quarta-feira, 11 de abril de 2012
Uma vénia a todos os colegas de blogue
incluindo os que não tiraram o curso no Técnico. Chegou hoje e estou em crer que tem mais páginas que o do alf. Não que o tamanho importe.
No Técnico não se dão aulas de português
E só assim se explica, que concordando eu em quase tudo com o alf, acabe a escrever exactamente o contrário. Aliás, e segundo a senhora minha esposa, eu sou um tótó no que respeita a tudo o que não involva integrais triplos e derivadas parciais. Por pontos.
Eu não odeio o Soares, antes pelo contrário. O homem é realmente um grande político, mas eu estou convencido que é só isso. O que eu achei interessante na notícia foi o próprio comando da GNR querer abafar a coisa. O que para mim significa que o militar da gnr vai em breve conhecer a fila do desemprego. Caso contrário algo vai mal nas forças policiais.
A mudança de poder só se faz, é certo, com o apoio da força. Ignorante confesso que sou da história de Portugal e do mundo em geral, digo isto sem uma pinga de ironia, aceito que cada evento tem o seu contexto. Mas isso não invalida que sem o aval dos militares nada se faz.Podemos tentar procurar os sinais de mudança em vários sítios, ou olhar para o catalizador directamente. O arroto do militar da gnr é representativo do resto da coorporação ? Não sei, mas a polícia não anda contente e já não há dinheiro para os calar como houve nos tempos do Guterres.
Próximo. Qual é a universidade do planeta Terra que incentiva nos alunos a crítica, o pensamento independente ? Sabendo que é necessário ganhar hábitos de estudo, retórica, análise e sintese antes que sejam possíveis a crítica e o pensamento livre, e que sabendo que a minha geração passeou o cú num dolce fare niete até ao 12º ano de escolaridade, é razoável esperar que a universidade portuguesa seja capaz de motivar o aluno para algo mais que não seja o safar-se com o mínimo trabalho possível ? Triste é que apenas e só chegado à universidade é que o tuga finalmente aprenda algo que mais tarde lhe permitirá ganhar o pão. Se ele quer cultivar o pensamento livre, que o faça fora das horas de expediente e quando os putos estão a dormir.
Tudo isto para dizer que amanhã vou fazer a preparação para defesa da tese doutoramento. No IS of T. Um título académico que não me diz nada. Uma resma de pouco mais de 120 páginas, que nada acrescenta ao conhecimento humano. Então porque o faço ? Não sei bem, mas em parte porque me comprometi a fazê-lo. E se um gajo não tem palavra, não tem mais nada.
Terminemos. O Sá Pinto percebeu, sem ser preciso eu lho dizer, que o Sporting este ano apenas tem equipa para jogar como se fosse um clube da 2ª B a tentar não descer. Que os adversários sejam incapazes de ver isso, é problema deles. E ganhar ao Benfas é o mais íntimo desejo de qualquer lagarto que se preze.
Eu não odeio o Soares, antes pelo contrário. O homem é realmente um grande político, mas eu estou convencido que é só isso. O que eu achei interessante na notícia foi o próprio comando da GNR querer abafar a coisa. O que para mim significa que o militar da gnr vai em breve conhecer a fila do desemprego. Caso contrário algo vai mal nas forças policiais.
A mudança de poder só se faz, é certo, com o apoio da força. Ignorante confesso que sou da história de Portugal e do mundo em geral, digo isto sem uma pinga de ironia, aceito que cada evento tem o seu contexto. Mas isso não invalida que sem o aval dos militares nada se faz.Podemos tentar procurar os sinais de mudança em vários sítios, ou olhar para o catalizador directamente. O arroto do militar da gnr é representativo do resto da coorporação ? Não sei, mas a polícia não anda contente e já não há dinheiro para os calar como houve nos tempos do Guterres.
Próximo. Qual é a universidade do planeta Terra que incentiva nos alunos a crítica, o pensamento independente ? Sabendo que é necessário ganhar hábitos de estudo, retórica, análise e sintese antes que sejam possíveis a crítica e o pensamento livre, e que sabendo que a minha geração passeou o cú num dolce fare niete até ao 12º ano de escolaridade, é razoável esperar que a universidade portuguesa seja capaz de motivar o aluno para algo mais que não seja o safar-se com o mínimo trabalho possível ? Triste é que apenas e só chegado à universidade é que o tuga finalmente aprenda algo que mais tarde lhe permitirá ganhar o pão. Se ele quer cultivar o pensamento livre, que o faça fora das horas de expediente e quando os putos estão a dormir.
Tudo isto para dizer que amanhã vou fazer a preparação para defesa da tese doutoramento. No IS of T. Um título académico que não me diz nada. Uma resma de pouco mais de 120 páginas, que nada acrescenta ao conhecimento humano. Então porque o faço ? Não sei bem, mas em parte porque me comprometi a fazê-lo. E se um gajo não tem palavra, não tem mais nada.
Terminemos. O Sá Pinto percebeu, sem ser preciso eu lho dizer, que o Sporting este ano apenas tem equipa para jogar como se fosse um clube da 2ª B a tentar não descer. Que os adversários sejam incapazes de ver isso, é problema deles. E ganhar ao Benfas é o mais íntimo desejo de qualquer lagarto que se preze.
Dedicado a todos aqueles que roubam o Estado, em particular (e os portugueses em geral) para comprar livros aos ingleses.
Partilho-o com uma justa e sincera vénia a todos os antigos alunos do Instituto Superior Técnico e companheiros de blogue.
e mesmo para acabar
Tens razão alf: o técnico é uma merda, assim como o sporting. Mas digo-te que valeu a pena andar lá (so assim terias aqui o ngoncalves, o maior seguidor de salazar mesmo antes dele existir) e que ganhar ao benfica, mesmo que fiquemos em ultimo lugar, enche-me os dias. São estas coisas que levamos daqui. E acho que tu sabes isso muito bem.
A fnac, naturalmente, não diligencia os prodigiosos títulos que aqui apresento.
Uma das gigantescas vantagens do leitor deste blogue é poder contemplar como os seus membros, de quando em vez, se engalfinham em polémicas absolutamente estéreis. A esterilidade polémica é, aliás, talvez a grande marca distintiva entre o homem e mundo dito animal, uma vez que o uso da linguagem, com maior ou menor destreza, está longe de ser um privilégio dos humanos. Como os jornalistas não fazem o seu trabalho, tenho de ser eu e o ngonçalves a garantir a discussão cabal dos problemas que nos afligem, quer como comunidade científica, quer como República de Cidadãos. Aproveito o mal entendido sobre livros gamados na Fnac, e pedindo desde já, desculpa pelos excessos (e mandando Sá Pinto para o caralho) passo então a polemizar.
1. A primeira prova manifesta da ignorância congénita aos licenciados pelo Instituto Superior Técnico é o seu sentido corporativo e o orgulho escondido que transportam por terem obtido uma licença, com o intuito de serem remunerados por vários desempenhos práticos e teóricos, à custa do sacrifício de um desenvolvimento integral da sua inteligência. Quem conhece um pouco dos exercícios abstractos a que são submetidos os licenciados pelo Técnico, compreende como os exercitados teriam que optar por uma de três soluções: ou o ressentimento contra a torturante falta de tempo para disfrutar da entrada na vida munidos de uma visão dos problemas orientada por extensos conhecimentos disciplinares (por exemplo, Biologia, História, Economia); ou a dignificação da vida prática e da utilização «real» dos seus conhecimentos em trabalhos «criadores de riqueza»; ou a defesa intransigente da especulação tecnológica ao serviço do «progresso» (risos, risos, risos) e da automação da vida humana (risos, risos, risos), e tudo isto envolvido no cabal respeito pela vetusta instituição onde foram manifestamente infelizes, o que só serve para apimentar a relação afectuosa que mantém, pela vida fora, com a referida instituição. Quando mais me bates, mais gosto de ti, diz Nelo Monteiro num album de 1987. Com efeito, já dizia o velho Kant que a introspecção é um ladeira que custa a subir e é sempre mais fácil dar largas à furiosa imaginação e pegar em armas contra um inimigo que nos permite saber quem somos. Julgo que não será necesário elaborar mais sobre este ponto.
2. É impressão minha ou foi feita aqui uma insinuação sobre a forma como obtenho os livros com que enriqueço a minha prodigiosa inteligência e a de todos aqueles (incluindo os licenciados pelo Instituto Superior Técnico) que têm a sorte de acompanhar (a título totalmente gracioso, numa inacreditavelmente eficiente manifestação de serviço público) a elegância do meu frasear? Em primeiro lugar, devo dizer que multiplicando por mil os livros que generosamente aqui desfilam, dificilmente o resultado escatológico dessa simples operação aritmética ultrapassaria o resultado da soma dos custos de uma hora de brincadeira científica na referida instituição de ensino técnico. Claro que é muito difícil combater os poderosos efeitos retórico-argumentativos do conceito de utilidade (como vêm, eu escolho inimigos poderosos), conceito que, curiosamente, foi forjado por pessoas que tinham tempo para pensar. A trajectória dedutiva que valoriza um tipo de trabalho publicamente pago, em relação a outros tipos de trabalho publicamente pagos, é sintomática da falta de tempo que as pessoas dedicam à introspeção da sua interferência como sujeitos de conhecimento no mundo real, tão convencidas que foram, pelas instituições que deram forma aos seus intrumentos cognitivos, da natureza linear das relações entre os custos públicos, a estrutura fiscal, e o papel reprodutivo da riqueza no agregado de vidas humanas que constitui uma comunidade política. Para desmontar esta insistente falta de clarividência, seria necessário efetuar um trabalho crítico sobre o conceito de progresso (e deixar de assumir a bolorenta enciclopédia de Diderot e D'Alembert – dois pacóvios tão fascinados pela tecnologia de produção de alfinetes como os hodiernos parolos fascinados pelas realizações de um braço robotizado – como um credo definidor das relações humanas, das leis da economia e dos critérios de justiça da república).
