sábado, 18 de dezembro de 2010

Ao senhor ministro Mariano Gago, impotente para resolver os mui graves problemas que afligem o país

Tenho uma capacidade de entendimento limitada

já se sabe, e talvez por isso me estranhe o desabafo do Mariano Gago, que descreveu assim o modus operandi das ordens profissionais, "Chegam lá ao gabinete e dizem-me: ‘Senhor ministro, desculpe lá, quer proletarizar esta profissão? Arranje uma maneira de fechar estas entradas, seja como for’”.

Mas o senhor ministro não sabe como utilizar o advérbio negativo para responder a estes marialvas assim que lhe entram pelo gabinete adentro ? E pior, mais à frente faz notar de que os representantes eleitos sitos no Parlamento não possuem espinha dorsal tal é a facilidade com que dobram ao sabor dos interesses entranhados. Mas o senhor ministro então serve exactamente para quê senão para em boa consciência, se opôr a tais interesses entranhados. Certas e determinadas coisas escapam ao meu entendimento.

Tirando uns quantos que saltam da ponte, haverá mesmo aí alguém que não ande iludido?

É sintomático que cultivadores da gargalhada perante o cientismo marxista, e seus supostos erros, revelem tamanho entusiasmo perante as denúncias das ilusões dos intelectuais, até porque, neste sentido, Fraçois Furet talvez se não distinga, com tanta propriedade assim, de um Francisco Louça, ou José Pacheco Pereira de uma Abelha Maia, pessoas sempre iludidas por um mundo eternamente comprometido na produção de mel. Já o facto de Miguel Morgado repescar textos de 2007 no baú do seu sotão me parece um traço típico de desorientação, algo que não criticarei por me encontrar neste momento completamente indeciso entre a dispensa de Kardec ou a retorno de Nélson Oliveira, um jogador desperdiçado pelo Benfica na Capital do móvel. Assim, neste quadro geral de crise de valores, aguardamos que Miguel Morgado faça uma pirueta encarpada e nos explique em que é que «a história da ilusão dos intelectuais», crentes em Lenine ou no Tio Patinhas, se distingue da história da ilusão dos intelectuais crentes em Tocqueville, em Hayerk, ou na democracia liberal, restando pouco mais ao patinado artístico de Morgado do que uma confirmação do que já Foucault (outro pobre iludido) demonstrara na mesma época em que Furet suava em desintoxicações da propaganda estalinista que comera durante vários anos, a saber: o liberalismo é a arte da demonstração de que o real é possível, sempre comprometido em justificar a história até ao momento em que a história deixar de ser favorável e os Morgados deste mundo começarem a protestar com as arbitragens. Com efeito, «os vários determinismos, historicismos e estruturalismos, em que o final do século XIX e o século XX foram tão pródigos» são exactamente os mesmos que alimentaram o Furet de antes e depois da grande ilusão, o senhor seja louvado, ter abandonado o seu espírito de caçador de burgueses, ou ignora Morgado que Furet faz parte daquela turma de caloiros que, arrependidos da noite passada, se põem a insultar os vendedores de cerveja.


Se Rousseau e Marx tiveram aqui óbvias responsabilidades, não é menos certo que coube a Hitler e a Lenine (e a Mussolini) declarar o burguês como o culpado impenitente por todos os males da condição humana, e alicerçar o Estado nesse veredicto.


Meu Deus, coitado do pobre Rosseau; como diria uma peixeira da Lota de Matosinhos, «o que lhe têm feito». Contudo, nem mais, Miguel Morgado, pois é exactamente neste passo que se localizam as fontes de onde brota o ódio de Furet ao intelectuais iludidos; nasce em grande parte no mesmo local onde sempre nascem todas as ilusões: uma vontade filha da puta de nos pormos a milhas das coisas que nos perturbam, pois o que são os intelectuais em geral, nestes últimos cem anos, e em particular os dos determinismos e dos historicismos (os intelectuais, pessoas que vivem do intelecto) se não vítimas de um mesmo ódio contra os burgueses, estejam eles comprometidos com a União Soviética, com Cambridge (caso de Blunt e dois panascas estalinistas), com as leituras de Montesquieu (fundamental para Althusser) ou Hobbes (fundamental para Horkheimer)? Ora, isto apenas indica que o saber de Furet, invocado por Miguel Morgado, é a velha e muito antiga produção de raiva entre pessoas que concorrem pela hegemonia do discurso, e este fascínio de Morgado pelos desfazedores de sonhos lembra, e de que maneira, a crítica da ideologia produzida pelas séries fabricadas em paletes na linha de produção dos partidos comunistas. Não vou perder tempo a identificar todos os momentos em que Morgado salta por cima da complexidade da vida encaixotando, na mesma frase, Rosseau, Mussolini e Marx, por exemplo, três pessoas que nunca frequentariam a mesma mercearia ou sequer partilhariam valores na apreciação morfológica de uma criada de hotel. Morgado: fica para o teu trabalho de casa de Natal, sublinhares neste texto todas as vezes em que tentaste enganar o leitor sobre coisas de que não fazes a mais pequena ideia da razão porque sucederam ou como sucederam, senão estarias rico, e eu morto. Em todo o caso, não seria hora de pensar um bocadinho, deixar de bater em velhinhos, e tentar entender o que há de perturbador neste sonho anti-sonhos (será a suprema vitória de Marx?) que não só procura desfazer todos os sonhos como se auto-congratula, a cada momento, como a única interpretação legítima das aspirações humanas, auto-promovendo versões faça-você-mesmo do único método capaz de nos conduzir ao conhecimento do que foi a história e o calvário de todas as nossas tristes ilusões? Não será este fascínio pelos desmanteladores da ilusão uma característica que une Furet, Morgado, Medina Carreira e Lenine, tão típica dos que, desconfiados da sua própria razão, se consomem em apontar os erros dos pobres loucos como forma de tranquilizante perante o seu próprio desnorte? Não estará a marca da clarividência assente sobre uma razão que caminha contra si própria e não contra as ilusões alheias, à semelhaça do que sempre procuraram fazer, por exemplo, Newton ou Adam Smith, com os belos resultados que, julgo eu, nem um analfabeto científico como Miguel Morgado poderá hoje ignorar?

