
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Não me digas que ainda estás chateada?
Num dia de muito azar, a menina limão chateou-se connosco. Foi um mal entendido. Estou completamente tranquilo porque sabemos, agora, que os mal-entendidos são fundamentais para a compreensão do mundo. O João Pedro George já tinha avisado que não é fácil dizer bem. Vale a pena aprender como ainda é possível (note-se que o Professor Doutor Anibal Cavaco Silva está quase a ser reeleito) dar boas respostas a perguntas que estão para o interesse como a cultura táctica está para o plantel do Sporting. Desta vez, esperamos ser bem compreendidos, ou só nos restará uma carta de recomendação.
O que aprendeste com os teus erros?
Que nem sempre se aprende com os erros.
O que te faz bocejar?
Esta pergunta. Aposto que também bocejaste quando a escreveste.
Aqui
Que nem sempre se aprende com os erros.
O que te faz bocejar?
Esta pergunta. Aposto que também bocejaste quando a escreveste.
Aqui
Personagens que são como pessoas
A caracterização das pessoas: um problema e tanto. Ainda ontem Bernardo Sassetti passou uma hora a contorcer-se na cadeira, fingindo que não fingia, num cenário de chavascal barroco, com tromp d'oeil, cravos trabalhados em madeiras preciosas e grandes espelhos enquadrados por talha dourada, cenário onde o músico tentou furtar-se ao inevitável engate de Manuel Luís Goucha (uma pessoa que, não sendo comunista, não deixa de ser nojenta), apenas conseguindo produzir inteligência nos derradeiros trinta e dois segundos, quando já a música do genérico o afogava inapelavelmente (alguém consegue explicar porquê?), citando a mulher, dez mil e duzentas vezes mais artista e mais inteligente, a propósito do tão característico traço nacional: a maledicência. Um dia explicarei porque razão o uso do vernáculo tem produzido a melhor prosa vingativa de que há memória nos anais da crítica portuguesa. Alegadamente, explicava Beatriz Batarda que «as pessoas quando dizem mal dos outros estão quase sempre a querer dizer mal de si próprias», mas num registo codificado, acrescentaria eu, é preciso é ter ouvidos para ouvir. O Truman Capote é má pessoa: isto já era evidente, pelo menos desde a sua confissão de preferências à Paris Review: conversar, ler, viajar, e, só depois, escrever. Eu gosto mesmo muito de dizer mal, e viajar, sobretudo para Cacilhas, um sítio onde as descrições das personagens me saem sempre bem.
Vão lá praticar o solfejo
Quem está familiarizado com as boas práticas seguidas neste blogue, e seu decorrente trabalho de demolição de tudo quanto possam ser boas intenções artísticas em prol da indústria de bens culturais e da vida ambulante de músicos, pintores, escritores (ou marceneiros) adestrados na prática de vigarizar um público analfabeto no domínio da estética - não será este o sentido mais nobre da crítica?-, está completamente enjoado de saber que apenas um uso da inteligência estética me faz meditar ou hesitar numa determinada conclusão do meu espírito (de uma espécie rara e em vias de extição). Ora, tudo quanto aqui tenho dito em matéria de música portuguesa, não só está fundamentado por um conhecimento raro da música portuguesa (só para os mais distraídos abrirem os olhos quando pretenderem colocar a cabecinha de fora) como se encontra ponderado pelo confronto com pessoas que, ao contrário do bando de atrasados mentais que alimenta a indústria da dita música ligeira, gastaram alguns anos da sua vida procurando descortinar o sentido técnico de uma fuga de Bach ou de uma frase de Herbie Hancook (uma pessoa que eu não conhecia mas a que me tenho dedicado a conhecer). Quando será que os anormais comprometidos com a merda da música actual vão entender que por muito que os seus boçais corações estremeçam com os grunhidos desajeitados destes semi-analfabetos, estão a fazer o mesmo trabalho suíno de alguém que procurasse convencer a população portuguesa de que os Malucos do Riso - devidamente fundamentados pelo número de apreciadores - são um produto plenamente justificado de qualidade, novo, actual, perfumado, e que em nada aproveita ao público substituí-lo por Shakespeare, um indivíduo que sacrificou tudo ao seu trabalho, em vez de sacrificar o trabalho a todas as estratégias de mediação da visibilidade, incluindo a defenestração de pensamento. É sintomático que as reacções mais virulentas perante a tentativa de subir o nível da produção cultural na área da música (saudadas por nós com imperial entusiasmo, bem entendido) provenham de juízos proferidos por apreciadores da actualíssima geração musical (talvez membros dessa grande instituição de massificação de sensibilidades, a Igreja Evangélica). De uma vez por todas: Samuel Úria, Tiago Giulliul - ou parecido -, e, por exemplo, b fachada, não são pessoas diabolicamente comprometidas com a ignorância, nem se defende, em parte alguma, que devam ser banidas da sua actividade profissional, especialmente nesta época natalícia. Simplesmente, tal como já Nosso Senhor Jesus Cristo se indignava perante os hipócrtias, e não perante as galdérias, também eu me indigno perante os ambiciosos e não perante os histrónicos Emanuel ou Tony Carreira, pessoas a quem a realidade já mata de ridícul e contra os quais já existem exécitos altamente profissionalizados. Em suma, nós gostamos das alturas e da neve solitária das montanhas. Por isso, não vale a pena esconder que os referidos apenas músicos são produtos medíocres, sustentantos por uma ausência de sentido crítico, num país depauperado por década de analfabetismo (sobretudo musical) no âmbito de uma comunidade de consumidores de bens culturais cuja indigência, no plano do juízo estético, pertence à Liga orangina do meio cultural, sendo, nesse domínio, mais díficil encontrar uma grama de qualidade do que uma alheira de mirandela, superiormente fritada, no contexto da avenida 5 de Outubro. Quem der provas de conhecimentos de harmonia (superiores ao domínio do ciclo das quintas) que atire a primeira pedra à minha cabeça.
Há coisas que não ajustam com uma segunda de manhã. Não se ajusta o fácil levantar, o banho reconfortante nem a saída triunfante de casa para o dia de trabalho. Não-não, não é fácil. Apresenta-se mais espontânea a saída do metro para a rua do Crucifixo, avivada pelo grande agitar dos homens das carrinhas que alimentam o centro comercial próximo, provando que a economia do microfone de lapela é bem mais fácil que o duro carregar de caixas no frio da manhã, ainda por cima sem o chocolate quente da Xocoa, sem esperançosas leguens, mas com o estridente grito bem-disposto dos ACDC, trajados, confesso, para mentes mais quietas, logo, mais ávidas de agitação.
