segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

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Na sequência de coisas de que agora não quero recordar-me - e fazendo eco dos votos de besugo, isto é, «parabéns à prima» -, venho por este meio declarar a esta ditosa pátria minha amada que não voltarei a levantar um cabelo em prol da ilustração colectiva de uma população que, genericamente considerada, merece cada um dos micro-segundos de que é feita a sua ignorância cronologicamente considerada, vai para dez séculos, como uma das mais lendárias terras onde brotam o saloio, o beirão, o transmontano e o algarvio, espécies sempre adaptadas a novas realidades, sempre prontas a colocar a sua semente de sabujice e província na mais frágil tentativa de fraccionar a estrutura oligárquica do território ou iniciar um período de Luzes, ainda que ténues. Qualquer sociologia eleitoral - eu já empreendi várias, entre imperiais, chamuças e vários volumes de exegese aos românticos ingleses -, confirmam a alavanca que faz do senhor Presidente da República um ponta de lança do eleitorado mais idoso, mais analfabeto e mais interior, representando uma espécie de válvula de segurança perante aumentos de velocidade da transformação que possam lezar o velhinho, o governo paroquial, ou a horta junto do ribeiro. Faziam o favor de me descontar os elogios à ruralidade: sem industrialização e sem literacia, pessoas que compram e lêm livros, não há democracia e o Professor Doutor Aníbal António é uma negação da escolarização em movimento, um manifesto a favor da indiferença perante o raciocínio, um insulto perpétuo ao valor da imaginação e da eloquência metal, um sacerdote do pobre quotidiano português, o tempo detergente, o génio da banalidade. Dizem, contudo, que isto somos nós, coitadinhos, condenados à marquise, à inovação, à criação de valor, às mais novas gerações - caracterizadas por, louvado seja o senhor, desconhecerem em absoluto a história de Portugal, o que só as poupa à infâmia e à vergonha -, às obras completas do cardeal patriarca, ou, na melhor da hipóteses, aos ensaios sardentos e febris de João Lobo Antunes, uma pessoa que gostava de ser uma pessoa. Portanto, parabéns a todos os que consideram irrelevante a realidade colectiva da mente (Espinosa) e fazem de cada dia a maravilhosa descoberta do conforto que é pertencer a um sistema político, que digo eu, uma roda dentada mais repetitiva que um alarme de automóvel e mais estéril do que a mulher de Abraão. Eu, desde este preciso momento, encerro para obras internas e vou maravilhar-me com a solidão do meu próprio espírito, uma substância onde, como tenho aqui repetidas vezes proclamado, ainda não chegam os sórdidos ventos da confiança e da estabilidade.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Bom fim de semana

O homem que fica sozinho durante 90 minutos

Naquela que foi das decisões mais polémicas de sempre no futebol moderno (parafraseando Rui Santos), o arbitro Martin Hansson e a sua história num breve, mas muito bom documentário:


e disto tudo impressionou-me a solidão.

A Saca-Rolhas



Nos últimas semanas a minha caixa de email e, julgo, as de toda a gente, foram invadidas por um interminável número de mensagem sobre a castração de Carlos Castro que de humorísticas tinham tanto como uma imagem de cavaco a comer bolo rei ou de Bettencourt a festejar um campeonato do Sporting, um clube que parece castrado desde que, como se faz aqui, se decidiu aceitar e até reforçar a supremacia do FCP, objectivando diminuir, com sucesso, a virilidade do Benfica.
Pergunta Renato "Carlos, castro?" ao que este respondeu: "sim". Não via, confesso, uma castração tão grande desde que Sócrates decidiu apoiar Alegre, uma cambalhota que tem tanto de poética como de patética, transformando a candidatura do homem de combates numa espécie de ejaculação precoce, democraticamente precoce, diria.
Mas a ele ninguém o cala, nem castra, "Renato, seabra!" (ler com sotaque brasileiro), gritou Carlos, e perceba-se aqui a ironia de “gritou”, porque a ele ninguém o cala, perdão, castra. Mas castrou.
Li aqui da semana passada o percurso de dois meninos de sucesso. Ambos nos diriam, e dizem, se para aí for o debate, que são como o vinho do Porto, quanto mais velhos melhor. Renato, percebendo mal o significado das palavras de Castro, foi buscar o saca-rolhas confundido o vintage com o velho, ainda que num palavreado íntimo se aceite alguma brejeirisse, como as alusões à SLN ou a contínua ameaça “ou eu, ou a crise”. Diz o Renato “Então espera aí que eu vou buscar o saca-rolhas!”. E diz “Carlos vou-te sacar um olho.” Diz Carlos “Vais sacar é o caralho…”.
Enrolhado, perdão, enrolado nas sondagens de hoje, diria que estamos fodidos, enrabados até. Mas calma, que eu até não sou pessimista. Sinto-me é como a bovarinho de Manuel de Oliveira a passar por debaixo das laranjeiras em direcção ao Douro ou então, porque também sou pelas modernices, a caminho do metro em Nova York, mas via respiradouro, como o castro, como se me custasse respirar e me faltasse ar com sufuciente qualidade democrática.
Cara Planta