A economia e o natal. Parte 2 - o casamento

Há qualquer coisa de vida nas manhãs dos sábados. Enquanto Medina Carreira geme por cada pingo de urina que deixa cair, que a Fátima Campos Ferreira recorda as elevações matinais - as suas e as dos homens do andar de cima - para ganhar um novo andar com mais pós que contras, em que o Manzarra enjoa as demasiadas tias comidas nos últimos meses, o medina perdão, o Mendigo que foi convidado para o casamento mais cor-de-rosa do ano ainda dorme - e não, não me refiro à pigmentação oferecida pelo vinho nem à tatuada pelo frio - e sonha com uma maria no trenó puxada pela rena aníbal trazendo, ao seu encalce, um saco de felicidade marcado de Porta da Ravessa. E aí, oniricamente, fica com uma tensão presidencial. Pergunta: será mais vergonhosa a popularização fácil da maria ou o aproveitamento do país imaginado pelo aníbal? haja paciência natalícia.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

George Washington + Chamuça + Bárbara Guimarães + Imperial = Teoria crítica da ignorância olímpica de Henrique Raposo: uma pessoa, apesar de tudo

O dia começou de forma particularmente traumática, mas justamente merecida para quem confia, para lá de todas as previsões de risco, em despertadores com modo rádio, e se vê depois surpreendido, ainda mal refeito de um transe escatológico envolvendo a dentadura de George Washington e as mãos de Bárbara Guimarães, completamente nu perante a voz de Sarsfield Cabral (uma aplicação de Mr. Burns, Simpsons, em modo católico ) prevendo rachas ideológicas no Conselho Europeu. Mas isto nada é, comparado com o posterior contacto com a pura inspiração inter-estelar do cientista Henrique Raposo, uma pessoa que desenvolve raciocínios, julga acreditar que o Presidente Americano é um facto e domina a matemática como Maxwell. Atente-se no seguinte exemplo de razão prática:
Imaginemos que Raposo corresponde a x e a nossa torturada paciência a y. Se a variável altamentente dependente de x se torna função de y, isso quer dizer que Raposo terá uma distribuição de cacete muito regular, piorando as expectativas de x se estivermos na posse de um trem de facas Ginsu. Contudo, a nossa compaixão é do tamanho da ignorância de Raposo, (a natureza tem horror ao vazio) pois, pela enésima vez, aceitamos explicar tudo, desde o início, ao jovem cronista do Expresso. Os mercados, alegadamente segundo Alegre, refere Raposo, segundo eu próprio, estou bem obrigado, atacaram a política; parece que o poeta de Águeda deu a entender que «esta crise é o resultado da acção dos mercados financeiros» - uma entidade que está para a análise de Henrique Raposo como a vaselina está para a Avenida do Conde Redondo. Ou seja, Raposo acusa o candidato de sobrevalorizar «o efeito (mercados a apertar as exigências)», uma frase-síntese de um efeito, digna da revista Gina. Contudo, espanta-se Raposo: o candidato não olha «para a causa (estados viciados em dinheiro emprestado)», uma frase-crítica digna de uma festa de Verão da Juventude Comunista. Comecemos, caro Raposo, pelos mercados. Desde pelo menos 1935, em Cambridge, um local onde nunca sentarás esse rabo, a não ser para segurar a bandeja dos cafés, ou assistir João Carlos Espada na sua tarefa de fornecedor aos scholars de férias de verão baratas em universidades da europa do sul; portanto, desde que o Verão de 1935 cobriu de glória as flores desses abençoados relvados onde Marshall e Pigou ensinaram - pessoas que estavam longe de ser socialistas (vai ver ao google) - que todos os grandes prosadores como tu têm a obrigação de estar familiarizados com a atitude da ciência económica perante a acção do Estado, começando, justamente, por saber que a acção do Estado é fundamental para a forma como os indivíduos, dotados de cérebro, perseguem os seus interesses privados e individuais, ficando desde logo assente que a questão não seria se o Estado deve ou não actuar mas através de que princípios deve actuar, sendo a parte mole do problema (os túbaros, diria um snack-bar da Amadora) um ponto crítico, cuja articulação ainda hoje baralha taralhocos como tu, a saber, a definição da zona onde os interesses privados e sociais divergem. Parece que chegámos ao Estado Social pela mão de um Marshalliano (o que não quer dizer, Raposo, que este senhor provenha de Marte), Estado Social que, na tradição de Beveridge (vai ver ao Google), representa o domínio da decisão planificada em zonas detectadas por grande parte da teoria económica do século XIX (a mesma que pariu os mercados financeiros) como sendo passíveis de potenciais falha de informação e erros na capacidade de distribuição dos recursos. Como sabes, a interacção de um grande número de indivíduos coloca sérios problemas aos mecanismos de mercado, as famosas externalidades, alterando os resultados esperados da liberdade da natureza, uma coisa em que nem um Rosseau embriagado apoiava de forma incondicional. O exemplo do crescimento de uma grande cidade sob a acção dos especuladores é eloquente, sendo clara uma coisa que até custa a dizer, de tão simples e tão olimpicamente ignorada: não podemos esperar que uma mão invisível produza um bom arranjo geral do todo por uma combinação de tratamentos separados das partes. Se as externalidades tiveram êxito em comentadores sabujos, e menos sabujos, a divergência entre bem social e interesses privados entrou na clandestinidade, o que me obriga a este longo exercício de paciência para explicar porque razão os Estados (que também podem desenvolver mecanismos de coordenação da complexa interacção dos indivíduos) não devem deixar que os apertos, de um qualquer mamalhudo mercado financeiro, apesar dos claros efeitos de prazer, se tornem reféns da vontade de quem fornece o prazer, mesmo ficando os Estados maximamente dependentes do mesmo - o prazer -, uma vez que, no final de contas, serão sempre os Estados a pagar a conta dos novos soutiens necessários para contenção do desvario.

