão certo como o Djaló não marcar um golo nas 4 épocas que lhe restam de contracto, amanhã vão-se descobrir no carro do dito gnr, 30 Kg de coca na mala, 5 mil pastilhas de ecstasy no pneu sobressalente e provas irrefutáveis de participação no atentado ao Sá Carneiro no compartimento das luvas.

Que eu saiba, e a ignorância própria de quem nasceu antes de 1980 e se formou no Instituto Superior Técnico não permite saber muito, nunca em Portugal o poder mudou sem ter as costas quentes pelas armas. Um gnr não faz a revolução, longe disso, mas todas as gotas ajudam. Basta lembrar que bastou o Buiça ter tiro certeiro para a monarquia cair. E ao Estado Novo bastou o odor das g3's oleadas pelo uso em África.

Agobia-me sim, não saber o virá depois e saber as vergonhas que se vão cometer durante. Mas isso são outras conversas. Esperemos que o Sá Pinto não vá para o caralho, e que a crítica literária feita neste blogue seja à custa de livros gamados na Fnac.

Tira o Cardozo, caralho.

1. Bastaram vinte páginas de O teu rosto será o último para ficarmos totalmente esclarecidos sobre o que vale e valerá João Ricardo Pedro. (Todos sabem como amo profundamente Lamarck e a previsibilidade). Sendo João Ricardo Pedro um engenheiro electrotécnico, muito naturalmente, o seu domínio dos polinómios, funções quadráticas e cálculo diferencial não permitiria que, enquanto autor, se enterrasse no deprimente lodo «consciencialista» da sua própria consciência, efeito psico-literário que responde pelo imperfeito e confuso nome de «eu». Este recorrente impressão em livro da torrente de pensamentos que devemos guardar para o chuveiro e a retrete, representa uma maldição que entrou na literatura portuguesa pela mão do falhado António Lobo Antunes e desde então tem medrado em mil formas de adaptação reversiva aos mais estranhos e bizarros ambientes mentais, desde cabeleireiras de Massamá até homossexuais de Vila do Conde. No entanto, com toda a ignorância historiográfica e biologista que caracteriza os licenciados pelo Instituto Superior Técnico, sobretudo nascidos antes de 1980 (época em que aqueles trinta prodigiosos minutos de contexto cultural das cidades europeias presentes nos jogos sem fronteiras vieram colmatar o apagamento das ciências sociais) João Ricardo Pedro, embora imune às pessegadas do «eu», está convencido de que a intriga policial é «o» mecanismo literário capaz de prender a atenção das pessoas, e abrir de par em par, ao mestre narrador de crimes, violências e outras porcarias dignas do mais sabujo canal de televisão brasileiro, as portas da tranquilidade financeira, humilde objectivo que, aparentemente, a sua esforçada licenciatura pelo Instituto Superior Técnico, pelos vistos, parece não ter sido capaz de alcançar, assunto que, isto sim, daria tema a um grande romance em língua portuguesa. O Sá Pinto que vá para o caralho.


****


2. Infelizmente, João Ricardo Pedro está entalado entre a abstração matemática da natureza e a cortante foice comunista, e os seus olhos pertencem ao numeroso rebanho que continua a ver no regime de Salazar nao só uma proveitosa fonte de rendimentos como a origem de todos os males da pátria, arriscando até, valha-nos Nosso Senhor Jesus Cristo, uma visão histórica do problema, mas partindo de uma análise cuja distribuição de frequência das observações não os leva a questionar se: a) não lhes fará falta recuar um pouco nos seus conhecimentos de História de Portugal; b) não seria melhor escolher um problema menos gasto como, por exemplo, a hercúlea força da ignorância nos escritores de romances em português quando comparados com os seus congéneres ingleses e norte-americanos, para não falar nos italianos onde a figura que fazemos é lamentável. Ora, António de Oliveira Salazar, esse saloio que nem como seminarista teve sucesso, foi apenas um pobre tolo que coroou a evolução previsível de um país ignorante até à medula, estupidamente inculto, bruto e pouco versado na crítica intelectual. O Sá Pinto que vá para o caralho.


