segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Elmano Santos revisitado

Ao apontar para a marca de grande penalidade, ou como diria Manuel Machado, para a linha dos onze metros, os árbitros interferem na emoção aleatória do jogo para passarem a punir os adversários de certas e determinadas equipas, às vezes pessoas que nem sequer se encontram dentro das quatro lihas (ou como diria manuel machado nos rectângulo de jogo), para passarem a controlar o duelo marcador-gatuno, por meio de um apito levemente entalado entre os lábios. Assim, a repetição de uma grande penalidade é, como todos sabemos, uma arte muito difícil de manobrar, pelo que a consistência desta fabulosa equipa do FcPorto, 2010, pode continuar a sua cavalgada pelo deserto enevoado dos variáveis e complexos alinhamentos do super-soccer português, versão 3.4, para grande espanto de todos os burros ajaezados à andaluza que, como eu, insistem em perder tempo com transmissões em directo de relvados localizados no território de um dos países mais pobres da Europa, acreditando que a marcha do marcador pode ser influenciada pela competência dos intervenientes que jogam com os pés e as mãos, em lugar dos intervenientes que jogam com o apito entre os lábios, ou com o telemóvel na orelha, uma ilusão de que já nem as crianças que dormem à tarde nas benditas caminhas dos jardins-escola padecem.

A respeitadíssima credibilidade das arbitragens realizadas na zona das Antas acaba de empurrar-me para os frondosos jardins do conhecimento


No caso do Professor César das Neves, temos o lamentável dever de informar que o problema não passará e dificilmente voltará ao normal

«Isso passa e voltaremos ao normal.»

Amor sem compromisso

Por essa razão, Sá Carneiro esteve disposto a dar uma oportunidade a Caetano.

Haverá alguém em Portugal que ainda não tenha publicado um livro sobre Sá Carneiro?

O presidente da República, e também o quase presidente da República, mas em careca, Vítor Bento - um economista que começa o seu último livro com uma espectacular incursão histórica no drama da sucessão ao trono de Portugal na ressaca do desastre de Álcacer Quibir (um abraço ao Artur Jorge) - acham mal que os Açores existam e exerçam o seu direito de relegar para quarto plano a contenção salarial, e isto mesmo tendo em conta o facto de os Açores serem aquele lugar onde a pobreza ganha novas formas de recorrência oceânica, e estarem na liderança dos Açores pessoas que, sendo socialistas, planificam o sucesso eleitoral com o desinteresse de um mercado de fruta podre, sendo apenas beneficiados pelo facto de os Açorianos serem eventualmente um dos povos mais analfabetos da Europa (o que por si só justificaria vários subsídios de acordo com o plano Beveridge, uma coisa que caiu fora de moda com a mesma violência das luvas sem dedos. O subsídio aos funcionários públicos perturba por ser um subsídio, por ser aos funcionários públicos, por ser num contexto de cortes salariais nacionais, ou por ser uma semana antes de o Benfica jogar o seu acesso à Liga Europa e, portanto, estar em jogo um novo plano de confiança e consumo no padrão comportamental dos portugueses? Esta é a questão que eu gostaria de ver respondida, mas infelizmente o Rui Ramos encontra-se de férias, a Teresa de Sousa deve estar ocupada com as compras de Natal em Londres e o João Carlos Espada emigrou de vez para o bar de um clube de Cambridge onde serve as bebidas espirituosas dos cavalheiros ingleses e recita curiosidades sobre a velhice de Sir Karl Popper. Que fazer? Vou experimentar uma viagem Cais-do-Sodré/Cacilhas e depois digo-vos qualquer coisa.

Continuamos a achar que este é o actualmente melhor autor de língua portuguesa ainda que seja estranho haver um post às 14h45 e outro às 17h56

Sá Carneiro foi assassinado, já toda a gente sabe isso; pronto, caralho, qual é o problema? Não ficam todos os anos tantos crimes por resolver?

O homem gosta de se pôr a jeito

JCN, aqui, em mais um imperdível texto, cheio de coisas destas:

"Castidade, pureza, fidelidade são incompreensíveis. Isso passa e voltaremos ao normal. Sabemos bem como delírios colectivos, a que assistimos tantas vezes e parecem imparáveis, se esfumam depois. O problema destas fúrias culturais está nos estragos que deixam.

