quinta-feira, 17 de março de 2011

Agora que a poeira da manif assentou

é altura de esclarecer alguns dos meus pontos de vista.

Um curso não dá direito a um emprego.

A precariedade de curta duração (menos de um ano) é algo de normal em quem está a começar a trabalhar. Entenda-se, é normal a juventude ter que fazer pela vida.

A falta de emprego, e a precariedade de que todos se queixaram no passado fim-de-semana, é um sintoma do fraco dinamismo da economia portuguesa.

Eu de economia pouco entendo, mas tenho olhos para ver. E consigo perceber que existem demasiadas protecções à concorrência, cujo único objectivo é proteger as rendas dos que gravitam em torno do poder. A área das energias renováveis é um paradigma notável, sei-o por experiência própria. Mais do que discutir o que taxar e a que percentagem, devemos derrubadar todas e quaisqueres barreiras à entrada de concorrentes.

Existe um sério problema de liderança política em Portugal, que não permite afrontar os interesses instalados. Enquanto não se resolver o problema político, o económico vai continuar. Infelizmente não vejo em nenhum dos partidos políticos actualmente na Assembleia da República o indivíduo que nos vai desenrascar.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A luta é alegria

Sou obrigado a vir a terreiro fazer um ponto da situação: a manifestação foi uma manifestação, conceito da teoria política que pessoas especializadas em electrónica transparente e mercados financeiros, primários, secundários e terciários, têm certa dificuldade em manejar. Sobre o número, penso que já falei o suficiente, mas a recorrente alusão aos exercícios quantitativos da Priscila Rêgo induzem-me a clarificar, para efeitos de tranqualização geral, que o facto do desemprego ser menor entre os licenciados - uma conclusão mais famosa que a Venús de Milo - em nada retira qualquer legitimidade aos protestos transversais que animaram as pessoas de vária índole e qualificação académica que encheram a Avenida da Liberdade no Sábado passado. De resto, esse tem sido pau para todo o rabinho ressabiado que procura desenvolver pirotecnia sobre a pretensa desorientação da manifestação. Pereira Coutinho (o mais novo, e mais rabeta) falou na existência de camadas muito mais fragilizadas. Isto quer dizer que se o irmão do meio estiver a levar bolachada no recreio e o irmão mais novo for fazer queixa à Professora, o protesto torna-se improcedente, a não ser que o próprio preencha requerimento em papel de vinte e cinco linhas. Já Avillez de Figueiredo (o mais louro e panasca) referiu uma maioria silenciosa do interior que, não sendo jovem nem urbana, sofre misérias incontáveis para sobreviver a um orçamento de 758 euros, que não deve ser esquecida perante as manifestãções dos jovens (e nós sabemos como antes destes movimentos a agenda do debate político se preocupava imenso com estas problemáticas), sendo absolutamente claro que a origem desse orçamento restrito terá estado na manifestação do Sábado passado. Esse é, aliás, o argumento mais recente de Priscila Rêgo, uma vez que as propostas dos jovens contribuiriam, segundo a já famosa autora, para aumentar o desemprego, em mais um exercício de previsão daqueles que fizeram curso nestes últimos vinte anos e que têm garantido paz, prosperidade e trabalho cada vez mais bem remunerado. Como não faço previsões e não arrisco causalidades inspiradas nos comentários de Luís de Freitas Lobo, continuo a achar que as manifestações são um dos mais sofisticados instrumentos de desenvolvimento. E agora? Agora, é preciso que a luta continue.

Coisas que interessam, que nem só de problemas vive o homem


Esta moçoila ganhou o Grammy para a Revelação do Ano. Saúde-se a insanidade temporária do júri que premiou qualidade à música chiclete, mastiga-deita-fora.


Já esta rapariga surpreendeu-me a mim. Não se deixem enganar pelo fogo-de-artifício promocional da editora, a moça tem voz e nota-se que gosta do que faz. Não canta em português ? A qualidade não tem pátria. A Esperanza Spalding, por exemplo, deslumbra em inglês, em português sem falhas e em espanhol.

domingo, 13 de março de 2011

E agora ?

Ontem foi muita gente para as ruas. Mesmo muita gente. Gente o suficiente para deixar estupefacto meio-mundo e cínicos pessimistas como eu. Não sei para aonde nos encaminhamos, mas espero que ontem tenha sido o catalizador para um país melhor.

sábado, 12 de março de 2011

Preciso de colocar aqui música boa



estavam aos gritos com o "baby baby" da britney spears. isto é um pesadelo sem fim.

200.000 e há muito tempo que não passava aqui

1. foi muita gente para a rua. e isso é bonito. para mim o melhor mesmo é que já se discute o que fazer a partir daqui. vejam-se os comentários aqui e os posts do ngoncalves. há que pôr duvidas. sair à rua. descobrir novos caminhos. e só por isso já valeu a pena a manifestação.

2. o sporting empatou. perdi o meu tempo e vi a 2ª parte. de antologia a falta que o polga marca para ele próprio. a liga dos últimos deve andar distraida com estas coisas que acontecem naquele que é o clube mais deprimido da história do futebol moderno.

