A certa altura, no Cinema Paraíso, o velho ressentido responsável pela projecção cinematográfica naquelas imortais paredes sépia de uma fortaleza siciliana, chama à sua pátria amada paese di merda, utilizando, em toda a sua extensão, a imortal língua de fogo com que Dante talhou as três estações fundamentais da vida, e com tais lágrimas de raiva como só são produzidas nos momentos em que alguma coisa de muito querido nos traiu profundamente sem justificação aparente. Sei bem como deixou de estar na moda cuspir no prato em que se comeu, uma das poucas coisas onde realmente nos distinguiamos da maioria das nações do planeta, para nos adestrarmos agora em manobras de auto-motivação, o que nos deixa confrontados com um futuro medíocre. Hoje, alguém dizia que talvez aqui ou ali, um ressentimento excessivo, uma incompletude serôdia, um excesso de fúria, uma gratuita vontade de infligir insultos, atravessasse alguns dos textos que aqui se têm produzido para aviltamento de ilustres varões da comunidade. Não sei que diga. Encontro-me entre aqueles que sempre pensaram que vinham para o confronto, e se acharam num pântano fumegante onde nem os espectros são coerentes com o espírito da maldade e tudo é escorregadio, confuso, como vozes na noite. Chamem-me Ismael, ou melhor, ingénuo, ou melhor ainda, filho de uma grandíssima puta.
Enquanto se discute a probabilidade de este ser o melhor post do ano, o que julgo ser indiscutível, justificando pela enésima vez a rara importância literária do autor, o que não me canso de sublinhar, é fundamental destacar, junto de todas as mentes que eventualmente constituam o auditório deste blogue, a que se referem as pessoas que acreditam ainda ser possível não só criar com inteligência, mas impedir o arrastamento, pela lama da incompreensão, de toda a sensibilidade profunda e de toda a qualidade estética inigualável: é só carregar levemente neste local