E eis que tentamos e desafiamos maradona para o melhor video do ano



do mesmo autor deste aqui

As melhores fotos do ano

De acordo com o melhor site do mundo

Parte 1
Parte 2
Parte 3


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A vantagem da cobertura dura é ser qualquer coisa entre a tartaruga-das-galápagos e um Silvester Stalone habitado pela sensibilidade de Keats


Melhor livro do mundo na categoria de produtos não ficcionados para pessoas muito acima da média.


Apesar de estar rodeado de hardcovers (reparem bem nesta cornucópia citativa digna de um José Pacheco Pereira ), tenho tido muitas dificuldades em adormecer desde que Carlos Pinto Coelho morreu, isto por não me ocorrer nada que fazer com os próximo duzentos anos de noites passadas na periferia de Lisboa, restando-me desesperar, consolado com o facto de, ultimamente, Pinto Coelho passar na rtp memória, geralmente recortado contra um horizonte de sobreiros, céu azul-piscina e restolho. Assim, faltando para efeitos de tranquilização mental os magníficos programas por si despejados desde África até à contra costa, tenho estado a debater-me com uma falta de sentido para a vida que não experimentava desde que Vítor, no contexto sociológico da Casa dos Segredos, quase cometeu violência doméstica numa casa emprestada, sobre uma pessoa de que niguém, alegadamente, consegue estabelecer o padrão de relação civil, colocando, tecnicamente, sérios problemas ao recém-reeleito bustonário (sic) da Ordem dos Advogados. Do malogrado autor do Acontece, salva-se o facto de ter sido o único retornado despedido por um prémio nobel da literatura, o que, convenhamos, não é coisa que aconteça todos os dias. Visivelmente preocupado com este pico de realidade na sua vida cultural, Pinto Coelho tratou de afogá-la em acontecimentos enrodilhados naqueles pantos que as senhoras africanas, transportando baldes de peixe nas manhãs da minha infância, costumavam trazer atadas à cintura, e com eles atravessavam o Cais do Sodré a caminho do rio, nunca percebi se para os vender se para os devolver à vida. Que fazer com esta insónia? Mesmo o facto de Defensor Moura ter hoje produzido um dos momentos mais tristes na história ocidental da imagem não deve ter produzido melancolia suficiente para me afogar o cérebro em isomorfina, uma substância que isola a mente de todas as preocupações. Nada nos vai salvar desta merda toda que nos rodeia, sabendo nós que Wordsworth não tinha o sentido do cheiro, e note-se que apenas o sabemos porque sua amada irmã no-lo revela nos seus diários (o que andam os cabrões dos universitários a fazer?), o que deve tê-lo poupado a uma série de estados ascéticos a que eu próprio bem gostaria de me furtar, neste dias que são os últimos, e apesar da escandalosa negligência de toda a bibliografia secundária entretanto produzida, sobretudo tendo em conta que, não obstante a importância da sensibilidade orgânica na produção de toda a poesia que não é papel higiénico, e do lugar fundamental do corpo na estética romântica inglesa, ninguém se preocupou em estudar o assunto, o que fica como demonstração de que devo continuar a enfrentar a história natural da parvoíce portuguesa, e talvez mesmo de todo o mundo, de forma absolutamente generosa, abnegada e individualmente considerada.


Estamos a ficar sem heróis

Morreu o Carlos Pinto Coelho.

(no mesmo dia em que o maradona nos linkou e em que o nosso sitemeter explodiu)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Isto é o que Campos e Cunha chamaria uma perigosa manobra de descrédito dos princípios segundos os quais, com o Professor Aníbal, só pararemos na lua

McCloskey: With alarm. But non-economist intellectuals need to understand some elementary economics: There is no such thing as a free lunch; national income equals national product equals national expenditure; free trade is nice; more money causes inflation; governments are not all-wise; spontaneous order is not chaos.
My alarm comes from the economist’s tendency to reduce humans to Maximum Utility machines. We need a humanomics, of the sort that Adam Smith and John Stuart Mill and John Maynard Keynes and Friedrich Hayek and Gunnar Myrdal and Kenneth Boulding and Albert Hirschman practiced. Some current practitioners are Nancy Folbre, Arjo Klamer, and Richard Bronk. It’s an economics for grownups.
(...)
McCloskey: In college you got the claim that Greed is Good, and anyway people are Max U sociopaths, regardless of what all the scientific evidence gathered on the point says to the contrary. I would advise them, of course, to read my book How to Be Human*: *Though an Economist, which is advice to young economists about maintaining morale and integrity — and getting the scientific task done while retaining common sense. Beyond that, Educate thyself. Read widely, having acquired somewhere a deep knowledge of an economics of some sort. We have enough amoral idiot savants in the study of the economy. We need some fully educated humans. We need a humanomics, not more freakonomics.