3. escrevo estas palavras enquanto os meus vizinhos de baixo gritam (eles acham que cantam) no sing star que devem ter lá por casa. Se volto a ouvir o "Always" dos Bon Jovi ou o falsete dos Scissors sisters não respondo por mim. já se fizeram manifestações por menos. ou mesmo revoluções.

bom domingo a todos. à procura de novos caminhos. ou como um dia disse o poeta esquecido de queluz:

"Seria muito mais cómodo para mim, no presente momento eleitoral, continuar a escrever os meus versos e a publicar os meus livros sobre temas predominantemente literários, em nome de um apelo irresistível. Mas parece-me que não seria honesto nem corajoso. Não sou político, não tenho ambições políticas, mas intervenho nesta luta desigual em nome de uma posição moral. Nem a divisão da oposição bastou para me servir de pretexto para não intervir. Se é certo que a divisão enfraquece na luta contra o inimigo comum, não é menos certo que ela representa afinal a diversidade de tendências e constitui a expressão de um pluralismo sem o qual não há democracia verdadeira. De maneira que aqui me encontro a lutar ombro a ombro
...
Um dia se fará a história nos diversos domínios e então se verá, no espelho dessa história feita para todos, a importância real, a verdadeira contribuição de cada um para a vida ou para a morte dos outros e de todos."

Ámen digo eu.

ps. agora estão a arrepiar o losing my religion dos REM. perdoa-lhes pai porque não sabem o que fazem.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Trio d'ataque

O Manuel juntou-se na caixa de comentários daqui, e chamou a atenção para a minha total incapacidade em articular ideias. A questão dos dez anos é simples. Não é para estar parados por uns tempos até a economia melhorar. Antes, que quaisquer que sejam as medidas tomadas hoje os efeitos só se sentem a médio e longo prazo. A noção de que é possível resolver os problemas do país num par de meses parece-me rídicula. Isto não é obviamente impeditivo de organizar protestos e entregar folhas A4 com reclamações/ideias, tudo bem. Afinal nem só de pão vive o homem, nem só de frio racionalismo contabilístico se alimenta a mudança. Já dizia o poeta: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Portanto tudo bem, protestar por uma vida melhor é o primeiro passo para uma vida melhor. Mas não chega.

Vamos olhar para um caso concreto, os recibos verdes. A minha percepção era de que uma porção significativa da juventude era paga através de recibos verdes, mas parece que os números dizem exactamente o contrário. Longe de mim de estar a afirmar que os números não podem ser massajados, adulterados e torturados para dizer o que se pretende. Mas uma coisa é eu falar do que penso ser a realidade da precariedade no país, outra diferente é dar-me ao trabalho de quantificar a realidade. Este trabalho de quantificação não só não é contrário ao sonho que nos move, por definição inquantificável, como é necessário para nos movermos em direcção ao sonho. Dito de outra forma: sabemos para onde queremos ir, precisamos de saber onde estamos. Não vi ninguém no movimento dos enrascados a fazer este trabalho. No site apenas encontrei um JPEG com as estatísticas do desemprego, claramente favoráveis à malta com curso superior e em consonância com o que a Priscila Rêgo tem vindo a ilustrar.

E após este trabalho básico, é necessário tomar decisões que necessariamente não vão agradar a toda a gente. Suponha-se que os recibos verdes são proíbidos e apenas os contractos de trabalho, a termo ou não, são permitidos. Quais são as consequências ? Vai aumentar o desemprego ? Vão diminuir os salários dos que agora estão a recibos verdes ? Se realmente a percentagem de pessoas a recibos verdes for neglegenciável então não aquece nem arrefece. Pontualmente alguns poderão ficar pior, mas quanto a isso não há nada a fazer. Se por outro lado existir uma fracção significativa, pondo números acima dos 10% ou mais, a recibos verdes o caso muda de figura. Vai-se correr o risco de lançar para o desemprego uma porrada de gente ?

E não me venham com conversas sobre leis para proibir os empresários de despedir, baixar salários ou  obrigar a contractar. As leis contornam-se, como todos sabeis, e para efeitos ilustrativos relembro o nosso primeiro quando apadrinhou uma lei de seguros automóveis. O efeito foi que se acabou a pagar mais após a introdução de uma lei que pretendia exactamente reduzir o custo do seguro automóvel contra todos os riscos. Ou mais recentemente a mudança nas fracções dos parques de estacionamento que redondou num aumento generalizado dos preços quando se pretendia exactamente o contrário. Moral da história: de boas intenções está o governo cheio. Novamente isto não é um apelo à inacção e ao conformismo, antes um aviso à navegação. Reclamar amanhã é bonito, é necessário e tem efeitos positivos não quantificáveis. Mas não chega.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Eu sou um indivíduo capaz de muita coisa

excepto produzir um texto com um mínimo de clareza e inteligibilidade. A ver se consigo desta vez.

O Gonçalo Teixeira fez um longo comentário ao que eu aqui balbuciei. Vamos por pontos. Li no Público, na entrevista feita aos organizadores da manifestação da geração à rasca,  que não escolheram o fim-de-semana do Carnaval porque acreditavam que a maior parte da malta não estaria para disponível. Supondo que é correcto, isto mostra que os manifestantes têem outras prioridades. Seja visitar a família fora de Lisboa, como o Gonçalo lembrou, ou ir até a neve em Espanha esturrar o dinheiro dos pais. Seja qual for o motivo, têem outras prioridades e isso desvaloriza e enfraquece o protesto.

Adiante, para os dez anos de miséria que nos esperam. Os manifestantes do próximo sábado querem, presumo eu, mudanças agora e não daqui a dez anos. O problema está que, fora um milagre superior ao de Fátima, eu não vejo como é que as condições de vida podem melhorar significativa e sustentadamente no espaço de meses. Poderá ser miopia da minha parte, mas sinceramente não sei como é que tal pode vir a suceder.