A França de setecentos e a Rússia de novecentos quase se destruíram na embriaguez da revolução. Agora a cultura preservativa ameaça as sociedades que inquinou. Queda drástica de fertilidade e casamento, envelhecimento da população, degradação da família estiolam o crescimento, dinamismo social, vitalidade cultural. Pior que os tumultos antigos, o vício hedonista deteriora o tecido humano por definhamento. Entretanto o vício ataca a Igreja com disparates daquele calibre por ignorar o sentido da doutrina."

0:42

Após mais uma vil acusação de rodeios, discurso barroco, e digressões semânticas em forma de serpente bíblica, estou incapacitado de produzir conhecimento e penso voltar ainda esta semana a cruzar o rio na rota Cais-do -Sodré/Cacilhas em direcção a uma pastelaria de Almada onde pela primeira vez me deparei com uma caracterização da polivalência funcional do génio metafórico de shakespeare, sendo este comparado aos músculos de um atleta igualmente ágeis em várias disciplinas desportivas.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A pior música de todos os tempos, no contexto da de si já bastante má música etnográfica, seguido de uma tentativa de recuperação de Né Ladeiras

De Niamey a 2 de Dezembro de 2010 às 01:38
Maravilha Rui Herbon. Acabei de chegar aos 12 anos. A Né Ladeiras e aquela cara nesta capa de LP e o meu irmão Sérgio, o nome impõe-se porque foi sempre o dj ou a music box da minha vida, ele com sete anos à frente dos meus. Obrigada pela pontaria, também em mim e em grande final de feriado :)

No post RH Music Box, por onde Rui Herbon, um israelita apaixonado pelo cruzamento entre a voz desafinada de uma transmontana e um amolador de tesouras a girar uma manivela, procura contrariar aquilo que muito justamente se assinala na wikipédia: Banda do Casaco foi uma banda musical portuguesa de rock progressivo e uma das mais votadas ao esquecimento após o 25 de Abril. Convenhamos que nem tudo foi mau após a revolução democrática e a todos os críticos da economia de mercado aqui fica um sinal de esperança por um mecanismo social que conseguiu mergulhar no esquecimento um fenómeno tão lamentável como a Banda do Casaco.

O chamado hipérbato violento ou com dizem os economistas, o princípio do recebedor-enganador, ou princípio de Sérgio Figueiredo

«Ninguém distribui o que não tem(...)»

Niguém tem o que não é distribuído. Em todo o caso, o Sérgio Paulo Jacob Figueiredo Administrador-Delegado da Fundação EDP, uma pessoa que, além de ter nascido em Sacavém, ter esquecido as suas origens, e saber tudo sobre o conceito de demagogia, visto ter sentado o seu perfumado rabo em cima de todos os orgãos de comunicação social capazes de se mexer no panorama audio-visual português dos últimos dez anos, «então a imprensa portuguesa é que é a merda da imprensa protuguesa?», tem uma visão, embora use óculos, capaz de revolucionar a Fundação EDP e até, meu deus, esgalhar um desenvolvimento para o país (Ser uma organização pioneira, de referência no setor energético e no Brasil como agente de transformação socioambiental, visando o desenvolvimento sustentável). Se o Sérgio Paulo Jacob Figueiredo administrasse alguma coisa para além da sua cabeça, mandaria rever aquela frase olimpicamente mal construída e sentiria uma tão profunda vergonha como um dardo no momento de apresentar as seguintes características, tidas como diferenciadoras da sua instituição, amen:

Missão
Promover a sustentabilidade empresarial com o alinhamento de suas três dimensões – econômica, social e ambiental
Valores
Transparência
Rigor
Ética
Eficiência
Respeito


Respeito? Alguém será capaz de me explicar que merda de lista é esta?

O meu muito obrigado ao senhor Blatter

e demais indivíduos que deram uma hipótese aos mafiosos russos de branquear o carcanhol que lhes sobeja dos bolsos para fora. Não, não estou a ser irónico. De "crescimento económico" à la Euro2004 estamos nós fartos.