3. Logicamente, a relação entre a queda da monarquia e a utilização de armas por professores primários e empregados do comércio, tal como a estafada relação entre a saloiada militar montada em tanques de guerra e a deprimente combustão do regime mais parolo que vigorou em toda a Europa Ocidental, liderado por um camponês licenciado pela Universidade de Coimbra (outra produtora de ignorantes sem paralelo acima da linha do Equador) é problemática, difícil, e pouco consistente com as abundantes evidências que qualquer pessoa, com tempo e paga pelo Estado, se dê ao trabalho de recolher; factos como a evolução da distribuição monetária e o crescimento demográfico, o índice de livros importados, a descida da mortalidade infantil, o crescimento da descrença nos sacedortes, tudo coisas bastante mais significativas na alteração dos sistemas políticos do que a utilização, alegórica ou não, das armas. Tal como é muito difícil convencer o ignorante das leis da física e das deduções astronómicas, de que é a terra que se move em torno do sol e não o contrário, é muito difícil convencer o ignorante das ciências sociais de que uma arma tem um efeito alargado bastante menos poderoso do que os artifícios da linguagem ou a estrutura do parentesco. Bastaria estudar um pouquinho de lógica formal com os herdeiros de Newton, em Cambridge, e não com os burros dos Professores do Instituo Superior Técnico, para apreender os problemas relacionados com a denotação das preposições que levam à crença num dado fenómeno, e que a relação entre as séries de palavras e os factos que tornam as palavras verdadeiras, implica um trabalho profundo sobre a nossa interferência enquando operadores da lógica. A título de exmplo, gostaria de saber em que país do mundo, e em que momento das séries temporais que nos antecederam, é que o sistema político muda aparentemente, e sublinho aparentemente, sem ser pela força da armas? As razões que levam as armas a emergir é que diferem minuciosamente, e é por sabermos tão pouco sobre isso que continuamos a investir em cursos superiores técnicos (e não vou especular sobre o financiamento da ciência e a guerra porque me cheira a esquerdalho) convencidos de que resolveremos os problemas, enquanto nos afundamos alegremente, conduzidos pelos Antónios Guterres deste mundo, uma pessoa que, alegadamente, terminou o Instituto Superior Técnico com a esplendorosa média de 18 (dezoito) valores. Quanto a Mário Soares, continuo a não perceber o ódio colectivo ao maior político do século XX (exceptuando o ódio movido pelos retornados, onde a experiência de convivência com o meu retornado avô, ao contrário do meu retornado pai, serviu para desmontar, em silêncio, para não me arriscar a levar um tiro, toda a maquinaria de ressentimento contra o descolonizador-mor, um homem a quem estou eternamente grato pelo facto de me ter salvo de um nascimento em África).
4. Agora passemos ao que verdadeiramente interessa e à clarificação da única coisa que verdadeiramente me irrita. Não seria necessário colocar Torres ou Nené (não cheguei a tempo de ver jogar nenhum deles) mas simplesmente tirar Cardozo do campo. Em Londres, quando Cardozo saiu, o Benfica passou a jogar o dobro e se Jesus saisse do banco, passaria a jogar o triplo. No entanto, constato com grande prazer que, mais uma vez, o Sporting se afunda a caminho da extinção, comemorando, não já o segundo lugar à frente do Benfica, mas o quarto (ou quinto) lugar atrás do Benfica, desde que pelo meio apareça uma qualquer vitória alcançada com os joelhos condoídos de Rui Patrício, as dores de Xandão, a fina educação de João Pereira, e a inestimável certidão de nascimento de Artur Soares Dias, produzida,entre champanhe e aplausos, há já algumas décadas, no Distrito do Porto. E já agora, o Sá Pinto que vá para o caralho.
1. A primeira prova manifesta da ignorância congénita aos licenciados pelo Instituto Superior Técnico é o seu sentido corporativo e o orgulho escondido que transportam por terem obtido uma licença, com o intuito de serem remunerados por vários desempenhos práticos e teóricos, à custa do sacrifício de um desenvolvimento integral da sua inteligência. Quem conhece um pouco dos exercícios abstractos a que são submetidos os licenciados pelo Técnico, compreende como os exercitados teriam que optar por uma de três soluções: ou o ressentimento contra a torturante falta de tempo para disfrutar da entrada na vida munidos de uma visão dos problemas orientada por extensos conhecimentos disciplinares (por exemplo, Biologia, História, Economia); ou a dignificação da vida prática e da utilização «real» dos seus conhecimentos em trabalhos «criadores de riqueza»; ou a defesa intransigente da especulação tecnológica ao serviço do «progresso» (risos, risos, risos) e da automação da vida humana (risos, risos, risos), e tudo isto envolvido no cabal respeito pela vetusta instituição onde foram manifestamente infelizes, o que só serve para apimentar a relação afectuosa que mantém, pela vida fora, com a referida instituição. Quando mais me bates, mais gosto de ti, diz Nelo Monteiro num album de 1987. Com efeito, já dizia o velho Kant que a introspecção é um ladeira que custa a subir e é sempre mais fácil dar largas à furiosa imaginação e pegar em armas contra um inimigo que nos permite saber quem somos. Julgo que não será necesário elaborar mais sobre este ponto.
2. É impressão minha ou foi feita aqui uma insinuação sobre a forma como obtenho os livros com que enriqueço a minha prodigiosa inteligência e a de todos aqueles (incluindo os licenciados pelo Instituto Superior Técnico) que têm a sorte de acompanhar (a título totalmente gracioso, numa inacreditavelmente eficiente manifestação de serviço público) a elegância do meu frasear? Em primeiro lugar, devo dizer que multiplicando por mil os livros que generosamente aqui desfilam, dificilmente o resultado escatológico dessa simples operação aritmética ultrapassaria o resultado da soma dos custos de uma hora de brincadeira científica na referida instituição de ensino técnico. Claro que é muito difícil combater os poderosos efeitos retórico-argumentativos do conceito de utilidade (como vêm, eu escolho inimigos poderosos), conceito que, curiosamente, foi forjado por pessoas que tinham tempo para pensar. A trajectória dedutiva que valoriza um tipo de trabalho publicamente pago, em relação a outros tipos de trabalho publicamente pagos, é sintomática da falta de tempo que as pessoas dedicam à introspeção da sua interferência como sujeitos de conhecimento no mundo real, tão convencidas que foram, pelas instituições que deram forma aos seus intrumentos cognitivos, da natureza linear das relações entre os custos públicos, a estrutura fiscal, e o papel reprodutivo da riqueza no agregado de vidas humanas que constitui uma comunidade política. Para desmontar esta insistente falta de clarividência, seria necessário efetuar um trabalho crítico sobre o conceito de progresso (e deixar de assumir a bolorenta enciclopédia de Diderot e D'Alembert – dois pacóvios tão fascinados pela tecnologia de produção de alfinetes como os hodiernos parolos fascinados pelas realizações de um braço robotizado – como um credo definidor das relações humanas, das leis da economia e dos critérios de justiça da república).
3. Logicamente, a relação entre a queda da monarquia e a utilização de armas por professores primários e empregados do comércio, tal como a estafada relação entre a saloiada militar montada em tanques de guerra e a deprimente combustão do regime mais parolo que vigorou em toda a Europa Ocidental, liderado por um camponês licenciado pela Universidade de Coimbra (outra produtora de ignorantes sem paralelo acima da linha do Equador) é problemática, difícil, e pouco consistente com as abundantes evidências que qualquer pessoa, com tempo e paga pelo Estado, se dê ao trabalho de recolher; factos como a evolução da distribuição monetária e o crescimento demográfico, o índice de livros importados, a descida da mortalidade infantil, o crescimento da descrença nos sacedortes, tudo coisas bastante mais significativas na alteração dos sistemas políticos do que a utilização, alegórica ou não, das armas. Tal como é muito difícil convencer o ignorante das leis da física e das deduções astronómicas, de que é a terra que se move em torno do sol e não o contrário, é muito difícil convencer o ignorante das ciências sociais de que uma arma tem um efeito alargado bastante menos poderoso do que os artifícios da linguagem ou a estrutura do parentesco. Bastaria estudar um pouquinho de lógica formal com os herdeiros de Newton, em Cambridge, e não com os burros dos Professores do Instituo Superior Técnico, para apreender os problemas relacionados com a denotação das preposições que levam à crença num dado fenómeno, e que a relação entre as séries de palavras e os factos que tornam as palavras verdadeiras, implica um trabalho profundo sobre a nossa interferência enquando operadores da lógica. A título de exmplo, gostaria de saber em que país do mundo, e em que momento das séries temporais que nos antecederam, é que o sistema político muda aparentemente, e sublinho aparentemente, sem ser pela força da armas? As razões que levam as armas a emergir é que diferem minuciosamente, e é por sabermos tão pouco sobre isso que continuamos a investir em cursos superiores técnicos (e não vou especular sobre o financiamento da ciência e a guerra porque me cheira a esquerdalho) convencidos de que resolveremos os problemas, enquanto nos afundamos alegremente, conduzidos pelos Antónios Guterres deste mundo, uma pessoa que, alegadamente, terminou o Instituto Superior Técnico com a esplendorosa média de 18 (dezoito) valores. Quanto a Mário Soares, continuo a não perceber o ódio colectivo ao maior político do século XX (exceptuando o ódio movido pelos retornados, onde a experiência de convivência com o meu retornado avô, ao contrário do meu retornado pai, serviu para desmontar, em silêncio, para não me arriscar a levar um tiro, toda a maquinaria de ressentimento contra o descolonizador-mor, um homem a quem estou eternamente grato pelo facto de me ter salvo de um nascimento em África).
4. Agora passemos ao que verdadeiramente interessa e à clarificação da única coisa que verdadeiramente me irrita. Não seria necessário colocar Torres ou Nené (não cheguei a tempo de ver jogar nenhum deles) mas simplesmente tirar Cardozo do campo. Em Londres, quando Cardozo saiu, o Benfica passou a jogar o dobro e se Jesus saisse do banco, passaria a jogar o triplo. No entanto, constato com grande prazer que, mais uma vez, o Sporting se afunda a caminho da extinção, comemorando, não já o segundo lugar à frente do Benfica, mas o quarto (ou quinto) lugar atrás do Benfica, desde que pelo meio apareça uma qualquer vitória alcançada com os joelhos condoídos de Rui Patrício, as dores de Xandão, a fina educação de João Pereira, e a inestimável certidão de nascimento de Artur Soares Dias, produzida,entre champanhe e aplausos, há já algumas décadas, no Distrito do Porto. E já agora, o Sá Pinto que vá para o caralho.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Efeitos prácticos da crise (II)
No prédio, os sacos do lixo antes eram grandes, verdes ou negros, próprios para o lixo. Agora são os da compra no mini-preço. Continuo a ser eu a ir pôr o caixote na rua, que certos hábitos são imunes à crise.
Efeitos prácticos da crise
As alternadeiras do Elefante Branco, que antes chegavam de táxi e nunca antes da meia-noite, agora ainda não onze e é vê-las a pé, de salto alto pela calçada acima. Bons motivos para ficar à janela de noite.
E mete quem ? O Néné ? O Torres ?
Tudo perguntas pertinentes, mas não é isso que me traz aqui hoje. Sucede que um militar da gnr lamentou-se de ter gasto 30 peças de chumbo na carreira de tiro, que segundo ele eram mais bem empregues no Mário Soares.
Chamo a atenção para a vontade do comando da GNR em deixar o assunto morrer. Tão certo como o Djaló não marcar um golo nas 4 épocas que lhe restam de contracto, amanhã vão-se descobrir no carro do dito gnr, 30 Kg de coca na mala, 5 mil pastilhas de ecstasy no pneu sobressalente e provas irrefutáveis de participação no atentado ao Sá Carneiro no compartimento das luvas.
Que eu saiba, e a ignorância própria de quem nasceu antes de 1980 e se formou no Instituto Superior Técnico não permite saber muito, nunca em Portugal o poder mudou sem ter as costas quentes pelas armas. Um gnr não faz a revolução, longe disso, mas todas as gotas ajudam. Basta lembrar que bastou o Buiça ter tiro certeiro para a monarquia cair. E ao Estado Novo bastou o odor das g3's oleadas pelo uso em África.
Agobia-me sim, não saber o virá depois e saber as vergonhas que se vão cometer durante. Mas isso são outras conversas. Esperemos que o Sá Pinto não vá para o caralho, e que a crítica literária feita neste blogue seja à custa de livros gamados na Fnac.