As manifestações são acontecimentos mediáticos, por natureza de curta duração. E é também esse o entendimento que tenho do grupo que está a dinamizar o movimento. Lido o manifesto, continuo na ignorância sobre o que pretendem. É tão vago que facilmente são confundidos com outros movimentos.
E depois do protesto, o que sucede ? O objectivo do movimento é apenas fazer ouvir as vozes que os compoẽm ? Vão formar um partido e concorrer a eleições ? Vão fazer a revolução ? A ideia que me fica do movimento é a de uma amálgama de gente onde a única condição para se ser membro é querer reclamar. Até os sócios do Sporting são mais homogéneos que o movimento Geração à Rasca.

O Gonçalo, presumo, e os que no sábado estarão a reclamar têm bons motivos para isso. E mutatis mutandis, eu também estou no mesmo barco dos enrascados. Mas eu não me revejo neste protesto, não me revejo neste movimento e estou convicto que o protesto nada mais serve do que reforçar os esterótipos: quem protesta quer tacho, quem critica já tem tacho. Aliás a comunicação social tem sido incapaz de fazer mais do que repetir estes esterótipos.

Eu não vejo outra forma de mudar a não ser através de um trabalho de fundo, estabelecendo prioridades, definido objectivos e ignorando os protestos mediáticos que se vão fazendo. No sistema político actual, estas tarefas cabem em exclusivo aos partidos políticos. Ou nasce um novo partido ou se modificam os actuais. Isto não é um convite à inactividade, apenas um convite a estar quieto em vez de fazer asneira.

Este texto continuaria não tivesse eu que contribuir para produção científica do país. Mas não termino sem deixar claro que faço minhas as críticas do Gonçalo ao estado do país. E que à geração à rasca faltam objectivos, organização e vontade para cumprir o seu manifesto.

Estou viciado

quarta-feira, 9 de março de 2011

Gel na Eurovisão

Tenho assistido, com particular satisfação, ao derramamento de lágrimas argumentativas por todos aqueles que sempre fundaram no sucesso todo o mecanismo de aferição da verdade, lágrimas banhadas na saudade dos tempos em que a inteligência era o esteio do debate político e a nobreza de valores animava todos os interesses em confronto. Nada que se compare a estes tenebrosos tempos, em que se anunciam protestos forjados na desorientação, na irresponsabilidade, e jovens destrambelhados ganham concursos televisivos por televoto. Com efeito, a vitória dos Homens da Luta como representantes na Eurovisão (um belo conceito a recuperar, uma euro-visão), e uma anunciada manifestação para dia 12, são factos aleatórios que estão a deixar os teóricos da realidade à beira de um ataque de contradições insolúveis, daquelas que costumam motivar camionistas, talhantes e vendedores de fruta a abandonar as fileiras da civilização e a enveredar, ainda que precária e provisoriamente, pelos caminhos apontandos por intelectuais parasitas e jovens universitários decadentes; veredas atribuladas que normalmente costumam conduzir à decapitação de uma qualquer Maria Antonieta que se preste ao virar da história. Com todo o respeito que me merecem os críticos da gritaria, isto é mesmo assim, e é, como diria Fernando Nogueira Pessoa, muito belo que assim seja. Como devem calcular, eu sou daqueles que se identifica, antes de mais, com as personagens decadentes da literatura russa. Um Laevsky nas mãos de um Tchekhov, um Rudin nas mãos de um Turgueniev, ou qualquer alcoólico crónico que odeie irresponsável e parasitamente a organização e os sentimentos nobres que nos fundamentam, que é como quem diz que me estou positivamente lixando para os efeitos do colapso aparente das instituições, mesmo que depois me arrependa e venha aqui chorar copiosamente a perda dos incomparáveis privilégios que me foram concedidos pela revolução democrática de 1974, mesmo que entretanto um qualquer Oliveira Salazar, desta vez, recrutado na actualizada Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e não na bolorenta Coimbra, tome as rédeas da República e guie Portugal com a mesma insensatez com que, a fazer fé no que nos conta Ovídeo, Faetonte conduziu o carro do sol, e seus corcéis de fogo, até à tragédia final. Ou só agora é que acordaram para as consequências trágicas do pornográfico comportamento da curva de distribuição salarial desta nossa República? É que já Aristóteles falava nesta merda. Isto porque me parece que estaremos a falhar um ponto, nós, os eruditos, mas também todos os apreciadores de empadão de codornizes (penso aqui no varão de nobre carácter e incomparável argúcia, Miguel Sousa Tavares, mas também no anónimo Maradona, do qual discordo totalmente nesta matéria) a verdade é que tudo sempre está bem com a realidade até a realidade se transformar em Carlos Xistra e sacar dos seus cartões vermelhos. Ou seja, descobrimos agora, via Maradona, que as críticas condensadas de forma canhestra, é certo, mas condensadas, ainda assim, pela geração desorientada, não passam de interesses particulares que gritam mais alto, como se gritar mais alto não fosse o combustível de todas as instituições.

Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais.