Desde "O Último Tango em Paris" que não que via na manteiga uma sugestão tão libidinosa como os cartazes publicitários espalhados pela cidade de lisboa. Vi e agradeço. Mas não querendo parecer retrógrado e manteigoso, é preciso muita imaginação para relacionar migalhas na cama com manteiga e, sublinhe-se, as respectivas nódoas, com um aumento do desejo feminino. Mesmo que seja graficamente tão sugestivo como muitas das coisas que encontramos aqui.
Sobretudo porque as nódoas de manteiga são difíceis de tirar como o caraças e, matrimonialmente, instigadoras de um percurso amoroso muito mais próximo do anti-erotismo do fado do que dos preliminares da dança originária ad Argentina.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Nós, os que não gostamos dos políticos que temos, somos desconhecidos políticos de uma infinita clarividência

Como é do conhecimento público, eu gasto cerca de 98,34% do meu tempo a ler livros escritos por pessoas incapazes de dizer mal de uma campanha eleitoral, isto é, pessoas que se dobram perante a possibilidade de escolhermos pessoas muito abaixo das nossas possibilidades de fazer, como seguramente o João Lopes faria, brilhantes campanhas eleitorais em que as múltiplas e obscenas exuberâncias nunca tomariam o nosso espaço público - uma coisa em nada comparável com a obscena exuberância dos dez filmes a preto e branco que o João Lopes julga serem detentores de um pensamento político capaz de elevar o nosso espaço público às alturas estratosféricas do seu conceito ideal. Eu gosto muito do João Lopes mas nada mais insuportavelmente vazio do que a erupção da banalidade num juiz-avaliador do pensamento político como é João Lopes, a saber, a conclusão de que o pensamento que passou a dominar a nossa vida política foi, algures num tempo em que o João Lopes era pequenino, muito melhor do que aquele que agora, com obscena exuberância, é ostentado pelos candidatos presidenciais. Vamos entender-nos de uma vez por todas: os portugueses são politicamente estúpidos até ao âmago dos seus ossos, não por culpa própria, não por serem congenitamente piores do que os ingleses, os etíopes ou os chilenos, (não há hierarquia humana nas águas da placenta, ou talvez haja, não sei) mas porque a evolução de uma infinidade de complexidades e variáveis os precipitou no abismo da ignorância organizativa quando os outros povos seguiam o curso inverso. No entando, esta estupidez política conjuntural é muito mais vincada em qualquer um dos milhares de anónimos que zurzem nos candidatos presidenciais que nas entranhas neurológicas de mesmo um vincado troglodita político como é Aníbal Cavaco Silva, como se torna evidente pelo simples facto do Professor de Finanças ter decidido ir a jogo, introduzindo na sua vida a máxima elevação do espaço público, confundindo a sua vida com o destino colectivo, como aí estão as dramáticas reviravoltas da vivenda algarvia para testemunhar o sangue com que normalmente são selados, para o mal e para o bem, os pactos da participação na obscena realidade. Quer isto dizer que a patine estética que garante ao João Lopes a dignidade de não intervir politicamente num partido à sua escolha - guardando a virgindade perante a obscena realidade da pobreza política que é a nossa - constitui o maior sintoma de que espera, por certo, um amanhã que filma, e, assim, confrontado com a exuberante obscenidade do real, deixa cair lamentações sobre o lugar onde temos que construir as nossas vidas, umas melhores, outras piores, mas todas distintas no julgamente do que é a pobreza do espaço público. Pena é que a sabedoria política se faça a partir desta constatação e a elevação do pensamento político apenas se erga, como a coruja de minerva, quando esse observador, ao anoitecer do átrio da sua porta, mantém a serenidade e suspende o julgamento, não se apressando a medir o mundo pelo tamanho da sua cabeça, a partir de um prisma arrogante e ingénuamente esclarecido, e faz apenas o que tem a fazer: ouvir, mais do que falar, agir e esperar que um qualquer espectador tome o lugar do João Lopes e atire a primeira pedra.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Declaração de voto

Eu votava no João Lopes

A regra é sempre a mesma: transfigurar o espaço público em pueril tribunal popular, com cada cidadão a ser forçado a assumir-se como “juiz” do que lhe colocam à frente dos olhos.