Chamo a atenção para a vontade do comando da GNR em deixar o assunto morrer. Tão certo como o Djaló não marcar um golo nas 4 épocas que lhe restam de contracto, amanhã vão-se descobrir no carro do dito gnr, 30 Kg de coca na mala, 5 mil pastilhas de ecstasy no pneu sobressalente e provas irrefutáveis de participação no atentado ao Sá Carneiro no compartimento das luvas.
Que eu saiba, e a ignorância própria de quem nasceu antes de 1980 e se formou no Instituto Superior Técnico não permite saber muito, nunca em Portugal o poder mudou sem ter as costas quentes pelas armas. Um gnr não faz a revolução, longe disso, mas todas as gotas ajudam. Basta lembrar que bastou o Buiça ter tiro certeiro para a monarquia cair. E ao Estado Novo bastou o odor das g3's oleadas pelo uso em África.
Agobia-me sim, não saber o virá depois e saber as vergonhas que se vão cometer durante. Mas isso são outras conversas. Esperemos que o Sá Pinto não vá para o caralho, e que a crítica literária feita neste blogue seja à custa de livros gamados na Fnac.
Tira o Cardozo, caralho.
1. Bastaram vinte páginas de O teu rosto será o último para ficarmos totalmente esclarecidos sobre o que vale e valerá João Ricardo Pedro. (Todos sabem como amo profundamente Lamarck e a previsibilidade). Sendo João Ricardo Pedro um engenheiro electrotécnico, muito naturalmente, o seu domínio dos polinómios, funções quadráticas e cálculo diferencial não permitiria que, enquanto autor, se enterrasse no deprimente lodo «consciencialista» da sua própria consciência, efeito psico-literário que responde pelo imperfeito e confuso nome de «eu». Este recorrente impressão em livro da torrente de pensamentos que devemos guardar para o chuveiro e a retrete, representa uma maldição que entrou na literatura portuguesa pela mão do falhado António Lobo Antunes e desde então tem medrado em mil formas de adaptação reversiva aos mais estranhos e bizarros ambientes mentais, desde cabeleireiras de Massamá até homossexuais de Vila do Conde. No entanto, com toda a ignorância historiográfica e biologista que caracteriza os licenciados pelo Instituto Superior Técnico, sobretudo nascidos antes de 1980 (época em que aqueles trinta prodigiosos minutos de contexto cultural das cidades europeias presentes nos jogos sem fronteiras vieram colmatar o apagamento das ciências sociais) João Ricardo Pedro, embora imune às pessegadas do «eu», está convencido de que a intriga policial é «o» mecanismo literário capaz de prender a atenção das pessoas, e abrir de par em par, ao mestre narrador de crimes, violências e outras porcarias dignas do mais sabujo canal de televisão brasileiro, as portas da tranquilidade financeira, humilde objectivo que, aparentemente, a sua esforçada licenciatura pelo Instituto Superior Técnico, pelos vistos, parece não ter sido capaz de alcançar, assunto que, isto sim, daria tema a um grande romance em língua portuguesa. O Sá Pinto que vá para o caralho.
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2. Infelizmente, João Ricardo Pedro está entalado entre a abstração matemática da natureza e a cortante foice comunista, e os seus olhos pertencem ao numeroso rebanho que continua a ver no regime de Salazar nao só uma proveitosa fonte de rendimentos como a origem de todos os males da pátria, arriscando até, valha-nos Nosso Senhor Jesus Cristo, uma visão histórica do problema, mas partindo de uma análise cuja distribuição de frequência das observações não os leva a questionar se: a) não lhes fará falta recuar um pouco nos seus conhecimentos de História de Portugal; b) não seria melhor escolher um problema menos gasto como, por exemplo, a hercúlea força da ignorância nos escritores de romances em português quando comparados com os seus congéneres ingleses e norte-americanos, para não falar nos italianos onde a figura que fazemos é lamentável. Ora, António de Oliveira Salazar, esse saloio que nem como seminarista teve sucesso, foi apenas um pobre tolo que coroou a evolução previsível de um país ignorante até à medula, estupidamente inculto, bruto e pouco versado na crítica intelectual. O Sá Pinto que vá para o caralho.
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3. No meio do livro, O teu rosto será o último (mas o problema é que os livros de merda não têm fim), surgem alusões eruditas à música burguesa, e João Ricardo Pedro, na sua entrevista ao Expresso, arriscou mesmo comparações com os andamentos das sonatas de Mozart ou Bethoveen (não me lembro agora, porque estou a mandar o Sá Pinto para o caralho) lidas através das interpretações de um burguês de óculos que ainda há pouco esteve na Gulbenkian a ensinar o sentido oculto da arte musical. Com efeito, é sintomático que esta gente nascida da desorientação comunista, totalmente inculta, e formada à pressa na quase-literatura com o quase-grande autor José Cardoso Pires (um tipo que falhou totalmente precisamente por estar convencido de que a intriga policial e a actualidade política eram importantes) continua a navegar neste ressentimento bélico contra um inimigo que está completa e irrecuperavelmente morto. Se João Ricardo Pedro tivesse lido este blogue (o que o teria salvo da figura que anda a fazer) ou assistido, por exemplo, ao Coriolanus de Shakespeare, entenderia que os nossos inimigos são do tamanho da nossa mente (daí que Salazar só poderia, por exemplo, ser inimigo do meu dedo mindinho do pé esquerdo) e que a principal linha de contraste com o o nosso mais perigoso adversário se traça precisamente com o sangue do nosso desespero em não sabermos quem somos, e isto é tão evidente que até o Sá Pinto, e os aristocratas de Alvalade, o sabem, e por isso se consomem até às lágrimas de fúria no confronto com o Benfica.
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4. Na verdade, João Ricardo Pedro tem algum talento, é justo dizê-lo, e poderia até tornar-se num autor digno de leitura se não tivesse falhado como Engenheiro Electrotécnico. Este mergulho na historiografia do desemprego é um caminho demasiado trilhado por autores brilhantes que não esperaram por falhar como engenheiros electrotécnicos para se aventurarem na escrita de livros. Faltam a João Ricardo Pedro, naturalmente, milhões de páginas de leitura, o que é inteiramente justificado pela falta de tempo para a literartura manifestada nos seus anteriores 37 anos. Mesmo que comece agora, a uma média de 50 ou 70 páginas por dia (o que não é fácil) teria que parar de escrever durante 6 ou 7 anos para assimilar o número de vozes que lhe permitissem criar uma paleta de ecos no interior da sua cabeça que, depois, lhe permitiriam, maravilhosamente, trabalhar com raiva, e em silêncio, até abandonar o mais pequeno vestígio da sua «voz própria».
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5. Termino com esta questão da «voz própria», dando largas à minha generosidade e avisando os aspirantes a «João Ricardo Pedro» que o caminho directo para a fama literária (não para ganhar o prémio Leya, bem entendido, embora uma coisa não exclua necessariamente a outra) está precisamente em conseguir não ter uma «voz própria», o Sagrado Coração de Maria nos proteja de noite e de dia. Aquilo que reconhecemos como marca distintiva dos grandes escritores é uma total concentração técnica no exercício de utilização do alfabeto e das regras da gramática para expressar intenções e formas através de conteúdos finos e rigorosos. A estreita ligação entre o que se diz e a forma como se diz constitutiu a aparência de voz própria de todos os «grandes» mas esse efeito é apenas uma imagem, repercutida nas mentes mais pobres, de uma total ausência de personalidade que fica no texto de todo o grande escritor, pois só uma inteligência prodigiosa consegue desaparecer sob o estrondo da sua própria combustão para dar lugar às milhares de vozes que povoam a sua cabeça, ficando a obra tecida pelo que é comum a todos esses ecos (o cérebro invisível do autor), no fundo, as ligações e associações metafóricas que fazem sentido numa mente prodigiosamente culta mas que são fruto da concentração e do conhecimento profundo de muitos outros autores, e podem aprender-se e passar até de escritor para escritor. Ovídio está limpinho em Shakesperare, como Shakespeare está limpinho em Melville, como Melville está limpinho em Joyce. Numa próxima oportunidade explicarei porque razão este rede de infinitesimal pormenor e força indestrutível não resulta da originalidade, mas sim da potência intelectual. Em todo o caso, o Sá Pinto que vá para o caralho.
sábado, 31 de março de 2012
Realidade (3)
O rapaz que me leva onde preciso ir, aqui onde me encontro, contou-me que o presidente (dono do pais, palavras dele) tem centenas de casas. Acabou a suspirar que queria apenas um quarto, enquanto se desviava do carro em contra mão. Aqui o BPN é brincadeira.
quinta-feira, 29 de março de 2012
A escola é quem mais ordena

Nada me repugna mais do que a velha e batida técnica de vendas, muito utilizada por Charles Dickens, que consiste, precisamente, em enredar uma dada informação na promessa de que a próxima informação, essa sim, será digna da atenção do leitor e revelará, final e consistentemente, ao que vem o autor de uma referida técnica de vendas. Este recurso desaba preocupantemente para a tautologia, e transforma-se, em 99% dos casos, numa recurva vigarice. Acontece que sou forçadoa fazê-lo, tendo em conta as incontroláveis forças da actualidade. Na verdade, toda a minha iminente obra tem como objectivo, e corolário, não uma entrada para os programas currículares do ensino da língua portuguesa, questão que parece ser o ponto de honra das várias agremiações universitárias e associações portuguesas de autores de expressão escrita, mas sim uma demolição total e consistente de todas as instituições convencionais de embrutecimento, mais conhecidas por escolas.
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Como está careca de saber qualquer pessoa que ultrapassou a fase incial de utilização programática e cibernética do seu sistema nervoso central, a escola é uma merda, e a esmagadora maioria dos professores, apesar da sua nobre e vertical função no sistema constitucional democrático, não passa de um conjunto de pessoas engolida pela sua própria confusão intelectual, totalmente incapaz de domar o problema do conhecimento, que se vê, à semelhança dos sacerdotes, de quem derivam, forçados a um calvário torturante da sua própria existência, que depois resulta em todas aquelas conhecidas jeremiadas sobre a sua importância como educadores e cimento das sociedades do conhecimento. É aliás curioso que não se perceba - e este é o meu comentário à greve geral - que a polícia, quando comparada com a violência institucional de um professor numa sala de aula, é apenas uma pequena e ridícula amostra dos verdadeiros mecanismos que sustentam a suposta violência do capitalismo e da sociedade burguesa.
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Daí que seja curioso verificar (e nisto estou tão distante deste post como de todos os escolásticos) que os críticos do recém e ridiculamente aprovado exame da 4ª classe não tenham suficiente coragem intelectual para levar o exercício de raciocínio até às suas consequências lógicas, concluindo que se os exames e a percentagem de chumbos dos jovens até aos 15 anos é um autêntico genocídio de potência intelectual, o desempenho dos professores no interior dessa mega casa de correçcão e suprema fraude intelectual chamada escola, é uma das mais repugnantes aplicações de energia humana de toda a história da humanidade. A única coisa que não se faz na escola é aprender e a única actividade que é violentamente censurada é a aquisição de conhecimento crítico. De outro modo, como seria possível manter hierarquizada a relação professor-aluno ou como seria possível sustentar uma rede indeferenciada de pensamento que agremia pessoas do ponto de vista das disciplinas do saber? Disciplinas? Avaliação? Professor? Professor de quê ou de quem? É precisamente porque o conhecimento se generalizou e democratizou que a escola se vê obrigada a utilizar todos os meios terroristas de que dispõe para continuar a fingir que responde à necessidade de conhecimento. Apenas as diferentes velocidades de hominização e as regressões primatológicas explicam que haja pessoas, tais como o Nuno Crato, convencidas de que a televisão e as «tecnologias da informação» são compatíveis com a escola e seus métodos medievais de certificação da ignorância generalizada.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Doce morte, irmã do sono.