Isto é tão comovente que chego a pensar em desistir de todos os meus ódios particulares para aderir a uma corrente budista, qualquer uma, desde que encabeçada pela Laurinda Alves. Mas desconhecerá esta pessoa que qualquer direcção social, ou gestão de empresa, se pauta não pelo maior número mas pelo que grita mais alto? Não votamos nós em representantes caracterizados precisamente por serem aqueles que gritam mais alto entre o maior número? Talvez fosse bom explicar que as instituições, desde a regulação oferta/procura dos mercados financeiros, passando pelos sistemas de preços, indo à representação parlamentar e passando pelas academias científicas, são sistemas de gritaria codificados. Mesmo quando funcionando no ponto de eficiência máxima, nunca se trata da decisão do maior número mas dos que gritam mais alto. Até a eleição de sua excelência o Presidente da República não foi produzida pelo maior número mas pelos que gritaram mais alto nas urnas (o maior número não vota). Por outro lado, acresce à confusão geral que na falta de um contrato social intra-uterino, todos fomos postos num sistema sem que nos fosse pedida a nossa concordância, pelo que todos os cidadãos da república podem passar a defender uma revisão das instituições, até à ditadura, se for preciso, e que, por isso, convém acordar para o problema da distribuição um pouco antes da confusão estar instalada. Mas não. Sempre que, durante estes últimos dez anos, se referiam assimetrias gritantes relacionadas não apenas com dependências do ponto de partida, mas com erros no funcionamento do sistema institucional, os defensores da realiade, incluindo o Maradona, acenavam com a polícia. Ora, quando a polícia cair na rua, talvez Maradona seja dos primeiros a reivindicar uma ditadura, pelo que ditadura por ditadura, vamos antes à marretada para a rua (não vou sequer argumentar perante tentativas de esvaziamento da realidade, como as que identificam a manifestação da tarde como aquecimento para a "noite" numa coisa chamada Clube Ferroviário, porque, uma vez mais, não será preciso responder a Maradona que a realidade é una, tanto para os benefícios indirectos da divisão do trabalho em Adam Smith, como para a dupla e complexa frequência de actividades tão distantes como a pedrada na cabeça da polícia - à tarde - seguida de bebedeira até ao coma - lá pela noitinha. Com efeito, quando existem bloqueios nos sistemas de gritaria, e se produzem periferias qualificadas com poder de gritaria, não há outra coisa a fazer; os espaços institucionalizados da gritaria começam a sofrer a concorrência de outras formas de gritaria, até que se produza novo equilíbrio geral, e mesmo esse novo equilíbrio traz já dentro das suas ínfimas e múltiplas conexões novas sementes de desiquilíbrio, o que é o mesmo que dizer que vivemos em gritaria constante, numa dependência frágial, mas que nem sempre aqueles que gritam mais alto possuem os altifalantes do sistema. O momento em que os que gritam mais alto estão fora do enquadramento institucional tem sido denominado revolução (mas também pode ser golpe de estado, revolta, ataque terrorista, etc) e a sua aceitação como realidade depende de múltiplos e complexos factores em que o número (ao contrário do que pensam os Pachecos Pereiras desta vida) é apenas uma das variáveis. Simplificando: para todos aqueles que sempre confiaram no número como fundamento da autoridade, avizinham-se tempos de grande angústia, pois a gritaria poderá vir a tomar conta disto, em mais um belo momento de metamorfose do diálogo (como se o diálogo não fosse sempre uma forma dissimulada de gritaria) com espaço para a criação e a originaliade. Resta dizer que toda a minha obra aponta para a importância de dignificar, se for preciso pelo medo e pela pedrada, a multidão, criando nos futuros decisores uma proibição moral em torno de possíveis agressões a essa entidade abstracta «bem comum». Tenho ouvido repetir que nada se resolve na rua. Lamentavelmente, tenho o dever de informar que tudo se tem resolvido na rua. Desde 1645 até 1776. Talvez não seja por acaso que os países africanos não têm manifestações massivas e que a Europa dos séculos XVII e XVIII, onde se forjaram todas as ideias que nos assistem até hoje, tinha como passatempo decapitar reis. Veremos se a ocasião será ou não aproveitada. Em todo o caso, meus caros amigos, é pegar no megafone, cerrar os dentes, e sentir o prazer de estar vivo, porque, para o mal e para o bem, nada dura para sempre.

terça-feira, 8 de março de 2011

Com tanta canção de protesto e foram escolher os Deolinda

Por qué no te callas ?

Leio que a malta que está à rasca armou banzé no jantar do PS em Viseu. E que, passo a citar, "Enquanto os jovens eram expulsos do salão onde decorria o jantar, os participantes gritavam PS." Trocado por míudos, enquanto uns berravam por não ter mama outros chamavam pelam mama que têem.

Este tipo de comportamentos, a copiar os Euro-festivaleiros Homens da Luta, não se pode admitir em democracia. A democracia exige, vão ao dicionário, respeito pelo outro e o entendimento que o diálogo é a única forma de discurso possível. Ora, torna-se difícil dialogar com quem nos está a gritar aos ouvidos de megafone na mão.

Aqui chegados, convêm fazer um esclarecimento. Com a possível excepção do juiz de Aveiro, ninguém neste país tem mais vontade do que eu em chegar a roupa ao pêlo ao nosso primeiro-ministro. Mas para além de conseguir cama e comida durante uns meses em estabelecimento prisional a designar e um breve estrelato no facebook, isso ia resolver exactamente  o quê ?  Os protestos em democracia fazem-se através das urnas. E se o povo é demasiado asinino para escolher correctamente (seja lá o que isso for), então tanto pior para o povo.