Post quase liberal em que mandamos ir buscar, ó Vilas-Boas da blogosfera!

Lamentavelmente, Maradona, chegámos primeiro. Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World é um post que nos remete para uma entrevista com a autora, respescada numa daquelas revista inglesas sabujas que o Maradona lê, fundamentais para intelectuais periféricos que não confiam nas grandes universidades como Chicago ou Cambridge, de onde tudo vem, embora inteiro e com um grau de dificuldade que deixa José Manuel Fernandes - grande apreciador de recensões domingueiras resumidas para uso avulso em intervenções na Sic notícias - tarnsformado num taxista indiano solicitando entrada num distinto clube londrino que, logicamente, não pode permitir-se transigir com sub-espécie intelectualis. Acontece que já encomendámos o livro, e apostamos desde já aqui, com o A Causa foi modificada, que vamos fotografar, em primeiríssimo lugar, Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World, na mesa do bar na estação fluvial de Cacilhas, ao lado de uma chamuça e de uma imperial super bock, seguido da correspondente primeira recensão em língua portuguesa, e isto muito antes não só de Maradona adquirir o mesmo, como de Luciano Amaral ou Pedro Lomba conseguirem chegar à casa de banho para limpar o rabo. Não vamos já adiantar informação sobre a importância da dignidade nos padrões de crescimento económico, reservando a informação mais suculenta para nossas magestades, mas vá lá, referiremos desde já a importância da dignidade, nomeadamente, daquelas pessoas que recolhem os tabuleiros nos centros comerciais do Grupo Sonae S.A., e sem as quais, pasme-se, não há Medina Carreira ou Fátimas Campos Ferrreira, sequer um Manuel Luís Goucha, que nos possa salvar. Ainda que simplificações ao nível do binómino cenoura-burro possam escandalizar uma perspectiva do ponto de vista das utilidades marginais dos bens salariais, ou mesmo a concepção de um sistema de preços como redistribuidor dos recursos, a verdade é que até os Holandeses, que já perderam mais finais europeias de que o Benfica, estão, há mais de trezentos anos, na posse de conhecimentos a que ninguém em Portugal presta a mais pequena atenção, à excepção de Manuel José que nos já longos idos de 1998 dizia perante um atónito David Borges, «ou há moralidade, ou comem todos.» De um ponto de vista da economia do desenvolvimento, em Portugal, tem havido sobretudo moralidade deduzindo-se daí, com cristalina evidência, que não podiam comer todos.

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Prefiro duzentos biliões de vezes Lady Gaga a B Fachada - uma das coisas mais estúpidas de que há memória desde a Vénus de Willendorf

É devido à acção fisiológica, política, cultural, social e espectacularmente estúpida de parvos como B Fachada (indivíduos que pretendem refundar no Barreiro movimentos sociais da Baía de S. Francisco que significaram o fim da nossa indústria têxtil - mas que merda de camisa é esta? Importada da China?) que a esquerda nunca ganhará umas eleições nos próximos quatrocentos milhões de anos-luz. Primeiro: isto já foi feito por John Lennon, com conhecimentos musicais, afinado, e sem a parte maricas. Segundo: e não é que este gajo quer gravar canções onde figuram Etelvinas e alusões à terra, sem fazer a mais pequena filha da puta de uma idéia do que será a vida de uma Etelvina, uma coisa que, entre muitas outras, manifestamente, Lady Gaga poderá ensinar de cátedra, enquanto vende dez milhões de discos e sem perder a elegância que a caracteriza?
Lady Gaga - alguém que vale a pena ouvir, quanto mais não seja porque sabe do que está a falar, isto é, escreve, canta e dança sobre coisas que experenciou materialmente, quer num sentido Kantiano, quer num sentido Continente S.A., quer no sentido daqueles que sentem com o cérebro e não com os dentes da frente, como é o caso de B Fachada. A verdade é isto. Não venham é depois com o Sitemeter.


