sexta-feira, 16 de março de 2012

«Não facem ondas», diz-se na Nazaré, segundo dizem.


Ainda antes do Álvaro Santos Pereira atingir o problema central da sua existência enquanto ser humano que é, o que dada a humilhação a que ele próprio se tem submetido pelo exercício impúdico da sua falta de inteligência e manifesta desilegância congénita, não levará muito tempo a ocorrer, em verdade vos digo que o Xandão não tomará banho no balneário do Sporting sem que o Sá Pinto conheça a divina câmara do insucesso. Isto não quer dizer que Sá Pinto não tenha potencial, antes pelo contrário, quer apenas sugerir que como Sheley bem notou na sua defesa da poesia, o doce prazer que retiramos da mágoa - e da derrota - é bem mais profundo e gratificante do que aquele que retiramos da vitória. Parece que até o Antigo Testamento já dizia: mais vale frequentar a casa enlutada do que a casa onde há banquete. Naturalmente não estou apenas a falar para adeptos do Sporting, mas para todo aquele que ainda não lavou as suas próprias cuecas.

Se não têm o que fazer, leiam Rosseau, caralho.

Uma das mais importantes decisões de política cultural do meu governo de sonho seria obrigar cada pessoa que pronunciasse, com objectivos jocosos, a expressão «o bom selvagem» a enfiar uma banana no cu* e estou a lembrar-me, a título de exemplo, de Nuno Crato, que escreveu um livro absurdo denegrindo a memória de um dos mais ilustres botânicos do século XVIII apenas com o intuito de dizer que a escola portuguesa é uma merda e que os professores encaram cada aluno como «um bom selvagem»: cá está, era banana certinha. Claro que os custos de aplicar esta política seriam altíssimos porque não só seria obrigatório policiar o cumprimento da pena - que seria repetidas vezes aplicada, não tenho a mais pequena dúvida - como a curva de procura de bananas sofreria uma deslocação tão veloz e significativa que não seria de estranhar ver, na televisão, o panaleiro do arquitecto Ribeiro Telles com diversos planos para o cultivo de bananeiras nos jardins Gulbenkian.
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Vem isto a propósito de um ensaio do Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba que hoje, no Público, ensaia uma tentativa de nos explicar não se percebe exactamente o quê, uma vez que à boa maneira dos franceses - que Lomba não aprecia - e ao contrário dos ingleses - por quem Lomba se baba - o autor não introduz o leitor no que vai fazer, não relaciona o assunto com qualquer tradição ou debate intelectual e nem uma pobrezita conclusão nos ilucida sobre a razão de preencher duas folhas de um jornal de referência com uma cagadela de referência sobre os mecanismos constitucionais do semi-presidencialismo. Ora, apesar de Lomba não o referir explicitamente, a perversidade do seu raciocínio é clara: as pessoas querem é malandragem porque como Rosseau perversamente viu e recomendou, somos todos muitos bonzinhos e o camandro - cá está, era bananinha sem espinhas - e por isso, esta merda do semipresidencialismo funciona mal já que em vez de termos governo com chicote na mão, anda tudo a governar para a popularidade, isto é, as sondagens.
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Enfim, não vou perder tempo com as complexas relações entre populismo, popularidade e governo do povo, porque sabemos que Lomba está completamente perdido quando se refere ao problema com as seguintes palavras: «Com 35 de anos de prática já vai sendo tempo de avaliarmos como é que a coisa tem funcionado». Isto é, a necessidade de análise decorre do tempo, o que é um argumento de caserna ou de sacristia: como chegou o tempo, toca a marchar ou a ajoelhar. E o que resolve fazer o intelectual Lomba para enfrentar este desafio titânico? Afirma que para entender a «geometria instável» da falácia representativa «temos de recuar às origens». Motivos de força maior impedem a escalpelização que o Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba mereceriam, pelo que, num esforço económico de grande alcance, fico apenas por uma simples identificação dos erros mais grosseiros.Lomba aventura-se num exercício historico-político na boa tradição mais que bolorenta do pensamento jurídico, confundido legitimidade com antiguidade e eficácia com tradição. Mas isto não seria grave se não existisse aqui um problema mais profundo e de consequência mais nocivas. É que Lomba supreende-se, depois de duas páginas de revisitação a figuras tão monstruosas como Sá Carneiro, Ramalho Eanes ou Aníbal Cavaco Silva - foda-se - com o facto do semipresidencialismo ser para nós o regime das sondagens. Extraordinário!
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Um professor doutor e o caralho, que consagra toda a sua vida ao Direito Constitucional, consegue elaborar sobre a arquitectura institucional do sistema político supreendendo-se com o facto de uma democracia utilizar mecanismos de sondagem de opinião para avaliar o que pensam as pessoas sobre quem as govenra, e consegue não mencionar uma única vez um problema que Rosseau já tinha visto, enquanto fazia filhos, entrava para a história da literatura, copiava partituras musicais, partia os dentes a fugir de uma carroça, estreava óperas na Corte francesa, e coçava os tomates na estrada de Vincennes; a saber, que a representação constitucional é uma anedota tão fulgurantemente mal contada que só quem está a dormir é que não entende que a democracia não pode funcionar sem «cenas de choque», «deslealdade» ou «manobras para prejudicar o outro» isto para utilizar terminologia cara ao Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba. Mas se quisermos ser mais rigorosos diremos que Rosseau já tinha entendido - e publicado de forma explícita - que a democracia é uma tentativa absurda e canhestra de mecanizar as complexas relações de conflito entre indivíduo e sociedade através do brinquedo estragado da ligação entre representante e os representados. E mais: mesmo dando de barato que Lomba é ignorante - o que não constitui uma originalidade - tinha pelo menos obrigação de saber que em qualquer sociedade que hoje coabite com sistemas de comunicação modernos, mesmo em algumas ditaduras, aí reinará, imperetrivelmente, um «império das sondagens».
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Em suma, o que continua a ser lamentável neste nosso mundo - e eu não me canso de o repetir -, é que a especialização científica - que nos saberes ditos naturais tem a abençoada presença da física e da matemática - se reveste nas humanidades da mais violenta boçalidade, pois não há o mínimo esforço para compreender um problema segundo a sua estrutura funcional e não de acordo com o que o dito problema revela perante o nosso senso comum, e isto porque as humanidades estão convencidas de que tratam matéria mais humana do que a Física ou a Matemática, disciplinas que há muito aceitaram a positiva derrota da limitação de todo o conhecimento. Se o Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba fosse menos ambicioso, e em vez de tentar avaliar o funcionamento da coisa, recuasse até à utilidade da coisa, se, no fundo, fosse menos cientista e mais jurista, teria provavelmente mais probabilidade de, sendo um bom jurista, se aproximar da ciência que é a sua, em vez de fazer de conta que fala de geometria, e depois bolsar conceitos deduzidos da mais mal cheirosa retórica jurídico-política, chegando mesmo a chamar Jorge Sampaio intelectual, o que penso ser uma tentativa de insulto, e diz bem do tipo de argumentação política que os pseudo-hobesianos tiram do bolso a cada tentativa de raciocionar.
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Jean-Jacques Rosseau, meu cabrão, que falta nos fazes.

* Quero agradecer esta recomendação a Maradona que a tinha sugerido como pena específica ao josé Manuel Fernandes, mas que utilizo aqui com intuitos mais generosos e abrangentes.

Aguenta coração disse um dia um cantor foleiro

Depois do jogo de ontem, lembrei-me do que li há dias:

«O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor»

e mais não é preciso dizer. obrigado alf por teres mostrado o texto.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A propósito do evento desportivo em Manchester

Jogou mais futebol o Pereirinha sentado com o cú no relvado do que o Baloteli e o Aguero a correrem os 90 mais 5 minutos. Agora com licença que tenho que ir dar o biberão à minha garota.

Dei-te o melhor de mim, mas tu fodeste-me na mesma

Porque razão inquirirem-se sobre a minha origem? Como a das folhas, assim são as humanas gerações. Para o chão as lança o vento, mas a fecunda floresta a outras dará nascença, e a primaveril estação logo regressa; assim também a raça dos humanos nasce e vai passando Ilíada

Ontem, hipnotizado pelo padrão especialmente rebuscado de uma toalha branca de linho, e envolvido na melancólica estupefacção que nos atinge durante um almoço de fim de Inverno, sobretudo se, para nos furtarmos à sorte de Guy Debord, vamos evitando as doenças que o vinho sempre traz, fui despertado, subito - como dizem os italianos, isto é, rapidamente - por uma pessoa licenciada em filosofia que, a dado momento, me colocou a seguinte e pertinente questão: o que é um livro de sucesso? Naturalmente, tendo eu lido todo o Guy Debord antes dos 14 anos, devorado o impressionismo mediático de Lipovetsky, antes dos 16, e estando já pelos 19 num tal estado de náusea psicológica que não suportava Deleuze ou Walter Benjamim - juntamente com Agamben duas das maiores fraudes de todos os tempos - senti uma certa tendência, até pelo facto do Benfica ter reentrado na luta pelo título, para me refugiar numa decomposição das várias camadas arqueológicas implícitas no conceito de «sucesso». Mas não fui por aí, pois, apesar de muitos erros, má fortuna, amor ardente, assimilei Aristóteles e matemática suficiente para não me perder com mariquices. Não fui por ali, nem por qualquer outro lado, e fiquei antes a pensar naquilo, que é a melhor coisa que podemos fazer quando nos colocam uma pergunta para a qual não temos uma resposta satisfatória.