Não se coaduna também o prego no pão com uma cervejola das boas. Não se coaduna, mas cedemos à força da memória recente. Fica no fundo da Rua Cláudio Nunes, em Benfica, próximo da Pastelaria O Nilo e chama-se Prego d’Ouro, um nome de fazer inveja a qualquer menino de família formado em Marketing no IADE e promovido ao mercado de trabalho em função da publicidade que dele a família fez. Atrás do balcão, alto, desconhecendo um a um a matilha de psicólogos que se dedica ao estudo da potencialização da estupidez do ser humano, o sr. António, também alto e desajeitado, expondo os óculos-fundo-de-garrafa corta, com uma faca que faz lembrar o clima dos jogos do Sporting, um naco de carne de vaca como de da defesa do mesmo clube se tratasse. Em seguida, ainda com os dedos inteiros, espantando a nossa miopia técnica – o sr. António olha para o lombo de vaca com cerca de 3 quilos como se de um alfinete se tratasse – coloca umas poucas pedras de sal, um dente de alho e leva o dito bife a grelhar numa tostadeira enquanto nos tira a viva imperial. Pode não ser o melhor conselho para uma manhã de segunda, pode não combinar com os dias frios de natal, mas vejam bem, também não combina com tanto jornalismo depressivo-ó--fast food e ainda por cima requentando que nos faz lembrar que as coisas são tão simples e naturais como o golo do di Maria este fim-de-semana.
Não se coaduna também o prego no pão com uma cervejola das boas. Não se coaduna, mas cedemos à força da memória recente. Fica no fundo da Rua Cláudio Nunes, em Benfica, próximo da Pastelaria O Nilo e chama-se Prego d’Ouro, um nome de fazer inveja a qualquer menino de família formado em Marketing no IADE e promovido ao mercado de trabalho em função da publicidade que dele a família fez. Atrás do balcão, alto, desconhecendo um a um a matilha de psicólogos que se dedica ao estudo da potencialização da estupidez do ser humano, o sr. António, também alto e desajeitado, expondo os óculos-fundo-de-garrafa corta, com uma faca que faz lembrar o clima dos jogos do Sporting, um naco de carne de vaca como de da defesa do mesmo clube se tratasse. Em seguida, ainda com os dedos inteiros, espantando a nossa miopia técnica – o sr. António olha para o lombo de vaca com cerca de 3 quilos como se de um alfinete se tratasse – coloca umas poucas pedras de sal, um dente de alho e leva o dito bife a grelhar numa tostadeira enquanto nos tira a viva imperial. Pode não ser o melhor conselho para uma manhã de segunda, pode não combinar com os dias frios de natal, mas vejam bem, também não combina com tanto jornalismo depressivo-ó--fast food e ainda por cima requentando que nos faz lembrar que as coisas são tão simples e naturais como o golo do di Maria este fim-de-semana.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Conflitos interiores, crises mundiais e outros problemas de literatura comparada
William Blake, Michael binding Satan, c. 1805 Se uma pessoa diz que o capitalismo contemporâneo não pode ser compreendido sem uma adequada historiografia do romantismo inglês, quem sou eu para duvidar? Além do mais, há muito que desenvolvo suspeitas sobre o estado comatoso-enamorado de economistas como Nogueira Leite ou Vítor Bento, dois cientistas apaixonados pela sua própria voz. No que me toca (e olhem que me tocam muitas coisas) nunca alimentei especial interesse pela minha própria voz e vomito pelo menos três vezes a cada dez páginas no decorrer de uma revisão de texto. De qualquer forma, esta semana prometo fazer a travessia Cacilhas-Cais do Sodré recortado contra um céu cinza, ondas de veludo azul, segurando entre as mãos um dos meus magníficos hardcovers produzidos no país onde Blake desenvolveu a sua arte de enlouquecer com estilo, e juro consumir a próxima semana em projectos individuais de transformação do meu espírito, uma substância pela qual nunca nutri grande simpatia, não obstante todas as tentativas denodadas da reprodução social para fazer de mim uma pessoa e tudo. Não se preocupem, uma vez que, nestes dias que são os últimos, continuo a acreditar no poder transformador da chamuça, da imperial, e do correio internacional, tudo isto na mesma e exacta semana em que postarei a primeira recensão portuguesa a um livro de uma Professora da Universidade de Chicago em que se explica porque razão Portugal falhou a construção de uma sociedade socialista, a vitória no Festival Eurovisão da Canção, o pleno emprego, e a extradição de Rosa Casaco, tudo isto sem esquecer que o Luciano Amaral é uma pessoa que compara a situação actual a um incêndio (no meio do qual devemos procurar salvar alguma coisa, deixando arder o resto) algo que nunca mais tinha sucedido desde que Sá de Miranda pensou que tudo ardia só pelo facto de se ter apaixonado, um fenómeno psico-social que Lobo Antunes respigou para descrever a vida interior de um travesti sem particular sucesso, enfim, dois exemplos que seriam fundamentais para compreender a vida, se a Agência Ficht não tivesse já atingido por nós todos o Nirvana da precisão por meio de uma pirueta à rectaguarda com mortal encarpado. Como não podia deixar de ser, as retrospecções são como as maçãs do Fundão, normalmente têm bicho.
Deixemo-nos de coisas tristes
E vejamos o trailer do novo filme do Terrence Malick: Tree of life. Já estou rendido. E estreia em Maio de 2011.
Tenho uma capacidade de entendimento limitada
já se sabe, e talvez por isso me estranhe o desabafo do Mariano Gago, que descreveu assim o modus operandi das ordens profissionais, "Chegam lá ao gabinete e dizem-me: ‘Senhor ministro, desculpe lá, quer proletarizar esta profissão? Arranje uma maneira de fechar estas entradas, seja como for’”.
Mas o senhor ministro não sabe como utilizar o advérbio negativo para responder a estes marialvas assim que lhe entram pelo gabinete adentro ? E pior, mais à frente faz notar de que os representantes eleitos sitos no Parlamento não possuem espinha dorsal tal é a facilidade com que dobram ao sabor dos interesses entranhados. Mas o senhor ministro então serve exactamente para quê senão para em boa consciência, se opôr a tais interesses entranhados. Certas e determinadas coisas escapam ao meu entendimento.
Mas o senhor ministro não sabe como utilizar o advérbio negativo para responder a estes marialvas assim que lhe entram pelo gabinete adentro ? E pior, mais à frente faz notar de que os representantes eleitos sitos no Parlamento não possuem espinha dorsal tal é a facilidade com que dobram ao sabor dos interesses entranhados. Mas o senhor ministro então serve exactamente para quê senão para em boa consciência, se opôr a tais interesses entranhados. Certas e determinadas coisas escapam ao meu entendimento.