****


3. No meio do livro, O teu rosto será o último (mas o problema é que os livros de merda não têm fim), surgem alusões eruditas à música burguesa, e João Ricardo Pedro, na sua entrevista ao Expresso, arriscou mesmo comparações com os andamentos das sonatas de Mozart ou Bethoveen (não me lembro agora, porque estou a mandar o Sá Pinto para o caralho) lidas através das interpretações de um burguês de óculos que ainda há pouco esteve na Gulbenkian a ensinar o sentido oculto da arte musical. Com efeito, é sintomático que esta gente nascida da desorientação comunista, totalmente inculta, e formada à pressa na quase-literatura com o quase-grande autor José Cardoso Pires (um tipo que falhou totalmente precisamente por estar convencido de que a intriga policial e a actualidade política eram importantes) continua a navegar neste ressentimento bélico contra um inimigo que está completa e irrecuperavelmente morto. Se João Ricardo Pedro tivesse lido este blogue (o que o teria salvo da figura que anda a fazer) ou assistido, por exemplo, ao Coriolanus de Shakespeare, entenderia que os nossos inimigos são do tamanho da nossa mente (daí que Salazar só poderia, por exemplo, ser inimigo do meu dedo mindinho do pé esquerdo) e que a principal linha de contraste com o o nosso mais perigoso adversário se traça precisamente com o sangue do nosso desespero em não sabermos quem somos, e isto é tão evidente que até o Sá Pinto, e os aristocratas de Alvalade, o sabem, e por isso se consomem até às lágrimas de fúria no confronto com o Benfica.


****


4. Na verdade, João Ricardo Pedro tem algum talento, é justo dizê-lo, e poderia até tornar-se num autor digno de leitura se não tivesse falhado como Engenheiro Electrotécnico. Este mergulho na historiografia do desemprego é um caminho demasiado trilhado por autores brilhantes que não esperaram por falhar como engenheiros electrotécnicos para se aventurarem na escrita de livros. Faltam a João Ricardo Pedro, naturalmente, milhões de páginas de leitura, o que é inteiramente justificado pela falta de tempo para a literartura manifestada nos seus anteriores 37 anos. Mesmo que comece agora, a uma média de 50 ou 70 páginas por dia (o que não é fácil) teria que parar de escrever durante 6 ou 7 anos para assimilar o número de vozes que lhe permitissem criar uma paleta de ecos no interior da sua cabeça que, depois, lhe permitiriam, maravilhosamente, trabalhar com raiva, e em silêncio, até abandonar o mais pequeno vestígio da sua «voz própria».


****


5. Termino com esta questão da «voz própria», dando largas à minha generosidade e avisando os aspirantes a «João Ricardo Pedro» que o caminho directo para a fama literária (não para ganhar o prémio Leya, bem entendido, embora uma coisa não exclua necessariamente a outra) está precisamente em conseguir não ter uma «voz própria», o Sagrado Coração de Maria nos proteja de noite e de dia. Aquilo que reconhecemos como marca distintiva dos grandes escritores é uma total concentração técnica no exercício de utilização do alfabeto e das regras da gramática para expressar intenções e formas através de conteúdos finos e rigorosos. A estreita ligação entre o que se diz e a forma como se diz constitutiu a aparência de voz própria de todos os «grandes» mas esse efeito é apenas uma imagem, repercutida nas mentes mais pobres, de uma total ausência de personalidade que fica no texto de todo o grande escritor, pois só uma inteligência prodigiosa consegue desaparecer sob o estrondo da sua própria combustão para dar lugar às milhares de vozes que povoam a sua cabeça, ficando a obra tecida pelo que é comum a todos esses ecos (o cérebro invisível do autor), no fundo, as ligações e associações metafóricas que fazem sentido numa mente prodigiosamente culta mas que são fruto da concentração e do conhecimento profundo de muitos outros autores, e podem aprender-se e passar até de escritor para escritor. Ovídio está limpinho em Shakesperare, como Shakespeare está limpinho em Melville, como Melville está limpinho em Joyce. Numa próxima oportunidade explicarei porque razão este rede de infinitesimal pormenor e força indestrutível não resulta da originalidade, mas sim da potência intelectual. Em todo o caso, o Sá Pinto que vá para o caralho.