A terminar uma nota de humor. Reza a crónica do evento que entregaram aos Sócrates duas máscaras: "Uma delas laranja e a outra rosa, que era para se decidir pela políticas que toma, porque estamos fartos, não só das políticas do PS, como do PSD. Varia sempre entre os mesmos, o país vai de mal a pior e somos nós que sofremos". Lindo, um protesto contra toda a classe política. Portanto vamos governar o país com o voto do público, likes no facebook e número de seguidores no twiter. Para memória futura, convêm lembrar que estes métodos elegeram o Salazar como o maior português de todos os tempos (esta ainda não consigo perceber) ou os Homens da Luta para a Eurovisão. Auspicioso futuro nos é prometido pela democracia directa.

terça-feira, 1 de março de 2011

Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma

O curioso epi-fenómeno auto-denominado Geração à rasca pretende reunir malta para protestar. Era para ser no fim-de-semana que se avizinha mas como é o de Carnaval ficou para a semana seguinte. No que respeita às prioridades da organização estamos entendidos. Primeiro a folia, depois os problemas.

Um dos objectivos, parece, é uma alegre procissão até ao adro da Assembleia da República para que cada um possa entregar uma folhinha A4 com propostas para a resolução dos problemas que apoquentam a malta. Fantástico. Repito, fantástico. Eu aproveito para pedir, que não custa tal como protestar ao um  fim-de-semana não prolongado, à organização que passe pelo Campo Grande e entregue também as soluções para os problemas da agremiação desportiva que ali tem sede. Basta uma folhinha A5, nada de esforçar as meninges que a malta é jovem.

É tanta parvoíce junta que eu nem sei por onde começar. Talvez pelo início. Quaisquer que sejam as soluções para que isto melhore, uma coisa é certa. Não são de efeito imediato mas sim de médio e longo prazo. No imediato, entenda-se os próximos 10 anitos mais coisa menos coisa, vamos ter uma vida de trampa. Eu sei que isto é complicado de penetrar nas cabecinhas de quem prefere Carnaval a encarar a vida, mas é assim mesmo.

O que me leva ao ponto seguinte, as soluções em formato A4. Gente da minha terra, será que é assim tão difícil de perceber que as escolhas que enfrentamos hoje são difíceis de tomar ? Não se trata de acabar com os recibos verdes (que deviam de ser extintos mas isso é outra história) ou aumentar os salários (que são muito baixos). Ou criar emprego. (que faz falta) O Estado português assumiu compromissos que agora não pode pagar. O povo português fez empréstimos que agora não pode pagar. Ou posto de uma forma que até vocês conseguem entender. Nós e o Estado temos que decidir o que é supérfluo e o que é necessário. E aguentar a bronca que aí vem quando os credores começarem a bater à porta.

Se realmente a mundança é o que se pretende, então actualmente só existe um caminho possível. Entrar num partido, ou formar um novo, e concorrer a eleições. Mais nenhum caminho, incluíndo protestos é válido. Porque o Governo tem a obrigação de velar pelos interesses de todos os cidadãos, não apenas os que conseguem berrar mais alto. É triste, mas é a democracia. Eu suspeito que muitos no próximo dia 12 de Março vão estar a suspirar secretamente por um homem providencial que venha do nada e ponha o país na ordem, fazendo o trabalho que os manifestantes se recusam a fazer. Se é para fazer figuras tristes, vão antes em procissão até ao cemitério de Santa Comba Dão.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sporting

Um amigo meu acusou-me de no elogio só se falar de futebol ao que eu lhe disse que era um tremendo disparate.

Veludo

Ontem à noite, de forma absolutamente fortuita, juro, deparei-me com o televisionamento da trintagésima gala da Sociedade Portuguesa de Autores, o que significa que ficaram reunidas as condições para engalfinhar na mesma sala grande parte dos responsáveis pela actual crise político-económica, com a honrosa excepção de Vitorino, a única pessoa que por ali se assemelhava a qualquer coisa que pode ser comparada a um autor. É sempre curioso verificar que os medíocres terroristas criativos (como José Jorge Letria ou Lídia Jorge) enquanto não estão a glosar os Mistérios da Estrada de Sintra, numa versão avenidas da Rinchoa, gostam de zurzir na frieza do economicismo, na ditadura dos mercados, no serviço da dívida que nos estrangula, para depois comparecerem em massa a uma agremiação corporativa que é uma reminiscência medieval da divisão do trabalho pela reprodução feudal de castas profissionais. Já os pobrezinhos ficam condenados ao crescimento da despesa pública pelo lado dos sub-sector Estado, por meio das prestações sociais, que isto da arte requer sensibilidade de celofane e sofás de veludo.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O complexo dos sacerdotes

É sempre interessante constatar que uma pessoa cuja ocupação profissional reside no comentário e observação de filmes, consegue errar em toda a linha perante um objecto artístico, neste caso The Black Swan, além do mais, um objecto com o qual tenho estado engalfinhado nos últimso dias. Overacting? Ballet como selvajaria sexual? O João Lopes terá visto o filme? Tanta má fé só pode indicar que estamos diante do tão frequente complexo dos sacerdotes, patologia que consiste na incapacidade de sistematizar a realidade sem ser por uma bizantina escadaria de categorias pré-fabricadas através de um critério de hierarquização baseado na autoridade e na colocação de sucessivos patamares de dificuldade de compreensão, até que os leigos já não possam entender nada, até que o complexo do sacerdote reine sobre tudo, e o sacerdote se revele incapaz de localizar a mínima centelha de divindade. Aqui

Pois é: turning the film into a gothic horror show that is fascinating and disappointing in equal measure, como a vida

As she dances on the border between sanity and madness, he blurs the line between reality and fantasy, turning the film into a gothic horror show that is fascinating and disappointing in equal measure. What's resplendently real, though, is the beauty of Ms. Portman's performance. She makes the whole lurid tale worthwhile. The Wall Street Journal (Joe Morgenstern)

Algures no liceu, isto começava já a revestir-se de uma certa claridade, não obstante todas as dificuldades de transporte nos subúrbios de Lisboa

She’s a contender, but also a martyr to her art. Em The New York Times (Manohla Dargis)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Daily life



sendo pai de familia, não consegui ficar indiferente a estas crianças, uma vez mais no melhor site do mundo.