A ler de manhã

Milionários americanos querem pagar mais impostos - "E não é um grande sacrifício. Os nossos impostos são dos mais baixos dos países democráticos industrializados»
vs
O elogio à riqueza - "O Estado...cavalga em cima da demagogia e exige ao sector empresarial que participe no combate à crise reduzindo a remuneração de gestores e de accionistas"

Para concluir leia-se esta noticia e este bom texto do João Rodrigues em resposta ao texto do senhor da EDP que coloquei em cima e perceba-se de uma vez por todas: "A economia é sempre política" ao qual eu acrescento jogo de poder e interesses.

Tenham um bom dia e vejam este post do maradona, que faz mais pela ornitologia que a propria SPEA.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Adenda

Peço desculpa, mas é absolutamente fundamental acrescentar, a bem de uma cristã pedagogia e da salvação do tempo útil da juventude desprevenida, o facto de António Alçada Baptista ser um dos piores escritores de todos os tempos.

Henrique Raposo é o macaco Adriano do jornalismo, aquela boçalidade, aquele balançar desajeitado dos braços, o cambalear grotesto dos argumentos

Para começar, Rangel tem claras influências do catolicismo progressista da revista "Tempo e o Modo", um dos movimentos que mais contestou o antigo regime. Às vezes, até apetece dizer que Rangel é o Alçada Baptista da política. Porquê? Porque em muitos textos ele aplica aquele carinho, aquela ternura do Alçada. Isso vê-se, por exemplo, na forma como fala do Porto e dos portuenses. Depois, são evidentes as influências do liberalismo conservador de Lucas Pires e do Grupo de Ofir.

podem confirmar que este momento humorístico é, afinal, uma observação saída da maravilhosa cabeça de um dos mais fulgurantes comediantes da imprensa portuguesa de todos os tempos, aqui, neste texto imperdível

No século XXI, a felicidade chega pelo correio, algures durante a próxima semana





Comecei a perceber que era doente mental quando aí pelos 24 anos descobri que me interessava mais pelos aspectos absolutamente irrelevantes da vida de John Keats do que pelo processo de aprovação de um projecto de vida minimamente consistente com as coisas que as instituições democráticas, já naquela altura, faziam passar pelo ralador da realização pessoal humana e coisas assim. Como tinha observado demoradamente a metodologia utilizada pelas velhas beirãs quando manejavam aquelas máquinas metalizadas de fazer puré, das quais se libertava a massa da batata e fagulhas de zinco (era o tempo em que as nórdicas ainda não se tinham entregue a exercícios burocráticos de proibição das várias maneiras de morrer cultivadas pelos meridionais e se entretinham a procurar experiências variadas nas praias algarvias). Eu ficara maravilhado com todos os aspectos meticulosos inerentes a uma fuga gloriosa de todas as obrigações (reparem que eu não sou o Gonçalo M. Tavares), e convencido pela forma como as mesmas velhas cegavam a couve amortecida no seu colo negro, percebi que não tinha vocação de couve, embora, desde logo, adivinhasse as conspirações diabólicas que a comunidade urdiria só para me desviar do meu objectivo, isto é, perseguir John Keats até ao último nível dos portões do Inferno. Olhem que mesmo estando quase a cometer o suicídio, após televisionar a forma como Fátima Campos Ferreira exibiu manifestas dificuldades em entender o conceito de rendimento marginal decrescente, confundindo-o com crise, poupança, vingança, um secador do cabelo e um chouriço de sangue mal cozido, para grande desespero do Professor João Ferreira do Amaral - a única pessoa capaz de pensar em simultâneo com um debate no prós e contras sem ajeitar o cabelo ou sem se deixar arrastar pelas indicações selvagens da moderadora - não posso deixar de enfrentar os próximos dias com a mesma esperança que me assistia aos 24 anos. Passando por cima da grande mágoa que me foi causada pelo toxicodependente Miguel Morgado, quando este procurou exibir com entusiasmo o féretro da demografia ignorando que ninguém já acredita nas ciências sociais, uma conclusão que o setubalense demorou quase uma hora e trinta e três minutos a alcançar, comunico ao auditório que a minha vida foi salva mais uma vez pela doce e branda Inglaterra, um país que merece todos os serviços da dívida, possíveis e imaginariamente aumentados, até ao derradeiro milímetro do último cêntimo que me restar adormecido nos bolsos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

5 a zero como eu todos os dias

e ando aqui hirto e firme, obstinadamente tentando fazer aquilo para que sou pago. Uma besta asinina, tal qual o besugo. Em Tomar não neva, mas está um frio de rachar ui ai se não está.