A julgar pelo top de vendas da Bertrand, tudo vai bem em Portugal. Contudo, não vou mergulhar no costume marreta de pintar com tintas escuras as forças de mercado, mesmo que ninguém possa dizer o que isso seja. Nem sequer Christopher Pissarides, pelo facto de ter decomposto os fundamentos micro-económicos da dinâmica de curto-prazo Keyneseana e Neo-clássica, conseguiu esclarecer totalmente como o nosso conhecmento imperfeito, dos salários e do preço do trabalho, concorre para manter em desiquilibrio, um sistema que permite demasiado desemprego involuntário, e digo isto só para verem que não ando aqui a brincar. Na verdade, a lista que se segue, longe de implicar qualquer decadência das humanidades, das hierarquias sociais ou da qualidade do intelecto dos pretugueses, revela apenas que a dita cultura padece dos mesmos problemas do mercado dos combustíveis - conhecimento imperfeito, ou na forma mais Manuel Luís Goucheana de dizer o real: a cultura padece de burrice.

1- Ágape", Padre Marcelo Rossi
2- "O Espião Improvável", Daniel Silva
3 - "Últimas Notícias do Sul", Luis Sepúlveda
4 -"O Cavaleiro de Olivença", João Paulo de Oliveira e Costa (eh, eh, eh, eh, uh, uh, uh)
5- "O Céu Existe Mesmo", Todd Burpo
6 -"Uma Fazenda em África", João Pedro Marques
7 -"A DívidaDura", Franscisco Louçã (ah, ah, ah, ah, ah, ah)
8-"O Último Segredo", José Rodrigues dos Santos
9-"Dei-te o Melhor de Mim", Nicholas Sparks (ui)
10- "Ainda Sonho Contigo", Fannie Flagg (uiiiiiiiii)

Qual será a misteriosa penetração do espírito divino, entrando com suavidade na lama bruta da nossa condição, capaz de explicar porque razão as santas pessoas que compram o livro do Padre Marcelo Rossi compram, na verdade, o livro do Padre Marcelo Rossi? Poderíamos tentar responder que: tendo as pessoas um conhecimento limitado das suas preferências, e informação ainda mais limitada, sobre a forma como as suas preferências se relacionam com os benefícios de um produto que não conhecem, e para agravar tudo isto, sendo as pessoas totalmente ignorantes do valor relativo destes produtos, por uma olímpica ignorância do que o mercado tem para oferecer a mais baixo custo (Moby Dick ou O Barão Trepador custam menos do que quase todos estes títulos) as pessoas convencem-se de que estão extactamente a comprar aquilo que a sua soberana capacidade de julgar a realidade lhes diz que é o melhor para elas, naquele ponto específico e irrepetível da sua existência num altamente complexo conjunto de cruzamentos e bifurcações, padrão de possibilidades que constitui o ilusório e sempre animado mundo dos desejos e das suas satisfações. Todavia, não vamos responder desta forma. Vamos responder de uma outra maneira, totalmente diversa.

As pessoas compram o livro do padre Marcelo Rossi porque a informação altamente eficiente contida na capa do livro revela que as pessoas tendem a comprar (e compram) repetidamente o livro do Padre Marcelo Rossi. E se as pessoas compram esse livro é porque deve ser bom, de outro modo, as pessoas não o comprariam, tautologia que não deixa de relevar uma parte importante da verdade. Mas o livro do Padre Marcelo Rossi é bom exactamente em quê? Aqui é que a porca torce o rabo, como bem sabem todas as pessoas que já tentaram apertar móveis do Ikea sem ferramentas apropriadas.

O livro do Padre Marcelo Rossi cumpre um desejo e uma carência de um significativo conjunto de seres humanos - desejos e carências que não vou tentar descodificar, da mesma maneira que não costumo procurar sentidos ocultos nos desejos das pessoas que em vez de comprarem Ferraris, compram Fiates Punto. Logicamente, a literatura cómico-sociológica fala aqui de distinção ou na forma mais hilariantemente obscura - símbolo. Mas quem lê Joyce, que outra coisa pretende senão um símbolo bem dourado e legível na lapela do seu casaco? O que é curioso é dar conta da dificuldade que existe, numa grande parte dos sistemas nervosos, em percepcionar que o livro de Rossi, ou o maravilhoso «Dei-te o melhor de mim», de Sparks, são percepcionados como Ferraris e não como triciclos sem rodas, e aqui reside o ponto que gostaria de sublinhar neste dia em que o céu celebra a minha vinda ao mundo com uma magnífica trovoada.

Com efeito, a culpa de as pessoas burras percepcionarem um livro intitulado «Dei-te o melhor de mim» como um Ferrari e, por sua vez, olharem para «Moby-Dick» como um skate de plástico, deve-se a toda uma mitologia de relativismo democrático, que Walter Benjamim, e outros, pensaram dever-se à industrialização e massificação da arte, cometendo o habitual erro marxista - que eu tantas vezes gosto de cometer - confundido a causa com o efeito. Ninguém viu isto tão bem como Nietzsche, um filósofo que por conhecer os gregos tão bem como a amplitude do seu bigode, estava paneleiro de saber que a democracia industrial, no seu esforço para dotar a vida das classes baixas de conforto, traz no plano da cultura - e aqui não há distinção entre arte ou parafusos - uma fatura pesada, que consiste na dificuldade que os melhores e mais geniais sofrem para não se afogar num mar de pessoas como o walter hugo mãe. Toda a gente já experimentou este problema quando se tratava de escolher uma equipa de futebol competitiva e o professor obrigava a incluir as raparigas. Na verdade, o desejo de igualdade e libertação redundou na mediania constituída pelo desejo da maioria - e a indústria é consequência e não causa, caralhos me fodam -, bem como na desorientação sobre a objectividade dos mecanismos retóricos - que podem ser tão rigorosamente analisados na sua potência como um motor - para não falar da metafísica da complicação que escritores ridículos como Faulkner ou Virgínia Woolf vieram introduzir na estrutura mental dos produtores de ideias. Assim, na maravilhosa tendência democrática do mercado do livro, foram as elites a enterrar a espada no seu próprio coração, ao destruírem uma hierarquização da cultura baseada nos mecanismos clássicos, numa tentativa desesperada para combater o sucesso de livros bons, mas portadores de ideais democráticos, como Moby Dick, ou mesmo Ulisses, livros que, curiosamente, venderam sempre muito pouco.

Um livro de sucesso é um livro que leva menos tempo a morrer, um livro que sobrevive tanto aos Walteres Benjamim como aos walteres hugos mãe, e eu apostaria dois dedos da minha mão esquerda, ou um dos testículos (mas só o entrego depois dos 90 anos) em como desta lista aqui em cima, nenhum livro sobreviverá ao ano 2014. Um livro de sucesso é um livro como a Ilíada, uma cuspidela de raiva, de refulgente claridade, coberto de sal e duro como pedra, limpo de fulgurante beleza, um livro que sobreviveu ao rolo manuscrito, ao pergaminho, ao incunábulo, ao impresso, ao computador e vai sobreviver espectacularmente tanto ao Ferrari como à tabulete, coisas que, como toda a gente com cabeça sabe, mais parecem concebidas por um macaco do que por uma inteligência humana, mesmo que esta, a inteligência humana, não seja muito mais do que uma espécie de macaco, mas em Ferrari.
Um livro de sucesso é um livro que diz a verdade e não tem medo de ninguém, nem do seu próprio fracasso.

