terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sporting

Um amigo meu acusou-me de no elogio só se falar de futebol ao que eu lhe disse que era um tremendo disparate.

Veludo

Ontem à noite, de forma absolutamente fortuita, juro, deparei-me com o televisionamento da trintagésima gala da Sociedade Portuguesa de Autores, o que significa que ficaram reunidas as condições para engalfinhar na mesma sala grande parte dos responsáveis pela actual crise político-económica, com a honrosa excepção de Vitorino, a única pessoa que por ali se assemelhava a qualquer coisa que pode ser comparada a um autor. É sempre curioso verificar que os medíocres terroristas criativos (como José Jorge Letria ou Lídia Jorge) enquanto não estão a glosar os Mistérios da Estrada de Sintra, numa versão avenidas da Rinchoa, gostam de zurzir na frieza do economicismo, na ditadura dos mercados, no serviço da dívida que nos estrangula, para depois comparecerem em massa a uma agremiação corporativa que é uma reminiscência medieval da divisão do trabalho pela reprodução feudal de castas profissionais. Já os pobrezinhos ficam condenados ao crescimento da despesa pública pelo lado dos sub-sector Estado, por meio das prestações sociais, que isto da arte requer sensibilidade de celofane e sofás de veludo.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O complexo dos sacerdotes

É sempre interessante constatar que uma pessoa cuja ocupação profissional reside no comentário e observação de filmes, consegue errar em toda a linha perante um objecto artístico, neste caso The Black Swan, além do mais, um objecto com o qual tenho estado engalfinhado nos últimso dias. Overacting? Ballet como selvajaria sexual? O João Lopes terá visto o filme? Tanta má fé só pode indicar que estamos diante do tão frequente complexo dos sacerdotes, patologia que consiste na incapacidade de sistematizar a realidade sem ser por uma bizantina escadaria de categorias pré-fabricadas através de um critério de hierarquização baseado na autoridade e na colocação de sucessivos patamares de dificuldade de compreensão, até que os leigos já não possam entender nada, até que o complexo do sacerdote reine sobre tudo, e o sacerdote se revele incapaz de localizar a mínima centelha de divindade. Aqui

Pois é: turning the film into a gothic horror show that is fascinating and disappointing in equal measure, como a vida

As she dances on the border between sanity and madness, he blurs the line between reality and fantasy, turning the film into a gothic horror show that is fascinating and disappointing in equal measure. What's resplendently real, though, is the beauty of Ms. Portman's performance. She makes the whole lurid tale worthwhile. The Wall Street Journal (Joe Morgenstern)

Algures no liceu, isto começava já a revestir-se de uma certa claridade, não obstante todas as dificuldades de transporte nos subúrbios de Lisboa

She’s a contender, but also a martyr to her art. Em The New York Times (Manohla Dargis)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Daily life



sendo pai de familia, não consegui ficar indiferente a estas crianças, uma vez mais no melhor site do mundo.