Tirando uns quantos que saltam da ponte, haverá mesmo aí alguém que não ande iludido?
É sintomático que cultivadores da gargalhada perante o cientismo marxista, e seus supostos erros, revelem tamanho entusiasmo perante as denúncias das ilusões dos intelectuais, até porque, neste sentido, Fraçois Furet talvez se não distinga, com tanta propriedade assim, de um Francisco Louça, ou José Pacheco Pereira de uma Abelha Maia, pessoas sempre iludidas por um mundo eternamente comprometido na produção de mel. Já o facto de Miguel Morgado repescar textos de 2007 no baú do seu sotão me parece um traço típico de desorientação, algo que não criticarei por me encontrar neste momento completamente indeciso entre a dispensa de Kardec ou a retorno de Nélson Oliveira, um jogador desperdiçado pelo Benfica na Capital do móvel. Assim, neste quadro geral de crise de valores, aguardamos que Miguel Morgado faça uma pirueta encarpada e nos explique em que é que «a história da ilusão dos intelectuais», crentes em Lenine ou no Tio Patinhas, se distingue da história da ilusão dos intelectuais crentes em Tocqueville, em Hayerk, ou na democracia liberal, restando pouco mais ao patinado artístico de Morgado do que uma confirmação do que já Foucault (outro pobre iludido) demonstrara na mesma época em que Furet suava em desintoxicações da propaganda estalinista que comera durante vários anos, a saber: o liberalismo é a arte da demonstração de que o real é possível, sempre comprometido em justificar a história até ao momento em que a história deixar de ser favorável e os Morgados deste mundo começarem a protestar com as arbitragens. Com efeito, «os vários determinismos, historicismos e estruturalismos, em que o final do século XIX e o século XX foram tão pródigos» são exactamente os mesmos que alimentaram o Furet de antes e depois da grande ilusão, o senhor seja louvado, ter abandonado o seu espírito de caçador de burgueses, ou ignora Morgado que Furet faz parte daquela turma de caloiros que, arrependidos da noite passada, se põem a insultar os vendedores de cerveja.
Se Rousseau e Marx tiveram aqui óbvias responsabilidades, não é menos certo que coube a Hitler e a Lenine (e a Mussolini) declarar o burguês como o culpado impenitente por todos os males da condição humana, e alicerçar o Estado nesse veredicto.
Meu Deus, coitado do pobre Rosseau; como diria uma peixeira da Lota de Matosinhos, «o que lhe têm feito». Contudo, nem mais, Miguel Morgado, pois é exactamente neste passo que se localizam as fontes de onde brota o ódio de Furet ao intelectuais iludidos; nasce em grande parte no mesmo local onde sempre nascem todas as ilusões: uma vontade filha da puta de nos pormos a milhas das coisas que nos perturbam, pois o que são os intelectuais em geral, nestes últimos cem anos, e em particular os dos determinismos e dos historicismos (os intelectuais, pessoas que vivem do intelecto) se não vítimas de um mesmo ódio contra os burgueses, estejam eles comprometidos com a União Soviética, com Cambridge (caso de Blunt e dois panascas estalinistas), com as leituras de Montesquieu (fundamental para Althusser) ou Hobbes (fundamental para Horkheimer)? Ora, isto apenas indica que o saber de Furet, invocado por Miguel Morgado, é a velha e muito antiga produção de raiva entre pessoas que concorrem pela hegemonia do discurso, e este fascínio de Morgado pelos desfazedores de sonhos lembra, e de que maneira, a crítica da ideologia produzida pelas séries fabricadas em paletes na linha de produção dos partidos comunistas. Não vou perder tempo a identificar todos os momentos em que Morgado salta por cima da complexidade da vida encaixotando, na mesma frase, Rosseau, Mussolini e Marx, por exemplo, três pessoas que nunca frequentariam a mesma mercearia ou sequer partilhariam valores na apreciação morfológica de uma criada de hotel. Morgado: fica para o teu trabalho de casa de Natal, sublinhares neste texto todas as vezes em que tentaste enganar o leitor sobre coisas de que não fazes a mais pequena ideia da razão porque sucederam ou como sucederam, senão estarias rico, e eu morto. Em todo o caso, não seria hora de pensar um bocadinho, deixar de bater em velhinhos, e tentar entender o que há de perturbador neste sonho anti-sonhos (será a suprema vitória de Marx?) que não só procura desfazer todos os sonhos como se auto-congratula, a cada momento, como a única interpretação legítima das aspirações humanas, auto-promovendo versões faça-você-mesmo do único método capaz de nos conduzir ao conhecimento do que foi a história e o calvário de todas as nossas tristes ilusões? Não será este fascínio pelos desmanteladores da ilusão uma característica que une Furet, Morgado, Medina Carreira e Lenine, tão típica dos que, desconfiados da sua própria razão, se consomem em apontar os erros dos pobres loucos como forma de tranquilizante perante o seu próprio desnorte? Não estará a marca da clarividência assente sobre uma razão que caminha contra si própria e não contra as ilusões alheias, à semelhaça do que sempre procuraram fazer, por exemplo, Newton ou Adam Smith, com os belos resultados que, julgo eu, nem um analfabeto científico como Miguel Morgado poderá hoje ignorar?
Se Rousseau e Marx tiveram aqui óbvias responsabilidades, não é menos certo que coube a Hitler e a Lenine (e a Mussolini) declarar o burguês como o culpado impenitente por todos os males da condição humana, e alicerçar o Estado nesse veredicto.