Assador

Para não estragar o padrão distributivo da razão crítica na blogosfera, as pessoas inteligentes têm apoiado os argumentos aqui apresentados contra um dos momentos mais negros da clarividência artística em Portugal, senão mesmo um dos mais enigmáticos e espetaculares fenómenos de auto-ilusão, identificando a incursão dos Deolinda nos estudos de prospecção de mercado com a canção Se tivesse estudado talvez isto não me saísse tão mal, e poderia mesmo, quem sabe, captar um mínimo sentido deste gira-bola em que estou envolvido, como um dos mais eficazes solos auto-referenciais na busca para sedimentar uma visão do mundo que seja, basicamente, a mesma que sempre tiveram e que já os assiste com vigorosos fundamentos: por outras palavras, a canção de protesto que serve ao Presidente da CIP, à psicóloga fascinada por filosofias orientais, ao especialista em literatura angolana e ao José Manuel Fernandes, une toda uma casta de pessoas apostadas em desiquilibrar o jogo equitativo da democracia (já de si tão mal tratado) deixando à mercê das Igrejas e dos grupos terroristas as franjas realmente castigadas pelo mercado livre e por este mundo parvo onde os Deolinda (musicalmente aceitáveis) estão confortavelmente sentados na voluptuosa tribuna da crítica sociológica (uma área de actividade humana onde os Deolinda constituem uma espécie de degeneração sintomática) confirmando aquilo que todos estamos carecas de sofrer/ver, a saber: o mediatismo engoliu todas as fadas madrinhas do debate democrático, restando apenas o capitão gancho da ampliação jornalística, capaz de transformar a perna de um cabrito numa reflexão decisiva para o processo democrático, pelo que se abrem inscrições a um eventual Peter Pan que queira fazer alguma coisa deste complicado problema. Como diria o anormal do Vasco Pulido Valente, não lembrou ainda a ninguém responsabilizar as pessoas por dois singelos factores de precariedade: 1) a escolha do curso universitário onde as singelas pessoas investiram todas as suas fichas, por poucas que fossem; 2) qual o nível de empenho colocado durante o mesmo curso, resultante numa eventual média de curso, ou como diria Cajuda, terão as singelas pessoas colocado toda a carne no assador?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Para que não restem dúvidas sobre a superioridade do artista enquanto jovem




Não posso agora explicar com a clareza que certamente seria exigida pela solenidade do momento, a razão pela qual sempre me fascinaram os lagos elípticos forrados a cimento, entre gradeamentos verde-ferrugem, papiros do nilo, pequenas palmeiras do Egipto, jarros, debroados de seixos marítimos e outras bizarrices de parques urbanos semi-periféricos (eu, apesar de tudo, conheço melhor o Feijó do que a Palestina) onde há não muitos anos nadavam melancólicos, semi-depenados, metamorfoseados de desespero, quatro ou cinco cisnes, espetando os seus pescoços longos na luz crepuscular do dia, vogando em silêncio os corpos flutuantes, os olhos misteriosamente raiados de vermelho-fogo sobre o negro infinito das galáxias e o círculo amarelo do extâse animal. Eram ali colocados com o efeito de ilustrar crianças semi-urbanas condenadas ao trabalho precário mas miraculosamente apostadas na glória eterna de se matarem por amor da perfeição, usando para o efeito qualquer uma das artes que a história do mundo ocidental e a sagrada mão do diabo colocaram à disposição dos seres humanos capazes de se salvarem perante a segurança e a protecção, duas das mais mortíferas armas contra a inteligência e a natureza dos génios. Dizem as más línguas que apenas aos privilegiados é dado o poder de se condenarem a pseudo-sofrimentos por amor de valores pequeno-burgueses, que eles, os privilegiados pelas várias ineficências do Estado Social, apenas resfolegam na arte da melancolia e da experiência artística como o porco na lama, por haver alguém que paga as contas, enquanto eles, os cisnes negros, se dedicam a destruir religiosamente a saúde com grande eloquência e manifesto silêncio. Lamento a minha falta de talento para mercearias, mas o que é facto é que o fascínio pelos cisnes depenados de desespero me vem desde a infância, cabalmente confirmado pela minha insistência em escrever neste blogue, e foi hoje recuperado pela portentosa obra cinematográfica liderada por Natalie Portnam naquilo que será a breve trecho considerado talvez uma das mais conseguidas metáforas da criação artística de que há memória na indústria do cinema. Nina Sayers, a bailarina que somos todos nós, protagoniza um dos momentos mais fulgurantes na expressão das metodologias de trabalho que tendem para a construção de uma voz única, mas uma voz que diz alguma coisa, e é tanto mais inacreditável que vemos uma narrativa realizar-se duplamente, (como filme e como bailado) como se tratasse do relâmpago sinistro de Gogol, injectado de sangue e loucura, enquanto história dentro da história, numa espiral de perfeição, violência e liberdade, capazes de condensar o ronco de todas as cavernas mudas que tememos descobrir dentro do corpo. Poucas narrativas cinematográficas conseguiram até hoje fazer evoluir o ritmo da montagem segundo as coordenadas da arte moderna (e é por isso que tantas vezes o cinema parece hesitar dentro da sua própria vocação de teatro filmado ou de fotografia com som) fazendo estoirar o rumo dos acontecimentos, derrubando as fronterias entre a psicologia da personagem e o tempo da acção, mas sem o recurso aos já estafados mecanismos dignos de metafísica hagiográfica (fumos, nevoeiros, tremidelas, levitações e outras cornucópias católico-deprimentes). Nina Sayers lança o seu corpo numa espiral de ódio contra o mundo, de nojo pela sua própria personalidade e de amor greco-renascentista pelo equilíbrio da explosão artística (que lembre-se, é sempre uma forma de terrorismo) numa tortura de contenção e excesso rigorosamente espelhada na metáfora do cisne negro e do cisne branco, o dia e a noite, a violência da agressão e o sacríficio da carne, a mesma obstinação em perder na luta contra a vida.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Agora com mais calma, passo a explanar a minha posição nos campos verdejantes da concórdia democrática