Assador

Para não estragar o padrão distributivo da razão crítica na blogosfera, as pessoas inteligentes têm apoiado os argumentos aqui apresentados contra um dos momentos mais negros da clarividência artística em Portugal, senão mesmo um dos mais enigmáticos e espetaculares fenómenos de auto-ilusão, identificando a incursão dos Deolinda nos estudos de prospecção de mercado com a canção Se tivesse estudado talvez isto não me saísse tão mal, e poderia mesmo, quem sabe, captar um mínimo sentido deste gira-bola em que estou envolvido, como um dos mais eficazes solos auto-referenciais na busca para sedimentar uma visão do mundo que seja, basicamente, a mesma que sempre tiveram e que já os assiste com vigorosos fundamentos: por outras palavras, a canção de protesto que serve ao Presidente da CIP, à psicóloga fascinada por filosofias orientais, ao especialista em literatura angolana e ao José Manuel Fernandes, une toda uma casta de pessoas apostadas em desiquilibrar o jogo equitativo da democracia (já de si tão mal tratado) deixando à mercê das Igrejas e dos grupos terroristas as franjas realmente castigadas pelo mercado livre e por este mundo parvo onde os Deolinda (musicalmente aceitáveis) estão confortavelmente sentados na voluptuosa tribuna da crítica sociológica (uma área de actividade humana onde os Deolinda constituem uma espécie de degeneração sintomática) confirmando aquilo que todos estamos carecas de sofrer/ver, a saber: o mediatismo engoliu todas as fadas madrinhas do debate democrático, restando apenas o capitão gancho da ampliação jornalística, capaz de transformar a perna de um cabrito numa reflexão decisiva para o processo democrático, pelo que se abrem inscrições a um eventual Peter Pan que queira fazer alguma coisa deste complicado problema. Como diria o anormal do Vasco Pulido Valente, não lembrou ainda a ninguém responsabilizar as pessoas por dois singelos factores de precariedade: 1) a escolha do curso universitário onde as singelas pessoas investiram todas as suas fichas, por poucas que fossem; 2) qual o nível de empenho colocado durante o mesmo curso, resultante numa eventual média de curso, ou como diria Cajuda, terão as singelas pessoas colocado toda a carne no assador?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Para que não restem dúvidas sobre a superioridade do artista enquanto jovem




Não posso agora explicar com a clareza que certamente seria exigida pela solenidade do momento, a razão pela qual sempre me fascinaram os lagos elípticos forrados a cimento, entre gradeamentos verde-ferrugem, papiros do nilo, pequenas palmeiras do Egipto, jarros, debroados de seixos marítimos e outras bizarrices de parques urbanos semi-periféricos (eu, apesar de tudo, conheço melhor o Feijó do que a Palestina) onde há não muitos anos nadavam melancólicos, semi-depenados, metamorfoseados de desespero, quatro ou cinco cisnes, espetando os seus pescoços longos na luz crepuscular do dia, vogando em silêncio os corpos flutuantes, os olhos misteriosamente raiados de vermelho-fogo sobre o negro infinito das galáxias e o círculo amarelo do extâse animal. Eram ali colocados com o efeito de ilustrar crianças semi-urbanas condenadas ao trabalho precário mas miraculosamente apostadas na glória eterna de se matarem por amor da perfeição, usando para o efeito qualquer uma das artes que a história do mundo ocidental e a sagrada mão do diabo colocaram à disposição dos seres humanos capazes de se salvarem perante a segurança e a protecção, duas das mais mortíferas armas contra a inteligência e a natureza dos génios. Dizem as más línguas que apenas aos privilegiados é dado o poder de se condenarem a pseudo-sofrimentos por amor de valores pequeno-burgueses, que eles, os privilegiados pelas várias ineficências do Estado Social, apenas resfolegam na arte da melancolia e da experiência artística como o porco na lama, por haver alguém que paga as contas, enquanto eles, os cisnes negros, se dedicam a destruir religiosamente a saúde com grande eloquência e manifesto silêncio. Lamento a minha falta de talento para mercearias, mas o que é facto é que o fascínio pelos cisnes depenados de desespero me vem desde a infância, cabalmente confirmado pela minha insistência em escrever neste blogue, e foi hoje recuperado pela portentosa obra cinematográfica liderada por Natalie Portnam naquilo que será a breve trecho considerado talvez uma das mais conseguidas metáforas da criação artística de que há memória na indústria do cinema. Nina Sayers, a bailarina que somos todos nós, protagoniza um dos momentos mais fulgurantes na expressão das metodologias de trabalho que tendem para a construção de uma voz única, mas uma voz que diz alguma coisa, e é tanto mais inacreditável que vemos uma narrativa realizar-se duplamente, (como filme e como bailado) como se tratasse do relâmpago sinistro de Gogol, injectado de sangue e loucura, enquanto história dentro da história, numa espiral de perfeição, violência e liberdade, capazes de condensar o ronco de todas as cavernas mudas que tememos descobrir dentro do corpo. Poucas narrativas cinematográficas conseguiram até hoje fazer evoluir o ritmo da montagem segundo as coordenadas da arte moderna (e é por isso que tantas vezes o cinema parece hesitar dentro da sua própria vocação de teatro filmado ou de fotografia com som) fazendo estoirar o rumo dos acontecimentos, derrubando as fronterias entre a psicologia da personagem e o tempo da acção, mas sem o recurso aos já estafados mecanismos dignos de metafísica hagiográfica (fumos, nevoeiros, tremidelas, levitações e outras cornucópias católico-deprimentes). Nina Sayers lança o seu corpo numa espiral de ódio contra o mundo, de nojo pela sua própria personalidade e de amor greco-renascentista pelo equilíbrio da explosão artística (que lembre-se, é sempre uma forma de terrorismo) numa tortura de contenção e excesso rigorosamente espelhada na metáfora do cisne negro e do cisne branco, o dia e a noite, a violência da agressão e o sacríficio da carne, a mesma obstinação em perder na luta contra a vida.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Agora com mais calma, passo a explanar a minha posição nos campos verdejantes da concórdia democrática