Meu Deus, coitado do pobre Rosseau; como diria uma peixeira da Lota de Matosinhos, «o que lhe têm feito». Contudo, nem mais, Miguel Morgado, pois é exactamente neste passo que se localizam as fontes de onde brota o ódio de Furet ao intelectuais iludidos; nasce em grande parte no mesmo local onde sempre nascem todas as ilusões: uma vontade filha da puta de nos pormos a milhas das coisas que nos perturbam, pois o que são os intelectuais em geral, nestes últimos cem anos, e em particular os dos determinismos e dos historicismos (os intelectuais, pessoas que vivem do intelecto) se não vítimas de um mesmo ódio contra os burgueses, estejam eles comprometidos com a União Soviética, com Cambridge (caso de Blunt e dois panascas estalinistas), com as leituras de Montesquieu (fundamental para Althusser) ou Hobbes (fundamental para Horkheimer)? Ora, isto apenas indica que o saber de Furet, invocado por Miguel Morgado, é a velha e muito antiga produção de raiva entre pessoas que concorrem pela hegemonia do discurso, e este fascínio de Morgado pelos desfazedores de sonhos lembra, e de que maneira, a crítica da ideologia produzida pelas séries fabricadas em paletes na linha de produção dos partidos comunistas. Não vou perder tempo a identificar todos os momentos em que Morgado salta por cima da complexidade da vida encaixotando, na mesma frase, Rosseau, Mussolini e Marx, por exemplo, três pessoas que nunca frequentariam a mesma mercearia ou sequer partilhariam valores na apreciação morfológica de uma criada de hotel. Morgado: fica para o teu trabalho de casa de Natal, sublinhares neste texto todas as vezes em que tentaste enganar o leitor sobre coisas de que não fazes a mais pequena ideia da razão porque sucederam ou como sucederam, senão estarias rico, e eu morto. Em todo o caso, não seria hora de pensar um bocadinho, deixar de bater em velhinhos, e tentar entender o que há de perturbador neste sonho anti-sonhos (será a suprema vitória de Marx?) que não só procura desfazer todos os sonhos como se auto-congratula, a cada momento, como a única interpretação legítima das aspirações humanas, auto-promovendo versões faça-você-mesmo do único método capaz de nos conduzir ao conhecimento do que foi a história e o calvário de todas as nossas tristes ilusões? Não será este fascínio pelos desmanteladores da ilusão uma característica que une Furet, Morgado, Medina Carreira e Lenine, tão típica dos que, desconfiados da sua própria razão, se consomem em apontar os erros dos pobres loucos como forma de tranquilizante perante o seu próprio desnorte? Não estará a marca da clarividência assente sobre uma razão que caminha contra si própria e não contra as ilusões alheias, à semelhaça do que sempre procuraram fazer, por exemplo, Newton ou Adam Smith, com os belos resultados que, julgo eu, nem um analfabeto científico como Miguel Morgado poderá hoje ignorar?
A economia e o natal. Parte 2 - o casamento
Há qualquer coisa de vida nas manhãs dos sábados. Enquanto Medina Carreira geme por cada pingo de urina que deixa cair, que a Fátima Campos Ferreira recorda as elevações matinais - as suas e as dos homens do andar de cima - para ganhar um novo andar com mais pós que contras, em que o Manzarra enjoa as demasiadas tias comidas nos últimos meses, o medina perdão, o Mendigo que foi convidado para o casamento mais cor-de-rosa do ano ainda dorme - e não, não me refiro à pigmentação oferecida pelo vinho nem à tatuada pelo frio - e sonha com uma maria no trenó puxada pela rena aníbal trazendo, ao seu encalce, um saco de felicidade marcado de Porta da Ravessa. E aí, oniricamente, fica com uma tensão presidencial. Pergunta: será mais vergonhosa a popularização fácil da maria ou o aproveitamento do país imaginado pelo aníbal? haja paciência natalícia.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
George Washington + Chamuça + Bárbara Guimarães + Imperial = Teoria crítica da ignorância olímpica de Henrique Raposo: uma pessoa, apesar de tudo
O dia começou de forma particularmente traumática, mas justamente merecida para quem confia, para lá de todas as previsões de risco, em despertadores com modo rádio, e se vê depois surpreendido, ainda mal refeito de um transe escatológico envolvendo a dentadura de George Washington e as mãos de Bárbara Guimarães, completamente nu perante a voz de Sarsfield Cabral (uma aplicação de Mr. Burns, Simpsons, em modo católico ) prevendo rachas ideológicas no Conselho Europeu. Mas isto nada é, comparado com o posterior contacto com a pura inspiração inter-estelar do cientista Henrique Raposo, uma pessoa que desenvolve raciocínios, julga acreditar que o Presidente Americano é um facto e domina a matemática como Maxwell. Atente-se no seguinte exemplo de razão prática:
Imaginemos que Raposo corresponde a x e a nossa torturada paciência a y. Se a variável altamentente dependente de x se torna função de y, isso quer dizer que Raposo terá uma distribuição de cacete muito regular, piorando as expectativas de x se estivermos na posse de um trem de facas Ginsu. Contudo, a nossa compaixão é do tamanho da ignorância de Raposo, (a natureza tem horror ao vazio) pois, pela enésima vez, aceitamos explicar tudo, desde o início, ao jovem cronista do Expresso. Os mercados, alegadamente segundo Alegre, refere Raposo, segundo eu próprio, estou bem obrigado, atacaram a política; parece que o poeta de Águeda deu a entender que «esta crise é o resultado da acção dos mercados financeiros» - uma entidade que está para a análise de Henrique Raposo como a vaselina está para a Avenida do Conde Redondo. Ou seja, Raposo acusa o candidato de sobrevalorizar «o efeito (mercados a apertar as exigências)», uma frase-síntese de um efeito, digna da revista Gina. Contudo, espanta-se Raposo: o candidato não olha «para a causa (estados viciados em dinheiro emprestado)», uma frase-crítica digna de uma festa de Verão da Juventude Comunista. Comecemos, caro Raposo, pelos mercados. Desde pelo menos 1935, em Cambridge, um local onde nunca sentarás esse rabo, a não ser para segurar a bandeja dos cafés, ou assistir João Carlos Espada na sua tarefa de fornecedor aos scholars de férias de verão baratas em universidades da europa do sul; portanto, desde que o Verão de 1935 cobriu de glória as flores desses abençoados relvados onde Marshall e Pigou ensinaram - pessoas que estavam longe de ser socialistas (vai ver ao google) - que todos os grandes prosadores como tu têm a obrigação de estar familiarizados com a atitude da ciência económica perante a acção do Estado, começando, justamente, por saber que a acção do Estado é fundamental para a forma como os indivíduos, dotados de cérebro, perseguem os seus interesses privados e individuais, ficando desde logo assente que a questão não seria se o Estado deve ou não actuar mas através de que princípios deve actuar, sendo a parte mole do problema (os túbaros, diria um snack-bar da Amadora) um ponto crítico, cuja articulação ainda hoje baralha taralhocos como tu, a saber, a definição da zona onde os interesses privados e sociais divergem. Parece que chegámos ao Estado Social pela mão de um Marshalliano (o que não quer dizer, Raposo, que este senhor provenha de Marte), Estado Social que, na tradição de Beveridge (vai ver ao Google), representa o domínio da decisão planificada em zonas detectadas por grande parte da teoria económica do século XIX (a mesma que pariu os mercados financeiros) como sendo passíveis de potenciais falha de informação e erros na capacidade de distribuição dos recursos. Como sabes, a interacção de um grande número de indivíduos coloca sérios problemas aos mecanismos de mercado, as famosas externalidades, alterando os resultados esperados da liberdade da natureza, uma coisa em que nem um Rosseau embriagado apoiava de forma incondicional. O exemplo do crescimento de uma grande cidade sob a acção dos especuladores é eloquente, sendo clara uma coisa que até custa a dizer, de tão simples e tão olimpicamente ignorada: não podemos esperar que uma mão invisível produza um bom arranjo geral do todo por uma combinação de tratamentos separados das partes. Se as externalidades tiveram êxito em comentadores sabujos, e menos sabujos, a divergência entre bem social e interesses privados entrou na clandestinidade, o que me obriga a este longo exercício de paciência para explicar porque razão os Estados (que também podem desenvolver mecanismos de coordenação da complexa interacção dos indivíduos) não devem deixar que os apertos, de um qualquer mamalhudo mercado financeiro, apesar dos claros efeitos de prazer, se tornem reféns da vontade de quem fornece o prazer, mesmo ficando os Estados maximamente dependentes do mesmo - o prazer -, uma vez que, no final de contas, serão sempre os Estados a pagar a conta dos novos soutiens necessários para contenção do desvario.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
A vantagem da cobertura dura é ser qualquer coisa entre a tartaruga-das-galápagos e um Silvester Stalone habitado pela sensibilidade de Keats

Melhor livro do mundo na categoria de produtos não ficcionados para pessoas muito acima da média.