Ainda ontem uma aluna me acusou de a tentar chumbar. Só porque ela me apareceu com um trabalho fotocopiado e me pediu ajuda copiar as respostas. Se isto não é estar a perder por 2 a zero à passagem do quarto de hora, não sei o que será.

Mas este tipo de coisas um gajo até aceita com um sorriso nos lábios. Afinal o Orçamento de Estado é o que é, e parece que é feito por gente com capaz de atar os sapatos sem ajuda. Adiante. Eu vinha aqui mesmo era para introduzir uma nova unidade de tempo, o Vasco Lobo Xavier (VLX). Se submarino do Portas é uma unidade monetária, comprei duas dúzias de maçãs por 0.00000000000004 submarinos do Portas na praça à dona Almerinda, então porque não o VLX para unidade de tempo ? Assim que soube do percalço do Mourinho, indaguei. Quanto tempo demorá o VLX a fazer um post com referências ao último Porto-Benfica ? 18 minutos, mais coisa menos coisa.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Amor soviético entremeado pela confissão de que o Nuno Ramos de Almeida nunca lerá o suficiente


joão viegas says:
28 de Novembro de 2010 at 19:35
Bolas Nuno Ramos de Almeida. Não me diga que nunca tinha lido, ou pelo menos ouvido falar, nesse texto do Swift !!!
Deixem-se de Zizeks e Krugmans e outros Rolling Stones. Leiam os classicos ! Esta la tudo, dito com mais sal, com melhor forma, com mais pertinência.
Assim, pelo menos, vocês ficavam a saber porque é que a educação e a cultura podem fazer a diferença…

Nuno Ramos de Almeida says:
28 de Novembro de 2010 at 20:39
Olá,Já li alguns textos do Switt, nomeadamente um alegadamente apócrifo sobre Política e Verdade, mas nunca tinha lido este. Para minha alegria faltam-me milhares de livros para ler, por muito que eu já tenha lido alguns. É a vida.

joão viegas says:
28 de Novembro de 2010 at 22:56
Claro, tem toda a razão. A intenção não era melindrar e a resposta esta perfeitamente à altura da boçalidade do meu comentario…
joão viegas says:
28 de Novembro de 2010 at 23:15
Que horror : a sua resposta esta ADAPTADA à boçalidade do meu comentario (eu é que estou perfeitamente à altura da dita boçalidade) !
Nuno Ramos de Almeida says:
29 de Novembro de 2010 at 0:16
Meu caro João Viegas,Não achei o seu comentário boçal, apenas tenho pena de nunca ter lido esse texto de Switt. Ao contrário que dizia Mark Twain, eu não acho que ‘um clássico é um livro que toda a gente gostaria de ter lido, e ninguém tem a paciência de ler’. Tenho uma imensa alegria em ler o mais que posso. Nunca lerei o suficiente. (aplausos)

joão viegas says:
29 de Novembro de 2010 at 9:22
Bom, nesse caso, se me da licença – ja que fui pedante, ao menos que seja util – note que é OBRIGATORIO ler esse texto quanto antes. E’ curtinho e deve-se encontrar facilmente por ai (até na net, aposto, mas cumpre em seguida comprar o livro).

O Rio, essa cidade maravilhosa

Um outro olhar sobre a guerra urbana que anda pelo Rio nestes dias.

domingo, 28 de novembro de 2010

*

inwardness - the choicest or most essential or most vital part of some idea or experience; "the gist of the prosecutor's argument"; "the heart and soul of the Republican Party"; "the nub of the story"

A todos os trabalhadores por conta de outrém, os meus mais sinceros sentimentos por mais uma semana


Aguardo ansiosamente as maravilhas do correio aéreo.