Um dia ainda hei-de explicar porque razão é perfeitamente natural e correcto que a literatura se tenha metamorfoseado em merdas como esta. Como qualquer mecanismo selectivo, a comunicação escrita tem vindo a perder parte do seu impacto distintivo com o facto da maioria dos animais em competição ter aprendido a tornar-se «escritor». Imediatamente, a institucionalização do disposivitivo autor começou a perder a sua funcionalidade, e depois de um período de ouro, entre finais do século XVIII e meados do século XX, digamos, entre Swift e Virginia Woolf, em que o autor se confundiu com a distinção, neste momento, parece estar a processar-se, com a redução do custo de produção dos meios de comunicação, um fenómeno de aceleração da banalização da autoria, e já não faltará muito para que apareçam anúncios no jornal a pedir candidatos desesperados para desempenharem o papel de autores em literatura.
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Claro que a relação entre a qualidade da maioria dos jogadores e os jogadores de top é muito complexa, e tal como a idolatria de Cristiano Ronaldo é directamente proporcional aos milhões de crianças que jogam futebol em todo o mundo, também na escrita foi precisamente a massificação do autor que começou a tornar o escritor numa vedeta. Porém, tal como na maravilhosa vida orgânica, em qualquer nascimento, estão já presentes as sementes da destruição, razão porque Horácio dizia, com propriedade, que há lágrimas na Natureza e uma profunda tristeza no âmago das coisas. Como a função autoral nasceu como experiência particular e exercício de autoridade, ou de técnica específica no domínio do expressão escrita, não vejo como se integrará um desejo de individualização («a voz própria» de que mistico-gasosamente falam os autores que nada têm para dizer e por isso precisam de voz própria) com o movmento centrífugo da indústria de massas.
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Todas as fracturas, em torno da oralidade na escrita e da cristalização de modos abjectos, ordinários e democráticos de discurso, que aqui temos abordado, não é mais do que a confusão entre autores que querem ser eles próprios mas que não deixam de querer chegar ao maior número possível, à puta universal a que se chama de forma elegante, um clássico. Porém, o que este autores de merda desconhecem é que o clássico, é precisamente o que contraria o universal do seu tempo (penso que era isto que queria dizer quando me referia ao génio maldito) e por isso se torna referência crítica para o futuro. A sisudez com que qualquer autor auto-consciente enfrenta o processo de «publicação» da sua obra é a mais clara manifestação deste problema, de Melville a Pessoa, passando por Joyce e Proust ou se quiserem Calvino e apostaria o olho restante de Camões em como qualquer escritor fértil e inteligente a quem fosse dada a possibilidade de subsistir, sem se preocupar com bens de primeira necessidade, fornecendo-lhe uma renda digna, não publicaria uma palavra mas deixaria, arrumadinhos e atados com um cordel, em cima de uma magnífica mesa de trabalho, todos os seus manuscritos, prontos para enfrentarem o único e verdadeiro tribunal dos discursos humanos, aquele que é constituído pelas diferentes gerações de escritores brilhantes, ao longo dos séculos.
terça-feira, 27 de março de 2012
Realidade (2)
Um papel impresso tem mais valor que mostrado no ecrã do computador. Que o diga o segurança onde estou.
Realidade (1)
Por falar em realidade, ontem vi aqui três crianças no meio do lixo. Pareciam felizes.
Cada jornalista vergastado representa um bem inestimável.

Sou mais uma vez forçado, contra minha vontade, a derramar uma explicação cabal da estupidez que graça no país. Mas antes de mais, atiremos pela janela o argumento antero-queirosiano, isto é, deitemos fora o argumento da decadência geográfico-social. Já ninguém suporta o parasita do Eça de Queiroz (de luneta e cabelo oleoso a mendigar secretarias para, numa invejável posição a que quase mais ninguém em Portugal depois dele teve acesso, numa tão grande proporção de talento e tempo, desperdiçar essa oportunidade com uma produção gigantesca onde apenas se salva um obra prima «A Ilustre Casa de Ramires», uma obra assim-assim «Os Maias», um grande livro «A Relíquia», e o principal monumento em prosa portuguesa «os textos jornalísticos», a que estupidamente chamaram Cartas de Londres e de Paris, para os esvaziarem da sua dimensão política), sim, repito, já ninguém suporta Eça de Queiroz, uma espécie de antepassado da parva da Maria Filomena Mónica, apenas dela divergindo no talento, porque a reprodução das relações com os livros estava naquela época muito mais liberta da influência da reprodução das relações com a distinção social, sendo, desse modo, largamente possível que uma pessoa genial tivesse acesso aos meios de comunicação, pois os labregos, os inúteis e abjectos, filhos da classe alta, e da classe média alta, estavam todos entretidos com tarefas ainda consideradas nobres, tais como a política, o exército e a agricultura. Na verdade, não existe entre nós nenhum processo de decadência: existe apenas a tranquila e gloriosa continuação secular de um território político-jurídico formado com o patrocínio moral da Igreja Romana (só podia dar merda) encaixado numa faixa atlântica que pratica uma economia de subsistência pouco especializada, com condições climáticas favoráveis, e poucos e maus meios de comunicação (uma tragédia a que somos alheios - dada a nossa pouca responsabilidade no alinhamento das cordilheiras, rede hidrográfica e depressões - e que veio a desembocar nas tão famosas auto-estradas).
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Portugal é uma formulação histórica que corresponde a movimentos tão complexos que dificilmente conseguimos saber do que falamos quando falamos de Portugal, à semelhança de qualquer comunidade nacional, e daí parte da crise de coordenação entre a produção de instrumentos técnicos, de proveniência muito variada), e os sistemas de negociação de direitos de propriedade (definidos pelas antigas fronteiras políticas, constituições, rede de tribunais, escolas). A confiança que depositamos na nossa capacidade de afectar a escolha colectiva, quando essa escolha há muito depende de forças que ainda não compreendemos bem, é da mesma natureza da criança que acha que por efectuar uma determinada acção vai obter, em qualquer caso, o objecto do seu desejo, sem se preocupar com eventuais problemas de causalidade. Eu, que detesto particularmente toda a obra de Wittgenstein, lembro que o austríaco demonstrou logico-formalmente que a causalidade é uma superstição, e que não existe nenhuma necessidade demonstrável na sucessão de acontecimentos. Ora, isto devia ser suficiente para calar de uma vez por todas, pessoas que estando lunaticamente convencidas de que são o Alexandre Herculano, como o Miguel Real, se referem à fortíssima classe média no tempo dos decobrimentos (foda-se, caralho, cona da tia) ou do ímpeto vital no tempo do ouro de D. João V (foda-se, foda-se, fodaaaaaaaa-se). Não existe sequer a mais pequena ideia de como se estrutura a monetarização de um espaço político, muito menos das consequências do alargamento da utilização da moeda nas relações de troca, ou das consequências de alterações da política monetária da Coroa, por exemplo, nos planos de divisibilidade e quantidade da moeda em circulação, que o ouro do Brasil introduziu, quanto mais qualquer tipo de percepção das relações entre os efeitos de um metal precioso e a estratificação social. Claro que estas pessoas não têm um mínimo de vergonha nas hediondas faces, e à semelhança dos sacerdotes, fazem do sermão a sua actividade especializada, baseando-se numa olímpica ignorância da realidade e num desconhecimento ciclópico da produção escrita sobre os assuntos que, sem qualquer sombra de dignidade ou respeito por quem lê, comentam despudoradamente.
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Ontem, tive o azar de, na esperança de ver novamente a repetição do fabuloso golo de David Simão, marcado em Braga ao serviço da Associação Académica de Coimbra, me deparar com Miguel Real, Nilton, Herman José, uma freira, e um analfabeto a que chamavam professor, afanosamente envolvidos na tentativa de identificar os problemas culturais do país. Parece que padecemos de uma crise de valores e Miguel Real chega mesmo a apontar a descristianização da Europa como uma das causas da actual «crise de valores», foda-se, caralho, cona da tia. Se bem me lembro, um valor é uma substância simbólica que estrutura uma rede de comportamentos e por isso, se todos somos consumidores de pornografia - e como tem subido de qualidade esta bela indústria que todos devemos agradecer de joelhos e lágrimas nos olhos a Rosseau e Jesus Cristo, os seus dois criadores simbólicos - daí não advém nenhuma crise de valores mas uma metamorfose dos valores, quando muito. Se uma crise apenas difere de uma metaforse devido à nossa percepção mais evoluída da genealogia das categorias de bem e de mal, constitui um problema a que nos deviamos entregar antes de utilizar o conceito de crise. Claro que discutir problemas dinâmicos é coisa que tanto Miguel Real como as freiras têm dificuldade em fazer. Já Herman José continua a demonstrar porque é que atingiu níveis de sucesso pirinaicos sem com isso perder o auto-domínio, e conseguindo, de forma notável, com a pouca leitura que tem, furtar-se quase sempre a frases imbecis, mostrando-se rápido e observador, com um sentido crítico capaz de espremer qualquer personalidade que se apresente diante de si, com uma eficiência de fazer inveja a qualquer máquina de sumo.
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Na mais recente adaptação cinematográfica de Shakespeare, Ralph Fiennes assina uma interessante actualização de Coriolano. O crítico de cinema Jorge Mourinha, que aplaudiu de pé «Sangue do meu Sangue», produziu uma crítica no Público em que, não dizendo mal do filme (era o que faltava) o considera mediano, referindo a dado momento, sem que se perceba o que quis insinuar, os «floreados da linguagem de Shakespeare», uma expressão vil e torpe em que, perante olhos esclarecidos, Mourinha expõe eloquentemente porque razão não faz a mínima ideia do que está a fazer. Pronto. É isto. Quem quiser saber o que se passa com Portugal, basta abrir os olhos. As evidências estão por todo o lado e julgo que ficou claramente demonstrado porque razão a estupidez se multiplica: multiplica-se porque a maioria de nós continua a fazer opções estúpidas. Agora não me peçam é que estabeleça relações causais entre os colhões de D. Afonso Henriques e a pilinha do Tony Carreira.
sexta-feira, 23 de março de 2012
O sporting enquanto filosofia de via
Antes da greve geral, que de greve ou geral nada teve, vi espalhados pelo burgo cartazes de gente a anunciar que ia ocupar o parlamento, incendiar esquadras, mandar abaixo o regime. E isto era apenas o programa da manhã.
No próprio dia, tiveram um gostinho de violência, mas lá está, na desagradável posição de recebedores. Agora andam a queixar-se. Mas de quê ? Não queriam violência ? Estaremos nós a assistir à sportinguização dos movimentos radicais ?
No próprio dia, tiveram um gostinho de violência, mas lá está, na desagradável posição de recebedores. Agora andam a queixar-se. Mas de quê ? Não queriam violência ? Estaremos nós a assistir à sportinguização dos movimentos radicais ?
quinta-feira, 22 de março de 2012
A realidade, o que é?