A Helena Matos é uma pessoa que, não sendo o patinho feio das cabeças a saldo nos jornais de referência para efeitos de argumentação conservadora, não deixa de ser um exemplo perfeito de pessoa capaz de exibições argumentativas tacticamente espectaculares. Hoje, na sua lendária fúria de pessoa outrora-de-esquerda-depois-desancantada-com-o-marxismo-e-agora-convertida-ao-liberalismo-salvífico-agora-e-sempre-amen, brinda-nos com uma categorização sociológica para justificar a também já lendária liberdade de escolha das famílias no que à educação dos seus rebentos de soja diz respeito. Escutemos com atenção. A liberdade, em qualquer sistema político que não abdica de um nível mínimo de coordenação, pressupõe restrições, sob pena de nos convertermos no povo egipcío, entidade colectiva que neste momento beneficia de larga liberdade, entre outras coisas para apedrejar cidadãos locomovidos por camelos e outros objectos circulantes. Trata-se então de objectivar algumas questões, uma coisa que a Helena Matos tem muita dificuldade em realizar vergada sob o peso da sua fúria incontrolável contra uma entidade monstruosa a que dá o nome de Ministério da Educação ou sob a sua forma mais sub-reptícia e rastejante, o Estado. Esquecendo por agora algumas externalidades da argumentação, como a elegante frase em que se procura distinguir o «Estado» dos «contribuintes», uma vez que o «Estado não gera riqueza», tentemos não escorregar na baba (não confundir com a saliva) que se nos liberta do riso e seguir o roteiro proposto pela ensaísta Helena Matos:
a) Os pais devem ter liberdade de escolher a escola onde seus bem amados filhos serão educados;
b) Quem paga esta factura é o Estado, financiando escolas, seja em situação de concorrência total, privatização e financiamento das famílias ou das escolas mais frequentadas, seja em situação mista com rede pública e privada com e sem contratos de associação.
Agora, algumas perguntas singelas:
1. Em caso de a concorrência livre produzir a inevitável hierarquização de escolas (tão necessária, segundo os espíritos mais esclarecidos, na aferição de padrões de excelência), e sabendo que a procura racional tenderá a concentrar-se no topo da classificação, partindo do princípio da não-estupidez dos pais, pois estes quase sempre escolhem bem (um facto endógeno à teoria de Helena Matos), como se processará a selecção dos que entram ou ficam de fora das melhores escolas? A menos que a Helena Matos (e toda essa corja de filhos da puta que por aí anda a confundir-se e a confundir as pessoas com a questão da titularidade do ensino) proponha que as melhores escolas devem tendencialmente acolher toda a procura aumentando o número de alunos e requerendo mais financiamento, até a primeira escola da lista se tornar num mega-super-ministério da educação de todos os portugueses que não são parvos e escolhem a melhor escola; e como nós sabemos que os portugueses, altamente disciplinados, seja na fila de trânsito, seja na participação cívica, jamais usarão estratégias insidiosas para colocar o seu filho numa posição de vantagem. Mesmo descontando que existirá uma dispersão territorial na concorrência, e que pessoas dos Carvalhos não procurarão escolas em Odemira, por muito boas que estas últimas sejam, a verdade é que nos centos urbanos, onde, curiosamente, a questão é mais sensível, haverá uma tendência para a escolha recair sobre as organizações mais eficientes. Parece-me que a Helena Matos aqui terá que optar por uma de duas soluções: a) ou defende um critério coerente de acesso à rede de escolas, que, como todos sabemos, nunca passará por condições monetárias, oh não, quem se lembraria disso, será uma hierarquização tão meritocrática como a escolha dos cronistas do jornal Público; b) ou admite que serão necessárias restrições, e eis que somos de novo chegados ao problema incontornável. Os Estados, que já lidam com este assunto desde tempos em que a Helena Matos não habitava sequer os colhões do pai, optaram primeiro pelo critério territorial, daí algumas das estratégias hoje utilizadas nas moradas falsas (desculpabilizadas por Helena Matos com um sorriso envergonhado), sabendo qualquer pessoa esclarecida que é tão filho da puta uma pessoa que dá uma morada falsa como um cabrão que foge aos impostos.
2. Por outro lado, não lembra a estas cabeças esclarecidas que o problema da informação é determinante no sacrossanto princípio da liberdade de escolha e pode actuar como um nivelador de estatutos sociais duzentos milhões de vezes mais pernicioso do que a pior escola pública onde há facada todos os dias. Isto é, num ponto prévio de escolha, onde estão alinhados todos os pais e todas as mães preparados para escolher o percurso educativo dos seus perpetuadores de genes, alguém duvida do facto de que os pais com mais dinheiro, mais prestígio, mais educação escolherão sempre as melhores escolas? Não lembrará a Helena Matos que a introdução de um princípio de universalidade na educação, com todas as suas monstruosas limitações, como bem lembrava Maradona, é, no entanto, a mais nobre tarefa que alguma organização alguma vez se impôs a si própria, comportando, no entanto, e como é bom de ver, algumas ineficiências que é necessário ajustar? E não terá este projecto de educação universal ocorrido por se entender que deixando ao arbítrio da concorrência natural o princípio da educação das crianças, a natureza tenderia a hierarquizá-las segundo o padrão da estrutura social já existente, e com muito mais violência do que após a introdução de princípio públicos gerais e limitativos? Não seria normal que, perante o miraculoso princípio da concorrência natural e da ausência de Estado, a Etiópia ou Cabo Verde, onde o Estado é mínimo e pobre, estivessem neste momento a produzir pessoas a levitar de conforto, bem-estar e riqueza?