A Helena Matos é uma pessoa que, não sendo o patinho feio das cabeças a saldo nos jornais de referência para efeitos de argumentação conservadora, não deixa de ser um exemplo perfeito de pessoa capaz de exibições argumentativas tacticamente espectaculares. Hoje, na sua lendária fúria de pessoa outrora-de-esquerda-depois-desancantada-com-o-marxismo-e-agora-convertida-ao-liberalismo-salvífico-agora-e-sempre-amen, brinda-nos com uma categorização sociológica para justificar a também já lendária liberdade de escolha das famílias no que à educação dos seus rebentos de soja diz respeito. Escutemos com atenção. A liberdade, em qualquer sistema político que não abdica de um nível mínimo de coordenação, pressupõe restrições, sob pena de nos convertermos no povo egipcío, entidade colectiva que neste momento beneficia de larga liberdade, entre outras coisas para apedrejar cidadãos locomovidos por camelos e outros objectos circulantes. Trata-se então de objectivar algumas questões, uma coisa que a Helena Matos tem muita dificuldade em realizar vergada sob o peso da sua fúria incontrolável contra uma entidade monstruosa a que dá o nome de Ministério da Educação ou sob a sua forma mais sub-reptícia e rastejante, o Estado. Esquecendo por agora algumas externalidades da argumentação, como a elegante frase em que se procura distinguir o «Estado» dos «contribuintes», uma vez que o «Estado não gera riqueza», tentemos não escorregar na baba (não confundir com a saliva) que se nos liberta do riso e seguir o roteiro proposto pela ensaísta Helena Matos:
a) Os pais devem ter liberdade de escolher a escola onde seus bem amados filhos serão educados;
b) Quem paga esta factura é o Estado, financiando escolas, seja em situação de concorrência total, privatização e financiamento das famílias ou das escolas mais frequentadas, seja em situação mista com rede pública e privada com e sem contratos de associação.
Agora, algumas perguntas singelas:
1. Em caso de a concorrência livre produzir a inevitável hierarquização de escolas (tão necessária, segundo os espíritos mais esclarecidos, na aferição de padrões de excelência), e sabendo que a procura racional tenderá a concentrar-se no topo da classificação, partindo do princípio da não-estupidez dos pais, pois estes quase sempre escolhem bem (um facto endógeno à teoria de Helena Matos), como se processará a selecção dos que entram ou ficam de fora das melhores escolas? A menos que a Helena Matos (e toda essa corja de filhos da puta que por aí anda a confundir-se e a confundir as pessoas com a questão da titularidade do ensino) proponha que as melhores escolas devem tendencialmente acolher toda a procura aumentando o número de alunos e requerendo mais financiamento, até a primeira escola da lista se tornar num mega-super-ministério da educação de todos os portugueses que não são parvos e escolhem a melhor escola; e como nós sabemos que os portugueses, altamente disciplinados, seja na fila de trânsito, seja na participação cívica, jamais usarão estratégias insidiosas para colocar o seu filho numa posição de vantagem. Mesmo descontando que existirá uma dispersão territorial na concorrência, e que pessoas dos Carvalhos não procurarão escolas em Odemira, por muito boas que estas últimas sejam, a verdade é que nos centos urbanos, onde, curiosamente, a questão é mais sensível, haverá uma tendência para a escolha recair sobre as organizações mais eficientes. Parece-me que a Helena Matos aqui terá que optar por uma de duas soluções: a) ou defende um critério