Apesar de estar rodeado de hardcovers (reparem bem nesta cornucópia citativa digna de um José Pacheco Pereira ), tenho tido muitas dificuldades em adormecer desde que Carlos Pinto Coelho morreu, isto por não me ocorrer nada que fazer com os próximo duzentos anos de noites passadas na periferia de Lisboa, restando-me desesperar, consolado com o facto de, ultimamente, Pinto Coelho passar na rtp memória, geralmente recortado contra um horizonte de sobreiros, céu azul-piscina e restolho. Assim, faltando para efeitos de tranquilização mental os magníficos programas por si despejados desde África até à contra costa, tenho estado a debater-me com uma falta de sentido para a vida que não experimentava desde que Vítor, no contexto sociológico da Casa dos Segredos, quase cometeu violência doméstica numa casa emprestada, sobre uma pessoa de que niguém, alegadamente, consegue estabelecer o padrão de relação civil, colocando, tecnicamente, sérios problemas ao recém-reeleito bustonário (sic) da Ordem dos Advogados. Do malogrado autor do Acontece, salva-se o facto de ter sido o único retornado despedido por um prémio nobel da literatura, o que, convenhamos, não é coisa que aconteça todos os dias. Visivelmente preocupado com este pico de realidade na sua vida cultural, Pinto Coelho tratou de afogá-la em acontecimentos enrodilhados naqueles pantos que as senhoras africanas, transportando baldes de peixe nas manhãs da minha infância, costumavam trazer atadas à cintura, e com eles atravessavam o Cais do Sodré a caminho do rio, nunca percebi se para os vender se para os devolver à vida. Que fazer com esta insónia? Mesmo o facto de Defensor Moura ter hoje produzido um dos momentos mais tristes na história ocidental da imagem não deve ter produzido melancolia suficiente para me afogar o cérebro em isomorfina, uma substância que isola a mente de todas as preocupações. Nada nos vai salvar desta merda toda que nos rodeia, sabendo nós que Wordsworth não tinha o sentido do cheiro, e note-se que apenas o sabemos porque sua amada irmã no-lo revela nos seus diários (o que andam os cabrões dos universitários a fazer?), o que deve tê-lo poupado a uma série de estados ascéticos a que eu próprio bem gostaria de me furtar, neste dias que são os últimos, e apesar da escandalosa negligência de toda a bibliografia secundária entretanto produzida, sobretudo tendo em conta que, não obstante a importância da sensibilidade orgânica na produção de toda a poesia que não é papel higiénico, e do lugar fundamental do corpo na estética romântica inglesa, ninguém se preocupou em estudar o assunto, o que fica como demonstração de que devo continuar a enfrentar a história natural da parvoíce portuguesa, e talvez mesmo de todo o mundo, de forma absolutamente generosa, abnegada e individualmente considerada.
Como os senhores não estão munidos com tempo, eu facilito aqui qualquer coisinha:
By comparison, the latter seems almost devoid of informing concepts, and lacking in any theoretical framework. Jane Wood's Passion and Pathology in Victorian Fiction (Oxford: Oxford University Press, 2001), is in some respects a complementary work to Richardson's: it attempts a survey something like Richardson's for the later nineteenth century, but it is largely concerned with gender issues, and it pays less attention to the philosophical principles underlying the medical issues than does Richardson.
By comparison, the latter seems almost devoid of informing concepts, and lacking in any theoretical framework. Jane Wood's Passion and Pathology in Victorian Fiction (Oxford: Oxford University Press, 2001), is in some respects a complementary work to Richardson's: it attempts a survey something like Richardson's for the later nineteenth century, but it is largely concerned with gender issues, and it pays less attention to the philosophical principles underlying the medical issues than does Richardson.
Estamos a ficar sem heróis
Morreu o Carlos Pinto Coelho.
(no mesmo dia em que o maradona nos linkou e em que o nosso sitemeter explodiu)
(no mesmo dia em que o maradona nos linkou e em que o nosso sitemeter explodiu)
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Isto é o que Campos e Cunha chamaria uma perigosa manobra de descrédito dos princípios segundos os quais, com o Professor Aníbal, só pararemos na lua
McCloskey: With alarm. But non-economist intellectuals need to understand some elementary economics: There is no such thing as a free lunch; national income equals national product equals national expenditure; free trade is nice; more money causes inflation; governments are not all-wise; spontaneous order is not chaos.
My alarm comes from the economist’s tendency to reduce humans to Maximum Utility machines. We need a humanomics, of the sort that Adam Smith and John Stuart Mill and John Maynard Keynes and Friedrich Hayek and Gunnar Myrdal and Kenneth Boulding and Albert Hirschman practiced. Some current practitioners are Nancy Folbre, Arjo Klamer, and Richard Bronk. It’s an economics for grownups.
My alarm comes from the economist’s tendency to reduce humans to Maximum Utility machines. We need a humanomics, of the sort that Adam Smith and John Stuart Mill and John Maynard Keynes and Friedrich Hayek and Gunnar Myrdal and Kenneth Boulding and Albert Hirschman practiced. Some current practitioners are Nancy Folbre, Arjo Klamer, and Richard Bronk. It’s an economics for grownups.