sábado, 31 de março de 2012

Realidade (3)

O rapaz que me leva onde preciso ir, aqui onde me encontro, contou-me que o presidente (dono do pais, palavras dele) tem centenas de casas. Acabou a suspirar que queria apenas um quarto, enquanto se desviava do carro em contra mão. Aqui o BPN é brincadeira.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A escola é quem mais ordena


Nada me repugna mais do que a velha e batida técnica de vendas, muito utilizada por Charles Dickens, que consiste, precisamente, em enredar uma dada informação na promessa de que a próxima informação, essa sim, será digna da atenção do leitor e revelará, final e consistentemente, ao que vem o autor de uma referida técnica de vendas. Este recurso desaba preocupantemente para a tautologia, e transforma-se, em 99% dos casos, numa recurva vigarice. Acontece que sou forçadoa fazê-lo, tendo em conta as incontroláveis forças da actualidade. Na verdade, toda a minha iminente obra tem como objectivo, e corolário, não uma entrada para os programas currículares do ensino da língua portuguesa, questão que parece ser o ponto de honra das várias agremiações universitárias e associações portuguesas de autores de expressão escrita, mas sim uma demolição total e consistente de todas as instituições convencionais de embrutecimento, mais conhecidas por escolas.
******
Como está careca de saber qualquer pessoa que ultrapassou a fase incial de utilização programática e cibernética do seu sistema nervoso central, a escola é uma merda, e a esmagadora maioria dos professores, apesar da sua nobre e vertical função no sistema constitucional democrático, não passa de um conjunto de pessoas engolida pela sua própria confusão intelectual, totalmente incapaz de domar o problema do conhecimento, que se vê, à semelhança dos sacerdotes, de quem derivam, forçados a um calvário torturante da sua própria existência, que depois resulta em todas aquelas conhecidas jeremiadas sobre a sua importância como educadores e cimento das sociedades do conhecimento. É aliás curioso que não se perceba - e este é o meu comentário à greve geral - que a polícia, quando comparada com a violência institucional de um professor numa sala de aula, é apenas uma pequena e ridícula amostra dos verdadeiros mecanismos que sustentam a suposta violência do capitalismo e da sociedade burguesa.
********
Daí que seja curioso verificar (e nisto estou tão distante deste post como de todos os escolásticos) que os críticos do recém e ridiculamente aprovado exame da 4ª classe não tenham suficiente coragem intelectual para levar o exercício de raciocínio até às suas consequências lógicas, concluindo que se os exames e a percentagem de chumbos dos jovens até aos 15 anos é um autêntico genocídio de potência intelectual, o desempenho dos professores no interior dessa mega casa de correçcão e suprema fraude intelectual chamada escola, é uma das mais repugnantes aplicações de energia humana de toda a história da humanidade. A única coisa que não se faz na escola é aprender e a única actividade que é violentamente censurada é a aquisição de conhecimento crítico. De outro modo, como seria possível manter hierarquizada a relação professor-aluno ou como seria possível sustentar uma rede indeferenciada de pensamento que agremia pessoas do ponto de vista das disciplinas do saber? Disciplinas? Avaliação? Professor? Professor de quê ou de quem? É precisamente porque o conhecimento se generalizou e democratizou que a escola se vê obrigada a utilizar todos os meios terroristas de que dispõe para continuar a fingir que responde à necessidade de conhecimento. Apenas as diferentes velocidades de hominização e as regressões primatológicas explicam que haja pessoas, tais como o Nuno Crato, convencidas de que a televisão e as «tecnologias da informação» são compatíveis com a escola e seus métodos medievais de certificação da ignorância generalizada.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Doce morte, irmã do sono.