...
estamos também a viver uma campanha eleitoral que, com obscena exuberância, tem mostrado a miséria de pensamento que passou a dominar a nossa vida política.

Uma mentira dita muitas vezes transforma-se em politica

Queria manter-me afastado do circo politico dos últimos dias, mas a ideia de ter Cavaco outra vez como Presidente é me tão atroz que não tenho remédio. Querem exemplos de como o homem anda a brincar connosco? olha só este aqui:

"O que Cavaco diz sobre os gastos de campanha:

"Não me sentiria bem com a minha consciência, num tempo em que são pedidos tantos sacrifícios aos portugueses, gastar centenas de milhares de euros por todo o Pais" (aqui)

O que Cavaco faz em relação aos gastos de campanha:

O candidato à Presidência da República Cavaco Silva foi o candidato que apresentou o orçamento mais elevado para a campanha eleitoral, de 2,1 milhões de euros, seguido de Manuel Alegre, que prevê gastar 1,6 milhões. (aqui)"

via Arrastão

Haverão muitos mais (aquela história dos amigos BPN cheira tão mal que nem vale a pena entrar por ai). Dirão-me os apoiantes de Cavaco que os outros são iguais ou piores. Que só ele representa a estabilidade que precisamos. O que precisamos é de gente com valores. Isentas. E do que vejo Cavaco representa o pior do português (oportunista, matarruano, ideias fixas,...) de que ando a fugir de ser há uns anos. Aquele tipo de pessoa que levou isto ao fundo.

Bailamos no teu Microondas - Os Capitães da Areia



É verdade Alf, do sucesso do B Fachada e de algumas horas de Vampire Weekend nasceu esta merda. Será uma luta perdida ou com uma pequena adaptação destes meninos a Lady Gaga, teríamos tão bons músicos como se, por anti-teimosia, o melhor defesa esquerdo do Benfica nascesse de uma adaptação de Jara, por Jesus, a essa posição? É possível

Mais ou menos


No dia em que descobri o Bansky português.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Vamos ter saudades tuas JEB

Demos graças à demissão do Bettencourt

que finalmente suscitou algum interesse nas eleições presidenciais, do Sporting. O que me leva a colocar a seguinte pergunta ao staff do Cavaco ou do Alegre, os outros candidatos não têem graveto sequer para colocar um cartaz quanto mais pagar um assessor a recibos verdes. Perguntava eu, senhores consultores eleitorais quão burros, estúpidos e incompetentes sois que estas eleições têem sido um paradigma de desinteresse e imagina-se, abstenção ? Nem o Benfica do Graeme Souness concentrava tamanha palermice por metro quadrado.

Mas vós não estois sós. Os "jornalistas" que acompanham os candidatos publicitam a superior bosta de formação que receberam. O Alegre foi ontem a Vila Real, mas teve mais tempo de antena o pobre diabo que empurrava a sandes de porco no espeto com um copo de tinto. O Francisco Lopes esteve algures na margem sul, não me perguntem onde que para mim é tudo deserto, e não podia faltar o grande plano aos velhotes seguido pela "jornalista" a comentar o cozido que foi servido ao jantar. É pá, sinceramente. A campanha supõe-se, é feita por profissionais do marketing e relatada por profissionais da comunicação social. E o resultado é este ?

domingo, 16 de janeiro de 2011

Um fim-de-semana como eu já não tinha há muito tempo

Ontem foi o "Sanjuro", à tarde, o e o "Aconteceu no Oeste" depois de jantar. A esposa gostou, de estar a dormir no sofá, enquanto eu me ia deleitando com o filme. Uma das cenas finais, com o puto a segurar o pai nos ombros é brilhante. Nada de texto, apenas um movimento da câmera que vai descobrindo a cena. E a música, a música senhores. Hoje, a sobremesa foi o "Por mais alguns dólares". Enfim, um fim-de-semana como os de antigamente. Até o Sporting perdeu.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O teatro de Eurípedes ensina que um assassínio pode ser mesmo só um assassínio