coerente de acesso à rede de escolas, que, como todos sabemos, nunca passará por condições monetárias, oh não, quem se lembraria disso, será uma hierarquização tão meritocrática como a escolha dos cronistas do jornal Público; b) ou admite que serão necessárias restrições, e eis que somos de novo chegados ao problema incontornável. Os Estados, que já lidam com este assunto desde tempos em que a Helena Matos não habitava sequer os colhões do pai, optaram primeiro pelo critério territorial, daí algumas das estratégias hoje utilizadas nas moradas falsas (desculpabilizadas por Helena Matos com um sorriso envergonhado), sabendo qualquer pessoa esclarecida que é tão filho da puta uma pessoa que dá uma morada falsa como um cabrão que foge aos impostos.
2. Por outro lado, não lembra a estas cabeças esclarecidas que o problema da informação é determinante no sacrossanto princípio da liberdade de escolha e pode actuar como um nivelador de estatutos sociais duzentos milhões de vezes mais pernicioso do que a pior escola pública onde há facada todos os dias. Isto é, num ponto prévio de escolha, onde estão alinhados todos os pais e todas as mães preparados para escolher o percurso educativo dos seus perpetuadores de genes, alguém duvida do facto de que os pais com mais dinheiro, mais prestígio, mais educação escolherão sempre as melhores escolas? Não lembrará a Helena Matos que a introdução de um princípio de universalidade na educação, com todas as suas monstruosas limitações, como bem lembrava Maradona, é, no entanto, a mais nobre tarefa que alguma organização alguma vez se impôs a si própria, comportando, no entanto, e como é bom de ver, algumas ineficiências que é necessário ajustar? E não terá este projecto de educação universal ocorrido por se entender que deixando ao arbítrio da concorrência natural o princípio da educação das crianças, a natureza tenderia a hierarquizá-las segundo o padrão da estrutura social já existente, e com muito mais violência do que após a introdução de princípio públicos gerais e limitativos? Não seria normal que, perante o miraculoso princípio da concorrência natural e da ausência de Estado, a Etiópia ou Cabo Verde, onde o Estado é mínimo e pobre, estivessem neste momento a produzir pessoas a levitar de conforto, bem-estar e riqueza?
3. Neste último ponto, gostaria de explicar, espero que definitivamente, um problema a que Sir Karl Popper chamou o mito do contexto, começando por referir que o contexo, infelizmente, não é um mito, é aquela coisa definida vagamente por Lamarck como meio e onde, de um ponto de vista social, nos movemos todos os dias. Helena Matos considera vergonhoso que existam teorias que fazem depender o sucesso escolar da proveniência do nível social. Lamentavelmente não são teorias, é a dolorosa confirmação da realidade. Já não falo sequer da incidência dos diabetes ou da obesidade como variáveis dependentes da escolarização e do rendimento, para não mergulhar Helena Matos na hipertensão. Mas o facto é que existem vários «meios» significativos na formação cognitiva de uma criança e a escola é apenas um deles. Julgo que a mera consideração de uma lista de notas e de licenciados mostrará eloquentemente a dependência entre proveniência social e resultados escolares, mesmo, pasme-se, no mais ínclito dos colégios privados. Estamos diante do tradicional equívoco, já apontando por Jacques Delors, uma pessoa que lamentavelmente acreditava em Deus, entre diagnóstico e terapêutica. Ao reconhecer que existe uma dependência entre resultados