Um dia ainda hei-de explicar porque razão é perfeitamente natural e correcto que a literatura se tenha metamorfoseado em merdas como esta. Como qualquer mecanismo selectivo, a comunicação escrita tem vindo a perder parte do seu impacto distintivo com o facto da maioria dos animais em competição ter aprendido a tornar-se «escritor». Imediatamente, a institucionalização do disposivitivo autor começou a perder a sua funcionalidade, e depois de um período de ouro, entre finais do século XVIII e meados do século XX, digamos, entre Swift e Virginia Woolf, em que o autor se confundiu com a distinção, neste momento, parece estar a processar-se, com a redução do custo de produção dos meios de comunicação, um fenómeno de aceleração da banalização da autoria, e já não faltará muito para que apareçam anúncios no jornal a pedir candidatos desesperados para desempenharem o papel de autores em literatura.
*******
Claro que a relação entre a qualidade da maioria dos jogadores e os jogadores de top é muito complexa, e tal como a idolatria de Cristiano Ronaldo é directamente proporcional aos milhões de crianças que jogam futebol em todo o mundo, também na escrita foi precisamente a massificação do autor que começou a tornar o escritor numa vedeta. Porém, tal como na maravilhosa vida orgânica, em qualquer nascimento, estão já presentes as sementes da destruição, razão porque Horácio dizia, com propriedade, que há lágrimas na Natureza e uma profunda tristeza no âmago das coisas. Como a função autoral nasceu como experiência particular e exercício de autoridade, ou de técnica específica no domínio do expressão escrita, não vejo como se integrará um desejo de individualização («a voz própria» de que mistico-gasosamente falam os autores que nada têm para dizer e por isso precisam de voz própria) com o movmento centrífugo da indústria de massas.
******
Todas as fracturas, em torno da oralidade na escrita e da cristalização de modos abjectos, ordinários e democráticos de discurso, que aqui temos abordado, não é mais do que a confusão entre autores que querem ser eles próprios mas que não deixam de querer chegar ao maior número possível, à puta universal a que se chama de forma elegante, um clássico. Porém, o que este autores de merda desconhecem é que o clássico, é precisamente o que contraria o universal do seu tempo (penso que era isto que queria dizer quando me referia ao génio maldito) e por isso se torna referência crítica para o futuro. A sisudez com que qualquer autor auto-consciente enfrenta o processo de «publicação» da sua obra é a mais clara manifestação deste problema, de Melville a Pessoa, passando por Joyce e Proust ou se quiserem Calvino e apostaria o olho restante de Camões em como qualquer escritor fértil e inteligente a quem fosse dada a possibilidade de subsistir, sem se preocupar com bens de primeira necessidade, fornecendo-lhe uma renda digna, não publicaria uma palavra mas deixaria, arrumadinhos e atados com um cordel, em cima de uma magnífica mesa de trabalho, todos os seus manuscritos, prontos para enfrentarem o único e verdadeiro tribunal dos discursos humanos, aquele que é constituído pelas diferentes gerações de escritores brilhantes, ao longo dos séculos.

terça-feira, 27 de março de 2012

Realidade (2)

Um papel impresso tem mais valor que mostrado no ecrã do computador. Que o diga o segurança onde estou.

Realidade (1)

Por falar em realidade, ontem vi aqui três crianças no meio do lixo. Pareciam felizes.

Cada jornalista vergastado representa um bem inestimável.