Quando comecei esta linha de investigacão, e muito antes de desenvolver quaisquer raciocínios, reparei que estávamos todos rigorosamente fodidos

Tocata
Das primeiras vezes em que ouvi falar da Amadora estava num carro unitário e uni-familiar, conduzido pelo esposo - segundo Campos e Cunha, amen, um conceito xenófobo, isto do ponto de vista da luta de classes - de uma operária dos têxtil natural de Castelo Branco, e colaboradora numa fábrica de pronto a vestir numa vila periférica da periferia de Lisboa, colaboradora, alguém que colabora, um dos conceitos mais espectaculares da pós-modernidade (antes de falirem, as fábricas do textil tinham operárias que nem sempre usavam mini-saia e nem sempre ganhavam concursos como, segundo dizem, a mãe do Henrique Raposos, uma Sofia Loren anti-sindicalista capaz de provocar o salivamento das glândulas salivares, segundo dizem, do pai de Henrique Raposo, mas isto antes do Henrique Raposo nascer, ainda segundo dizem) e eu, esmagado contra napa escruciante do banco traseiro, via passar os ulmeiros e os choupos de uma estrada que hoje julgo ter sido colonizada pelo IC 19 mas que, antigamente, segundo dizem, se localizava algures entre Belas e Alfragide, numa tarde em que fazia sol, e, segundo dizem, nos prometiam o amanhã cantante sob a forma do Continente, supermercados, SA. Nesta altura, eu não sabia que Henrique Raposo havia de começar a sua própria linha de investigação, de outra forma, teria imediatamente puxado o travão de mão e precipitado duas famílias e meia no abismo do esquecimento para que a linha de investigação de Henrique Raposo brilhasse em toda a sua clara e apolínea sagacidade e não estivesse para aqui a ser conspurcada pelo anónimo ziguezaguear do web-disparate.