escolares e proveniência social não estamos a falar de relação determinista entre QI e nível de rendimentos financeiros dos pais, estamos simplesmente a reconhecer que estatisticamente os pais com mais dinheiro e estatuto estão em condições de assegurar melhores condições de progresso social, estamos a lembrar que as pessoas se movem num mundo real e não naquelas robinsonadas de que falavam os economistas ingleses do século XVIII. Claro que há pobres que ficam ricos. Mas quantos por cada 100? E ricos que ficam ricos? Não vamos agora culpar a escola pública pela existência da sida, embora já tenhamos estado mais longe. Claro que há toxicodependentes filhos de pais ricos. Sim, é verdade, eles existem. Mas gostaria que a Helena Matos, ou outro qualquer estimado leitor, me indicasse um toxicodependente filho de pais com rendimentos mensais inferiores a 800 euros que tenha chegado a ministro da República ou a médico. É normalmente referido que uma boa organização da escola é fundamental no sucesso escolar de um aluno, seja ele filho de pobre ou de rico, o que constitui, reconheçamos todos em coro, um princípio irrefutável. Mas será a boa organização escolar suficiente para nivelar o progresso social de um aluno? Ao privatizarem o ensino seguramente que estarão a colocar mais um prego no caixão da promoção social ou estará o Belmiro de Azevedo disposto a confiar-me a direcção da Sonae, a mim, que tenho mais habilitações, e provavelmente mais competência (em todas as áres do saber e desportos aquáticos) do que o Paulo Azevedo? Julgarão todas as Helenas Matos deste mundo que a competência e disciplina de uma criança ou de um adolescente não tem fundamentos exteriores à escola? Isto não significa contemporizar com a dificuldade, significa reconhecê-la para melhor poder ultrapassá-la. O não reconhecimento do princípio da probabilidade em política é um dos sinais mais claros de indigência intelectual: pelo facto de existirem pessoas que provindo de meios desfavoráveis atingem níveis elevados de educação isso não significa que seja absolutamente indiferente na progressão das condições de vida, o ponto de onde se partiu. O contrário é que me parece próprio de uma grande cabra: achar que pelo facto de frequentarem a mesma escola organizada, o filho do médio erudito e o filho do homem do lixo analfabeto têm exactamente as mesmas hipóteses e taxa de esforço para atingir o sucesso escolar. Vergonhoso não é reconhecer uma dependência entre pobreza e insucesso escolar, vergonhoso é de uma assentada, e com a brutalidade da mais tenebrosa ignorância, não reconhecer o esforço sobrehumano, tantas vezes inglório, dos filhos dos pais pouco escolarizados na luta contra todos os factores naturais que como a baleia branca os puxam para as profundezas da noite. Vergonhoso é não querer reconhecer o esforço eficaz do Estado democrático português, nestes últimos trinta anos, na promoção de milhares e milhares de filhos de analfabetos e continuar, sem estudos ou factos objectivos, a laborar no princípio, absolutamente por demonstrar, de que a rede de escolas fornecida pelo Estado promove a desigualdade. Educar significa condicionar a forma, orientar. O problema com a Escola Pública é que não só promove a educação dos filhos como dos pais, condicionando-os, para lá de todas as especificidades, a deveres para com a República laica, de seios nus, despida de tribalismos. E isso é alguma coisa que nenhuma sociedade do bem-estar e da segurança espiritual alguma vez perdoará a um sistema político.