Podemos averiguar a matéria fundamental na composição de uma pessoa estúpida por crónicas como a assinada por Helena Matos no Público de hoje, em que se argumenta sobre matérias tão objectivas e clarificadas como os círculos no centeio feitos por alegadas naves provindas de galáxias distantes. Os portugueses esquecem com frequência quem são, pelo que este post vai no mesmo sentido de Artur Jorge depois de ser congratulado pelos dois punhos fechados de Ricardo Sá Pinto: «temos que nos lembrar de Alcácer Quibir». O mundo do glamour, ou da fama, ou da moda, uma amálgama de coisas que Helena Matos não se dá ao trabalho de distinguir ou identificar nem para efeitos de eficácia argumentativa, possui, na opinião da especialista no mito de Salazar, uma capacidade de atracção, entenda-se magnetismo malicioso, a que os pais das crianças e adolescentes não conferem a tensão contrária exigida pelas leis da física moral, descartando o épico trabalho de moderar a busca da fama com a respectiva dose de repressão e maus-tratos, instrumentos de aperfeiçoamento que, a julgar pelas napas pretas invariavelmente cobrindo o lúbrico corpo de Helena Matos, devem estar para sempre no coração das nações civilizadas. Pensando na tragédia de Nova Iorque, mas não tendo a coragem necessária para o referir abertamente, desenha-se uma comparação entre a metodologia de insulto utilizada pelo distinto Júri dos ídolos, considerada ignóbil moralmente, mas a que jovens e adolescentes resistem com indómita «persistência na busca dos sonhos», e a passividade das escolas perante delinquentes, em que os agentes da autoridade em sala de aula são vítimas da repressão sobre as tentativas de repressão, censurados socialmente sempre que recorrem a tão boas práticas quando se trata de colocar na ordem adolescente mal criados. Não sei se a Helena Matos se dá conta de que nestas crónicas procede a uma auto-flagelação da sua inteligência, esquecendo no âmbito da raiva emocial perante as «utopias do socialismo romântico» - digo eu, a única coisa valiosa do pensamento ocidental depois de Platão, Galileu e Newton - que a fama, por ser considerada socialmente irrelevante e até nociva, pode armar os esbirros que quiser na sua protecção e correr mundo a despedaçar os sonhos de glamour dos nosso mancebos, pois estará a ser auto-moderado o seu hipotético poder magnético. Cara Helena Matos, se seguisses o teu argumento com a austeridade lógica que recomendas para escola, verias que será até um favor que a Sic nos presta, talvez o seu único serviço público, mas acontece que é tal o teu ódio contra a moderação de qualquer autoridade que acabas num tufão onde se misturam tragédias pessoais, psiquiatria forense (aliás, uma ciência complexa, só para lembrar aos praticantes amadores) concursos televisivos, responsabilidade social de uma instituição pública ou privada, sala de aula e sala de espectáculos, eu sei lá, um tutti quanti de variáveis mais desorientadas que as personagens de Morangos com Açucar CXXII. Já a escola, e sua capacidade hierarquizar a valia dos alunos, tendo em conta a sua obrigatoriedade, atinge toda a gente naquilo que existe de mais fundamental, isto é, a capacidade de condicionar logo à nascença a variável que determinará se alguém vai ganhar 500 ou 50 000 euros. Embora haja muito fraca memória em política - eis o inestimável Jorge Coelho - convém lembrar que o Professor tem poder, aliás, muito poder. Mesmo quando há facas, pastilhas no tecto, insultos, telemóveis, quantos professores levianos não contribuiram para a destruição de vocações científicas e artísticas ou condicionaram a entrada em cursos universitários? Isto não significa esquecer a dimensão estruturante do Professor, quer na organização da autoridade democrática, quer no funcionamento de incentivos ao estudo, ao amor pela razão crítica, mas implica que pessoas como a Helena Matos possam representar um perigo substancial para os nossos jovens debutantes de ideias sobre a vida, mais do que qualquer contacto com o mundo do glamour, uma vez que é tão sórdida a sua forma de estruturar argumentos e tão enviezada a sua análise da realidade, que me leva a perguntar porque razão a tragédia de Nova Iorque serve como uma espécie de meridiano de sangue entre as pessoas estúpidas e as pessoas inteligentes.


Pessoas estúpidas: pessoas que tal como Helena Matos ou como esta se servem de todas as incidências reais e imaginárias para fazer jurisprudência na área da sociologia do tremoço, uma área de estudos em que a generalização é o fundamento exógeno da teoria, valendo todas as arbitrariedades lógicas em nome de uma indignação política ou, nos casos mais doentios, moral perante coisas normalmente muito complexas, obscuras, incapazes de lançarem luz sobre o que quer que seja.
Pessoas iluminadas, como eu, habituadas a beber nas fontes de Rosseau, Kant, Montesquieu, Paine, Adams: primeira característica - possuir a coragem de não dizer uma palavra, por muito forte que seja a gritaria dos medíocres e o fulgor da nossa inteligência, perante coisas que nos ultrapassam em complexidade e desconhecimento; segunda característica - ter bem claro que lançar luz sobre um incidente não significa absolutamente nada do ponto de vista do conjunto social a não ser na medida em que se reveste de significado humano (numa relação muito complexa e sombria a que à falta de melhor palavra se tem chamado ideologia) e para poder observar essas cadeias e regularidades de significado humano é necessário convocar saberes que nos levam uma vida inteira a reunir, pelo que nos resta observar com rigor antes de mais o que pretendemos nós quando ousamos ferir o silêncio, e não o significado do glamour, dos filhos perante a atracção do glamour, ou dos pais perante a atracção do filhos pelo glamour. Se se trata da minha reverenda personalidade, posso dizer abertamente que no duelo entre mim e o mundo, oiçamos o conselho de Kafka, escolhi ser padrinho do mundo, o que me custará por certo um factura elevada.