Desenvolvimento do tema.
Sempre que as reflexões blogosféricas resvalam para a vala comum da contabilidade de visitas diárias, a depressão espreita o meu círculo vital e tenho imediatamente que mergulhar num dos volumes do Cambridge Studies in Romanticism que, felizmente, têm chegado com regularidade capitalista à minha caixa do correio, instrumentos vitais para o resgate da minha homeostase mental, ultimamente muito abalada por pressões de temperatura das mais várias origens. Vou deixar eventuais comparações entre o sitemeter e um Guarda-livros embriagado para atacar já o problema mais perturbante dos últimos vinte anos, isto não considerando a análise das relações íntimas entre a dispersão salarial das cabeleireiras e a compra da revista Lux nos últimos quinze dias de cada mês. Um dos fenómenos emergentes no último combate de blogues - além das unhas da Filipa Martins, episodicamente devolvendo-nos aos filmes de terror da adolescência, onde emergiam tonéis de sangue e miúdas vagamente giras mas desorientadas - parece ser um blogue denominado Estado de Sítio. Como estou muito cansado, e não me suicido desde já com uma mola da roupa na jugular, apenas porque o Presidente da Academia das Ciências, das Ciências, meu Deus, das Ciências, está a explicar, perante as protuberâncias mamárias de Fátima Campos Ferreira, como o globalismo não deve ser contrário às identidades, no contexto do mais jovem deputado eleito no contexto do defunto império Austro-Húngaro, fica apenas um exemplo da frase estruturalmente mais ignorante dos últimos três séculos, onde se afirma que um desorientado com menos de quarenta quilos, maricas, sem gota de talento e completamente analfabeto em pelos menos três direcções e de um ponto de vista completamente completo, B Fachada, seria um dos grandes músicos da nova geração e que muito provavelmente virá a ser considerado um novo Fausto, ou até mesmo um novo Zeca.
(o sublinhado é nosso). Ora, isto demonstra que nesse blogue, Estado de Sítio, não só existe uma pessoa cujos ouvidos foram arrancados por uma máquina registradora em queda, como várias outras que, permitindo-se não degolar o autor destas declarações, permitem que José Afonso possa estar neste preciso momento a revolver-se algures no interior de uma campa algures num cemitério de Setúbal. Passando por alto pelo facto de até Lady Gaga estar mais próxima de ser um novo Zeca do que B Fachada (para já não falar no dianteiro do Vitória de Setúbal), avanço para o extermínio do referido blogue, apgando-o da minha memória com uma garrafa de vinho verde. Em todo o caso, a noite estará ganha se, como tudo indica, Barata Moura arrancar as barbas de António Barreto apenas pela aplicação meticulosa dos seus dentes cerrados, enquanto declama aforismos Kantianos na língua original. (...) E aí está: António Barreto acaba de sacar uma referência a Álvaro Pais, um antigo Bispo de Silves, vou repetir, um antigo Bispo de Silves, que terá aconselhado o mestre de Avis, (depois do especialista em marcas, é Barreto quem agora retira do bolso o cadáver pestilento de D. João I) perante a rápida reacção de Barata Moura, o único comunista potuguês cuja extensão sináptica é estimulada electricamente e com satisfação, e perante a desorientação burguesa de António Barreto, um dos académicos mais parecidos com um espantalho de pomar e um homem cada vez mais transformado no filho da puta que sempre foi.

Sobre a crise

Começamos a ficar fartos da “crise”. Da linguagem da “crise”, entenda-se. Massacram-nos com infinitas discussões sobre os horrores que nos esperam e ninguém, em nenhum debate, se atreve a falar de uma evidência que merecia ser questionada: no Natal publicitário, dos relógios aos automóveis de luxo, vivemos em clima de radiosa prosperidade e riqueza. Porque nunca se problematizam os valores que dominam as mensagens publicitárias? Porque não se pensam tais mensagens como elementos incontornáveis das relações sociais e simbólicas?

Ainda ontem no Canal Panda vi isto a ser feito a crianças com 5 anos, ao leva-los à loja para comprarem roupa para o Festival do Panda.

Antes do almoço



fanado aqui. Se houvesse necessidade para se gostar ainda mais da Zooey.

A Economia e o Natal: 1.º o Presépio

Como é sabido, a cruzada liberal tem-se esforçado por tingir de heresia toda e qualquer actividade desenvolvida pelo Estado, argumentando, de forma mascarada, que isso é prejudicial para a economia, uma religião que alberga cada vez mais fanáticos. Eleva-se assim um presépio em que a sagrada família se deseja de tendor totalmente privado, ainda que aqui e ali, uma ou duas vaquinhas para aquecer a menina sejam bem vistas, leia-se, para financiar uma economia que de totalmente privada só conhece as retretes da casa do Medina Carreira. Algumas dessas vaquinhas, ou melhor, vasconas - pelo tanto que engordaram nos prados do Estado - lançaram-se no desafio de tornar o país uma pouco menos dependente do petróleo, até porque como todos sabemos, o grande aumento do preço desse é a grande e verdadeira crise que aí vem. Sob a capa da energia renovável, montou-se um esquema simples: O Estado, via EDP, compra toda a energia produzida pelas mini-empresas produtoras de energia alternativa, sendo que estas empresas não só têm à partida todo o produto que produzem vendido - o sonho de qualquer empresa - como o fazem com preços acima daqueles pratricados pela própria EDP, que depois nos faz chegar a casa "com o preço que o mercado exige", que ainda assim é, por enquanto, abaixo do preço pelo qual o compou. Quem paga a diferença? Os 60% da sua factura que têm uma série de parâmetros que ninguém percebe. É este o paraíso liberal que nos prometem diariamente e que, maliciosamente, ninguém desmonta. É tão simples. Basta dizer, e qualquer criança o percebe, que no final, com vacas tão gordas alimentadas por nós, nem leite nem bife nos chegam, e qualquer dia nem o estrume nos oferecem. Assim é fácil!!!

Paradoxos do mundo moderno

A nova moda que por aí corre para combater a crise é facilitar os despedimentos. Infelizmente não fui abençoado com a capacidade intelectual para perceber como é que se aumenta o emprego facilitando o desemprego.

sábado, 11 de dezembro de 2010

A derrota também tem rostos

a taça já era

Estreia-se o novo elogio da derrota

Mudámos de espaço e demos um novo ar à casa. Vamos dar inicio a uma nova fase aqui no elogio, agora que cerrámos ainda mais os dentes. A todos os que nos visitam, muito obrigado.