3. Neste último ponto, gostaria de explicar, espero que definitivamente, um problema a que Sir Karl Popper chamou o mito do contexto, começando por referir que o contexo, infelizmente, não é um mito, é aquela coisa definida vagamente por Lamarck como meio e onde, de um ponto de vista social, nos movemos todos os dias. Helena Matos considera vergonhoso que existam teorias que fazem depender o sucesso escolar da proveniência do nível social. Lamentavelmente não são teorias, é a dolorosa confirmação da realidade. Já não falo sequer da incidência dos diabetes ou da obesidade como variáveis dependentes da escolarização e do rendimento, para não mergulhar Helena Matos na hipertensão. Mas o facto é que existem vários «meios» significativos na formação cognitiva de uma criança e a escola é apenas um deles. Julgo que a mera consideração de uma lista de notas e de licenciados mostrará eloquentemente a dependência entre proveniência social e resultados escolares, mesmo, pasme-se, no mais ínclito dos colégios privados. Estamos diante do tradicional equívoco, já apontando por Jacques Delors, uma pessoa que lamentavelmente acreditava em Deus, entre diagnóstico e terapêutica. Ao reconhecer que existe uma dependência entre resultados escolares e proveniência social não estamos a falar de relação determinista entre QI e nível de rendimentos financeiros dos pais, estamos simplesmente a reconhecer que estatisticamente os pais com mais dinheiro e estatuto estão em condições de assegurar melhores condições de progresso social, estamos a lembrar que as pessoas se movem num mundo real e não naquelas robinsonadas de que falavam os economistas ingleses do século XVIII. Claro que há pobres que ficam ricos. Mas quantos por cada 100? E ricos que ficam ricos? Não vamos agora culpar a escola pública pela existência da sida, embora já tenhamos estado mais longe. Claro que há toxicodependentes filhos de pais ricos. Sim, é verdade, eles existem. Mas gostaria que a Helena Matos, ou outro qualquer estimado leitor, me indicasse um toxicodependente filho de pais com rendimentos mensais inferiores a 800 euros que tenha chegado a ministro da República ou a médico. É normalmente referido que uma boa organização da escola é fundamental no sucesso escolar de um aluno, seja ele filho de pobre ou de rico, o que constitui, reconheçamos todos em coro, um princípio irrefutável. Mas será a boa organização escolar suficiente para nivelar o progresso social de um aluno? Ao privatizarem o ensino seguramente que estarão a colocar mais um prego no caixão da promoção social ou estará o Belmiro de Azevedo disposto a confiar-me a direcção da Sonae, a mim, que tenho mais habilitações, e provavelmente mais competência (em todas as áres do saber e desportos aquáticos) do que o Paulo Azevedo? Julgarão todas as Helenas Matos deste mundo que a competência e disciplina de uma criança ou de um adolescente não tem fundamentos exteriores à escola? Isto não significa contemporizar com a dificuldade, significa reconhecê-la para melhor poder ultrapassá-la. O não reconhecimento do princípio da probabilidade em política é um dos sinais mais claros de indigência intelectual: pelo facto de existirem pessoas que provindo de meios desfavoráveis atingem níveis elevados de educação isso não significa que seja absolutamente indiferente na progressão das condições de vida, o ponto de onde se partiu. O contrário é que me parece próprio de uma grande cabra: achar que pelo facto de frequentarem a mesma escola organizada, o filho do médio erudito e o filho do homem do lixo analfabeto têm exactamente as mesmas hipóteses e taxa de esforço para atingir o sucesso escolar. Vergonhoso não é reconhecer uma dependência entre pobreza e insucesso escolar, vergonhoso é de uma assentada, e com a brutalidade da mais tenebrosa ignorância, não reconhecer o esforço sobrehumano, tantas vezes inglório, dos filhos dos pais pouco escolarizados na luta contra todos os factores naturais que como a baleia branca os puxam para as profundezas da noite. Vergonhoso é não querer reconhecer o esforço eficaz do Estado democrático português, nestes últimos trinta anos, na promoção de milhares e milhares de filhos de analfabetos e continuar, sem estudos ou factos objectivos, a laborar no princípio, absolutamente por demonstrar, de que a rede de escolas fornecida pelo Estado promove a desigualdade. Educar significa condicionar a forma, orientar. O problema com a Escola Pública é que não só promove a educação dos filhos como dos pais, condicionando-os, para lá de todas as especificidades, a deveres para com a República laica, de seios nus, despida de tribalismos. E isso é alguma coisa que nenhuma sociedade do bem-estar e da segurança espiritual alguma vez perdoará a um sistema político.