Só à sueca é que não se podem fazer renúncias

Existe uma personagem heróica que emerge invariavelmente no imaginário popular: o eleitor que vota em branco. Se em Abril a canção era uma arma, parece que agora é o papel por preencher, cuidadosamente dobrado em quatro, delicadamente enfiado na urna. Como qualquer romancista medíocre bem sabe, todo o herói precisa de um vilão. Emerge o vilão eleitoral, efeito dramático assim obriga, o tipo que se abstêm. Eu, por exemplo.

O votante em branco é tipo impecável, toma banho e corta as unhas, enquanto que os abstinentes cheiram mal dos sovacos e fazem peregrinações ao cemitério de Santa Comba Dão. O voto em branco é um protesto válido e corajoso, não votar uma cobardia ignóbil. Pena que os factos contam uma hist+oria diferente. Primeiro que tudo, o voto em branco não conta assim o diz a CNE. É eleito quem tiver mais de metado dos votos expressos, sejam 10 ou 10 mil.

Segundo, aceitemos a ideia de que a populaça está a passar uma mensagem com um significativo voto em branco. Qual é exactamente essa mensagem ? Não se sabe porque o papelinho está por preencher. Quem votou em branco é monárquico ? Facista ? A caneta não escrevia e teve vergonha de pedir outra ? Não se sabe, ponto final parágrafo

Se a mensagem é de protesto, não sabemos mas vá lá eu deixo essa porta aberta, é de protesto contra o quê e contra quem ? Suponhamos que o Fernando Nobre (o único a quem eu convidaria para jantar, fazia-lhe um ceviche corvina que o homem se regalava todo) ganha as eleições e 90% dos votos foram em branco. O que é que deve o presidente eleito fazer ? Convocar novas eleições ? Demitir-se ? Ignorar e seguir em frente como se nada fosse ? O distinto leitor faria o quê ?

Está claro que todos os valentes que se levantam no domingo de manhã para serem os primeiros a votar em branco e/ou desenhar o Cavaco a ser sodomizado, sabem porque é que estão a "protestar". Mas os candidatos não sabem e não têm forma de saber. Por isso mesmo eu conto (se a esposa assim o permitir) passar a manhã eleitoral com o Sanjuro ou o Kagemusha. Para quê perder o meu tempo a fazer passar uma mensagem que não vai, nem pode, ser entendida pelos destinatários.

Posso eventualmente ser uma carraça democrática, sorvendo os benefícios da vida no Portugal de Abril mas sem contribuir com peva para um Portugal melhor. Está bem, mas só á sueca é que não se podem fazer renúncias, e não é por isso que elas deixam de ser feitas. É, digamos assim, parte das regras do jogo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sempre gostei de heróis

Pediu que se salvasse primeiro o seu irmão mais novo. Com o sacrificio da sua própria vida ao tomar esta decisão. Mais Aqui