Numa daquelas coincidências borgianas, eis senão quando, após ter aqui aludido ao problema da oralidade na literatura, e recém-chegado a casa após um competitivo jogo de futebol num pavilhão periférico, onde se realizam campeonatos de lançamentos de setas, com pessoas vestidas de gravata, munidas de computador portátil ao redor de uma mesa quadrangular, dou de caras com essa mega-instituição fílmica da actualidade, intitulada Sangue do meu Sangue. Sentei-me, senti uma dor aguda emergir na região densamente musculada dos gémeos, isto na perna esquerda, abri o sexto, definitivo, e genial volume de Proust, A Fugitiva, de modo a poder refugiar-me em caso de inapelável insulto estético à minha sensibilidade, depositei o comando ao alcance da mão, e esperei.
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Naturalmente, o filme é uma merda, o que não surpreende, uma vez que a indústria cinematográfica portuguesa é o que temos de mais semelhante a uma Igreja protestante neste nosso país de hegemonia católica. Tinha lido com atenção um entrevista de João Canijo, na altura do lançamento, e quase cai da cadeira de um autocarro da carris, quando o realizador, elaborando sobre a procura do real implícita no projecto, referiu o importante papel da filha da sua empregada, ao abrir as portas de um bairro manhoso qualquer. Note-se que o estúpido do Canijo, enquanto dissertava sobre a neo-realidade de pessoas que ai, e de pessoas que ui, não se dignou sequer a referir o nome da empregada que, no entanto, se revelou de extrema importância no processo criativo. Ora ali estava, logo o notei, um daqueles flagrantes exemplos de lamentável confusão entre a realidade e o cérebro de pessoas que, no momento em que acham que podem reproduzir a realidade, com uma ridícula convivência familiar dos actores numa casa, tentativa de imitar o calão, e outras actividades circenses, se afastam total e irremediavelmente da realidade, afundadas na sua desorientação artística, que é um nome elegante para a total ausência de experiência individual, única e perene fonte da arte, como bem viu Nietzsche, quando afirmou que os poetas são impúdicos para com as suas vivências, uma vez que as exploram. Como Canijo não sabe explorar as suas vivências - talvez porque a vida tenha sido fácil demais - decidiu explorar as vivências da sua empregada. Resultado? Uma trágica e estereótipada fotografia da realidade que João Canijo pensa ser a realidade, com todo o habitual cortejo de lugares comuns sobre o bairro social, figurão que veio substituir o bairro operário dos neo-realistas italianos. Quem já esteve num bairro social, sem ser para filmar a realidade, sabe que, em muitos e dramáticos casos, o respeito pela gramática é assinalável. Porquê ofender a arte quando se quer ofender o Estado? Se o objectivo é ofender a língua - o que é sempre uma legítima forma de mandar o Estado para o caralho - então ofenda-se directamente, e não por meio de um artíficio tosco, à semelhança do discurso jornalístico.
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Num dos momentos mais hilariantes do filme, Canijo procura esmagar o espectador com uma sardinhada em casa da família sofredora e como eles dizem muitas asneiras, e gritam uns com os outros, Canijo acha que isso é suficiente para subir a temperatura dramática da cena. Mas as frases desconexas que são produzidas reproduzem ideias sobre as batatinhas, o azeitinho, e o tomatinho, e as qualidades de assador de carapaus da figura masculina partenal, que, alegadamente, não é pai do delinquente protagonista, caralho, e chega mesmo a decorrer uma troca de gritos por causa das dúvidas de identidade de um suposto indivíduo que terá mexido no telemóvel da filha da mãe sofredora, onde se invoca a figura de Maria Santíssima, pela enésima vez. Rita Blanco, Maria Santíssima, entre «estou fodida» e outras caralhadas, produz a dado momento a expressão «por maioria de razão», revelando o pântano onde se afunda todo aquele que resolve utilizar a linguagem, não para expressar uma ideia de autor, através de uma figura dramática (aprendam alguma coisa com Fernando Pessoa, caralho) mas para caracterizar um dado ponto na escala social.
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Outro dos momentos hilariantes é quando, numa cena de amor, os amantes, professor e aluna, trocam versos tão canhestros, supostamente gritos surdos e reais, nascidos nas entranhas da sua real existência social, que parecem decalcados das obras completas de António Ramos Rosa, de tão maus e obscuros e mal ditos, numa confrangedora ausência de talento na sua profissão específica, que é dar forma real a um texto e não fazer de conta que estão mesmo a foder um com o outro, porque isto já temos abundantemente na internet, e de forma gratuita. Esmagado, desliguei a televisão, e fui deitar-me. Mas tive dificuldade em adormecer, pois a puta da realidade costuma aparecer-me em sonhos, envergando um manto cinzento e de olhos flamejantes, chorando lágrimas de fogo. Cada um escolhe as coisas que quer trazer na cabeça. Se o João Canijo acha que vale a pena partilhar com o seu público uma viagem ao seu jardim zoológico imaginário, e apresentá-lo a partir de uma estratificação social, desenhando os contornos da família sofredora, pejada de mediocriades, elaborações sobre a falta de higiene, implantes mamários, batatinhas e azeitinho, frases de vão de escada, delinquentes a fumar brocas e coisas do género, quem sou eu para o criticar? Não me venha é falar de realidade, Maria Santíssima, não me venha é falar de realidade.
quarta-feira, 21 de março de 2012
O que fazem um português, um sueco e um irlandês ao almoço, em Madrid?
Discutem economia e politica, como é óbvio.
Se por um lado, a vida está mais complexa, por outro, Jorge Jesus está a falar muito melhor.
Tive um cão que tinha medo de ciganos, por exemplo.
Tolan, escrito na terça feira, 20 de Março de 2012,
véspera do Benfica (3) - Unidos da Areosa + Hulk (2)
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Para que ninguém pense que estou esquecido das minhas origens, venho por este sórdido meio comentar as justas palavras de Tolan no post oração. Como walter hugo mãe, José Luís Perdigoto e João «Fernando» Tordo não suscitam qualquer discussão sobre o problema da indústria do livro impresso, temos que ser nós, anónimos ressabiados da blogosfera, a colocar as questões essenciais para o sucesso do povo português e a destacar a importância das formas de tratamento na definição da competitividade e inovação das micro, pequenas e médias empresas (e não estou a brincar). Tolan, a dado momento, refere, no seu meta-discurso directo, a sua dificuldade afectiva com frases escritas que não tenham sido produzidas pela rolante, recurva e húmida língua, enquanto organismo vivo responsável pela parte sonora do nosso pobre mundo de significados. Aqui, permito-me a mim próprio discordar de mim próprio, pois uma parte significativa do meu corpo concorda totalmente com esta rejeição da artificialidade da gramática escrita (logo eu, que das várias professoras de português que tive, nem uma era digna de registo sexual, o que me privou de todo um imaginário pornográfico que funde a protuberância mamária com a arqueologia do discurso). No entanto, a parte mais elevada do meu ser diz-me que este é talvez o efeito mais deprimente e nefasto da pseudo-literatura contemporânea, pois, levada na enxurrada do neo-neo-neo-realismo, carregada nos braços da verosimilhança que vê em cada empregada doméstica uma fonte fecunda de sofrimento psicológico, e forçada pela democratização do consumo de livros (que já aqui abordei) caiu num tremendo engano: o de que as pessoas falam de uma determinada maneira. Ora, eu já ouvi conversas entre estudantes universitários de Santa Iria da Azóia com mais erudição que alguns dos tristes episódios do Câmara Clara, da mesma maneira que já escutei mais palavrões e indignidades a engenheiros-fiscais da classe média, na descontração de um cerveja em mesa de fórmica (cumprimentos ao leitor AM) do que em muitas conversas entre guineenses forçados a trabalhar ao sol possante do meio-dia.
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Isto leva-nos a uma das mais fascinantes questões técnicas da literatura, se os caros leitores tiverem paciência para largar um bocadinho a porcaria da actualidade que tanto nos suja os dedos e de forma tão injusta. Proust percebeu que as personagens ganhavam vida se as modulasse através de um visão dinâmica, não só relacionada com um novo protagonismo do tempo psicológico no interior da narrativa, mas também ligada à multiplicidade de olhos que podem caracterizar essas personagens, também elas múltiplas, dos dois lados do espelho, isto é, tanto do «lado de fora», nas imagens mentais que os outros delas vão cristalizando ao longo da vida, como do «lado de dentro», na sua variável constituição psicológica que é, em parte, uma resposta às referidas cristalizações que outros vão fazendo. Isto é maravilhosamente expresso na linguagem comum, quando acusamos o nosso parceiro de posições sexuais de nos estar a rotular ou quando choramos lágrimas amargas porque ele ou ela (ou eles, não sejamos preconceituosos) nos não permitem abandonar uma impressão demos, e que por isso ficou dada num dado tempo, de uma vez para sempre.
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Acontece que quando escrevemos, estamos vivos, e o que importa, como Shakespeare bem sabia, quando se referia jocosamente ao assassinato de Marlowe numa taberna, é o que o autor tem para dizer sobre a realidade. O erro mais comum é cometido por todos aqueles que, diante deste dilema, choramingam a pobreza da vida e da realidade perante o sonho e a riqueza luxuriante da ficção (uma das coisas que me provoca mais vómitos, logo a seguir às entrevistas enjoativamente vaidosas, charlatonas e pseudo-intelectuais de Gonçalo M. Tavares) pois esquecem-se de que tanto o escritor como o seu indomável poder significativo, bem como a sua fulgurante fúria linguística, também fazem parte da realidade, pois nada mais existe senão a realidade, não havendo nenhuma separação entre realidade e ficção, mas apenas escritores que escrevem livros, sendo uns melhores, mais belos, inventivos, fecundos, e duradoiros, que outros, sendo este aspecto da função da língua no interior do discurso um daqueles maravilhosos alçapões, que permitem às pessoas verdadeiramente geniais distinguirem-se das que se pensam que são ou são julgadas como geniais.
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Eu diria que precisamos de uma outra ruptura: não só as personagens são plásticas nos seus sentimentos ou resultados afectivos como o seu discurso depende das situações onde se encontram e das pessoas que se apresentam, oscilando a língua húmida de cada um, num dado campo de visão, e de acordo com situações dramáticas também elas diferentes. Os grande ecritores sabem que as línguas - da empregada de mesa até ao médico premiado - só servem para uma única coisa: expressar aquilo que o autor quer expressar e da forma mais rigorosa e concreta que o seu engenho, cultura, sensibilidade e inteligência, permitam. As vicissitudes do movimento específico de cada língua socialmente codificada, fazem a originalidade de cada escritor e bastaria analisar a impetuosa poesia de Flastaff, um taberneiro e sargento, beliscador relapso do rechochudo rabo de velhas prostitutas, mas cuja voz - e para citar um filósofo anómimo - coloca no bolsinho pequeno das calças, quer em erudição, quer em eloquência, grande parte dos tratados literários dos séculos XIX e XX, para verificar como os livros que demoram mais tempo a morrer são apenas aqueles onde só os autores falam, e não a personagem A ou B. Por isso, e terminando triunfalmente este momento de generosidade sem limites, é bastante simples concluir que ao contrário do que pensam os maus literatos - que a ficção é mais rica do que a realidade e de que a diferença entre a ficção e a realidade é que a ficção tem de ser credível, e essas merdolas - o problema da oralidade na escrita, revela apenas uma percepção desconexa e confusa do grande princípio: só existe a realidade, e dentro dela, os escritores que sobrevivem são os que não se deixam levar pelas ficções pífias que os espíritos mais pobres produzem sobre a realidade, afirmando quea sua caracterização tem de ser feita desta ou daquela maneira.