Fuga
Quando comecei esta linha de investigação (2004), nunca pensei que iria ter um brinde do tamanho de Obama: o Presidente americano é o 'facto' que comprova todos os raciocínios que desenvolvo ao longo do livro. Obama é a personificação do “Mundo sem Europeus”. O Presidente americano personifica os três grandes paradigmas (...): o mundo pós-atlântico, o novo Ocidente e o fim do eurocentrismo.
O presidente Americano é um facto. Já o Henrique Raposo é uma pessoa. Um germanófilo! Não, é um anglo-saxão. Não, é um investigador, cuja linha de investigação penetra no âmago da história e desvenda o sentido dos ventos, dos processos, que digo eu, dos desvelamentos cósmicos, das nebulosas, das super-novas, dos bing-bangs, é o pim-pam-pum das geo-estratégias multi-siderais, é o tornado das academias trans-nacionais, uma epifânia da imparcialidade universal, Apolo da ciência política, Vénus das relações internacionais, é o equilibrador das potências alinhadas com a paz perpétua, é a pomba da sagacidade, a raposa da interpretação, o castor da diligência jornalística, é o homem que não teme, que não verga, que não quebra, é o sempre-em-pé do aforismo sociológico, é o Zé-Barnabé, toma-lá-que-agora-é-que-é, o vingador da injustiça comunista, o vendedor de alpista a todos os desventurados do invidualismo metodológico, é a corrente digital da comunicação blogosférica, é o opinador que não há, é o mediador que sempre falta em cada entropia parlamentar, é o calor do lar e da montanha, zaratustra com a meticulosa raiva da aranha, capaz de vingar Aron, Hayek, Schopenhauer, é engolidor de caipirinhas, é o punhal e a balança, é deus que dança. Meus amigos, o Henrique Raposo não é apenas um intelectual, o Henrique Raposo é uma assombração de minerva, é uma coruja alada em forma de raciocínio metálico, é um vibrador globalizado, é um justiceiro geométrico, um corrector das esquerdas, um acelerador das direitas, é um evento totalizador e uma suspensão da inactividade, é uma gloriosa actualização da verdade cósmica que guia as potências dos planetas, os rios, e os pernetas, um profeta dos sentidos ocultos que há nas mensagens analógicas dos Presidentes, negros, amarelos, vermelhos, indo-israelitas, um ganhador de bolsas, um propulsor dos estudo, um viajante das teorias germanófilas e um gnomo potenciador das leituras anglófilas. É um ovni, não, é um avião, não, é o super-canhão da aritmética política, anti-sindicalista, anti-prec, anti-maoista, anti-esquerda, anti-anti-anti, é o combatente dos desvios a todas as linhas de investigação que não personifiquem a chamada de atenção para um mundo sem europeus,é o combatente de combates que nínguém quer traver, um alinhador de desvios anti-religosos, um anti-anti-anti todas as formas de anti, que é como quem diz um propulsor para a frente, um detonador do sentido do futuro, uma explosão de sentido na encruzilhada das fraquezas, um sabotador de socialismos, de socializantes ismos, um apologista dos individualismos, um anti-anti-anti-anti todas as formas de ser anti-qualquer coisa, o cantador dos três grandes paradigmas personificados, paradigmas, repito, personificados em barak Obama, bela imagem, o mundo-pós Atlântico (um conceito capaz de fazer corar Newton e Einstein), o Novo Ocidente (esfinge egípcia só equiparada às frases entarameladas na Cozinha de Nigela) e o fim do eurocentrimo (uma espécie de ás de espadas invertido com Edward Said acoplado na ponta romba da florzinha negra).
Quanto a nós, somos apenas amigos de teorias pífias, perdidos em tristezas que não pagam dívidas, perplexos, ressabiados em forma de criado, de judeu, ajoelhados, e com justiça, perante alemãs que cozinham salsichas em banquetes da baviera, nós, que fomos irresponsáveis até ao fundo dos nossos ossos, que até para tomar banho consultamos a nossa consciência, que adormecemos a meio de apresentações aladas de relatório e contas, que fugimos ao trabalho para colher uma onda que não voltará a quebrar-se nas areias meridionais, onde Goethe viu laranjas de ouro e a única possível felicidade sobre a terra, nós, que choramos, às vezes, melancólicos em estradas secundárias da Amadora, esmagados contra a napa escruciante de bancos traseiros de carros uni-familiares, quem sabe fabricados na Alemanha, ainda antes de 1989, num tempo em que Jurgen Klinsman ainda não tinha sido glorificado no Olimpo, e Rudi Voler ainda não tinha cuspido num aniversário cujo nome agora não me quero recordar, e, portanto, perdidos de uma época em que tudo era bom. Nós, correndo de regresso a caminho da montanha, quem sabe, no Verão, a visitar as tias da família, atrapalhados com volumes e cestas de novidades Lisboetas, perdidos em nevoeiros de estações pertencentes a ramais de nível secundário, agarrando o estômago com duas mãos frágeis de cerâmica embutida com estrelinhas marítimas da costa portuguesa, ali é o Bugio, além a Caparica, dizia um tio perdido entre garrafas de bebidas brancas e os clarões dos tiros africanos, os pretos esventrados, os portos do índico repletos de malas apressadas, a vírgula de uma mãe torcida pelo medo de não ver outra vez a terra onde amamentou o filho, uma curva do caminho mais difícil, e nós, crianças de mãos frágeis, bronze que ressoa sem saber, coloridas borboletas sem máscara de guerra, pobres animais sem um sentido de futuro, sem estandartes nem estrelas circulares. A Alemanha? A Alemanha era apenas um país onde, diziam, um homem infeliz e mau iniciou um dia uma tremenda guerra.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Acho que o João Tordo só tinha a beneficiar com uma boa enfrascadela a cada cinco minutos que é tempo médio de resposta de uma pipa do Cartaxo

Grande parte das grandes conversas que tive na vida foram passadas em bares, com álcool.

Bebe muito?

Os médicos é que dizem que se deve beber cinco copos de vinho por semana. Se me perguntar se bebo mais do que isso, com certeza que sim. Mas não me embebedo todas as noites. Beber tem uma certa sociabilidade e acho que os escritores portugueses, se bebessem um bocadinho mais, só tinham a beneficiar.

Aqui

Que saudades do tempo em que um livro era só um livro, e um homem que escreve, apenas um homem que escreve

The basic tool for the manipulation of reality is the manipulation of words. If you can control the meaning of words, you can control the people who must use the words.
Philip K. Dick, How To Build A Universe That Doesn't Fall Apart Two Days Later (1978)

Sometimes the appropriate response to reality is to go insane.
Philip K. Dick, Valis

Perguntas que por vezes principiam como uma comichão insidiosa ao nível do baixo ventre

Um escritor é alguém que expressa um raciocínio-sentimento perigosamente particular ou, por outro lado, é uma agência universal de emprego que planifica o mercado académico de serviço, onde os reformados da actividade criativa se vêm excitar violentamente com o festim pornográfico de teses e teses doutorais, fastidiosamente assassinas de qualquer inteligência, humana ou animal, e tão irrelevantes como os milhões de folhas dos relatórios e contas dos milhões de editoras que prosperam à conta da e magestosa, olímpica, gloriosa, ignorância científica dos homens de letras, que com toda a certeza, não deixarão de existir daqui a cem mil milhões de anos?