sábado, 8 de janeiro de 2011

Tenho muitas dificuldades em lidar com a frustração

Este trabalho de Vangelis é uma verdadeira porcaria - como quase toda a sua obra -, na sequência de um aproveitamento bárbaro e infame de um artista sério, martirizado, genial e como não podia deixar de ser, melancólico. Os sons sensacionalistas, usados em comícios populares, mergulham o amante da música na mais violenta desilusão, por ser tão escassa a qualidade de homens políticos capazes de se furtarem ao ridículo consumo das aparências: uma música que quase parece ser aquilo que não é. Não por acaso, nos próximos dias que serão os últimos, ouviremos concerteza falar da honrbilidade, uma coisa que não se experimenta fora do corpo. Acontece que a honorabilidade não se discute, é o que parece gritar surdamente aquela golilha espanhola pintada por El Greco, aqui em cima, que fez as delícias de Thomas Mann, um escritor que, à semelhança de Hulk, está claramente sobrevalorizado. Falemos com franqueza: a Montanha Mágica promete nas primeiras trinta páginas conceder-nos a experiência da grande literatura, referências ao vinho Porto, situação da classe burguesa na Hamburgo de final do século XIX, um jovem entalado entre o desejo de mulheres bonitas, elegantes, e a tortura de uma profissão que se não deseja, enfim, estão lá todas as promessas eternas. Acontece que, tal como o Benfica de Fernando Santos, à passagem da meia hora de jogo, isto é, trezentas páginas depois, confirmam-se os piores pesadelos: o livro resvala na irrelevância palavrosa de um germânico fim de século desorientado entre referências filosóficas, o cansaço alpino das neves eternas - ah, o terror da cor branca já identificado por Melville - e uma enorme chatice de cornucópias narrativas a terminar num perfeito desastre artístico. Algo de semelhante se passa com o Professor Aníbal Cavaco Silva. Não está em causa a vitória nas próximas bodas presidenciais, e o transformar da água em vinho é mais do que uma certeza: é uma satisfação anunciada, o festim de todos os sabujos, tão abundantes em Portugal como a gaivota-asa-de-ladrão. Em todo o caso, já nem sequer José Pacheco Pereira consegue esconder um certo tom fim de festa, o que nos devolve ao tema inicial: a vida é uma estranha viagem a caminho do inferno.

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Name Barbara Baldaia
Location Lisboa e Porto
Bio desatenta e desconcentrada, boa a fazer sopas

@vascocampilho lol via web in reply to vascocampilho
Só é pena a música ser tão má... RT @vascocampilho http://bit.ly/8thbF Está calor, não está... baby? via web
@paulogorjao @pauloferreira1 @JMF1957 Afinal está tudo de acordo. Os políticos devem dar o exemplo. via web
@paulogorjao @pauloferreira1 @JMF1957 Os líderes partidarios podem ter aquilo a q MM chama "coragem". E c/ os independentes? Como é? via web in reply to paulogorjao
@paulogorjao MM desvaloriza a lei: "não é preciso nenhuma lei para colocar ética na política, basta a coragem de quem manda" via web in reply to paulogorjao
@paulogorjao @JMF1957 Mais do q isso: Rangel diz que a política é autónoma da ética! via web in reply to paulogorjao
Os profs de filosofia resumem Maquiavel nas escolas a "os fins justificam os meios". Isto n me sai da cabeça. via web
@paulogorjao @JMF1957 Basicamente cá fora repetiu o q ja havia dito lá dentro. via web in reply to paulogorjao
RT @PauloFurtado "Assessora de PR diz que participa em Universidade do PSD porque não é «actividade subversiva» - TSF http://bit.ly/QVZyY via web

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Acabo de ver o João Galamba

em trajectória descendente nas escadas rolantes da Fnac e confirma-se que o gajo é mesmo estúpido.

Eis senão quando...

Nem de propósito, acabo de esbarrar num post de Maradona onde se repete uma coisa que, por motivos sentimentais, éticos e nacionais, deve ser corrigida, sob pena de um dos mais chocantes lugares comuns da história do pensamento ocidental continuar a sua longa vida de escandalosa lascívia: a saber, Acho bela esta capacidade de o capitalismo adocicar de maneira quase inultrapassável as energias associadas aos piores sentimentos e instintos que constituem a natureza humana. Vou ignorar a utilização descuidada da palavra natureza humana (uma substância que até prova em contrário é constituída por coisas tão díspares como as obras completas de William Shakespeare e as homilias contínuas do senhor Cardeal Patriarca) e concentrar-me no argumento: o capitalismo, enquanto sistema, utiliza as insidiosas pulsões da alma para as converter numa força positiva. Ora, o capitalismo é prodigioso, mas não por esta razão, ou não estaríamos confrontados, desde a emergência dos holandeses e dos ingleses como distribuidores de jogo, com as mais fascinantes dificuldades de harmonização da dita natureza humana, uma coisa mais confusa do que a filosofia de Deleuze e mais adaptativa do que a carreira de Ronaldinho Gaúcho. O capitalismo foi (é) antes uma forma de potenciar a inteligência, disponibilidade, ânimo e entusiasmo, de uma forma diferente daquela que era tida como eficiente, isto é, através da deslocação destas virtudes positivas de incidência moral directa (do direito, e da religião) que estiveram organizadas durante muitos milénos por meio de uma hierarquização baseada no governo da terra, no ethos da guerra, da vida rural, da conservação da autoridade e de uma visão integrada de todos os estádios do trabalho com a natureza e o ciclo das estações, o dia e a noite, para uma organização da produção dos vários comércios com as suas disruptivas formas de especialização do trabalho, triunfo do povoamento concentrado, subjectivação do indivíduo e confiança no cálculo e na previsão. Esta ideia de que se organizam fábricas, mercados, bolsas, bancos, produção de coisas tão maravilhosas como a indústria pornográfica, através da conversão mágica das insidiosas forças naturais do espírito humano em dóceis energias passíveis de serem transaccionadas por cartão digital tem feito mais mal ao mundo do que os comentários de Ricardo Costa. O capitalismo não torna mais dócil a natureza humana, antes pelo contrário, torna-nos mais duros perante a irrelevância colectiva da bondade, que, por si só, em nada aproveita a cada um de nós. Maradona, como homem com razoável erudição em ciência, devia saber que os sistemas não são nem bons, nem maus, mas dispersos, concentrados, aleatórios, coordenados, competitivos, parasitários, e que o problema de Jerónimo e Louçã não é a confiança ou desconfiança perante a força criadora da natureza humana mas a sua incapacidade de colocar a razão ao serviço da crítica.