terça-feira, 13 de março de 2012

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Como é do domínio público, as bibliotecas universitárias em Portugal são insuportavelmente silenciosas, ao contrário dos nossos incrivelmente elegantes centros comerciais que são espantosamente barulhentos, e na medida em que isto é verdade, e desse facto dou testemunho, vi-me obrigado a ler e a anotar The Stones of Venice, de John Ruskin, numa esplendorosa mesa de mármore negro colocada involuntariamente para esse efeito, num democrático estabelecimento da Macdonald's, a mais importante realização comercial do homem depois da espingarda de repetição. Mas a dado momento, vários pré-adolescentes, enquanto trincavam estridentemente o alimento do seu espírito e se insultavam com vitalidade e cortesia, começaram a evidenciar comportamentos histéricos e temi que a Alemanha tivesse finalmente desembarcado na doca de Santos, com a sua retórica forjada em aço e os seus oficiais louros, cobertos por longas gabardines de napa preta. No entanto, era só a Daniela da «Casa dos segredos», conforme consegui apurar, interrogando violentamente, entre estaladas, uma adolescente que não conseguia travar repetidos guinchos de sofrimento e êxtase, contorcendo-se espasmodicamente com revoluteios de fazer inveja a Bernini. Enquanto esta horda de trabalhadores mal-remunerados a curto-prazo se precipitava para os ombros de Daniela, uma espécie de Ruud Gullit mas em natural de Chelas, não consegui evitar que me rodeassem a mesa, pois treparam cadeiras e sofás, qual matilha de cães raivosos, como se não houvesse amanhã, e tudo isto sob o olhar impassível das esteticistas que respondiam pelo nome de professoras, chegando mesmo uma das hediondas criaturas a tocar, com os pés imundos, a minha edição de The Last Leopard. Vai daí, resolvi retaliar com três dias de silêncio, privando Portugal da minha sagacidade. Vão lendo este poderoso título, referenciado aqui em cima, que eu não demoro muito.

Resumo da humanidade


há sempre alguém que nos morde o cu

sexta-feira, 9 de março de 2012

Nova teoria da reprodução das relações de produção

Como levaria muito tempo a justificar porque razão não tenho o mais pequeno interesse no conflito israelo-palestiniano, e além disso, a maioria dos leitores não está familiarizado com a terminologia da advanced macroeconomics, fico-me por uma singela pergunta e respectiva especulação argumentativa ou tentativa de resposta.
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A julgar pelos estilhaços publicados pela autora, Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, ao longo destes últimos anos no jornal Público, quanto vai uma aposta que este livro é uma grandessíssima merda?
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Na verdade, vai por aí uma gigantesca feira de argumentos estéticos, roubados por hábeis ciganos de camisa preta, em frias madrugadas violeta, às mais contrafeitas e avulsas teorias do romance, e depois transportados à pressa em carrinhas brancas igualmente furtadas, argumentos saltitantes entre calças de sarja, camisas de flanela xadrez e sandálias douradas; de modo que a discussão literária chega ao comércio legítimo interpretada por conceitos já tão manuseados por tudo quanto é ganso patudo mediático, que o pobre espectador da vida portuguesa é obrigado a franzir o sobrolho e a tamborilar os dedos, ao descobrir que se encontra capturado no interior de um romance de José Rodrigues dos Santos. Ainda há bem pouco tempo, a parva da Hélia Correia, que afirma ter um problema com a luz do sol - mas insiste em permanecer num país onde há 9 a 10 meses, em cada ano, de uma sistemática e possante luz branca-incandescente - justificava a merda de livros que insiste em publicar com o facto de apenas escrever quando chove. Já Miguel Sousa Tavares, enquanto procurava não ser tocado pelo incrivelmente larilas Daniel Oliveira, invocava uma especial relação de cumplicidade com um casaco de malha, artefacto que, segundo afirmou, «o inspira». E agora, sem apelo nem agravo, um romance de Alexadra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, versando o amor proibido entre um belga e uma catalã, perpetrado em plena faixa de Gaza, e protagonizado por pessoas que não só não nutrem qualquer instinto assassino como ainda fazem o favor de manter as duas pernas, os dois barços e os dez dedos das mãos. Mas que interesse pode ter isto? A autora defende-se, dizendo que hesitou em publicar o romance e que ainda não descobriu de todo a sua forma de romance, e assim, o pobre espectador da vida portuguesa fica sem entender porque razão foi dado a lume (bela expressão) pela Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, esta preciosa obra que hesitou em publicar: foda-se, mas o que é esta merda? Uma conspiração contra o bom senso? Uma tentativa de me encurtar a existência? Um ataque aos mais sagrados princípios da liberdade de expressão? Terrorismo intelectual?
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A autora de «e roda a noite» confessa hoje em entrevista ao suplemento psiquiátrico do Público que pretendeu trabalhar sobre a construção da realidade e diz que Ana Blau é ela mas não é ela, uma vez que «e roda a noite» é uma «manta de bilros» - isto digo eu, citando São José Almeida - em que concorrem aspectos autobiográficos e os sempiternos impulsos imaginativos da ficção, em que, alegadamente, o romance, com a sua puta capacidade de abrir as pernas a todos os factos da vida, desempenha um papel de primeiro plano e se vê obrigado a entretecer (sic) todos estes estilhaços da vida de Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Coelho, onde avultam coisas tão decisivas como a falta de sensibilidade autêntica, a ausência de reflexão sólida e leitura extensa - o tempo, como bem sabem os economistas neoclássicos é o recurso mais escasso - uma escabrosa ascensão determinada por cunha familiar, uma total incapacidade de desenvolver um sentido crítico sobre a própria história do romance, uma completa esterilidade metafórica, etc, etc, etc, etc, etc, e mais bilros.
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Como diz Fernando António Nogueira Pessoa, quando alguém escreve um poema, convém que se note que existiu Homero. No caso de Alexandra Jacinto do Eduardo Prado Lucas Colheo, apenas se nota que existiu muita coisa para fazer mas nenhuma dessas coisas teve a mais pequena relação com a leitura, o pensamento e a escrita. E isto, caros leitores (cumprimentos à desaparecida Alma) é uma coisa que me entristece. Juro, desde a ponta dos pés até às minhas serpenteantes pupilas, e por todo este nosso imenso Portugal onde a aristocracia continua a reinar, que isto me entristece profundamente. Profundamente.
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Portugal: aquele país onde ser filho de um electricista e de uma costureira (que acabou a sua fulgurante carreira a limpar o cu a generais dementes, após duas décadas de salários baixos na agora tão saudosa indústria têxtil) tem como corolário inevitável: a) o alcoolismo acéfalo; b) a imbecilidade crónica; c) a lobotomia intelectual motivada por auto-protecção; d) o ressentimento-diamante incrustrado em fracassos de ouro.
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O sub-conjunto d) é o grupo onde, como é bom de ver, se insere o lamentável autor deste post.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Nova teoria do suor de raça negra

É com um profundo sentimento de pesar e uma sincera tristeza a balançar no fundo da mente que vou proceder a um insulto de Miguel Real: foda-se, caralho, cona da tia. Então não é que um gajo licenciado em Filosofia e autor de mais de 3 milhões de títulos sobre cultura portuguesa, capaz de equilibrar na ponta do nariz cursos sobre o romance português no século XX (estará por aí o ilustre comentador AM?) e inúmeras recensões-lambidelas a livros tão ingurgitáveis (palavra que aprendi com Rubem Fonseca, essa merda de autor), dizia eu, capaz de lambidelas a livros tão ingurgitáveis como os de Patrícia Reis, não é que, dizia eu, Miguel Real resolveu publicar, resolveu mesmo publicar, uma nova teoria do mal? Ouviram bem: uma nova teoria do mal. Partindo do príncípio de que existia uma velha teoria do mal nas ideias assimiladas por Miguel Real, o que duvido, uma vez que o livro não tem sombra de cultura científica e nada se encontra por ali de significativo (e bastaria, a título de exemplo, ter lido a literatura de divulgação de Konrad Lorenz) o livro de Miguel Real não pode passar sem um tremendo «caralhos me fodam». A verdade é que, devo confessar, não passei da página 20 e passo a explicar porquê.


a) há alguns anos que estabeleci como aferidor da qualidade de qualquer trabalho filosófico a capacidade do seu autor ultrapassar as primeiras vinte páginas sem recorrer ao argumento relaxado de comparar os seus adversários a qualquer dos vários e numerosos oficiais nazis à disposição, pessoas que por acaso, por um simples acaso que não quero aqui analisar, nasceram na Alemanha, pátria contemporânea da filosofia; b) não suporto a hipocrisia de alusões ao suor de pessoas de raça negra que lavam retretes em centros comerciais, pela simples razão de que ou o autor dessas alusões nunca beneficiou dos serviços, mal pagos, oferecidos por indivíduos de raça negra, ou o autor trocou toda a sua fortuna para se dedicar a ensinar os homens a serem pescadores de homens e nesse sentido não restaria tempo ao autor para elaborar novas teorias do mal: ou seja, em qualquer dos casos, a alusão redunda numa ausência de verticalidade mais conhecida por canalhice intelectual. E passo a explicar a explicação.