Digamos que a minha posição perante a linha argumentativa da Senhora Doutora Helena Matos hoje no Público se apresenta mais ou menos nestes termos

O Paulo Sérgio nem estaleca tem para dizer coisas destas



especialmente o Minuto 3:05:

«isso reforça, reforça a confiança da equipa, eu tinha dito que a equipa antes do jogo que nesta altura tava muito melhor quando nós jogamos aqui para o campeonato, ela justificou isso, também tínhamos a vantagem de ter feito o já cá um jogo e portanto AHRRrrcK analisámos e também não cometemos alguns posicionamentos que nesse jogo nos fez que com nós não fonssemos a mesma equipa e portanto tudo isso, o factor acrescido para esta vitória é a 14ª vitória consetiva e nada de mais quisto vai ter consequências»

via Tolan

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Comprada subrepticiamente


às escondidas da senhora minha esposa, na loja do ti Belmiro por cinco aéreos. Experimentei hoje, com o único café moído que cá tinha em casa, um "café" canadiano com aroma a mapple siroup que a senhora minha esposa adquiriu no Quebéc num acto impulsivo de que parece só as mulheres são capazes. Qual não foi portanto o meu espanto, com a qualidade da infusão. Ainda não tentei mas tão certo como o Cristiano ser mais um desperdício de graveto do SCP, que se lá puser água da fonte, sai um Primitivo di Manduria.

Lá está, toda a gente sabe que as moka fazem um café do catano. Mas exceptuando uma tia-avó que agora bebe Nexpresso, não conheço mais ninguém que a tenha em casa. O que obviamente que me obriga a desconfiar do que toda a gente sabe. Por exemplo, toda a gente sabe que o FCP é a melhor equipa no campeonato mas não foi por isso que hoje encaixou dois do Benfica e saíu de Alvalade com um empate. Um empate senhores, contra o pior SCP de que tenho memória.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Foda-se, que até me vêm as lágrimas aos olhos quando alguém tem a coragem e a limpidez de raciocínio para enfrentar as trevas e a ignorância

Há seguramente vários anos na liderança do comentário político

...fazer jogo político com o rendimento mínimo como faz o CDS, e permanecer em diplomático silêncio quando as familias de filhos de administradores da PT são subsidiados em 500 euros por mês na sua escola privada, é como mijar para a caixa das hóstias.


Como diria o cabrão do Mário Crespo: rigorosamente a não perder.

A diferença entre uma pessoa que canta como quem acabou de rematar à baliza e outra que foi desenterrar do folclore salazarista o "trajo de Domingo"



Uma pessoa introduzida num sistema de incentivos cuja finalidade é produzir conhecimento deve ser aquilo que mais se aproxima do fenómeno identificado por Ana Bacalhau e restante grupo folclórico como um mundo parvo onde para se ser escravo é preciso estudar. Musicalmente, o grupo de Ana Bacalhau destaca-se da média, e julgo que um factor não dispiciendo neste destaque é o facto dos músicos, não sendo parvos, terem efectivamente estudado. Já a programação de conteúdos tem uma distribuição de qualidade muito acidentada. Veja-se o assinalavelmente bem conseguido «Um contra o outro», o texto para canções que mais se aproxima da trilogia Godinho, Palma, Reininho, onde o esboço de crítica antropológica casa sem dor com a linguagem convencional dos autocarros da Carris, e isto, embora tentado à saciedade mas sem resultados satisfatórios, por tudo quanto é B Fachada, não é, nem por sombras, uma actividade sem riscos. Porém, era inevitável que um texto onde se procurassem juntar «mundo parvo», «escravo» e «é preciso estudar» só estaria ao alcance de um Shakespeare, ou, vá lá, de um Whitman. Ora, o grupo de Ana Bacalhau mergulhou assim na sopa mais requentada das últimas décadas, um banho preocupante que parece afligir cada vez mais uma geração cuja maior preocupação não deveria ser o estado de escravidão, para citar os brasileiros, muito versados nestas coisas (uma coisa má em si, mas não irreversível) mas sim o facto de estar completamente desorientada intelectualmente (um problema bem mais agudo). É necessário explicar várias funções do problema, regularidades com comportamento tendencialmente previsível, numa curva de consequências muito difícil de derivar:

0. O facto de «ser preciso estudar» revela que, na opinião do sujeito poético, estudar é uma coisa má, o que logo à partida funciona como uma antecâmara dos horrores sociais que estão prestes a desabar sobre nós pela boca de Ana Bacalhau. Se para ser Senhor fosse preciso estudar, estudar já seria uma coisa boa ou, por outro lado, se para ser escravo não fosse preciso estudar, estaria tudo bem, obrigado. Estudar, como fim em si, é coisa que nunca passa pela lista de felicidades domésticas dos portugueses.