A imagem lá de cima é do Robert Capa.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Isto é o que Sir Karl Popper, Isaías Berlim, Frederico Hayek e João Carlos Espada chamaram muitos anos a supremacia moral das sociedades abertas

"The oil giant Shell claimed it had inserted staff into all the main ministries of the Nigerian government, giving it access to politicians' every move in the oil-rich Niger Delta, according to a leaked US diplomatic cable.

The company's top executive in Nigeria told US diplomats that Shell had seconded employees to every relevant department and so knew "everything that was being done in those ministries". She boasted that the Nigerian government had "forgotten" about the extent of Shell's infiltration and was unaware of how much the company knew about its deliberations."
Vão ver ao Maradona ou ao Wikileaks (um nome de refrigerante belga mas em gay) que está lá tudo. Ler sem falta este post que termina de forma apoteótica e entra directamente para a estreita e curta lista das melhores finalizações de toda a historiografia da blogosfera.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

...

"O título do livro é o que melhor define esta história e histórias que tinha para contar, pois é bastante ambíguo, porque, de facto, são jogos, jogos de 20 anos de política africana em que estive presente", sublinhou Nogueira Pinto na apresentação de um Livro, Jogos Africanos , lançado um destes dias, um livro que nunca me apeteceu folhear por muitas e variadas razões. Até que a semana passada fiz desfilar, diante de uns atónitos olhos, os meus, as fotografias do protagonista brindando com copos de cristal, sulcando de lancha as ondas do Atlântico, à varanda de casas coloniais sobre o Índico, com a Zezinha e os americanos, com a Zezinha e os africanos, com a Zezinha e os diplomatas portugueses e uma outra vez rolou o vento doce e perturbante da história, os jogos, a terra, a vida olhada pela perspectiva do dinheiro e do privilégio, apenas jogos, intrigas, pequenas paixões, o mal de África, manhã de África, quando, por vezes, também vai o filho fotógrafo, as viagens por África, os insólitos pretinhos que, dizem, estão sempre muito contentes com a nossa visita. E os soldados de Napoleão apodrecendo nas planícies nevadas da Rússia? Olhava para as fotografias enquanto, sem que nada fizesse para tal, desfilavam as árvores decrépitas das savanas, a oscilação do capim como a pele afagada de um leão, o relâmpago das rajadas, o cheiro esfomeado da ração escassa, os miúdos mascote abrindo o leque resplandecente do seu sorriso, a nota lona de violencelo chorando em vez das mulheres, um vento esquisito soprando do lado da morte, as palhotas, e à porta, a cara da morte, espreitando, um túnel pintado muitos anos depois numa casa da montanha, a vida que não se recupera, os americanos, eu e Zezinha, Chiçano, eu e a Zezinha, os copos de cristal, a mesa do restaurante, as varandas sobre o mar, eu e a Zezinha. Quantos rapazes nunca tiveram a sua Zezinha para que estas fotografias chegassem a ver a luz do dia? Conheci pelo menos uma pessoa que rebentou o coração, o fígado e a vida na lama das picadas, cujos olhos eram duas pequenas nascentes envergonhadas de existir quando por acaso a televisão bruxuleava com a luz inesquecível do poente do Zambeze, ou um leão rugia sobre as encostas de África. Mas não jogou, não conhecia as regras, perdia-se em detalhes insignificantes, pintava quadros, meus deus, o ridículo de pintar quadros que ninguém viu, árvores africanas, queimadas pelos fogos naturais das tempestades, sub-sarianas, hoje abandonados numa casa fechada nas montanhas a tantos quilómetros de distância. Pintar quadros, um homem capaz de ganhar uma medalha de mérito por roubar armamento a grupos terroristas, onde talvez existisse menos terror do que nestas fotografias, nestas varandas de negócios, entregar-se a uma mariquice destas, desfazer-se em alcóol, verter a vida para dentro de uma garrafa, quadros de savanas queimadas pelo fogo, quadros que ninguém viu e ainda dormem na escuridão de uma casa fechada, talvez lá estejam agoram sileciosos, não-existentes por não terem olhos humanos que lhes dêm vida, árvores retorcidas, negras, um terror de silêncio e cinzas cuja percepção sempre foi para mim um enigma, até que esta semana, abri um livro sinistro repleto de fotografias de morte.

O Guinote, nisto, deve concordar com a ministra

Isabel Alçada elogia professores e famílias por resultados da OCDE

Para grande espanto da sociedade portuguesa, a esposa de Rui Vilar, ex-administrador do Banco de Portugal e da Fundação Gulbenkian, desfez o mistério em torno das melhorias de resultados dos testes Piza (uma torre torta do renascimento italiano que nunca seria um bom augúrio e que ninguém sabe como ainda se aguenta - ah, os engenheiros): as provas foram elaboradas à socapa pelos professores e pelas famílias dos professores, tal como foi confessado pela grande ideóloga de todo o espectacular e eficiente projecto, urdido na companhia do Engenheiro da Covilhã num sotão da Casa de António Guterres, mas sem malícia, quando este se encontrava no Zimbábué ou na Tanzânia ou na Etiópia, a fingir que salva um milhão de pessoas que de uma maneira ou outra acabarão cobertas de moscas nas savanas, no momento em que o engenheiro das Donas, Fundão, se encontrar a bordo de um avião via Paris.