Miguel Real não consegue ultrapassar a página 20 sem uma comparação completamente imbecil entre uma decisão de Paulo Macedo sobre a política cirúrgica dos hospitais públicos e a banalidade dos campos de concentração. Caro Miguel: do fundo do coração, um pouco mais de calma. Se é verdade que chamar filho da puta ao Manuel Forjaz pode ser considerado um destempero, o que dizer desta comparação entre Paulo Macedo e Adolf Eichmann?


Em segundo lugar, preocupa-me esta alusão a pessoas de raça negra que, alegadamente, partilham a linha suburbana de Sintra com o ilustre filósofo e cujo cheiro o ilustre filósofo diz ser objecto de contemplação estética, no mesmo momento em que se revela desgostoso por não poder replicar as camisas suadas nas páginas que deu a público, porque, nas próprias palavras do autor, se o tivesse conseguido fazer, essa duplicação do cheiro a suor, tornaria o livro inútil e a sua mediação desnecessária, pois o leitor teria directamente acesso às camisas encharcadas em catinga e já não precisaria de pensar sobre uma nova teoria do mal. Foda-se, caralhos me fodam, cona da tia. Caro Miguel: do fundo do coração, e aqui entre nós, um pouco mais de inteligência. Se Miguel Real se preocupasse minimamente com essas pessoas, não só não seria o Miguel Real, como em vez de redigir livros de merda, meteria conversa com essas mulheres suadas e trabalhadoras e aprenderia mais sobre a vida, o mundo, o afecto, o sacríficio, a ironia, e até a lavagem de retretes, tudo coisas bastante mais relevantes do que digitar mediocridades no seu portátil. Julgo que não será necessário elaborar muito mais sobre este ponto.


Por outro lado, devo dizer que é fácil replicar esse suor, basta Miguel Real dedicar-se a trabalhar, uma vez que o referido suor não será muito diferente do seu, apenas é muito mais mal pago. Ou Miguel real está convencido de que o que faz é muito melhor do que limpar retretes? Eu - e esse é o meu grandíssimo problema - não tenho tanta certeza sobre o facto da minha vida não ser uma grande retrete a precisar de limpeza. Com efeito, o facto de o suor referido resultar da lavagem das retretes por mulheres negras, constitui um problema político e económico que implica entrar num labirinto onde habita um touro (o discurso mistificado da economia neo-clássica) cujos cornos assustam de tal forma Miguel Real que este (totalmente ignorante da matemática e da lógica) se vê obrigado a ir esconder-se, bem quentinho, por trás das rudes tábuas da camaradagem étnica e da teoria avulsamente pós-moderna.


Deixo-vos com um excerto da recensão de S. José Almeida sobre esta Nova Teoria do Mal, onde se pode constatar de forma hilariante a indignação moral contra «os políticos que governam Portugal há trinta anos» - eleitos por marcianos guiados por Adolf Eichmann - uma crítica almejada em papel reciclado e publicado pela «D. Quixote/Leya» uma instituição eleita democraticamente e sem qualquer responsabilidade no governo Portugal, deus seja louvado, hossana, aleluia, aleluia. Imprimam em papel mole e leiam, porque se o papel for duro - e para citar um médico anónimo - nem para limpar o cu serve.

A Nova Teoria do Mal, editado pela D. Quixote/Leya (eh, eh, eh, eh), é também surpreendentemente um livro de paradoxos. Por um lado, prospectiva o futuro e analisa e sistematiza o passado da Europa de um ponto de vista filosófico, histórico, científico, racional, estudado (prolongado riso de Alf), reflectido, amadurecido, feito como uma renda de bilros ou como um mecanismo de um relógio (como?). Por outro lado, é um grito de desespero, uma rejeição visceral do statu quo (eh, eh, eh, eh), um vómito de recusa de uma forma de gerir a sociedade, uma opção angustiada de corte com o mundo (ui, ui), de recusa de país, de redução assumida a cidadão de Sintra.
(...) E acusa: “Não são políticos os nossos governantes de hoje, mas economistas (os falsos profetas do século XXI)
(falsos profetas? eh, eh, eh, eh, uh, uh, ah, ah,ah) técnicos, robots substituíveis uns pelos outros (e os robots? Não são cultura?), possuindo o mesmo vocabulário, aplicando invariavelmente o argumento da eficiência de custos e proveitos, totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade.” (p. 18/19)

(eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, risos, risos, risos, risos)


Uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade? Foda-se, caralhos me fodam, cona da tia.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Notícia de última hora: José Luís Peixoto explica finalmente porque é que os seus livros são péssimos


Quando navegava, serenamente, em busca de notícias sobre o reino das duas Sicílias no século XVII, deparei-me com uma das confissões mais extrardinárias dos últimos séculos: o brilhante e aclamado escritor, José Luís Peixoto, publicado pela Einaudi em Itália, a editora de Calvino (aqui lembro os shakespereanos quarenta invernos que nos cobrem a face, deixando triunfar todos os medíocres) explica finalmente porque razão os seus livros são uma tremenda confusão entre a banalidade e a realização arítistica. Vejamos.


É desta forma clara e notavelmente directa que José Luís Peixoto, cansado de ser mal intrepretado, decidiu, finalmente, revelar como o amor burguês está no coração do seu enorme sucesso, explicitando a origem da gigantesca confusão mental em que incorreram , por qualquer ingrato motivo, todos os indivíduos que, inexplicalmente, o apreciam.

Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe.
Ou seja, quando nos afastamos de um dado problema para o pensar mais correctamente, ponderando todos os pontos de vista da questão, fazendo rodar o observador e não o objecto, como Kant recomendava na introdução à primeira edição da Crítica da Razão Pura, há a possibilidade de incorrermos num excesso de etiqueta, uma vez que fechando os olhos à inteligência, e esquecendo que somos dotados de um cérebro, conseguiremos triunfantemente confundir o nosso sentido crítico com as nossas próprias dúvidas, e poderemos todos resfolegar, eternamente, como o porco na lama, sem nunca nos depararmos com o mais pequeno vestígio de erro, culpa ou remorso, porque, gloriosos e infalíveis juízes do nosso próprio processo, ganharemos esplendorosamente em toda a linha. É, pois, com tremenda elegância que vemos Peixoto lançar-se na desmontagem dos mecanismos que têm levado as pessoas a apreciar o seu discurso larilas. Com efeito, o seu discurso é um espelho da mediocridade, capaz de amplificar o quotidiano sem contudo exercer qualquer crítica ou juízo sobre a banalidade e, na melhor das tradições jornalísticas, satisfaz o desejo mórbido das massas, confusas com a importância da actualidade, e incapazes de elevarem o seu entendimento, sedentas de orientação ou sentido, qualquer que ele seja, a troco de uns minutos de paz e sossego mental. No entanto, tenho uma má notícia para as massas: não só a repetição banal da realidade não justifica a sujidade da nossa vida, como a experiência estética, e o prazer daí resultante, não dependem de uma confusão entre o que apreciamos e o que não exige esforço, pois, no amor, como na poesia, como na marcação de pontapés da marca da grande penalidade, o prémio está sobretudo no esforço e na fruição do acto - não nos seus resultados - e por isso, qualquer anestesia, ou encurtamento do exercício de viver, ou de criar, não nos devolverá em dobro a fruição desse exercício de viver. Como já estavam cansados de saber os romanos, a beatitudade não é o prémio da virtude mas a própria virtude, e por isso, quanto mais esforço crítico e auto-reflexivo colocarmos na realização da nossa vida, tentando separar a experiência do exercício crítico sobre a experiência, mais obteremos uma posição imparcial em relação aos pequenos dramas do quotidiano. Será isso garantia de prazer? Não. Mas alcançaremos dessa forma uma superioridade moral, e um ponto de vista tão abrangente que nos permitirá realizar uma leitura estética do mundo, digna do sacríficio que está implícita na sua comunicação e capaz de atrair a atenção dos outros? Sim, e é precisamente este processo de distanciamento crítico da realidade que tem produzido vozes como a de Shakespeare ou Proust, capazes de refundar a banalidade do quotidiano, sobreviver às caixas de supermercado, bem como às toneladas de Josés Luíses Peixotos que teimam em dizer-nos que está tudo muito bem assim, que não é preciso reconfigurar nada, e que podemos continuar enlameados na replicação da banalidade, do trivial, do acaso, em suma, que podemos continuar afogados na desordem.



Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.
Não sei como José Luís Peixoto costuma lavar os dentes mas eu não gosto de o fazer acompanhado, porque, desde muito novo, a única coisa que resgitei após décadas de missa (e sucessivos bombardeamentos de sabedoria, sobre a minha cabeça, por parte da ancestral Santa Madre Igreja, artilhada pelo martírio anónimo de resmas e resmas de celibatários com mais noites de cama do que o Cristiano Ronaldo) é que não há nada como o pudor e o recato para servir de intensificador do erotismo na vida de um casal

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma.
Aqui tenho que prevenir o caro leitor, pois esta é a única frase do brilhante artigo que não posso subescrever, pois a conclusão implícita nas premissas, depende da pessoa. Consideremos as várias hipóteses: a) o nosso pin está na posse do Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva - enfim, não é grave, embora não se possa dormir tranquilamente, pelo menos até ser colocada uma mensagem tranquilizadora no site da Presidência; b) o nosso pin está na posse de Vitor Gaspar - é preocupante mas não há razão para pânico, uma vez que podemos tomar rapidamente todas as medidas de segurança, recomendadas pela instituição bancária, antes de Vítor Gaspar conseguir digitar o código na totalidade; c) o nosso pin está na posse de José Socrates - esquece, já foste; d) o nosso pin está na posse de um delinquente da Brandoa - é preocupante, mas um telefonema ao José Luís Peixoto ainda pode evitar males maiores, desde que o escritor não esteja a lavar os dentes e se negue a colaborar com a polícia.

Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.


Na verdade, é incompreensível que ninguém cante a tranquilidade do quotidiano. Contudo, do alto da minha espectacular incapacidade de lavar os dentes em conjunto, tenho, inacreditavelmente, uma singela explicação. É que um obscuro escritor baptizado numa ilha filha da puta com o nome de James Joyce, já o fez, num dos livros mais lidos, traduzidos e estudados no último século, e fê-lo com tal eloquência e estrondo que a sua canção não se tem cansado de ecoar nas cabeças dos críticos e escritores, de tal modo, que se revela capaz de atravessar as grossas paredes da estupidez e chegar, em terceira mão, a analfabetos que apenas dela tiveram notícia por um murmúrio muito longinquo, mas ainda suficientemente vivo para lhes suscitar um formigueiro confuso na cabeça. De qualquer modo, é inteiramente justificável que, abandonando a perspectiva de quem olha de longe, para o estúpido casal a arrumar as suas compras de merda, num irritantemente funcional tapete rolante, impecavelmente manipulado pelas unhas rouge da quase sempre muito atraente rapariga da caixa, se mergulhe numa surdez intelectual, e de tal forma implacável que nem o rugido do elefante seria capaz de produzir qualquer estímulo auditivo.


As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.


Pronto. Este é o momento mais comovente de todo o texto e confesso que uma lágrima opalina rolou na cera insensível da minha face, porque José Luís Peixoto está embalado e nota-se que vai mesmo proferir a frase mais brilhante da sua carreira - «na mesinha em frente do sofá, onde se amontoam os nossos telémoveis, as chaves de casa e as embalagens vazias de iogurte, ali mesmo, junto ao livro, A yoga em sete lições, edição especial para pessoas com deficiência na fala, está um livro do José Luís Peixoto, e para o nível de confusão mental e desorientação em que estamos, qualquer merda serve». No entanto, qualquer coisa relacionado com uma humildade muito provinciana e verdadeira, impediu o famoso escritor de se auto-promover. E nós achamos bem.


Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas.

Não sei, não sei. A falta de amor também pode ser ter de atravessar sozinho uma crónica do José Luís Peixoto, e, no entanto, de lágrimas nos olhos e a barriga contorcida de riso, aqui estou, hercúleo, olímpico, glorioso, sem pestanejar, enfrentando a morte perante o perigo de sufocar no meu próprio riso, porque julgo que a sinceridade do escritor, e a raridade do momento, assim o exigem.

Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.


Uma torre de formas aleatórias é um conceito que me ultrapassa e por isso, aqui, tal como diante da obra de Frank Gerhy, tenho que suspender o meu raciocínio, mas é indiscutível que por vezes não é preciso carro ou cesto, sobretudo quando vamos em busca de uma embalagem para aquecer no micro-ondas porque não sabemos um caralho de cozinha, acampados na convicção de que a mulher iria confeccionar, et in secula seculorum, a preciosa refeição, ou, na pior das hipóteses, viviamos na dependência das competências parentais, ou ainda, na hipótese que atinge níveis insuportáveis de decadência, recebiamos o alimento devido a serviços prestados pela sogra. Não admira que aquela cena do casal tenha corrido pelo pior e a mulher do Peixoto se tenha posto a milhas: aturar livros maus, as gajas ainda aturam, agora, com franqueza, esperar da mulher refeições diárias, depois da invenção da pílula e do soutien, isso ninguém canta, porque, deus nosso senhor seja louvado, ou já nao há ou está em vias de não haver.


Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.


Aqui não percebo: um gajo pode querer fugir do sofá e não ter necessariamente que mergulhar na chuva. Eu por exemplo costumo jogar à bola num pavilhão coberto, piso federado, balneários com água quente, tudo isto pela módica quantia de 3 euros semanais. Mas há o cinema, o café, a casa dos amigos, o teatro, as bibliotecas universitárias, a igreja, etc, etc, etc.


E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória. Nós acreditávamos. Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.


Também não é preciso cair neste nível de auto-punição pelo simples facto de termos constatado que estamos, de uma vez para sempre, sozinhos neste mundo confuso, onde nem a fama, nem o dinheiro, nem as paletes de livros publicados, onde figura estampado o nosso pobre nome, nem as embalagens para aquecer no micro-ondas, nem sequer Nosso Senhor Jesus Cristo, nos podem salvar de cair no ridículo. Eu diria, não sei se para consolo do José Luís Peixoto, mas certamente para tranquilidade das massas que não publicam crónicas ou livros, que, apesar de tudo, é melhor engordar sozinho do que cair no ridículo.

***



«Vou tentar explicar-me uma coisa: a literatura de viagens é uma cena impossível. Ou as pessoas escrevem bem, ou viajam. Porque, lamentavelmente, não basta escrever bem e ter uma imaginação que surpreenda, também é preciso possuir um olhar que nos seja particular; ora, ter um olhar assim não é tão fácil como escrever bem, e a disciplina de não deixar a imaginação e o conhecimento alhear o olhar específico que eventualmente tenhamos aprende-se na biblioteca, não na estrada. "Então, caralhos ma'fodam, para aprender a escrever sobre uma viagem que façamos não se pode viajar, caralho?", inquirirão vocês. Exactamente.»



Maradona in A Causa foi modificada, Quinta-feira, 1 de Março de 2012, às 00:09.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Génio

Em justa e sentida homenagem aos meus leitores anónimos, de hoje em diante, irei empreender denodados esforços para seccionar em elegantes parágrafos todas as minhas ideias, sendo que, em passagem, tentarei seccionar, de igual modo, frases que me parecem estúpidas, e começo, desde já, por esta

Os queridos comentadores que resistem com heroicidade a toda a concorrência desleal feita pelo Mário Crespo, pelo Mário Monti ou outro qualquer actor premiado pela academia, deixaram sentidas perguntas e frases de conforto e estímulo nas nossas alvíssimas caixas de comentário que, como terríveis baleias brancas, estão aqui apenas com o propósito de serem arpoadas. Sobre a obra de Frank Gehry: devo dizer que não espero muito de uma pessoa especializada em problemas estéticos mas que se revela incapaz de compreender, por uma rápida e simples mirada do cabelo oleante de Santana Lopes, estar na presença de um vigarista desiquilibrado. Sobre a sua obra teria que empreender vastas leituras e estou empenhado em inscrever o meu nome no muro imortal da literatura.

Já o problema do romantismo toca num orgão sensível da minha poderosa orquestra. Entendamo-nos: aquilo que seguramente «já era» é o sentido do progresso em que umas coisas se sucedem às outras numa marcha triunfal a caminho da parusia - um conceito que me ficou das inacreditáveis leituras das obras completas de D. José Policarpo. Já era para quem? Para o olhar silencioso de deus que, como «o juiz na meta da corrida», torce os dedos angustiado por saber se seremos ou não capazes de chegar ao fim? Para os meios de comunicação demencial? Para o covil de sacerdotes que responde pelo nome de Universidade? Para o (risos) mercado? As coisas não estão legitimadas pelo tempo e uma consciência crítica deve estar preparada para se medir com Aristóteles e não apenas para decepar a frágil cabeça de Deleuze ou Fukuyama, o que seria demasiado fácil. Génio maldito é, na verdade, um belo pleonasmo, pois o conceito que melhor caracteriza o génio é, por antonomásia, maldito.