1. O mundo não é parvo nem meio parvo, para citar o incontornável Tchékhov, as pessoas é que são parvas.

2. Para ser escravo neste mundo tornado parvo por pessoas parvas (isto é, cujo âmbito de conhecimentos é muito limitado ou - atente-se agora com muito empenho - muito especializado) contribui tanto a compra de um cd dos Deolinda como a frequência de qualquer curso superior (excluindo, como é evidente, a Gestão, uma especialização parva da qual é muito difícil recuperar).

3. Vou desculpar aquela alusão à mulher que, coitada, não pode ainda ter marido e filhos porque é escrava, seguro de que apenas o olímpico, recorrente e desculpável desconhecimento da história do mundo ocidental, e toda a sua interminável arquitectura de carestia, guerra e morte, justifica uma tal confusão, lembrando que a possibilidade de uma mulher não enveredar pela carreira reprodutiva permitiu pensar os problemas da população e a libertação educativa dos nascituros, como pessoas, e não como força de trabalho necessária à alimentação das ninhadas que sucessivamente iam abrindo a boca no contexto do lar. Não confundir problemas de liberdade individual (casar e ter filhos) com a escravatura sistémica dos contratos de trabalho, uma vez que a procura agregada que gera a oferta agregada e o primeiro factor de força das empresas de produção (ainda que a relação do investimento com o desemprego involuntário possa ser determinante no alargamento da procura de bens salariais) resulta de mulheres que querem ter filhos e marido, e maridos que querem ter filhos e mulher, pondo pessoas no mundo que querem ter coisas, uma circularidade que nos introduz no próximo ponto.

4. Num sistema em que os contratos monetários são a coluna da produção, a aquisição de bens líquidos (que transportam para o futuro a capacidade de fazer frente à necessidade de compromissos súbitos, compras necessárias) representa uma tendência dos agentes para poupar em armazenamento de bens não reproduzíveis, pois se fossem convertidos em investimento não serviriam de reserva de valor, o que como Keynes demonstrou (e agora não tenho tempo de explicar) é uma das maiores causas de desemprego involuntário. Neste sentido, torna-se imperioso entender que:

a) ou abdicamos do sistema em que vivemos, uma coisa que os Deolinda não parecem interessados em fazer, a julgar pela farta programação em Casas de espectáculo apoiadas por muitas e variadas instituições em que escravos com estudos e sem estudos circulam felizes e contentes na grande roda da criação de valor;

b) a única forma de furtar o indivíduo ao sofrimento da escravatura ( e atente-se que já um Bob Marley, na esteira de um Kant ou de um Jean-Jacques, tinha entendido nesse hino imortal, «Redenption Song», que a verdadeira escravatura é sempre mental) é estudar.

5. Bem vindos agora ao maior equívoco da pós-modernidade. É que para indivíduos desorientados (ou, na pior das hipóteses, partindo de um contexto familiar muito adverso, onde mais uma vez os estudos confirmam a variável escravatura como dependente da ignorância) a quem a ganância, a parvoíce, a perseguição dos instintos mais primários no homem (o conforto, a segurança, a reprodução) guiou a vida num sentido estéril (precipitando-os desde a adolescência ou na ignorância ou em cursos de especialização onde se confunde o estudo com a produção de artefactos) toda a busca de conhecimento é confundida com escravatura. O B Fachada recomenda que o Joãozinho não vá à escola para não o tramarem no sistema, até porque o mundo está cheio de países onde abunda a escravatura (Birmânia, Colômbia, Zimbábué) onde as criancinhas são todas doutoradas em Bioquímica e Astrofísica, como é do domínio público, dois dos mais brutais instrumentos de exploração