Quanto a nós, segue-se a reposição da verdade com a real hierarquia de méritos na melhoria dos resultados:

1º Alunos
2º Alunos
3º Melhoria das bibliotecas escolares
4º Aumento do nível da escolaridade dos pais (não digam à Helena Matos que isto aconteceu)
5º Aumento do número de miúdas giras por turma
6º Vitórias do Benfica na época 2009/2010
7º Em particular, golo de Carlos Martins contra o FCPorto, por meio do monumental frango de Nuno Espírito Santo, o porta-voz do plantel azul e branco
8º Alunos
9º Aumento do número de Professoras giras
10º Competência dos Professores, às vezes

Contra os canhões, mais livros, mais livros

Eduardo Marçal Grilo está neste momento a explicar como na sua longa entrevista com a ministra da educação da Finlândia, «uma jovem, simpática e agradável», segundo a expressão do administrador da Fundação Gulbenkian, lhe foi dito que a razão do sucesso educativo daquele país se devia a apoios sociais, refeições e a maior tradição europeia de leitura em família, o que deve ter provocado um sismo de magnitude 7,6 na escala do cu tremido junto da redacção do Público, neste momento atarefada com uma contra reportagem que procura justificar como esta tradição em família se deve a uma ancestral propensão dos países nórdicos para transferências telepáticas pelo respeito da autoridade privada na figura do pai-leitor, e um sentido inato aos cabelos louros propiciadores de taxas de esforço, devoção e glória, ao serviço de um sistema hierarquizado, concorrencial e totalmente privatizado até à medula dos cães que, eles próprios, mesmo os da polícia, nunca tolerariam qualquer espécie de propriedade pública. Nisto, deve relembrar-se que a importância da leitura em Portugal é uma coisa que não sortirá efeito, segundo Heidegger, Freud e a Helena Matos, não havendo outra salvação para os alunos senão a autonomia das escolas, a autonomia das escolas, a autonomia dos directores, a autonomia da distribuição salarial dos professores, a autonomia dos programas escolares, a autonomia das escolas em relação ao Ministério da Educação, mas não em relação às crónicas da Helena Matos, autonomia dos métodos de apalpação das raparigas no recreio, autonomia até da disposição dos caixotes do lixo, mas nunca uma valorização da leitura ou dos apoios sociais, que isto da performance escolar nada tem que ver com meio-familiar ou capacidades cognitivas dos pais. Daqui deduz Helena Matos, uma pessoa que finge escrever livros sobre Salazar, que isto é fascismo spenceriano, ao que eu respondo que o facto de os meus pais nunca me terem deixado colocar os pés no chão, atrofiando o meu desenvolvimento motor, isso não significa que eu esteja condenado a morrer, ou que sou um macaco, mas que terei, provavelmente, de beneficiar de um programa especial de treino para competir com miúdos que correm a maratona desde os três anos de idade. É necessário relembrar ao auditório que alguns membros do elogio da derrota lutam semanalmente contra as estatísticas e as toneladas de ignorância derramadas pela natureza e pela Helena Matos sobre as cabeças dos portugueses, perante o silêncio sepulcral das instituições privadas a quem Helena Matos confia a salvação do mundo, uma pessoa que não sabe escrever, não tem uma única ideia original, além de não primar pela juventude, simpatia e agradabilidade. Já Marçal Grilo espanta-se com a Inglaterra, por lá existirem pessoas interessadas na instituição escolar sem filhos a frequentar a mesma. Inglaterra, aquele país onde, agora mesmo, vi um estudante universitário de cornos partidos, de mãos ensanguentadas, atirando pedras contra a boçalidade e as trevas, uma característica que, desde o século XVII, passando pela devoção a Rosseau, e chegando aos dias de hoje, nunca deixou de inflamar a Inglaterra: o amor desinteressado pela luz, tão essencial à leitura de livros quando não nos envolve senão a mais profunda escuridão da noite.

Sonhos tranquilos para todos os portugueses


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Isto é mais a nossa ideia de reprodução monárquica da mais sabuja semente de provincianismo de que há memória, mas isso somo nós, pobres suburbanos

An Experience to Recall
The happiest days in my life, so the saying goes about past times at Oxbridge or Ivy League universities.Our aim is that our students at IEP-UCP can feel alike. And that they will want their children,and their grandchildren, to repeat their unforgettable experience.This is our idea of a University.


João Carlos Espada
Professor of Political Studies
Director Instituto de Estudos Políticos
Universidade Católica Portuguesa

Provavelmente, o momento mais triste da história dos textos-síntese em sites informativos de Universidades no contexto do mundo Ocidental

Transtejo

Para quem nos tem acompanhado nestes dias que são os últimos, não há novidade absolutamente nenhuma no facto de o ressentimento ser um dos motores da nossa experiência estética, o que é perfeitamente adequado, tendo em conta a definição que a Wikipédia aponta para a referida emoção, considerando-a um sentimento de desprazer ou indignação em relação a uma acto, comentário insultuoso ou injurioso. A isto aduz ainda a mesma Wikipedia uma notícia do Estado de São Paulo, de 11 de maio de 2007, referindo que as «estatísticas demonstram que as maioria de negros em determinados bairros, a resultante atitude da polícia de dar tratamento preferencial a negros na hora da repressão, o conteúdo de ressentimento histórico das populações negras - tudo isso contribui para que os rappers tendam a enfatizar a responsabilidade da sociedade como um todo pela conduta dos infractores.» Invocando, muito a propósito, o sentimento nutrido por um indivíduo de raça negra no contexto de uma festa do Cambridge Country Golf Club, é evidente que em tudo nos assemelhamos a esse indivíduo que já entornou a bebida nas calças riscadas só pelo simples facto de uma duquesa de Windsor ter soltado um risinho em forma de dardo que acaba de fazer tangente à sua cabeça. A história da literatura demonstra que em 78,3% dos casos, os escritores em potência acabaram por ser vítimas do ressentimento em acto, sofrendo de uma paralesia criativa e de compulsivos erros de julgamento na avaliação da sua própria obra. Fazendo nós intenção de nos situarmos nos 21,7% restantes, o grupo dos escritores em potência da história da literatura que não se deixaram capturar pelas definições de ressentimento divulgadas por Freud, Jung e Júlia Pinheiro, resta-nos assegurar aos leitores que continuaremos a fazer a travessia Cais-do-Sodré/Cacilhas seguros de que não só estamos a prestigiar uma ligação fluvial muito esquecida pelas instituições culturais (entre outros, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço ou mesmo um Júlio Isidro) como estamos de forma absolutamente solidária a lutar em simultâneo contra todos os processos históricos que pretendem transformar a voz humana numa espécie de sintetizador chinês.