Sou mais uma vez forçado, contra minha vontade, a derramar uma explicação cabal da estupidez que graça no país. Mas antes de mais, atiremos pela janela o argumento antero-queirosiano, isto é, deitemos fora o argumento da decadência geográfico-social. Já ninguém suporta o parasita do Eça de Queiroz (de luneta e cabelo oleoso a mendigar secretarias para, numa invejável posição a que quase mais ninguém em Portugal depois dele teve acesso, numa tão grande proporção de talento e tempo, desperdiçar essa oportunidade com uma produção gigantesca onde apenas se salva um obra prima «A Ilustre Casa de Ramires», uma obra assim-assim «Os Maias», um grande livro «A Relíquia», e o principal monumento em prosa portuguesa «os textos jornalísticos», a que estupidamente chamaram Cartas de Londres e de Paris, para os esvaziarem da sua dimensão política), sim, repito, já ninguém suporta Eça de Queiroz, uma espécie de antepassado da parva da Maria Filomena Mónica, apenas dela divergindo no talento, porque a reprodução das relações com os livros estava naquela época muito mais liberta da influência da reprodução das relações com a distinção social, sendo, desse modo, largamente possível que uma pessoa genial tivesse acesso aos meios de comunicação, pois os labregos, os inúteis e abjectos, filhos da classe alta, e da classe média alta, estavam todos entretidos com tarefas ainda consideradas nobres, tais como a política, o exército e a agricultura. Na verdade, não existe entre nós nenhum processo de decadência: existe apenas a tranquila e gloriosa continuação secular de um território político-jurídico formado com o patrocínio moral da Igreja Romana (só podia dar merda) encaixado numa faixa atlântica que pratica uma economia de subsistência pouco especializada, com condições climáticas favoráveis, e poucos e maus meios de comunicação (uma tragédia a que somos alheios - dada a nossa pouca responsabilidade no alinhamento das cordilheiras, rede hidrográfica e depressões - e que veio a desembocar nas tão famosas auto-estradas).
******
Portugal é uma formulação histórica que corresponde a movimentos tão complexos que dificilmente conseguimos saber do que falamos quando falamos de Portugal, à semelhança de qualquer comunidade nacional, e daí parte da crise de coordenação entre a produção de instrumentos técnicos, de proveniência muito variada), e os sistemas de negociação de direitos de propriedade (definidos pelas antigas fronteiras políticas, constituições, rede de tribunais, escolas). A confiança que depositamos na nossa capacidade de afectar a escolha colectiva, quando essa escolha há muito depende de forças que ainda não compreendemos bem, é da mesma natureza da criança que acha que por efectuar uma determinada acção vai obter, em qualquer caso, o objecto do seu desejo, sem se preocupar com eventuais problemas de causalidade. Eu, que detesto particularmente toda a obra de Wittgenstein, lembro que o austríaco demonstrou logico-formalmente que a causalidade é uma superstição, e que não existe nenhuma necessidade demonstrável na sucessão de acontecimentos. Ora, isto devia ser suficiente para calar de uma vez por todas, pessoas que estando lunaticamente convencidas de que são o Alexandre Herculano, como o Miguel Real, se referem à fortíssima classe média no tempo dos decobrimentos (foda-se, caralho, cona da tia) ou do ímpeto vital no tempo do ouro de D. João V (foda-se, foda-se, fodaaaaaaaa-se). Não existe sequer a mais pequena ideia de como se estrutura a monetarização de um espaço