(...)
McCloskey: In college you got the claim that Greed is Good, and anyway people are Max U sociopaths, regardless of what all the scientific evidence gathered on the point says to the contrary. I would advise them, of course, to read my book How to Be Human*: *Though an Economist, which is advice to young economists about maintaining morale and integrity — and getting the scientific task done while retaining common sense. Beyond that, Educate thyself. Read widely, having acquired somewhere a deep knowledge of an economics of some sort. We have enough amoral idiot savants in the study of the economy. We need some fully educated humans. We need a humanomics, not more freakonomics.
Post quase liberal em que mandamos ir buscar, ó Vilas-Boas da blogosfera!
Lamentavelmente, Maradona, chegámos primeiro. Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World é um post que nos remete para uma entrevista com a autora, respescada numa daquelas revista inglesas sabujas que o Maradona lê, fundamentais para intelectuais periféricos que não confiam nas grandes universidades como Chicago ou Cambridge, de onde tudo vem, embora inteiro e com um grau de dificuldade que deixa José Manuel Fernandes - grande apreciador de recensões domingueiras resumidas para uso avulso em intervenções na Sic notícias - tarnsformado num taxista indiano solicitando entrada num distinto clube londrino que, logicamente, não pode permitir-se transigir com sub-espécie intelectualis. Acontece que já encomendámos o livro, e apostamos desde já aqui, com o A Causa foi modificada, que vamos fotografar, em primeiríssimo lugar, Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World, na mesa do bar na estação fluvial de Cacilhas, ao lado de uma chamuça e de uma imperial super bock, seguido da correspondente primeira recensão em língua portuguesa, e isto muito antes não só de Maradona adquirir o mesmo, como de Luciano Amaral ou Pedro Lomba conseguirem chegar à casa de banho para limpar o rabo. Não vamos já adiantar informação sobre a importância da dignidade nos padrões de crescimento económico, reservando a informação mais suculenta para nossas magestades, mas vá lá, referiremos desde já a importância da dignidade, nomeadamente, daquelas pessoas que recolhem os tabuleiros nos centros comerciais do Grupo Sonae S.A., e sem as quais, pasme-se, não há Medina Carreira ou Fátimas Campos Ferrreira, sequer um Manuel Luís Goucha, que nos possa salvar. Ainda que simplificações ao nível do binómino cenoura-burro possam escandalizar uma perspectiva do ponto de vista das utilidades marginais dos bens salariais, ou mesmo a concepção de um sistema de preços como redistribuidor dos recursos, a verdade é que até os Holandeses, que já perderam mais finais europeias de que o Benfica, estão, há mais de trezentos anos, na posse de conhecimentos a que ninguém em Portugal presta a mais pequena atenção, à excepção de Manuel José que nos já longos idos de 1998 dizia perante um atónito David Borges, «ou há moralidade, ou comem todos.» De um ponto de vista da economia do desenvolvimento, em Portugal, tem havido sobretudo moralidade deduzindo-se daí, com cristalina evidência, que não podiam comer todos.
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terça-feira, 14 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Prefiro duzentos biliões de vezes Lady Gaga a B Fachada - uma das coisas mais estúpidas de que há memória desde a Vénus de Willendorf
É devido à acção fisiológica, política, cultural, social e espectacularmente estúpida de parvos como B Fachada (indivíduos que pretendem refundar no Barreiro movimentos sociais da Baía de S. Francisco que significaram o fim da nossa indústria têxtil - mas que merda de camisa é esta? Importada da China?) que a esquerda nunca ganhará umas eleições nos próximos quatrocentos milhões de anos-luz. Primeiro: isto já foi feito por John Lennon, com conhecimentos musicais, afinado, e sem a parte maricas. Segundo: e não é que este gajo quer gravar canções onde figuram Etelvinas e alusões à terra, sem fazer a mais pequena filha da puta de uma idéia do que será a vida de uma Etelvina, uma coisa que, entre muitas outras, manifestamente, Lady Gaga poderá ensinar de cátedra, enquanto vende dez milhões de discos e sem perder a elegância que a caracteriza?
Lady Gaga - alguém que vale a pena ouvir, quanto mais não seja porque sabe do que está a falar, isto é, escreve, canta e dança sobre coisas que experenciou materialmente, quer num sentido Kantiano, quer num sentido Continente S.A., quer no sentido daqueles que sentem com o cérebro e não com os dentes da frente, como é o caso de B Fachada. A verdade é isto. Não venham é depois com o Sitemeter.Desenvolvimento do tema.
Sempre que as reflexões blogosféricas resvalam para a vala comum da contabilidade de visitas diárias, a depressão espreita o meu círculo vital e tenho imediatamente que mergulhar num dos volumes do Cambridge Studies in Romanticism que, felizmente, têm chegado com regularidade capitalista à minha caixa do correio, instrumentos vitais para o resgate da minha homeostase mental, ultimamente muito abalada por pressões de temperatura das mais várias origens. Vou deixar eventuais comparações entre o sitemeter e um Guarda-livros embriagado para atacar já o problema mais perturbante dos últimos vinte anos, isto não considerando a análise das relações íntimas entre a dispersão salarial das cabeleireiras e a compra da revista Lux nos últimos quinze dias de cada mês. Um dos fenómenos emergentes no último combate de blogues - além das unhas da Filipa Martins, episodicamente devolvendo-nos aos filmes de terror da adolescência, onde emergiam tonéis de sangue e miúdas vagamente giras mas desorientadas - parece ser um blogue denominado Estado de Sítio. Como estou muito cansado, e não me suicido desde já com uma mola da roupa na jugular, apenas porque o Presidente da Academia das Ciências, das Ciências, meu Deus, das Ciências, está a explicar, perante as protuberâncias mamárias de Fátima Campos Ferreira, como o globalismo não deve ser contrário às identidades, no contexto do mais jovem deputado eleito no contexto do defunto império Austro-Húngaro, fica apenas um exemplo da frase estruturalmente mais ignorante dos últimos três séculos, onde se afirma que um desorientado com menos de quarenta quilos, maricas, sem gota de talento e completamente analfabeto em pelos menos três direcções e de um ponto de vista completamente completo, B Fachada, seria um dos grandes músicos da nova geração e que muito provavelmente virá a ser considerado um novo Fausto, ou até mesmo um novo Zeca.