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Não é preciso ser um Marcelo Rebelo de Sousa para notar que nem mesmo a escolaridade garante em absoluto uma estratificação da competência linguística, fenómeno que, não obstante os valorosos esforços do esquerdalho Chomsky, continua a encerrar um grande dose de mistério - a poesia de Frederico Lourenço, Nuno Júdice ou Teresa Rita Lopes, é, a título de exemplo, uma grandessíssima merda. A minha tia, que gardou cabras metade da vida, e foi criada de servir no outro terço, se excluirmos a infância, é muito mais rápida e eloquente (a caracterizar uma dada personalidade ou a pintar com cores fortes uma dada situação dramática) do que Vitór Gaspar ou o reverendíssimo Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva. Quem não tentou já impressionar uma italiana com citações de Dante, se por acaso está interessado em medir-lhe as ancas, mesmo tendo em fundo um toldo sujo da Sumol? E quem não modela o seu vocabulário se por acaso é levado a produzir as suas impressões sobre a salvação de Portugal no primeiro jantar em casa do provável-sogro, que por acaso é professor catedrático? E quem não mandaria para o caralho um escritor português muito vendido, se a peixeira do bairro, que por acaso é uma pessoa inteligente, sugerisse que o referido escritor é um vaidoso e um inútil?
terça-feira, 20 de março de 2012
A vertigem da listas, foda-se
Uma pessoa vê-se obrigada a lutar contra a realidade de punhos ensanguentados, olhos fulmíneos (uma das minhas palavras preferidas das mais preferidas palavras de Italo Calvino) e sonhos injectados de púrpura, quando, por sua vez, a aristocracia está altamente organizada e às dezenas, como pode constatar-se pelo espectacularmente espectacular blogue Senatus, uma tal agremiação de cérebros por metro quadrado que já não se via em território nacional desde as cortes de Lamego, aquelas onde forjaram um merda qualquer que afinal não era a verdade, mas que foi suficientemente verídica, ao tempo, para resolver um qualquer problema grave, na época, bem entendido. Esta porcaria de blogue é mais um daqueles sítios onde se prolonga a esterilidade da discussão política portuguesa, pois é próprio de qualquer discussão política que nada se diga fora dos termos da comunicação normalizada, o que me faz gostar tanto de palavrões, caralho. Deixo uma lista das pessoas a quem não devemos dar ouvidos, para que não falte nada aos estimáveis leitores que acompanham as minhas obras completas na blogosfera (enquanto não saiem as outras) sendo certo que os últimos indicadores macro-económicos nada revelam sobre o país, e que o verdadeiro indicador do desenvolvimento, bem mais consistente e fiável, seria se de uma vez por todas, surgissem nas livrarias portuguesas, impressos em língua portuguesa, da autoria de cérebros portugueses, livros como o que se apresenta na figura que encabeça este post.
Anexo 2
Senadores, isto é, pessoas a quem não devemos dar ouvidos: Ana Rita Bessa André Matos Faria António Andrade de Matos Diogo Duarte Campos Diogo Santos Nunes Filipa Correia Pinto Filipe Matias Santos Francisco Beirão Belo Gonçalo Delicado Helena Costa Cabral Hilario Caixeiro da Cunha Inês Pinto da Costa José Bourbon Ribeiro José Meireles Graça José Miguel Pereira João Lamy da Fontoura João Monge de Gouveia Mafalda Sobral Marcos Teotónio Pereira Margarida Bentes Penedo Nuno Cunha Rolo Nuno Santos Silva Rosário Coimbra Ruben Eiras Sophia Caetano Martin Tiago Pestana de Vasconcelos
Anexo 2
Senadores, isto é, pessoas a quem não devemos dar ouvidos: Ana Rita Bessa André Matos Faria António Andrade de Matos Diogo Duarte Campos Diogo Santos Nunes Filipa Correia Pinto Filipe Matias Santos Francisco Beirão Belo Gonçalo Delicado Helena Costa Cabral Hilario Caixeiro da Cunha Inês Pinto da Costa José Bourbon Ribeiro José Meireles Graça José Miguel Pereira João Lamy da Fontoura João Monge de Gouveia Mafalda Sobral Marcos Teotónio Pereira Margarida Bentes Penedo Nuno Cunha Rolo Nuno Santos Silva Rosário Coimbra Ruben Eiras Sophia Caetano Martin Tiago Pestana de Vasconcelos
Faço notar os sonantes apelidos das varonis famílias, sempre prontas a dar o seu contributo para engrandecimento do espaço público e esclarecimento das suas próprias vidas. É pena que esse contributo seja uma boa merda.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Os filhos da puta não têm pátria, nem língua: são filhos da puta.
Quando as Províncias Unidas, ao subir do pano do século XVII, por razões que terão que pesquisar na wikipédia porque eu não posso fazer tudo, começou a aumentar a capacidade para obter canhões de guerra, feitos em ferro - os de bronze eram mais leves mas menos eficazes - e nos fodeu literalmente as nalgas nas chamadas East Indies, apareceu um senhor chamado Hugo Grotius com uma capacidade notável para convencer, por meio de repetidas petições, os indivíduos que constituíam os Estados Gerais (responsáveis pelas decisões conjuntas das diferentes comunidades políticas a que hoje chamamos Holanda) a dotar a Companhia das Índias Orientais com navios de guerra suficientes para continuar o seu trabalho criminoso. Mas Grotus, que era casado com uma mulher horrível, Maria van Riegersberch, como não me deixa mentir o retrato gravado em 1640*, filha de um burgo-mestre do porto de Veer (uma merda de profissão que não faço a mínima ideia do que seja), foi capaz de redigir diversos tratados montado numa merda chamada direito natural asseverando que os contratos eram para cumprir, fazendo questão de demonstrar, através das mais espectaculares cambalhotas jurídicas, que o mar era livre e que quem cortasse primeiro a cabeça ao adversário é que tinha razão. Mas, em todo o caso, as Provincías Unidas eram habitadas por pessoas que não só sabiam ler como tinham bom gosto, compravam livros e levavam as merdas a sério e não só esfolaram (literalmente) vivos vários líderes políticos ao longo do século XVII como chegaram mesmo a prender Grotius, que iniciou o seu mais famoso livro De Juri Bellis ac Pacis, na prisão de um castelo.
Esta erudita introdução, que ilucida o leitor sobre o quilate intelectual da mente com quem, inacreditavelmente e de forma totalmente gratuita, dialoga neste momento, apenas está aqui para demonstrar cabalmente como aquilo que as pessoas dizem não tem valor absolutamente nenhum, a menos que essas pessoas sejam qualquer um dos indivíduos que agrupo no anexo 1, colocado no final deste post, para uso pessoal dos respeitáveis leitores deste blogue.
Por outras palavras, as pessoas falam em primeiro lugar para não se afundarem no gigantesco abismo da sua irrelevância e, em segundo lugar, para obterem um determinado efeito compensatório, que é a versão elegante da procura desesperada que todos, uns mais do que outros, empreendemos, diariamente, pelo nosso almoço. Claro que nem sempre o cálculo feito pelas pessoas tem os efeitos desejados, e, por isso, o mundo está como sempre esteve, uma tremenda confusão, mas não deviam já restar dúvidas, pelo menos nas mentes alfabetizadas, sobre o facto de não obtermos nenhuma impressão absoluta ou universal da realidade, por meio do retrato efectuado pelos nossos queridos semelhantes. No entanto, pasme-se, o Henrique Raposo acha que a Cristina Casalinho explica o que está a acontecer a Portugal, sendo que os dois acreditam que está tudo muito bem, da mesma forma que achavam que antes estava tudo muito mal. Pois eu digo aos dois que está tudo uma tremenda foda, e desde há muitos séculos, mas não pelas razões que eles pensam.
Claro que o raciocínio implícito neste versão laica e moderna da Salvé Rainha, preconizada por pessoas que pensam que sabem alguma coisa, é que uma economista chefe do BPI, como a burra da Cristina Casalinho, totalmente envolvida na perseguição dos seus interesses particulares, está particularmente habilitada para salvar Portugal, pois a defesa do seu interesse, na medida em que depende da saúde dos interesses de todos nós, espelha, de forma transparente, não só a verdade dos factos (risos) como um desejo de salvação colectiva (aplausos). Enlevado nesta bonita prece, o palhaço do Henrique Raposo esquece que as pessoas perseguem os seus interesses e nessa perseguição, olá, metem por caminhos errados, pisam poças de lama, esfarrapam o casaco novo num galho recurvo, são atingidas por relâmpagos, confundem o pio da coruja com o silvo do comboio sulcando a noite, assustam-se com espectros ululantes quando é apenas o casaco de um velho pastor insuflado de ilusória vida pelo vento indomável.
Esta erudita introdução, que ilucida o leitor sobre o quilate intelectual da mente com quem, inacreditavelmente e de forma totalmente gratuita, dialoga neste momento, apenas está aqui para demonstrar cabalmente como aquilo que as pessoas dizem não tem valor absolutamente nenhum, a menos que essas pessoas sejam qualquer um dos indivíduos que agrupo no anexo 1, colocado no final deste post, para uso pessoal dos respeitáveis leitores deste blogue.
Por outras palavras, as pessoas falam em primeiro lugar para não se afundarem no gigantesco abismo da sua irrelevância e, em segundo lugar, para obterem um determinado efeito compensatório, que é a versão elegante da procura desesperada que todos, uns mais do que outros, empreendemos, diariamente, pelo nosso almoço. Claro que nem sempre o cálculo feito pelas pessoas tem os efeitos desejados, e, por isso, o mundo está como sempre esteve, uma tremenda confusão, mas não deviam já restar dúvidas, pelo menos nas mentes alfabetizadas, sobre o facto de não obtermos nenhuma impressão absoluta ou universal da realidade, por meio do retrato efectuado pelos nossos queridos semelhantes. No entanto, pasme-se, o Henrique Raposo acha que a Cristina Casalinho explica o que está a acontecer a Portugal, sendo que os dois acreditam que está tudo muito bem, da mesma forma que achavam que antes estava tudo muito mal. Pois eu digo aos dois que está tudo uma tremenda foda, e desde há muitos séculos, mas não pelas razões que eles pensam.
Claro que o raciocínio implícito neste versão laica e moderna da Salvé Rainha, preconizada por pessoas que pensam que sabem alguma coisa, é que uma economista chefe do BPI, como a burra da Cristina Casalinho, totalmente envolvida na perseguição dos seus interesses particulares, está particularmente habilitada para salvar Portugal, pois a defesa do seu interesse, na medida em que depende da saúde dos interesses de todos nós, espelha, de forma transparente, não só a verdade dos factos (risos) como um desejo de salvação colectiva (aplausos). Enlevado nesta bonita prece, o palhaço do Henrique Raposo esquece que as pessoas perseguem os seus interesses e nessa perseguição, olá, metem por caminhos errados, pisam poças de lama, esfarrapam o casaco novo num galho recurvo, são atingidas por relâmpagos, confundem o pio da coruja com o silvo do comboio sulcando a noite, assustam-se com espectros ululantes quando é apenas o casaco de um velho pastor insuflado de ilusória vida pelo vento indomável.