A minha seriedade obriga a repetidas lambidelas de cu ao Maradona, sobretudo porque isso significa um manifesto contínuo de que o génio se revela na indiferença perante o público, e se o faço, daqui relevam duas coisas: 1) o meu total desinteresse material e afectivo em todas as expressões da minha consciência doente e maldita; 2) a afirmação de um problema - o anonimato de um génio - que é ao mesmo tempo a afirmação estética de um programa de vida - a beleza e a profundidade intelectual está onde menos a procuramos. Não será necessário citar Blake para que todos nos convençamos de que a sabedoria se troca num mercado pouco frequentado. A razão pela qual este princípio não sofre grandes mudanças, explica-se pela própria constituição da grandeza, que sempre necessitou da vertigem do falhanço, inerente a toda a realização que confronta os limites do conhecido, como das planícies solitárias do desejo, que só a dificuldade e o insulto permitem frequentar. Quando Shakespeare arrumava os cavalos dos espectadores londrinos, à porta de um teatro, acumulava quantidades suficientes de ressentimento e fúriapara que mais tarde, com os instintos já domados pela inteligência, produzisse as toneladas de setas de fogo que haviam de dobrar a rainha de Inglaterra aos seus pés.

Não fez mamadas ao governo mas obrigou o governo a repetidas e prolongadas mamadas: eis um epitáfio que estão autorizados a gravar na placa xistosa do meu túmulo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Praemium

«É inútil tentar compreender o mundo», eis o que devia ser tatuado na testa de cada bebé, ainda antes de ser aplicada a terapêutica nalgada que, segundo alegam, se deve a efeitos de lubrificação cardio-pulmunar. Isto no sentido de evitar tragédias particulares que, à semelhança da minha, se desenrolam de acordo com o velho príncipio de unidade de tempo, de acção e de lugar. Por outras palavras, seja qual for o local para onde direccione o meu fulgurante espírito analítico começo logo a sofrer com problema epistemológicos, ou seja, sinto logo que me estão a foder os cornos com problemas morais de profundidade considerável devido, por exemplo, aos contínuos protestos que as pessoas «da cultura» sistematicamente emolduram em considerações de tipo, «somos uma nação de criadores maltratados pela vida, uma vez que o governo não nos unta o pirilau com um belo broche». Devo lembrar a todas as crianças que ainda não foram expostas a estas imagens chocantes que a marca da criação, e do génio, reside, precisamente, na mais violenta repugnância por todas as formas de paternalismo estético, sentimento que vem quase sempre oleado por uma implacável vontade de rebentar com todas as Sociedades de Autores de Todo o Mundo. Ontem, a titulo de exemplo, estive várias horas a tentar desfazer-me, durante a observação de uma imponente gala, patrocinada pela Sociedade Portuguesa de Autores, e transmitida em directo pela rádio televisão portuguesa, das dúvidas suscitadas pelo olhar amendoado de Emanuel rindo, discretamente, nas costas de uma figura agraciada com um prémio a propósito de uma gravação de Chopin. Este pianista erudito, que não achou repugnante apertar a mão a Emanuel, terá sido educado segundo os mais elevados padrões estéticos da interpretação pianística, e trazia uma camisola decotada negra, um casaco incrivelmente trabalhado por circunvoluções brilhantes, também de cor escura, e pendurado sobre o pescoço desnudo, um crucifixo baloiçante. Quem explicará um momento de televisão como este sem recorrer ao decepcionante conceito de acaso ou ao deprimente conceito de relativismo moral? Entretanto, o Alexandre Borges, avisa todo o auditório da blogosfera, constituido por barões assinalados que da ocidental praia lusitana, que ele, um dia, ganhará o nobel da literatura, entre perigos e guerras esforçados, mais do que permitia a força humana, isto enquanto viaja num espectacular cruzeiro pelo Pacífico e teme nada encontrar para fazer em Lisboa, depois da recepção de boas-vindas com o comandante do navio, um concerto pela orquestra do navio, o jantar e “Hairspray” presumo que algures no navio, e a observação do musical da broadway, no imenso Opal Theatre do navio. Note-se que uma pessoa de cultura como o Alexandre Borges tem ainda tempo para publicar vários livros de poesia, guiões, romances, variações históricas, crítica de cinema. Parafraseando Maradona, que já me têm acusado de imitar, não ando mesmo aqui a fazer nada. Bem pode dizer-se que, apesar de tudo, os antropólogos têm estudado a importância da substituição de preferências nos mecanismos de comunicação entre os humanos e por muito que as pessoas continuem a padecer de um desvio incorrígivel sobre o conceito de cultura, convém lembrar que não existe qualquer défice de investimento financeiro na indústria cultural. Continuo a ter que esclarecer que o dinheiro está muito bem distribuído em matéria de cultura: oxalá a distribuição fosse tão eficiente em matéria de alocação salarial na função pública, e a julgar pelo que vi ontem na gala da Sociedade Portuguesa de Malfeitores, cada cêntimo desviado para os bolsos desta pessoa, representada aqui em baixo, decorre de princípios culturais amplamente mais enraizados, praticados, difundidos - e eu acrescentaria, dotados de maior qualidade estética e ética - do que a dita realização autoral dos portugueses, na grande maioria dos casos, uma espécie de garatujo pré-escolar sem dignididade, beleza ou profundidade. Uma Sociedade que distingue o programa de televisão «O último a sair» como melhor programa de ficção (sim, é verdade) deve, com efeito, ser a primeira a desistir de nos catequizar os cornos e ir, rapidamente, e em força, para a puta que a pariu.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

E não seremos todos, de uma forma ou outra, filhos da puta?

A certa altura, no Cinema Paraíso, o velho ressentido responsável pela projecção cinematográfica naquelas imortais paredes sépia de uma fortaleza siciliana, chama à sua pátria amada paese di merda, utilizando, em toda a sua extensão, a imortal língua de fogo com que Dante talhou as três estações fundamentais da vida, e com tais lágrimas de raiva como só são produzidas nos momentos em que alguma coisa de muito querido nos traiu profundamente sem justificação aparente. Sei bem como deixou de estar na moda cuspir no prato em que se comeu, uma das poucas coisas onde realmente nos distinguiamos da maioria das nações do planeta, para nos adestrarmos agora em manobras de auto-motivação, o que nos deixa confrontados com um futuro medíocre. Hoje, alguém dizia que talvez aqui ou ali, um ressentimento excessivo, uma incompletude serôdia, um excesso de fúria, uma gratuita vontade de infligir insultos, atravessasse alguns dos textos que aqui se têm produzido para aviltamento de ilustres varões da comunidade. Não sei que diga. Encontro-me entre aqueles que sempre pensaram que vinham para o confronto, e se acharam num pântano fumegante onde nem os espectros são coerentes com o espírito da maldade e tudo é escorregadio, confuso, como vozes na noite. Chamem-me Ismael, ou melhor, ingénuo, ou melhor ainda, filho de uma grandíssima puta.


Enquanto se discute a probabilidade de este ser o melhor post do ano, o que julgo ser indiscutível, justificando pela enésima vez a rara importância literária do autor, o que não me canso de sublinhar, é fundamental destacar, junto de todas as mentes que eventualmente constituam o auditório deste blogue, a que se referem as pessoas que acreditam ainda ser possível não só criar com inteligência, mas impedir o arrastamento, pela lama da incompreensão, de toda a sensibilidade profunda e de toda a qualidade estética inigualável: é só carregar levemente neste local

eu só falo de futebol

porque do resto não sei nada. apenas que a tvi tem um programa onde as mamas da alexandra lencastre ameaçam explodir e matar toda a gente. pronto era so isto. e logo ganhamos só por causa das coisas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Jorge Jesus

As armas e os barões assinalados que do 31 da armada vieram aqui manifestar o seu desagrado pela minha espectacular personalidade têm agora uma nova oportunidade, que eu muito magnanimamente lhes proporciono, para voltarem entre perigos e guerras esforçados a indagarem sobre a minha extraordinária identidade. É que o filho da puta do Rodrigo de Moita Deus achou por bem referir que a atribuição de estatuetas de ouro aos maricas que realizaram dois manhosos filmes sobre o pós-colonialismo, um a cores e o outro a preto e branco, vão, alegadamente, custar uns milhões valentes aos contribuintes. A questão não é se o cinema português tem ou não qualidade, assunto em que não me assiste a competência necessária para proferir qualquer comentário, ao contrário do filho da puta do Rodrigo de Moita Deus, e muito menos vou entrar na casa de horrores que constitui o debate sobre o apoio do Estado à cultura, questão onde se cruzam horríveis arranjos para trompete de direita e um insuportável baixo contínuo de esquerda formado pela «importância folclórica das artes», e sublinho aqui um certo asco que me assiste quando refiro a palavra «artes». A questão essencial, querido Pacheco Pereira, é se o filho da puta do Rodrigo de Moita Deus fez as contas sobre os alegados milhões e confirmou a percentagem de meios de pagamento públicos recebida pelos agraciados, assim como importará saber se o filho da puta do Rodrigo de Moita Deus é ou não movido pela mais parca competência em matéria de finanças públicas ou desenvolvimento constitucional do sentido da pátria que o habilite a medir se os milhões gastos pelo estado no apoio à indústria do cinema são ou não mais lesivos do ponto de vista do custo de oportunidade do que o altíssimo preço pago, pelo mesmo Estado, no apoio negativo, por défice de tributação, às inócuas indústrias por onde labora o filho da puta do Rodrigo de Moita Deus, uma pessoa que.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Gogol, meu cabrão, não foste do Benfica!