Cacilhas4ever

Naquela que foi uma boa manhã passada com o alf, ficam outras imagens:

Livros em Cacilhas

Livros em Cacilhas

Livros em Cacilhas

Bourgeois dignity com Isabel Figueira

É com grande alegria que comunico a toda a Via Láctea e galáxias mais longínquas a vitória do Elogio da Derrota sobre A causa foi modificada, numa das mais insignes tarefas intelectuais de que há memória nos anais da blogosfera. Porém, adiante. Uma das coisas que mais me carateriza é o meu desinteresse absoluto pela segunda guerra mundial. Já o confronto naval setecentista anglo-holandês, produtor da mais espectacular pintura do mundo, faz todo o pleno das minhas mais obscuras delícias - em que navios com a elegância de uma Heidi Klum ou de uma Juliane Moore se destruíam mutuamente, entre nevoeiros glaucos, bandeiras esfarrapadas na ventania marítima, balas de canhão imobilizadas no seu destino de morte e um mar que nem Melville poderia descrever de tão odiosamente violento na sua baba azul celeste e fúria esbranquiçada. E isto era de tal ordem, meus amigos, que na sala de espera do dentista, onde incompreensivelmente era levado pela mão da progenitora que devia zelar pelo meu bem estar, entre os terrores futuros da broca mecânica, apenas as reproduções destes temas navais eram capazes de produzir calma no meu sistema nervoso central, introduzindo nas minhas narinas o cheiro da pólvora levemente oleado pela gordura marítima das ondas. Já se vê do que aqui venho falar: do novo livro de Deirdre MaCcloskey, que o leitor poderá comtemplar incrédulo na minha própria mão, a partir desde preciso e irrecuperável momento:

Livros em Cacilhas

Enganem-se os ignorantes como Helena Matos: este livro não é mais uma daquelas lamentações vertidas por um deputado do PCP nascido em Évora e sócio do sporting que pastoralmente nos recomenda, além do «nosso ponto de vista», menos economia no discurso político e mais humanidade nas decisões do governo. Este livro parte do princípio mundialmente consagrado pela espúria realidade (um abraço ao Bruno Peixe, que não sei quem seja) de que a ciência económica, sendo uma merda, é a mais eloquente das merdas que o cérebro humano produziu no capítulo das ciências sociais nos últimos trezentos anos (note-se, altura em que essas mesmas ciências sociais, agora adolescentemente muito independentes, eram conduzidas pela mão de pessoas como Rosseau, Smith, Mathus, Ricardo, Mill). Posto isto, de que fala o livro?