Nem mesmo a matéria técnica vale um minuto da vida do caro leitor. Casalinho acha que estamos prestes a entrar, «espera-se», diz ela, «num novo período da economia nacional» (risos, risos, risos), «no qual o motor de crescimento se reorienta de procura interna para externa e de
produção de bens não-transaccionáveis, como restaurantes e cabeleireiros, para bens transacionáveis, como sapatos e transístores». Foda-se, caralho, cona da tia. Se isto fosse assim tão elementar, até o Professor António Borges seria capaz de resolver o problema dda economia nacional (risos, risos, risos). Questões como o tamanho das organizações, como os incentivos não monétários, como o efeito das oscilações comportamentais nos padrões de consumo, são variáveis que a burra da Cristina Casalinho congela, sem, contudo, utilizar as palavras mágicas (mantendo todas as outras variáveis iguais ou the rest equal, como diria Lauro António.
Eu não gosto particularmente da poesia da Sophia de Mello Breyner, por razões que explicarei noutra ocasião, mas fica sempre bem lembrar aqui, a titulo de exemplo, o que a Meditação do Duque de Gandia na morte de Isabel de Portugal recomenda aos seus leitores: que nunca mais deveriamos servir a quem pudesse morrer, o que é uma forma sucinta de dizer que a termos que ouvir alguém, convém que sejam pessoas que ou estejam vivas para sempre ou não morram com facildiade, e a mim parece-me que Raposo e Casalinho, embora mais velhos do que eu, nem sequer chegaram a nascer.
produção de bens não-transaccionáveis, como restaurantes e cabeleireiros, para bens transacionáveis, como sapatos e transístores». Foda-se, caralho, cona da tia. Se isto fosse assim tão elementar, até o Professor António Borges seria capaz de resolver o problema dda economia nacional (risos, risos, risos). Questões como o tamanho das organizações, como os incentivos não monétários, como o efeito das oscilações comportamentais nos padrões de consumo, são variáveis que a burra da Cristina Casalinho congela, sem, contudo, utilizar as palavras mágicas (mantendo todas as outras variáveis iguais ou the rest equal, como diria Lauro António.
Eu não gosto particularmente da poesia da Sophia de Mello Breyner, por razões que explicarei noutra ocasião, mas fica sempre bem lembrar aqui, a titulo de exemplo, o que a Meditação do Duque de Gandia na morte de Isabel de Portugal recomenda aos seus leitores: que nunca mais deveriamos servir a quem pudesse morrer, o que é uma forma sucinta de dizer que a termos que ouvir alguém, convém que sejam pessoas que ou estejam vivas para sempre ou não morram com facildiade, e a mim parece-me que Raposo e Casalinho, embora mais velhos do que eu, nem sequer chegaram a nascer.
Anexo 1
Grupo das pessoas a quem podemos dar ouvidos
Homero
Eurípedes
Sófocles
Dante
Shakespeare
Camões
Melville
Gogol
Tchekov
Pessoa
Joyce
Proust
Kafka
Calvino
* Martine Julia Van ITTERSUM, Profit and Principle: Hugo Grotius, Natural Rights Theories and the Rise of Dutch Power in the East Indies, 1595-1615 (Brill's Studies in Intellectual History) (Brill's Studies in Itellectual History), 2006, p. xxi
sexta-feira, 16 de março de 2012
«Não facem ondas», diz-se na Nazaré, segundo dizem.

Ainda antes do Álvaro Santos Pereira atingir o problema central da sua existência enquanto ser humano que é, o que dada a humilhação a que ele próprio se tem submetido pelo exercício impúdico da sua falta de inteligência e manifesta desilegância congénita, não levará muito tempo a ocorrer, em verdade vos digo que o Xandão não tomará banho no balneário do Sporting sem que o Sá Pinto conheça a divina câmara do insucesso. Isto não quer dizer que Sá Pinto não tenha potencial, antes pelo contrário, quer apenas sugerir que como Sheley bem notou na sua defesa da poesia, o doce prazer que retiramos da mágoa - e da derrota - é bem mais profundo e gratificante do que aquele que retiramos da vitória. Parece que até o Antigo Testamento já dizia: mais vale frequentar a casa enlutada do que a casa onde há banquete. Naturalmente não estou apenas a falar para adeptos do Sporting, mas para todo aquele que ainda não lavou as suas próprias cuecas.
Se não têm o que fazer, leiam Rosseau, caralho.
Uma das mais importantes decisões de política cultural do meu governo de sonho seria obrigar cada pessoa que pronunciasse, com objectivos jocosos, a expressão «o bom selvagem» a enfiar uma banana no cu* e estou a lembrar-me, a título de exemplo, de Nuno Crato, que escreveu um livro absurdo denegrindo a memória de um dos mais ilustres botânicos do século XVIII apenas com o intuito de dizer que a escola portuguesa é uma merda e que os professores encaram cada aluno como «um bom selvagem»: cá está, era banana certinha. Claro que os custos de aplicar esta política seriam altíssimos porque não só seria obrigatório policiar o cumprimento da pena - que seria repetidas vezes aplicada, não tenho a mais pequena dúvida - como a curva de procura de bananas sofreria uma deslocação tão veloz e significativa que não seria de estranhar ver, na televisão, o panaleiro do arquitecto Ribeiro Telles com diversos planos para o cultivo de bananeiras nos jardins Gulbenkian.
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Vem isto a propósito de um ensaio do Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba que hoje, no Público, ensaia uma tentativa de nos explicar não se percebe exactamente o quê, uma vez que à boa maneira dos franceses - que Lomba não aprecia - e ao contrário dos ingleses - por quem Lomba se baba - o autor não introduz o leitor no que vai fazer, não relaciona o assunto com qualquer tradição ou debate intelectual e nem uma pobrezita conclusão nos ilucida sobre a razão de preencher duas folhas de um jornal de referência com uma cagadela de referência sobre os mecanismos constitucionais do semi-presidencialismo. Ora, apesar de Lomba não o referir explicitamente, a perversidade do seu raciocínio é clara: as pessoas querem é malandragem porque como Rosseau perversamente viu e recomendou, somos todos muitos bonzinhos e o camandro - cá está, era bananinha sem espinhas - e por isso, esta merda do semipresidencialismo funciona mal já que em vez de termos governo com chicote na mão, anda tudo a governar para a popularidade, isto é, as sondagens.
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Enfim, não vou perder tempo com as complexas relações entre populismo, popularidade e governo do povo, porque sabemos que Lomba está completamente perdido quando se refere ao problema com as seguintes palavras: «Com 35 de anos de prática já vai sendo tempo de avaliarmos como é que a coisa tem funcionado». Isto é, a necessidade de análise decorre do tempo, o que é um argumento de caserna ou de sacristia: como chegou o tempo, toca a marchar ou a ajoelhar. E o que resolve fazer o intelectual Lomba para enfrentar este desafio titânico? Afirma que para entender a «geometria instável» da falácia representativa «temos de recuar às origens». Motivos de força maior impedem a escalpelização que o Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba mereceriam, pelo que, num esforço económico de grande alcance, fico apenas por uma simples identificação dos erros mais grosseiros.Lomba aventura-se num exercício historico-político na boa tradição mais que bolorenta do pensamento jurídico, confundido legitimidade com antiguidade e eficácia com tradição. Mas isto não seria grave se não existisse aqui um problema mais profundo e de consequência mais nocivas. É que Lomba supreende-se, depois de duas páginas de revisitação a figuras tão monstruosas como Sá Carneiro, Ramalho Eanes ou Aníbal Cavaco Silva - foda-se - com o facto do semipresidencialismo ser para nós o regime das sondagens. Extraordinário!
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Um professor doutor e o caralho, que consagra toda a sua vida ao Direito Constitucional, consegue elaborar sobre a arquitectura institucional do sistema político supreendendo-se com o facto de uma democracia utilizar mecanismos de sondagem de opinião para avaliar o que pensam as pessoas sobre quem as govenra, e consegue não mencionar uma única vez um problema que Rosseau já tinha visto, enquanto fazia filhos, entrava para a história da literatura, copiava partituras musicais, partia os dentes a fugir de uma carroça, estreava óperas na Corte francesa, e coçava os tomates na estrada de Vincennes; a saber, que a representação constitucional é uma anedota tão fulgurantemente mal contada que só quem está a dormir é que não entende que a democracia não pode funcionar sem «cenas de choque», «deslealdade» ou «manobras para prejudicar o outro» isto para utilizar terminologia cara ao Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba. Mas se quisermos ser mais rigorosos diremos que Rosseau já tinha entendido - e publicado de forma explícita - que a democracia é uma tentativa absurda e canhestra de mecanizar as complexas relações de conflito entre indivíduo e sociedade através do brinquedo estragado da ligação entre representante e os representados. E mais: mesmo dando de barato que Lomba é ignorante - o que não constitui uma originalidade - tinha pelo menos obrigação de saber que em qualquer sociedade que hoje coabite com sistemas de comunicação modernos, mesmo em algumas ditaduras, aí reinará, imperetrivelmente, um «império das sondagens».
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Em suma, o que continua a ser lamentável neste nosso mundo - e eu não me canso de o repetir -, é que a especialização científica - que nos saberes ditos naturais tem a abençoada presença da física e da matemática - se reveste nas humanidades da mais violenta boçalidade, pois não há o mínimo esforço para compreender um problema segundo a sua estrutura funcional e não de acordo com o que o dito problema revela perante o nosso senso comum, e isto porque as humanidades estão convencidas de que tratam matéria mais humana do que a Física ou a Matemática, disciplinas que há muito aceitaram a positiva derrota da limitação de todo o conhecimento. Se o Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba fosse menos ambicioso, e em vez de tentar avaliar o funcionamento da coisa, recuasse até à utilidade da coisa, se, no fundo, fosse menos cientista e mais jurista, teria provavelmente mais probabilidade de, sendo um bom jurista, se aproximar da ciência que é a sua, em vez de fazer de conta que fala de geometria, e depois bolsar conceitos deduzidos da mais mal cheirosa retórica jurídico-política, chegando mesmo a chamar Jorge Sampaio intelectual, o que penso ser uma tentativa de insulto, e diz bem do tipo de argumentação política que os pseudo-hobesianos tiram do bolso a cada tentativa de raciocionar.
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Jean-Jacques Rosseau, meu cabrão, que falta nos fazes.
* Quero agradecer esta recomendação a Maradona que a tinha sugerido como pena específica ao josé Manuel Fernandes, mas que utilizo aqui com intuitos mais generosos e abrangentes.
Aguenta coração disse um dia um cantor foleiro
Depois do jogo de ontem, lembrei-me do que li há dias:
«O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor»
e mais não é preciso dizer. obrigado alf por teres mostrado o texto.