Assim sendo, tanto na perspectiva da passagem «A» como do ponto de vista da passagem «B», resta-nos cometer o suicídio

«Este não é mais um livro, nem sequer mais um bom livro. É um livro que marcará um momento na literatura portuguesa», defendeu Zeferino Coelho, concluindo que, em 2110, «haverá colóquios e congressos com especialistas que vão estudar a passagem «A» ou «B» da obra ou as consequências que esta teve na literatura». Palavras e prognósticos que foram secundados por Vasco Graça Moura.


«É um livro cheio de fantasmas, fantasmas dos Lusíadas, fantasmas do homem contemporâneo, uma viagem, uma antiepopeia, e é um livro extraordinário. Estou convencido de que dentro de cem anos ainda haverá teses de doutoramento sobre passagens e fragmentos». (Vasco Graça Moura, «A Torto e a Direito», TVI24, 6/11/10)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Aos defensores da diversificação ao nível das fidelidades intelectuais terei que confessar a minha lamentável reincidência em autores da margem sul

Nem sequer gosto de citações longas e se há merdas que me irritam na historiografia brasileira é a insistência com que coleccionam longos trechos de cartas de governadores do Rio de Janeiro do ano de 1731 em teses de doutoramento dos mais variados temas históricos só porque foram sugestionados com a ideia pós-moderna de que uma citação longa se transforma num testemunho com a credibilidade daquelas confissões de velhinhos contra fundo negro filmadas pela BBC no intuito de convencer o espectador médio de que o holocausto existiu mesmo (Israel, amigo, além de um abraço, isto nada tem que ver com o Apoel). Acontece que o autor que em baixo se aduz, com a mais despretensiosa reverência - e o Senhor Jesus sabe como temos trabalhado uma singela citação (a próxima etapa implicará o desgraçamento moral) - continua a ser o que de melhor existe no âmbito da crítica intelectual nestes nossos dias que são últimos. Como a humildade é uma virtude próxima das lamas da criação, e dizem que Tchékov copiava à mão contos de Tolstoi, «para trabalhar o estilo», eu não me envergonho de espetar aqui com mais um pedaço de luta pelo esclarecimento e pela emancipação, único apanágio do trabalho intelectual, e algo que até um taralhoco como Eduard Said foi capaz de perceber. Dizer apenas (ajeitando a gravata e puxando o microfone parlamentar para um raio de dez centímetro a contar da ponta do meu pronunciado nariz) que pode juntar-se as essas notas sobre ciência uma merda chamada Livro de Dança, ou outra versando sobre essas monumentalidades do pensamento ocidental que são Maria Filomena Mulder e Gabirela LLansol o que por si só bastaria para medir o nível de desnorte intelectual, emocional e científico que graça em certas cabeças laureadas. Peço a Deus, encarecidamente, e todos o dias, depois de lavar meticulosamente a dentuça com pasta medicinal Couto, que me guarde de tais coisas ou que me assista, num momento de hipotética fraqueza, com um caçadeira de canos cerrados com que fuzile qualquer tentativa de me agraciarem com um prémio. Até porque, para tal, terei que publicar, e isso, o senhor seja louvado, ainda está nas minhas desesperadas mãos.


...lembro-me distintamente de lhe ler uma coisa lá dele, em pé na Livraria Trama, o Breves Notas Sobre Ciência (Relógio d'água, 2006), podendo dizer com segurança que é uma das piores coisas que li na vida, um monte de fotografias do fujimori, inconsequentes clichês de jorge luis borges na cabeça, sem qualquer sentido, direção ou lógica; tresanda a digestivo podre de noções de filosofia da ciência, um amontoadozito de zenões de cinco ou seis frases (dipostas do fundo da página para cima, claro), que nem para uma historiografia do que é a recreação adolescente mereceriam salvação (não me pagam para concretizar).