6. Uma pessoa não deve confundir a institucionalização das técnicas de reprodução de artefactos ou serviços que tendem à reprodução de artefactos, com o estudo em geral, sob pena de tal pessoa representar o prego no caixão da esperança (esse anjo da história). Os problemas que nos são colocados pela industrialização não decorrem apenas da ciência mas também dos desejos(onde todos os Deolinda deste mundo confundem o estudo com a escravatura, numa versão de crítica à tecnologia que já tem barbas mais longas que as do famoso adepto benfiquista) . Ora, o único instrumento para moderar os impactos negativos dos nossos desejos é a planificação das consequências de estarmos vivos, usando na não direita a razão crítica e na esquerda o estudo aprofundado de todas as consequências do uso da razão crítica.

7. O estudo permite estar frente a frente com o maior número possível de cérebros, e descobrir nessa diversidade todos os instrumentos úteis à resolução mais geral do maior número de problemas possíveis, de onde ficará, por certo, um sentimento de libertação (os gregos ainda não tinham separado acção e pensamento, mas tinham escravos que os libertavam para pensar quando era preciso agir, uma vez que alguém agia por eles, não há almoços grátis). Pedia encarecidamente a Ana Bacalhau que enquanto não encontrar solução para o problema da escravatura não vilipendiasse a única estrada para a libertação, o conhecimento. Se os Deolinda quiserem começar a discutir qual conhecimento, estarei completamente disponível para o efeito. Até lá, mais respeitinho pelo prato onde se come.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Solidários com o Egipto

Um bom fim de semana com Charles Bradley

Editar um album aos 62 anos é obra. Mais ainda quando se trata do seu primeiro. Depois de uma vida atribulada (desde viver na rua, o irmão assassinado pelo seu sobrinho, etc - vejam tudo na bio, vale a pena) sai agora isto para o mundo, Charles Bradley:



Numa palavra: uau!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Isto já começa a chatear

Até pessoas com uma centelha de inteligência como o Joaquim devem de reconhecer que o estado não tem nada que andar a pagar escolas privadas. Ponto. O liberalismo tuga só é a favor da intervenção estatal quando lhes pesa no bolso. Irra que já chateia.

E pela santinha, não me venham com a tanga da proximidade. Quando estava no Chile, dei boleia a um estudante do secundário. O moço fazia mais de 2h30 de autocarro do colégio público onde passava a semana até à paragem do autocarro. Sim, leram bem o autocarro deixava-o a 2h de casa, numa sexta à tarde e sendo o caminho para casa terra batida pelo deserto percorrida quase só por traficantes ou turistas enganados.

Está bem, Portugal não é o Chile. Mas e depois ? O moço tinha duas escolhas: fazer o secundário ou passar o dia na apanha de algas e a noite a fumar ganza como o resto dos coitados da aldeola. Eu tenho a certeza que fez a escolha certa. Tal como colegas que no 10º mudaram para uma escola pública a mais de 30 Km de casa, porque queriam entrar em medicina. Querem uma escola de qualidade à porta de casa ? Também queria que o Paulo Sérgio percebesse mais de futebol.

O exemplo

"Aníbal Cavaco Silva decidiu prescindir do seu vencimento enquanto Presidente da República, no valor de 6523 euros - resultado de um corte de 5% em 2010, mais um corte de 10% em 2011, decisão incluída nas medidas de austeridade para a função pública -, para passar a auferir as sua pensões, que totalizam cerca de dez mil euros mensais, 140 mil euros/ano."

Verdadeiro serviço público

Estes posts do maradona (aqui e aqui) e mais este aqui do aventar. E depois ouço na rádio que estamos a protestar não pelos cortes do dinheiro, mas pela qualidade do ensino que se pode vir a perder. E ainda por cima usam as crianças no meio disto tudo.
E agora assumindo a postura completamente liberal: se não se aguentam sem o subsidio fechem. Porque é esse mesmo o principio do capitalismo. Votaram no Cavaco para que?