Tudo indica que Pista de Gelo pode ser mesmo a obra prima com que Roberto Bolaño anda a ameaçar postumamente o público desde o quase, quase, quase genial 2666, um livro que lamentavelmente soçobra no sensacionalismo mexicano a partir da página 400.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Hoje, Gogol é do Benfica

Quem conseguiu terminar a escola antes dos trinta anos sabe, de ciência certa, que a principal condição para obter uma obra digna de admiração secular é, precisamente, não ter terminado a escola satisfatoriamente antes dos trinta anos, ou, pelo menos, nutrir pela escola um profundo desprezo, não obstante um certo reconhecimento pelo contacto com os livros e os olhos das raparigas. Vem isto a propósito do mais recente projecto de cultura, artes, ideias, enfim, numa palavra, lixo, mas embelezado pelo sempre pronto a prostituir-se design de comunicação. A SALAZAR e os respeitáveis Colaboradores não deixam margem para dúvidas: estão mesmo apostados em fazer miséria, arriscando, no ProjectoSALAZAR, um projecto cultural que contempla uma publicação digital, uma revista bimensal, workshops literários e artísticos, uma produtora de eventos culturais e uma editora de ficção. Ficamos desde logo avisados que é melhor começar a mijar fininho, pois a cada dois meses, toma, levas com uma publicação digital ou um workshop literário e artístico pelos cornos abaixo, e ainda corres o risco de te enfiarem um evento cultural pelo cu acima. Mas não se julgue que isto é uma obra de parasitas, manuseando estreitos contactos na imprensa portuguesa, filhos de famílias da classe alta que, parasitando a ignorância, aproveitam as suas incapacidades gritantes para fingir que têm ideias, ou produzem cultura, ou desempenham actividades artísticas. Sendo assim, nada de julgamentos precipitados, pois como afirmam os autores, a Salazar é uma ideia de pessoas jovens, qualificadas e com interesse fundamentado pelas artes e pelo país. Não pretende revolucionar ou provocar mas assume um carácter irónico e subversivo de análise e reflexão. Folheando a publicação, rapidamente percebemos que o carácter subversivo do projecto é constituído por variações cómico-insultuosas em torno da poderosa Àgata e do seu letrista, piadinhas sobre António Oliveira e o seu bigode, as costumeiras lambidelas de Pedro Mexia a actrizes, modelos, mulheres, consideradas, e bem, inatingíveis devido ao aspecto repugante e pouco higiénico do autor, assim como um merchandising que inclui venda de t-shirts e outros produtos essenciais. Isto é tão, mas tão subversivo, que já sinto comixão nos tomates. Claro que a Salazar tem duas ou três coisas de interesse, mas labora no mesmo decadentismo irónico que contamina a geração nascida antes de 1974: ameaçam tudo e todos com o seu penetrante (ai) humor, tratam Àgata, Geoge Steiner e António Oliveira com a mesma despreocupada intenção de provocar o riso no leitor, e mostrar qualidades intelectuais, mas é com grande tristeza que devo anunciar que não se vislumbra nas entrelinhas daquela publicação nada do que, por exemplo, neste blogue é perfeitamente claro, a saber: (1) a subversão apenas pode ser atingida pelo combate cerrado contra pessoas que se consideram qualificadas e têm interesse fundamentado - e eu acrescentaria, aclamado - pelo país e pela cultura; (2) a inteligência não é o valor determinante da nossa luta, mas a força, porque sendo a sabedoria uma mulher, ela ama um guerreiro, para não fugir ao velho louco de Turim. Um exemplo: em face de uma situação trágica, do estilo Efigénia na Táuride, se necessário fosse decidir entre matar os gregos e ficar com a irmã de Orestes, ou deixá-la partir e arriscar a solidão ou vergonha, de que lado estariamos nós? Nenhum dos meus leitores tem dúvidas sobre o o lado em que me encontro, pois não? Espero que os qualificados promotores da Salazar possam dizer o mesmo da vasta legião de fãs que, muito em breve, se acumulará às portas dos quiosques para demonstração cabal da sua inteligência por interposta pessoa.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Haverá sempre o Sá Pinto

Serviço publico aqui

Os melhores 11 estão aqui

Terão as pessoas que utilizam o conceito de capital lido Marx: uma demonstração negativa.

Nada me move contra a interpretação marxista da história e devo dizer, a bem da verdade, que sou até muito devedor, pelo menos em cerca de 35% do meu poder testicular - que não tem sido prodigioso nos seus efeitos, até ver, mas se não se lavaram ainda os cestos, é vindima - do corpus marxiano onde se encavalitam os conceitos mercadoria, fetichização - o meu preferido - valor/trabalho, trabalho/valor, reprodução do capital - o meu segudo preferido - ou mesmo, alienação. E com isto somos chegados ao post da Raquel Varela, uma pessoa que, estudando o processo revolucionário português, devia estar na posse de conhecimentos que desmentem eloquentemente a aplicação da análise económica marxista à democracia constitucional do século XX, pela simples e eloquente razão de que, sendo a análise económica marxista uma ciência - a decomposição da reprodução das relações de produção - comprometida com uma técnica - a revolução comunista - estará, sempre e inapelavelmente tão batida como Rui Patrício no lance do primeiro golo do Marítimo. É triste que os organizadores de seminários universitários não consigam sequer manter uma bibliografia actualizada, pois Anselm Jape, um tipo que tentou a maravilhosa acrobacia de actualizar Marx na sociedade de consumo generalizado, acaba um livro deprimentemente esforçado e francamente honesto, a retornar a Aristóteles e ao seu conceito de boa vida. O que a Raquel Varela não descobriu ainda é que para se poder parasitar uma boa vida é preciso que o capital se reproduza, com ou sem a vontade dela, e que no dia em que os trabalhadores tomarem o poder, ou a Raquel Varela mantém as suas funções absolutamente desprovidas de valor trabalho ou vai ter de fazer uma mamada a cada um dos trabalhadores, ou vai, na melhor das hipóteses, ter de fazer qualquer coisa que possa ser trocada por um valor que os trabalhadores reconheçam como equivalente à quantidade de esforço dispendida pelos seus braços na produção de coisas como o caralho dos computadores onde escrevem os gajos que ainda pensam que o problema do capital é um problema sistémico, monstruosamente super-estrutural, e não a extremamente sedutora conjunção das putas das nossas mentes a trabalhar o desejo. Experimentem secar o capital reduzindo a procura de distinção que pode começar, por exemplo, por uma extinção automática dos cursos, e respectivas despesas, universitários em torno da revolução de 1974. Ou a Raquel Varela saberá mais sobre este assunto que qualquer velho desdentado nascido antes de 1945? Se é uma questão de estudo, então teremos que confiar nos banqueiros que estudam a distribuição dos meios de pagamento. Se é uma questão de legitimidade, temo que a tomada das universidades pelos trabalhadores vá terminar num prodigioso monumento à ignorância. Como diria a desdentada Paula Rego, as coisas, infelizmente, não são assim tão fáceis.

A maravilha democrática

Nunca acreditei nas virtudes da dialéctica e mesmo a alternância argumentativa dos diálogos socráticos nada seria sem as doses astronómicas de génio literário injectadas pelo cérebro cansado de Platão, um dos mais fulgurantes exemplos de como o ressentimento é o maior combustível da pefeição, e se dúvidas existissem, em matéria de aplicação prática da maiêutica, Fátima Campos Ferreira, portentosa matrona e exemplo gritante da gritaria interpeladora absolutamente desprovida de qualquer conteúdo crítico, tudo tem feito para desacreditar mundialmente as virtudes de um debate. Contudo, note-se como a inteligência colectiva movida por espíritos prodigiosos em interaçcão discursiva pode, ainda, ter uma palavra a dizer na salvação de Portugal.