É que nem temos a mais pequenina das hipóteses

silencioso corpo de fuga, A Mar Arte, Coimbra, 1996;
o sol pôs-se calmo sem me acordar, A Mar Arte, Coimbra, 1997;
entorno a casa sobre a cabeça, Silêncio da Gaveta Edições, Vila do Conde, 1999;
egon schielle auto-retrato de dupla encarnação, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto, 1999;
estou escondido na cor amarga do fim da tarde, Campo das Letras, Porto, 2000;
três minutos antes de a maré encher, Quasi Edições, V.N. Famalicão, 2000;
a cobrição das filhas, Quasi Edições, V.N. Famalicão, 2001;
útero, Quasi Edições, V.N. Famalicão, 2003;
o resto da minha alegria seguido de a remoção das almas, Cadernos do Campo Alegre, Porto, 2003;
livro de maldições, Objecto Cardíaco, Vila do Conde, 2006;
pornografia erudita, Edições Cosmorama, Maia, 2007;
bruno, Littera Libros, Espanha, 2007;
folclore íntimo, Edições Cosmorama, Maia, 2008.

biografia : valter hugo mãe

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

No meu caso, com todo o respeito pelo Financial Times, a sensação silly não costuma abandonar-me nem à segunda, nem à terceira, nem mesmo à quarta

Na hora de pôr a mesa - uma merda que eu sempre detestei fazer

Num singelo post que me ficou entalado ao almoço, entre o arroz com feijão e as pataniscas de bacalhau mamadas na Adega do Tagarro a meias com um Professor da Universidade de Brasília que, felizmente, ainda não foi engolido pela recorrentemente sistematizada estupidez académica, José Luís Peixoto, um dos maiores escritores alentejanos da última década e meia conta-nos que alguns alunos da Escola EB 2,3 João Afonso, de Aveiro, escreveram variações sobre o poema Na hora de pôr a mesa. Seria necessário indagar o que leva os Professores de Português, pagos com o sagrado e torturado dinheiro proveniente do fisco pátrio, a torturar os seus alunos com variações a um dos momentos mais infelizes da história da auto-ajuda literária do mundo ocidental. Porém, uma leitura do jornal O Moliceiro surpreende-nos com o facto dos alunos da Escola Básica João Afonso escreverem melhor do que José Luís Peixoto. Neste sentido, avanço o meu próprio trabalho, esperando que os senhores professores sejam indulgentes com a minha cansada sensibilidade expressa no poema à hora de pôr a mesa - uma merda que eu detestava fazer -, erámos prá aí trinta e seis.
à hora de colocar a mesa - uma merda que eu detestava fazer -, erámos prá aí trinta e seis:
o meu pai Antunes, o seu amigo da pesca na barra de Alcochete, Zé Iscas, o Tété barnabé, condutor de uma mota zundap, a minha tia vesga, a minha prima entraivada, a minha avó maneta, a minha cunhada costureira, a minha irmã mais velha (e toxicodependente), a minha irmã mais nova (militante do PPD/PSD - que envergava normalmente uma t-shirt com efígie de Sá Carneiro), a minha Tia de Ovar, a minha Tia de Alhos Vedros, o Caniço - antes daquela cena ter acontecido ali na zona de Tróia-, o meu cunhado mecânico, o meu irmão mais novo, ponta de lança dos Unidos do Pragal, e ainda um sem número de velhos reformados que sempre apareciam à hora de pôr a mesa. Depois, a minha irmã mais velha casou e foi morar em Coina, a minha irmã mais nova abandonou o PSD, militou no PS, e secretária-adjunta do Planeamento, envolvendo-se num negócio de terrenos na zona do Barreiro, o meu tio morreu diabético com uma aplicação de plástico no lugar onde antes estava uma perna, a minha Tia de Alhos Vedros abriu um café com bifanas a 1 euro e 75, enriqueceu e construiu uma vivenda forrada de azulejos na Amoreira, o meu irmão mais novo foi para as obras em Saragoça e enveredou pelo negócio dos produtos eróticos. Em todo o caso, seremos sempre muitos, na hora de pôr a mesa, uma vez que a minha Vanessa não se ajeita com os métodos contraceptivos e já vamos no quinto, o que não é pouco, e mesmo que esta malta toda nunca mais tenha aparecido para ferrar os dentes na sardinha de escabeche que a minha avó, que entretanto foi para casa dela - o cemitério do Seixal - fazia como nunca mais ninguém voltou a fazer.