Livros em Cacilhas


Naturalmente, José Pacheco Pereira, fala de desejos. Esta mania de entender a realidade como um consenso que nos oprime é um argumento típico de um adepto do tunning que maldiz os limites de velocidade. McCloskey começa por nos deixar estupefactos, afirmando que para salvar o capitalismo - uma merda que, lembraria a todo o auditório, nos tem possibilitado muita brincadeira - é preciso salvar a economia dos economistas, pessoas que, à semelhança de um Nogueira Leite ou de um João Duque, têm mantido a ciência económica, nas palavras da autora, numa espécie de pathos «sleepwalking». O caminho entre nós e os nossos desejos tem sido feito de muitas e sinuosas maneiras. O que a trans-sexual (um abraço ao Senhor Presidente da República) professora na Universidade de Illinois nos conta é que a dignificação da inovação comercial, ou do ethos do trabalho baseado em padrões de compra e venda, teve um caminho de valorização muito Mel Gibsoniano, onde verteram sangue e intestinos, entre gritos e imprecações contra padres e sacerdotes. Mesmo quando esta valorização começou a mexer as suas patinhas abjectas, ao jeito de Gregor Samsa, as perspectivas de mercado livre e votação livres de Espinosa, Mandeville, Rosseau, Paine, chocaram com um iluminismo mais conservador de Locke, Newton, Smith ou John Adams. Aqui, já Miguel Morgado coçou as borbulhas e invectiva: mas isso é o que eu digo! Não, não é, direi eu. Não obstante o coro operático que, desde o monhé José Manel Fernandes, até ao transmontano estrunfe Marque Mendes, tem defendido que a operação do Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva é absolutamente impoluta numa economia de mercado (comprar baixo para vender alto), o que não deixa de ser verdade, o problema vaginal não está na ética comercial insipidamente desenvolvida entre os portugueses. Está antes naquilo que Marx chamaria a reprodução das relações de produção. Tal como afirma MacCloskey, a melhor definição de capitalismo baseia-se na descrição de um sistema económico de propriedade privada em que as inovações são introduzidas por meio de dinheiro emprestado, o que presupõe um sistema bancário de risco fraccionado e fácil oportunidade de negócio para o filho do carteiro, uma coisa que nem Belmiro de Azevedo propugna, como é bom de ver, ou não estivesse o estúpido do seu filho, tal como numa monarquia Suméria, à frente do império. Mas os fundamentalistas zarolhos como Cadilhe e Braga de Macedo, acreditam no espírito do crescimento feito pela acumulação da poupança - seja pela via da casinha portugusa, pão e vinho sobre a mesa, seja pela via da balança comercial, uma coisa que cheira a pó talco de cabeleira setecentista - , aumento de capital e investimento, uma trilogia tão vazia como a cabeça de José Luís Peixoto. Qualquer crescimento, para cima, para baixo ou para os lados, pressupõe um padrão de medidas, um escala, valores fixados por um acordo. Ora, o que está errado, meus amigos, é o nosso acordo. Se olharmos para a estrutura genealógica dos interesses económicos podemos contar as famílias pelos dedos da mão, e em muitas grandes empresas, a administração não sobe pelos mesmos elevadores das empregadas de limpeza. Muito do revelado no livro que agora se introduz em Portugal, quer pela mão do Maradona, quer pelos meus sagrados dedos, foi já repetido por Hirschman ou Mokyr (vão ver ao Google, que estou atrasado para o comboio) e incide sobre a importância da dignificação do trabalho das classes pobres (uma coisa em que o PCP trabalha, mas de forma tão canhestra que obtém quase sempre o efeito contrário, tal como a criança que brinca com gasolina e fogo em ordem a produzir um efeito lúdico), permitindo que o sistema de liberdade natural dignifique as soluções mais inteligentes na competição pela criação de coisas e comércios. A dignidade dos inventores é, por exemplo, algo que está a anos luz do nosso Portugal, ninguém na rua na noite escura. Se eu mencionar aqui a estrutura da investigação nas Universidades - e não estou a falar de orientar estruturas curriculares para produzir empresas - todos correrão imediatamente para sacar da pistola.

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Finalizando: Miral Amaral, enquanto se baba pelos cantos da boca, produziu qualquer coisa sobre inovação, sendo que o problema também não está numa política de pedestal para a criação de coisas mas na relação entre o conjunto dos agentes e o padrão de incentivos, valorativos ou materiais, que os articula na sua vida de trabalho. Que o Barcelona é uma grande merda, ninguém duvida. Que o Maradona continua a produzir a mais interessante prosa nacional, também não (ver o artigo absolutamente pífio, sobre Agustina Bessa Luís, de Gonçalo M. Tavares, recentemente laureado em França - uma nação de analfabetos maricas que produziu uma única estrela pornográfica). Que eu acabei de perder o comboio, o que singifica que estou fodido com um relatório que já devia ter entregue, também não.

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ps: Direitos de propriedade - O título e as fotografias são autoria de Binary Solo

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O meu momento parvo do dia

The power of internet

História simples. Homem sem abrigo com uma voz incrivel de rádio pede dinheiro num cruzamento. Um jornalista entrevista-o a caminho do trabalho. Passados dias não só já se tornou num fenomeno na internet como já tem casa e várias propostas de emprego. Notável.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Isto é a antitese do futebol moderno"

Ia dando razão ao Rui Santos, quando o André Santos foi abalroado pelo Carriço e isto ainda no meio campo do Sporting. Contudo (gosto desta palavra) conseguiu a proeza de ganhar ao último da tabela e continuar a ser a equipa mais bipolar da história.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

E para fechar, a canção do ano



ou melhor, a cover do ano. descoberta há pouco no youtube. e como diz o 1º comentário que lá está:

"Radiohead and Regina Spektor ... this is a musical orgasm."

assim vos deixo e até para o ano. cá nos espera a crise e os mercados sempre atentos.