político, muito menos das consequências do alargamento da utilização da moeda nas relações de troca, ou das consequências de alterações da política monetária da Coroa, por exemplo, nos planos de divisibilidade e quantidade da moeda em circulação, que o ouro do Brasil introduziu, quanto mais qualquer tipo de percepção das relações entre os efeitos de um metal precioso e a estratificação social. Claro que estas pessoas não têm um mínimo de vergonha nas hediondas faces, e à semelhança dos sacerdotes, fazem do sermão a sua actividade especializada, baseando-se numa olímpica ignorância da realidade e num desconhecimento ciclópico da produção escrita sobre os assuntos que, sem qualquer sombra de dignidade ou respeito por quem lê, comentam despudoradamente.
******
Ontem, tive o azar de, na esperança de ver novamente a repetição do fabuloso golo de David Simão, marcado em Braga ao serviço da Associação Académica de Coimbra, me deparar com Miguel Real, Nilton, Herman José, uma freira, e um analfabeto a que chamavam professor, afanosamente envolvidos na tentativa de identificar os problemas culturais do país. Parece que padecemos de uma crise de valores e Miguel Real chega mesmo a apontar a descristianização da Europa como uma das causas da actual «crise de valores», foda-se, caralho, cona da tia. Se bem me lembro, um valor é uma substância simbólica que estrutura uma rede de comportamentos e por isso, se todos somos consumidores de pornografia - e como tem subido de qualidade esta bela indústria que todos devemos agradecer de joelhos e lágrimas nos olhos a Rosseau e Jesus Cristo, os seus dois criadores simbólicos - daí não advém nenhuma crise de valores mas uma metamorfose dos valores, quando muito. Se uma crise apenas difere de uma metaforse devido à nossa percepção mais evoluída da genealogia das categorias de bem e de mal, constitui um problema a que nos deviamos entregar antes de utilizar o conceito de crise. Claro que discutir problemas dinâmicos é coisa que tanto Miguel Real como as freiras têm dificuldade em fazer. Já Herman José continua a demonstrar porque é que atingiu níveis de sucesso pirinaicos sem com isso perder o auto-domínio, e conseguindo, de forma notável, com a pouca leitura que tem, furtar-se quase sempre a frases imbecis, mostrando-se rápido e observador, com um sentido crítico capaz de espremer qualquer personalidade que se apresente diante de si, com uma eficiência de fazer inveja a qualquer máquina de sumo.
******
Na mais recente adaptação cinematográfica de Shakespeare, Ralph Fiennes assina uma interessante actualização de Coriolano. O crítico de cinema Jorge Mourinha, que aplaudiu de pé «Sangue do meu Sangue», produziu uma crítica no Público em que, não dizendo mal do filme (era o que faltava) o considera mediano, referindo a dado momento, sem que se perceba o que quis insinuar, os «floreados da linguagem de Shakespeare», uma expressão vil e torpe em que, perante olhos esclarecidos, Mourinha expõe eloquentemente porque razão não faz a mínima ideia do que está a fazer. Pronto. É isto. Quem quiser saber o que se passa com Portugal, basta abrir os olhos. As evidências estão por todo o lado e julgo que ficou claramente demonstrado porque razão a estupidez se multiplica: multiplica-se porque a maioria de nós continua a fazer opções estúpidas. Agora não me peçam é que estabeleça relações causais entre os colhões de D. Afonso Henriques e a pilinha do Tony Carreira.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O sporting enquanto filosofia de via