«O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor»
e mais não é preciso dizer. obrigado alf por teres mostrado o texto.
quinta-feira, 15 de março de 2012
A propósito do evento desportivo em Manchester
Jogou mais futebol o Pereirinha sentado com o cú no relvado do que o Baloteli e o Aguero a correrem os 90 mais 5 minutos. Agora com licença que tenho que ir dar o biberão à minha garota.
Dei-te o melhor de mim, mas tu fodeste-me na mesma
Porque razão inquirirem-se sobre a minha origem? Como a das folhas, assim são as humanas gerações. Para o chão as lança o vento, mas a fecunda floresta a outras dará nascença, e a primaveril estação logo regressa; assim também a raça dos humanos nasce e vai passando Ilíada
Ontem, hipnotizado pelo padrão especialmente rebuscado de uma toalha branca de linho, e envolvido na melancólica estupefacção que nos atinge durante um almoço de fim de Inverno, sobretudo se, para nos furtarmos à sorte de Guy Debord, vamos evitando as doenças que o vinho sempre traz, fui despertado, subito - como dizem os italianos, isto é, rapidamente - por uma pessoa licenciada em filosofia que, a dado momento, me colocou a seguinte e pertinente questão: o que é um livro de sucesso? Naturalmente, tendo eu lido todo o Guy Debord antes dos 14 anos, devorado o impressionismo mediático de Lipovetsky, antes dos 16, e estando já pelos 19 num tal estado de náusea psicológica que não suportava Deleuze ou Walter Benjamim - juntamente com Agamben duas das maiores fraudes de todos os tempos - senti uma certa tendência, até pelo facto do Benfica ter reentrado na luta pelo título, para me refugiar numa decomposição das várias camadas arqueológicas implícitas no conceito de «sucesso». Mas não fui por aí, pois, apesar de muitos erros, má fortuna, amor ardente, assimilei Aristóteles e matemática suficiente para não me perder com mariquices. Não fui por ali, nem por qualquer outro lado, e fiquei antes a pensar naquilo, que é a melhor coisa que podemos fazer quando nos colocam uma pergunta para a qual não temos uma resposta satisfatória.
A julgar pelo top de vendas da Bertrand, tudo vai bem em Portugal. Contudo, não vou mergulhar no costume marreta de pintar com tintas escuras as forças de mercado, mesmo que ninguém possa dizer o que isso seja. Nem sequer Christopher Pissarides, pelo facto de ter decomposto os fundamentos micro-económicos da dinâmica de curto-prazo Keyneseana e Neo-clássica, conseguiu esclarecer totalmente como o nosso conhecmento imperfeito, dos salários e do preço do trabalho, concorre para manter em desiquilibrio, um sistema que permite demasiado desemprego involuntário, e digo isto só para verem que não ando aqui a brincar. Na verdade, a lista que se segue, longe de implicar qualquer decadência das humanidades, das hierarquias sociais ou da qualidade do intelecto dos pretugueses, revela apenas que a dita cultura padece dos mesmos problemas do mercado dos combustíveis - conhecimento imperfeito, ou na forma mais Manuel Luís Goucheana de dizer o real: a cultura padece de burrice.
1- Ágape", Padre Marcelo Rossi
2- "O Espião Improvável", Daniel Silva
3 - "Últimas Notícias do Sul", Luis Sepúlveda
4 -"O Cavaleiro de Olivença", João Paulo de Oliveira e Costa (eh, eh, eh, eh, uh, uh, uh)
5- "O Céu Existe Mesmo", Todd Burpo
6 -"Uma Fazenda em África", João Pedro Marques
7 -"A DívidaDura", Franscisco Louçã (ah, ah, ah, ah, ah, ah)
8-"O Último Segredo", José Rodrigues dos Santos
9-"Dei-te o Melhor de Mim", Nicholas Sparks (ui)
10- "Ainda Sonho Contigo", Fannie Flagg (uiiiiiiiii)
Qual será a misteriosa penetração do espírito divino, entrando com suavidade na lama bruta da nossa condição, capaz de explicar porque razão as santas pessoas que compram o livro do Padre Marcelo Rossi compram, na verdade, o livro do Padre Marcelo Rossi? Poderíamos tentar responder que: tendo as pessoas um conhecimento limitado das suas preferências, e informação ainda mais limitada, sobre a forma como as suas preferências se relacionam com os benefícios de um produto que não conhecem, e para agravar tudo isto, sendo as pessoas totalmente ignorantes do valor relativo destes produtos, por uma olímpica ignorância do que o mercado tem para oferecer a mais baixo custo (Moby Dick ou O Barão Trepador custam menos do que quase todos estes títulos) as pessoas convencem-se de que estão extactamente a comprar aquilo que a sua soberana capacidade de julgar a realidade lhes diz que é o melhor para elas, naquele ponto específico e irrepetível da sua existência num altamente complexo conjunto de cruzamentos e bifurcações, padrão de possibilidades que constitui o ilusório e sempre animado mundo dos desejos e das suas satisfações. Todavia, não vamos responder desta forma. Vamos responder de uma outra maneira, totalmente diversa.
As pessoas compram o livro do padre Marcelo Rossi porque a informação altamente eficiente contida na capa do livro revela que as pessoas tendem a comprar (e compram) repetidamente o livro do Padre Marcelo Rossi. E se as pessoas compram esse livro é porque deve ser bom, de outro modo, as pessoas não o comprariam, tautologia que não deixa de relevar uma parte importante da verdade. Mas o livro do Padre Marcelo Rossi é bom exactamente em quê? Aqui é que a porca torce o rabo, como bem sabem todas as pessoas que já tentaram apertar móveis do Ikea sem ferramentas apropriadas.
O livro do Padre Marcelo Rossi cumpre um desejo e uma carência de um significativo conjunto de seres humanos - desejos e carências que não vou tentar descodificar, da mesma maneira que não costumo procurar sentidos ocultos nos desejos das pessoas que em vez de comprarem Ferraris, compram Fiates Punto. Logicamente, a literatura cómico-sociológica fala aqui de distinção ou na forma mais hilariantemente obscura - símbolo. Mas quem lê Joyce, que outra coisa pretende senão um símbolo bem dourado e legível na lapela do seu casaco? O que é curioso é dar conta da dificuldade que existe, numa grande parte dos sistemas nervosos, em percepcionar que o livro de Rossi, ou o maravilhoso «Dei-te o melhor de mim», de Sparks, são percepcionados como Ferraris e não como triciclos sem rodas, e aqui reside o ponto que gostaria de sublinhar neste dia em que o céu celebra a minha vinda ao mundo com uma magnífica trovoada.
Com efeito, a culpa de as pessoas burras percepcionarem um livro intitulado «Dei-te o melhor de mim» como um Ferrari e, por sua vez, olharem para «Moby-Dick» como um skate de plástico, deve-se a toda uma mitologia de relativismo democrático, que Walter Benjamim, e outros, pensaram dever-se à industrialização e massificação da arte, cometendo o habitual erro marxista - que eu tantas vezes gosto de cometer - confundido a causa com o efeito. Ninguém viu isto tão bem como Nietzsche, um filósofo que por conhecer os gregos tão bem como a amplitude do seu bigode, estava paneleiro de saber que a democracia industrial, no seu esforço para dotar a vida das classes baixas de conforto, traz no plano da cultura - e aqui não há distinção entre arte ou parafusos - uma fatura pesada, que consiste na dificuldade que os melhores e mais geniais sofrem para não se afogar num mar de pessoas como o walter hugo mãe. Toda a gente já experimentou este problema quando se tratava de escolher uma equipa de futebol competitiva e o professor obrigava a incluir as raparigas. Na verdade, o desejo de igualdade e libertação redundou na mediania constituída pelo desejo da maioria - e a indústria é consequência e não causa, caralhos me fodam -, bem como na desorientação sobre a objectividade dos mecanismos retóricos - que podem ser tão rigorosamente analisados na sua potência como um motor - para não falar da metafísica da complicação que escritores ridículos como Faulkner ou Virgínia Woolf vieram introduzir na estrutura mental dos produtores de ideias. Assim, na maravilhosa tendência democrática do mercado do livro, foram as elites a enterrar a espada no seu próprio coração, ao destruírem uma hierarquização da cultura baseada nos mecanismos clássicos, numa tentativa desesperada para combater o sucesso de livros bons, mas portadores de ideais democráticos, como Moby Dick, ou mesmo Ulisses, livros que, curiosamente, venderam sempre muito pouco.
Um livro de sucesso é um livro que leva menos tempo a morrer, um livro que sobrevive tanto aos Walteres Benjamim como aos walteres hugos mãe, e eu apostaria dois dedos da minha mão esquerda, ou um dos testículos (mas só o entrego depois dos 90 anos) em como desta lista aqui em cima, nenhum livro sobreviverá ao ano 2014. Um livro de sucesso é um livro como a Ilíada, uma cuspidela de raiva, de refulgente claridade, coberto de sal e duro como pedra, limpo de fulgurante beleza, um livro que sobreviveu ao rolo manuscrito, ao pergaminho, ao incunábulo, ao impresso, ao computador e vai sobreviver espectacularmente tanto ao Ferrari como à tabulete, coisas que, como toda a gente com cabeça sabe, mais parecem concebidas por um macaco do que por uma inteligência humana, mesmo que esta, a inteligência humana, não seja muito mais do que uma espécie de macaco, mas em Ferrari.
Um livro de sucesso é um livro que diz a verdade e não tem medo de ninguém, nem do seu próprio fracasso.
terça-feira, 13 de março de 2012
***
Como é do domínio público, as bibliotecas universitárias em Portugal são insuportavelmente silenciosas, ao contrário dos nossos incrivelmente elegantes centros comerciais que são espantosamente barulhentos, e na medida em que isto é verdade, e desse facto dou testemunho, vi-me obrigado a ler e a anotar The Stones of Venice, de John Ruskin, numa esplendorosa mesa de mármore negro colocada involuntariamente para esse efeito, num democrático estabelecimento da Macdonald's, a mais importante realização comercial do homem depois da espingarda de repetição. Mas a dado momento, vários pré-adolescentes, enquanto trincavam estridentemente o alimento do seu espírito e se insultavam com vitalidade e cortesia, começaram a evidenciar comportamentos histéricos e temi que a Alemanha tivesse finalmente desembarcado na doca de Santos, com a sua retórica forjada em aço e os seus oficiais louros, cobertos por longas gabardines de napa preta. No entanto, era só a Daniela da «Casa dos segredos», conforme consegui apurar, interrogando violentamente, entre estaladas, uma adolescente que não conseguia travar repetidos guinchos de sofrimento e êxtase, contorcendo-se espasmodicamente com revoluteios de fazer inveja a Bernini. Enquanto esta horda de trabalhadores mal-remunerados a curto-prazo se precipitava para os ombros de Daniela, uma espécie de Ruud Gullit mas em natural de Chelas, não consegui evitar que me rodeassem a mesa, pois treparam cadeiras e sofás, qual matilha de cães raivosos, como se não houvesse amanhã, e tudo isto sob o olhar impassível das esteticistas que respondiam pelo nome de professoras, chegando mesmo uma das hediondas criaturas a tocar, com os pés imundos, a minha edição de The Last Leopard. Vai daí, resolvi retaliar com três dias de silêncio, privando Portugal da minha sagacidade. Vão lendo este poderoso título, referenciado aqui em cima, que eu não demoro muito.
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