(o sublinhado é nosso). Ora, isto demonstra que nesse blogue, Estado de Sítio, não só existe uma pessoa cujos ouvidos foram arrancados por uma máquina registradora em queda, como várias outras que, permitindo-se não degolar o autor destas declarações, permitem que José Afonso possa estar neste preciso momento a revolver-se algures no interior de uma campa algures num cemitério de Setúbal. Passando por alto pelo facto de até Lady Gaga estar mais próxima de ser um novo Zeca do que B Fachada (para já não falar no dianteiro do Vitória de Setúbal), avanço para o extermínio do referido blogue, apgando-o da minha memória com uma garrafa de vinho verde. Em todo o caso, a noite estará ganha se, como tudo indica, Barata Moura arrancar as barbas de António Barreto apenas pela aplicação meticulosa dos seus dentes cerrados, enquanto declama aforismos Kantianos na língua original. (...) E aí está: António Barreto acaba de sacar uma referência a Álvaro Pais, um antigo Bispo de Silves, vou repetir, um antigo Bispo de Silves, que terá aconselhado o mestre de Avis, (depois do especialista em marcas, é Barreto quem agora retira do bolso o cadáver pestilento de D. João I) perante a rápida reacção de Barata Moura, o único comunista potuguês cuja extensão sináptica é estimulada electricamente e com satisfação, e perante a desorientação burguesa de António Barreto, um dos académicos mais parecidos com um espantalho de pomar e um homem cada vez mais transformado no filho da puta que sempre foi.
(o sublinhado é nosso). Ora, isto demonstra que nesse blogue, Estado de Sítio, não só existe uma pessoa cujos ouvidos foram arrancados por uma máquina registradora em queda, como várias outras que, permitindo-se não degolar o autor destas declarações, permitem que José Afonso possa estar neste preciso momento a revolver-se algures no interior de uma campa algures num cemitério de Setúbal. Passando por alto pelo facto de até Lady Gaga estar mais próxima de ser um novo Zeca do que B Fachada (para já não falar no dianteiro do Vitória de Setúbal), avanço para o extermínio do referido blogue, apgando-o da minha memória com uma garrafa de vinho verde. Em todo o caso, a noite estará ganha se, como tudo indica, Barata Moura arrancar as barbas de António Barreto apenas pela aplicação meticulosa dos seus dentes cerrados, enquanto declama aforismos Kantianos na língua original. (...) E aí está: António Barreto acaba de sacar uma referência a Álvaro Pais, um antigo Bispo de Silves, vou repetir, um antigo Bispo de Silves, que terá aconselhado o mestre de Avis, (depois do especialista em marcas, é Barreto quem agora retira do bolso o cadáver pestilento de D. João I) perante a rápida reacção de Barata Moura, o único comunista potuguês cuja extensão sináptica é estimulada electricamente e com satisfação, e perante a desorientação burguesa de António Barreto, um dos académicos mais parecidos com um espantalho de pomar e um homem cada vez mais transformado no filho da puta que sempre foi.
Sobre a crise
Começamos a ficar fartos da “crise”. Da linguagem da “crise”, entenda-se. Massacram-nos com infinitas discussões sobre os horrores que nos esperam e ninguém, em nenhum debate, se atreve a falar de uma evidência que merecia ser questionada: no Natal publicitário, dos relógios aos automóveis de luxo, vivemos em clima de radiosa prosperidade e riqueza. Porque nunca se problematizam os valores que dominam as mensagens publicitárias? Porque não se pensam tais mensagens como elementos incontornáveis das relações sociais e simbólicas?
Ainda ontem no Canal Panda vi isto a ser feito a crianças com 5 anos, ao leva-los à loja para comprarem roupa para o Festival do Panda.
Ainda ontem no Canal Panda vi isto a ser feito a crianças com 5 anos, ao leva-los à loja para comprarem roupa para o Festival do Panda.
A Economia e o Natal: 1.º o Presépio
Como é sabido, a cruzada liberal tem-se esforçado por tingir de heresia toda e qualquer actividade desenvolvida pelo Estado, argumentando, de forma mascarada, que isso é prejudicial para a economia, uma religião que alberga cada vez mais fanáticos. Eleva-se assim um presépio em que a sagrada família se deseja de tendor totalmente privado, ainda que aqui e ali, uma ou duas vaquinhas para aquecer a menina sejam bem vistas, leia-se, para financiar uma economia que de totalmente privada só conhece as retretes da casa do Medina Carreira. Algumas dessas vaquinhas, ou melhor, vasconas - pelo tanto que engordaram nos prados do Estado - lançaram-se no desafio de tornar o país uma pouco menos dependente do petróleo, até porque como todos sabemos, o grande aumento do preço desse é a grande e verdadeira crise que aí vem. Sob a capa da energia renovável, montou-se um esquema simples: O Estado, via EDP, compra toda a energia produzida pelas mini-empresas produtoras de energia alternativa, sendo que estas empresas não só têm à partida todo o produto que produzem vendido - o sonho de qualquer empresa - como o fazem com preços acima daqueles pratricados pela própria EDP, que depois nos faz chegar a casa "com o preço que o mercado exige", que ainda assim é, por enquanto, abaixo do preço pelo qual o compou. Quem paga a diferença? Os 60% da sua factura que têm uma série de parâmetros que ninguém percebe. É este o paraíso liberal que nos prometem diariamente e que, maliciosamente, ninguém desmonta. É tão simples. Basta dizer, e qualquer criança o percebe, que no final, com vacas tão gordas alimentadas por nós, nem leite nem bife nos chegam, e qualquer dia nem o estrume nos oferecem. Assim é fácil!!!
Paradoxos do mundo moderno
A nova moda que por aí corre para combater a crise é facilitar os despedimentos. Infelizmente não fui abençoado com a capacidade intelectual para perceber como é que se aumenta o emprego facilitando o desemprego.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Estreia-se o novo elogio da derrota
Mudámos de espaço e demos um novo ar à casa. Vamos dar inicio a uma nova fase aqui no elogio, agora que cerrámos ainda mais os dentes. A todos os que nos visitam, muito obrigado.
A imagem lá de cima é do Robert Capa.
A imagem lá de cima é do Robert Capa.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Isto é o que Sir Karl Popper, Isaías Berlim, Frederico Hayek e João Carlos Espada chamaram muitos anos a supremacia moral das sociedades abertas
"The oil giant Shell claimed it had inserted staff into all the main ministries of the Nigerian government, giving it access to politicians' every move in the oil-rich Niger Delta, according to a leaked US diplomatic cable.
The company's top executive in Nigeria told US diplomats that Shell had seconded employees to every relevant department and so knew "everything that was being done in those ministries". She boasted that the Nigerian government had "forgotten" about the extent of Shell's infiltration and was unaware of how much the company knew about its deliberations."