Antes da greve geral, que de greve ou geral nada teve, vi espalhados pelo burgo cartazes de gente a anunciar que ia ocupar o parlamento, incendiar esquadras, mandar abaixo o regime. E isto era apenas o programa da manhã.

No próprio dia, tiveram um gostinho de violência, mas lá está, na desagradável posição de recebedores. Agora andam a queixar-se. Mas de quê ? Não queriam violência ? Estaremos nós a assistir à sportinguização dos movimentos radicais ?

quinta-feira, 22 de março de 2012

A realidade, o que é?

Numa daquelas coincidências borgianas, eis senão quando, após ter aqui aludido ao problema da oralidade na literatura, e recém-chegado a casa após um competitivo jogo de futebol num pavilhão periférico, onde se realizam campeonatos de lançamentos de setas, com pessoas vestidas de gravata, munidas de computador portátil ao redor de uma mesa quadrangular, dou de caras com essa mega-instituição fílmica da actualidade, intitulada Sangue do meu Sangue. Sentei-me, senti uma dor aguda emergir na região densamente musculada dos gémeos, isto na perna esquerda, abri o sexto, definitivo, e genial volume de Proust, A Fugitiva, de modo a poder refugiar-me em caso de inapelável insulto estético à minha sensibilidade, depositei o comando ao alcance da mão, e esperei.
******
Naturalmente, o filme é uma merda, o que não surpreende, uma vez que a indústria cinematográfica portuguesa é o que temos de mais semelhante a uma Igreja protestante neste nosso país de hegemonia católica. Tinha lido com atenção um entrevista de João Canijo, na altura do lançamento, e quase cai da cadeira de um autocarro da carris, quando o realizador, elaborando sobre a procura do real implícita no projecto, referiu o importante papel da filha da sua empregada, ao abrir as portas de um bairro manhoso qualquer. Note-se que o estúpido do Canijo, enquanto dissertava sobre a neo-realidade de pessoas que ai, e de pessoas que ui, não se dignou sequer a referir o nome da empregada que, no entanto, se revelou de extrema importância no processo criativo. Ora ali estava, logo o notei, um daqueles flagrantes exemplos de lamentável confusão entre a realidade e o cérebro de pessoas que, no momento em que acham que podem reproduzir a realidade, com uma ridícula convivência familiar dos actores numa casa, tentativa de imitar o calão, e outras actividades circenses, se afastam total e irremediavelmente da realidade, afundadas na sua desorientação artística, que é um nome elegante para a total ausência de experiência individual, única e perene fonte da arte, como bem viu Nietzsche, quando afirmou que os poetas são impúdicos para com as suas vivências, uma vez que as exploram. Como Canijo não sabe explorar as suas vivências - talvez porque a vida tenha sido fácil demais - decidiu explorar as vivências da sua empregada. Resultado? Uma trágica e estereótipada fotografia da realidade que João Canijo pensa ser a realidade, com todo o habitual cortejo de lugares comuns sobre o bairro social, figurão que veio substituir o bairro operário dos neo-realistas italianos. Quem já esteve num bairro social, sem ser para filmar a realidade, sabe que, em muitos e dramáticos casos, o respeito pela gramática é assinalável. Porquê ofender a arte quando se quer ofender o Estado? Se o objectivo é ofender a língua - o que é sempre uma legítima forma de mandar o Estado para o caralho - então ofenda-se directamente, e não por meio de um artíficio tosco, à semelhança do discurso jornalístico.
******
Num dos momentos mais hilariantes do filme, Canijo procura esmagar o espectador com uma sardinhada em casa da família sofredora e como eles dizem muitas asneiras, e gritam uns com os outros, Canijo acha que isso é suficiente para subir a temperatura dramática da cena. Mas as frases desconexas que são produzidas reproduzem ideias sobre as batatinhas, o azeitinho, e o tomatinho, e as qualidades de assador de carapaus da figura masculina partenal, que, alegadamente, não é pai do delinquente protagonista, caralho, e chega mesmo a decorrer uma troca de gritos por causa das dúvidas de identidade de um suposto indivíduo que terá mexido no telemóvel da filha da mãe sofredora, onde se invoca a figura de Maria Santíssima, pela enésima vez. Rita Blanco, Maria Santíssima, entre «estou fodida» e outras caralhadas, produz a dado momento a expressão «por maioria de razão», revelando o pântano onde se afunda todo aquele que resolve utilizar a linguagem, não para expressar uma ideia de autor, através de uma figura dramática (aprendam alguma coisa com Fernando Pessoa, caralho) mas para caracterizar um dado ponto na escala social.
******
Outro dos momentos hilariantes é quando, numa cena de amor, os amantes, professor e aluna, trocam versos tão canhestros, supostamente gritos surdos e reais, nascidos nas entranhas da sua real existência social, que parecem decalcados das obras completas de António Ramos Rosa, de tão maus e obscuros e mal ditos, numa confrangedora ausência de talento na sua profissão específica, que é dar forma real a um texto e não fazer de conta que estão mesmo a foder um com o outro, porque isto já temos abundantemente na internet, e de forma gratuita. Esmagado, desliguei a televisão, e fui deitar-me. Mas tive dificuldade em adormecer, pois a puta da realidade costuma aparecer-me em sonhos, envergando um manto cinzento e de olhos flamejantes, chorando lágrimas de fogo. Cada um escolhe as coisas que quer trazer na cabeça. Se o João Canijo acha que vale a pena partilhar com o seu público uma viagem ao seu jardim zoológico imaginário, e apresentá-lo a partir de uma estratificação social, desenhando os contornos da família sofredora, pejada de mediocriades, elaborações sobre a falta de higiene, implantes mamários, batatinhas e azeitinho, frases de vão de escada, delinquentes a fumar brocas e coisas do género, quem sou eu para o criticar? Não me venha é falar de realidade, Maria Santíssima, não me venha é falar de realidade.