Tese


Melhor onze titular de todos os tempos numa conversa cercada por todo o tipo de argumentação terrorista e ataques ad hominem entre outros recursos perversos:

Caralho (sic) da Silva - descontando um frango aqui outro ali
Octávio Teixeira
Melo Antunes - central de pé esquerdo
Bernardino - ninguém liga ao segundo central
Rita Rato - trinca
Álvaro Cunhal - distribuidor
Odete Santos - talvez a melhor médio-criativa de sempre
Lenine - ponta direita
Carlos do Carmo - não sei exactamente onde
Umberto Eco - este gajo sempre me pareceu comuna
Daniel Oliveira - na mama

Comentários:
De Çindicalista a 14 de Fevereiro de 2012 às 12:59
julio pereira no lugar do carlos do carmo, só porque sim;

miguel tiago no lugar do umberto eco e a fazer dupla de ataque com daniel oliveira, porque temos de valorizar os jovens

ana drago no lugar do cunhal, a fazer dupla de trincas com rita rato, sobretudo por motivos estéticos;

o lenine descia para a defesa, a jogar a lateral direito;

o bernardino e o melo antunes como dupla de centrais tá bem;

substituia o octavio teixeira pelo fábio coentrão, porque precisamos de um defesa esquerdo.

ficava mais ou menos assim:

caralho da silva

lenine bernardino melo antunes fábio coentrao

rita rato ana drago

julio pereira odete santos

miguel tiago daniel oliveira


De JJd a 14 de Fevereiro de 2012 às 15:04
Ganda merda de equipe. Com gajas?

Atão e o Otelo e o Vasco Gonçalves? ou o ROsa Coutinho?

Carvalho da Silva

Defesa:
Rosa Coutinho Bernardino (1º ano nos snr) Melo Antunes e Fabio Coentrão (para dar profundidade)

Trinco:
Cunhal

Médios Criativos:
Candido Mota e Vasco Gonçalves

Extremos
Otelo e Manuel Tiago (desdobra-se)

Ponta de Lança fixo na área tipo pinheiro:
Carlos Carvalhas

Nivelamentos

Não vou perder tempo com aquela tentativa de problematização político-filosófica denominada Arménio Carlos, um nome que parece deduzido das páginas mais encaralhadas de Fado Alexandrino, o único livro de António Lobo Antunes que vale o papel em que foi impresso. No entanto, julgo pertinente avisar tudo e todos que estando a situação literário-laboral a agudizar-se, e embora a deprimente procissão sindical me mereça um profundo e infinito desprezo, também não vamos lá com a prática do desporto que mais aprecio - o contínuo buling dos tolos e ignorantes (como é bom de ver não gosto da proteção dos humilhados, nem dos romanos, com a honrosa excepção de Ovídio) - e o mais que conseguiremos alcançar, ao desprezar a luta, é adiar o problema por mais alguns meses. Claro que a luta implica, antes de mais, a luta diária para tomar banho, para não fugir a Alváro de Campos, e nisto reside o principal e magno erro de todos os membros do Partico Comunista, mas é preciso não rejeitar a amplitude da tarefa: continuar a recomendar aos comunistas que se lavem, mas, simultaneamente, não permitir que o gordo de charuto manobre a sua fulgurante ignorância para cavar um quintal cujos efeitos acabam, mais tarde ou mais cedo, por nos foder a todos e ao mesmo tempo, para não fugir a Maradona. As duas guerras mundiais aí estão, em filme, cd, dvd e, até, revista à portuguesa, para explicar eloquentemente como o pouco cuidade, como diria Manuel Cajuda, se transforma num complexe probleme.

Sá Pinto

um dia destes ainda vou descobrir quem é Lana Rey. Só por causa das merdas e assim.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Da derrota

Quando ouvi o presidente dizer que tem a minha confiança, pensei logo que o Domingos iria para o Porto em breve. Ora bem, já vai bem encaminhado, tendo em contas as ultimas noticias. Caro Alf, conforme falamos hás dias nos proximos 10 anos, talvez 1 seja para nós. Se é que não fechamos portas.

Vamos falar de nações

Para além do enorme desprezo pela actualidade - não faço a mínima ideia de quem seja Witney Houston (isto escreve-se assim?) - todos conhecem a minha enorme estima por Manuel Cajuda, um extraordinário e vigoroso vulto da cultura portuguesa a quem seria pedida a organização de qualquer exposição sobre Fernando Pessoa de bem, se Portugal fosse um país onde se reconhece o brilhantismo de frases como «perdemos, mas amanhã há missa na mesma», e não vivessemos numa agremiação de pedintes em fuga sedentos de dignificar as suas origens intelectuamente abaixo de plebeias. Ainda ontem um brasileiro qualquer deambulava sobre a mesa de Paula Abades de Cristelos Moura Pinheiro, manuseando livros sobre Fernando António, e referindo-se a esse famigerado viciado em ginja, e apenas por acaso, autor de versos, como o mais brasileiro das Pessoas inúteis, isto é, poetas. Daria agora muito trabalho - e estou a meio de uma obra-prima - explicar porque razão Pessoa nada tem de Brasileiro e que aquilo que um americano zarolho, como Richard Zenith, e um brasileiro manhoso, como aquele tipo de ontem, identificam como o elemento brasílico em Pessoa de bem, é apenas a dimensão superiormente artística de um homem que, acima de tudo, quis que o deixassem em paz. Naturalmente, não conseguiu, e a dança de facas - expressão de que muito gosto, é a minha costela cigana - que se apressam a efectuar sobre o seu cadáver já enregelado, é não só muito deprimente como profundamente criminosa. Um contrabandista da Albânia rapidamente acharia Fernando António o mais albanês dos poetas e um argelino certamente destacaria a evidente presença da Argélia em versos como «Eu sou dos que verdadeiramente têm levado porrada». Posso demonstrar a tese subliminar a este importante post com o seguinte exercício: experimentem pedir a um dos vencedores da Taça das Confederações Africanas, que por merco acaso, e desde ontem, é natural da Zâmbia, para traduzir o Soneto 129 de Shakespeare, aquele em que se explica como a luxúria é um espécie de céu que nos empurra para o Inferno. Rapidamente, o atleta em causa, com mais ou menos esforço, acabaria por dizer, após considerar a estrutura significativa do soneto, que estamos incontestavelmente na presença do poeta mais literariamente comprometido com a Zâmbia e isso nada diria sobre nada. Eu realmente, não deixo de ser uma pessoa que acredita que as pessoas quando falam querem realmente dizer alguma coisa. Nem todos, nem todos. Apenas alguns, apenas alguns. E depois, passados muitos anos de vil desprezo e ignóbil porrada, organizam-se exposições sobre esses indivíduos esquisitos, os que quiseram dizer alguma coisa. Realidade filha da puta: deus me proteja das tuas perversas garras, de americanos zarolhos e brasileiros manhosos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Carnaval em perspectiva

No intervalo da minha calma ascensão a caminho da eterna galeria dos imortais homens de letras gosto de ler o Herique Raposo, da mesma forma que Robert de Niro, em Touro enraivecido, pede ao seu doce irmão que lhe esmurre os cornos apenas com o intuito de experimentar a superioridade do seu sistema nervoso periférico na resistência à dor, bem como a robustez dos seus maxilares perante os punhos entoalhados de um agressor pouco perigoso. Do mesmo modo, Raposo esmurra violentamente a minha sensibilidade estética e literária e posso revigorar a minha grandeza intelectual perante o auge das atitudes verbais de uma pessoa que tem tanto desrespeito pela elegância escrita como ausência de rigor lógico nos textos que afanosamente são acolhidos por esse Renova classe da imprensa portuguesa, o Expresso, dirigido por uma pessoa licenciada em História, uma disciplina que desde os gregos nunca mais interessou a ninguém, a não ser os proprietários do Expresso. Muitos me têm confrontado com a inutilidade de referenciar - é o que eles querem, dziem - os mesmos temas, e os mesmo lambe-cus da imprensa escrita, sobretudo quando já abdicámos de serviços mínimos nesta greve-geral em que está mergulhada a opinião pública portuguesa desde a revolução burguesa de 1383-1385. Mas insisto que é um dever moral facultar aos meus amigos e leitores motivos de cólera, bem como fornecer gigantones de serviço para as festividades cívicas, ou acabamos todos transformados num Eduardo Sá - o maior especialista do mundo em broches a si próprio - ou mesmo, muito pior, num D. Manuel Clemente - um dos três maiores especialistas eclesiásticos em broches ao mundo laico (para os interessados em rankigs, os outros dois são o cónego Rego [2º] e o reverendíssimo padre Tolentino Mendonça [3º]). Se é para ser eunuco, ao menos forneçam as rainhas orientais e os manjares, pois castração e deserto mental é muita austeridade para tão pouco proveito. A minha posição sobre a tolerância de ponto no Carnaval fica deste modo demonstrada: prometo lamber a estrada nacional nº 1, de Sacavém até Fátima se o Henrique Raposo conseguir redigir um texto que nos convença de qualquer coisa para além da sua incontestável falta de domínio do português, escrito, falado, ou vomitado.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O drama Bojinov

Hoje passa o "Cool Hand Luke" no cabo, um filme que ando à um ror de anos para ver. Mas tenho que trabalhar esta noite, que a vida está para aí virada. Tenho vizinhos novos no prédio ao lado que gostam de ouvir música alta. É o Tom Waits,  afinal nem tudo vai mal no mundo.