The company's top executive in Nigeria told US diplomats that Shell had seconded employees to every relevant department and so knew "everything that was being done in those ministries". She boasted that the Nigerian government had "forgotten" about the extent of Shell's infiltration and was unaware of how much the company knew about its deliberations."
Vão ver ao Maradona ou ao Wikileaks (um nome de refrigerante belga mas em gay) que está lá tudo. Ler sem falta este post que termina de forma apoteótica e entra directamente para a estreita e curta lista das melhores finalizações de toda a historiografia da blogosfera.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
...
"O título do livro é o que melhor define esta história e histórias que tinha para contar, pois é bastante ambíguo, porque, de facto, são jogos, jogos de 20 anos de política africana em que estive presente", sublinhou Nogueira Pinto na apresentação de um Livro, Jogos Africanos , lançado um destes dias, um livro que nunca me apeteceu folhear por muitas e variadas razões. Até que a semana passada fiz desfilar, diante de uns atónitos olhos, os meus, as fotografias do protagonista brindando com copos de cristal, sulcando de lancha as ondas do Atlântico, à varanda de casas coloniais sobre o Índico, com a Zezinha e os americanos, com a Zezinha e os africanos, com a Zezinha e os diplomatas portugueses e uma outra vez rolou o vento doce e perturbante da história, os jogos, a terra, a vida olhada pela perspectiva do dinheiro e do privilégio, apenas jogos, intrigas, pequenas paixões, o mal de África, manhã de África, quando, por vezes, também vai o filho fotógrafo, as viagens por África, os insólitos pretinhos que, dizem, estão sempre muito contentes com a nossa visita. E os soldados de Napoleão apodrecendo nas planícies nevadas da Rússia? Olhava para as fotografias enquanto, sem que nada fizesse para tal, desfilavam as árvores decrépitas das savanas, a oscilação do capim como a pele afagada de um leão, o relâmpago das rajadas, o cheiro esfomeado da ração escassa, os miúdos mascote abrindo o leque resplandecente do seu sorriso, a nota lona de violencelo chorando em vez das mulheres, um vento esquisito soprando do lado da morte, as palhotas, e à porta, a cara da morte, espreitando, um túnel pintado muitos anos depois numa casa da montanha, a vida que não se recupera, os americanos, eu e Zezinha, Chiçano, eu e a Zezinha, os copos de cristal, a mesa do restaurante, as varandas sobre o mar, eu e a Zezinha. Quantos rapazes nunca tiveram a sua Zezinha para que estas fotografias chegassem a ver a luz do dia? Conheci pelo menos uma pessoa que rebentou o coração, o fígado e a vida na lama das picadas, cujos olhos eram duas pequenas nascentes envergonhadas de existir quando por acaso a televisão bruxuleava com a luz inesquecível do poente do Zambeze, ou um leão rugia sobre as encostas de África. Mas não jogou, não conhecia as regras, perdia-se em detalhes insignificantes, pintava quadros, meus deus, o ridículo de pintar quadros que ninguém viu, árvores africanas, queimadas pelos fogos naturais das tempestades, sub-sarianas, hoje abandonados numa casa fechada nas montanhas a tantos quilómetros de distância. Pintar quadros, um homem capaz de ganhar uma medalha de mérito por roubar armamento a grupos terroristas, onde talvez existisse menos terror do que nestas fotografias, nestas varandas de negócios, entregar-se a uma mariquice destas, desfazer-se em alcóol, verter a vida para dentro de uma garrafa, quadros de savanas queimadas pelo fogo, quadros que ninguém viu e ainda dormem na escuridão de uma casa fechada, talvez lá estejam agoram sileciosos, não-existentes por não terem olhos humanos que lhes dêm vida, árvores retorcidas, negras, um terror de silêncio e cinzas cuja percepção sempre foi para mim um enigma, até que esta semana, abri um livro sinistro repleto de fotografias de morte.
O Guinote, nisto, deve concordar com a ministra
Isabel Alçada elogia professores e famílias por resultados da OCDE
Para grande espanto da sociedade portuguesa, a esposa de Rui Vilar, ex-administrador do Banco de Portugal e da Fundação Gulbenkian, desfez o mistério em torno das melhorias de resultados dos testes Piza (uma torre torta do renascimento italiano que nunca seria um bom augúrio e que ninguém sabe como ainda se aguenta - ah, os engenheiros): as provas foram elaboradas à socapa pelos professores e pelas famílias dos professores, tal como foi confessado pela grande ideóloga de todo o espectacular e eficiente projecto, urdido na companhia do Engenheiro da Covilhã num sotão da Casa de António Guterres, mas sem malícia, quando este se encontrava no Zimbábué ou na Tanzânia ou na Etiópia, a fingir que salva um milhão de pessoas que de uma maneira ou outra acabarão cobertas de moscas nas savanas, no momento em que o engenheiro das Donas, Fundão, se encontrar a bordo de um avião via Paris.
Para grande espanto da sociedade portuguesa, a esposa de Rui Vilar, ex-administrador do Banco de Portugal e da Fundação Gulbenkian, desfez o mistério em torno das melhorias de resultados dos testes Piza (uma torre torta do renascimento italiano que nunca seria um bom augúrio e que ninguém sabe como ainda se aguenta - ah, os engenheiros): as provas foram elaboradas à socapa pelos professores e pelas famílias dos professores, tal como foi confessado pela grande ideóloga de todo o espectacular e eficiente projecto, urdido na companhia do Engenheiro da Covilhã num sotão da Casa de António Guterres, mas sem malícia, quando este se encontrava no Zimbábué ou na Tanzânia ou na Etiópia, a fingir que salva um milhão de pessoas que de uma maneira ou outra acabarão cobertas de moscas nas savanas, no momento em que o engenheiro das Donas, Fundão, se encontrar a bordo de um avião via Paris.
Quanto a nós, segue-se a reposição da verdade com a real hierarquia de méritos na melhoria dos resultados:
1º Alunos
2º Alunos
3º Melhoria das bibliotecas escolares
4º Aumento do nível da escolaridade dos pais (não digam à Helena Matos que isto aconteceu)
5º Aumento do número de miúdas giras por turma
6º Vitórias do Benfica na época 2009/2010
7º Em particular, golo de Carlos Martins contra o FCPorto, por meio do monumental frango de Nuno Espírito Santo, o porta-voz do plantel azul e branco
8º Alunos
9º Aumento do número de Professoras giras
10º Competência dos Professores, às vezes
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