segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dívida Pública? Olhai as aves do céu: elas não semeiam ou recolhem bens em celeiros, e no entanto o Pai celeste alimenta-as.


Estamos completamente conscientes de estar a participar numa mega-orgia de citações e comentários a comentários, numa cadeia de mal-cozinhados argumentos, gizados entre uma sandes de atum e a hora de partida do metro da Rotunda (agora marquês de Pombal, embora o marquês de Pombal figure, cronologicamente falando, em primeiro lugar no desfilar dos acontecimentos pátrios, e só depois venha, na linha ininterrupta da história portuguesa, a brava rotunda pejada de lojistas e vigaristas republicanos, isto em 1910, para os mais distraídos). Nestes dias que podem ser os últimos, estamos, caros amigos, perante uma hiper-confusão de contornos bíblicos que levarão ao poder pessoas como o Henrique Raposo. Mas não faz mal, porque só é vencido quem desiste de lutar, para citar um slogan conhecido e, ao mesmo tempo, um desconhecido discurso de Ruy Belo proncunciado num auditório bolorento na Lisboa que serviu de cenário remediado às eleições de 1968. A modernidade, a modernidade, a modernidade. Vejamos: EUA, Índia, Israel, China, Brasil? É isto a modernidade. Com efeito, estamos perante um indivíduo que fala continuamente em pós-europeus e que erige em paradigma da modernidade territórios cuja contribuição para o conceito de modernidade pode ser resumido através das seguintes invenções: o míssil, a Bíblia, o maior índice de assassinato político por metro quadrado, o mais índice de assassinato por minuto, o cabelo do David Luiz - como todos sabem, uma actualização do cabelo do cabreiro inimigo de Golias -, a indústria pornográfica (mesmo isto, é uma imitação rasteira da pornografia filosófica da Paris do século XVIII), o talk-show, a catanada anti-religosa entre hindus e muçulmanos, a catanada pela catanada, o assassinato em massa pela fome, a venda de flores ambulante em restaurantes de cidades periféricas e muito mais coisas de magnífico recorte moderno. De acordo com Henrique Raposo, a modernidade, para ser vital, isto é, para pulsar no coração de milhões de seres repletos de vontade de viver, baixos salários, consciência nacional, ambição de conforto, produto interno bruto de dimensões colossais, precisa dessa vaselina mental chamada fé em Deus. Se estamos sozinhos com o ateísmo, nem tudo é mau para a Europa, neste ano da graça do senhor de 2010. Quanto à elite europeia e sua consagração do ateísmo como marca da modernidade, isolemos um objecto quantificável. Qual elite europeia? A portuguesa? Será Portugal parte dessa Europa? Ou salvámo-nos dessa Babilónia de arrogantes ateus de linguajar anglo-saxão? Gostaria muito de conhecer a elite portuguesa que declarou a ilegalização de Deus. Leonor Beleza? Marcelo Rebelo de Sousa? Aníbal Cavaco Silva? António Guterres? José Sócrates? o bispo do Porto, prémio pessoa 2009? Cristiano Ronaldo? José Mourinho? Marco Paulo? Manuel Luís Goucha? Carlos Queirós, meu deus, será Carlos Queirós? Joana Carneiro? Pedro Mexia? Rui Moreira? Pedro Lomba? João Lobo Antunes? Os Sousa Francos, os Mellos, os Espírito Santos, os Mayer, os Orey, os Vasconcelos, os Lobo Xavier, os Pereira Coutinho? Não será antes extraordinariamente difícil encontrar alguém com fama pública e distinção social convictamente declarado ateu? Com a excepção de Saramago, que entretanto foi chamado ao Conselho Directivo, não estou a ver ninguém. Estará Henrique Raposo ainda em Portugal, ou já descolou para a terra onde Lincoln libertando dos grilhões as hordas de escravos, a todos nos conduz à paz do senhor, entre cânticos de alegria e grinaldas de açucenas? Estará Henrique Raposo a falar de uma ilegalização de Deus no país onde as cerimónias do 12 e 13 de Maio, esses dias de velas e lenços brancos envolvidos em lágrimas de bondosa comoção espiritual, merecem, desde que me lembro, honras de transmissão directa na televisão pública e privada? Henrique Raposo não era aquela pessoa que cantava no coro «Vivemos acima das nossas possibilidades», animando a celebração dominical presidida por Manuela Ferreira Leite, outra perigosa ateísta convicta e jacobina ilegalizadora do divino? Pois Deus é meu amigo, gosto muito dele, e os mercados que se acalmem que Ele garantiu-me a segurança dos empréstimos e da solvabilidade da dívida externa, Palavra da Salvação.

domingo, 21 de novembro de 2010

Estou ressabiado, perdi a palavra passe: e tive dificuldade em lembrar-me da expressão «arrebim-bó-malho»

Declaração de intenções: eu gosto muito do Maradona e não só o imito escandalosamente como me auto-nomeei seu cão-de-fila, mesmo que por vezes seja clara a desorientação mental desse autor e a falta de uma mulher na vida do mesmo, isto é, o autor Maradona. Neste tempo todo que tem passado sofri diversos processos de conversão interna que podem ser ilustrados (para efeitos pedagógico-penitenciais) por uma alusão à pele do frango quando roda continuadamente num espeto a uma distância de cerca de dez centímentros de um aglomerado de brasas incandescentes. Só isso me impede de fazer referências mais demoradas a uma crucial polémica discursivo-mental, já considerada histórica por diversos doutorandos em ciências da comunicação pós-laboral, isto é, pessoas que estudam as pessoas que estudam entre as duas e as duas e meia da manhã no espaço compreendido entre a calçada do combro e o príncipe real. Falo - (falo?), obviamente, de uma discussão sobre o direito a discutir os direitos de propriedade, evolucionada pelo gaz cerebral de Zé Neves - um intelectual de esquerda anti-violência nas esquadras e que tem uma visão teórica da história expressa no aturado estudo do nacionalismo comunista, uma questão que a todos interessa, até porque gostariamos, se nos é permitido um pouco de magestade, de não ser fuzilados por engano, um dia destes, na monumental praça do campo pequeno -, Fernanda Câncio - uma jornalista que entrou num processo de acelerada sportinguização por quase ter casado com uma espécie de José Eduardo Bettencourt da Covilhã -, e Maradona - um bloguer que resiste com cada vez mais dificuldade ao assédio complexificado da fama pública, enveredando por polémicas pífias com outros gigantones da opinião. Assaltam-me, munidas de arma branca e com um bizarro sotaque proveniente do cruzamento entre a Amadora e o arquipélago de Cabo Verde, variadas e perigosas perguntas: a quem lembraria utilizar citações de caetano veloso, numa discussão sobre direitos de propriedade? Porque razão discutem estas pessoas, por intermédio de reduções tão ridículas como a argumentação vagamente artístico-popular desenhada por filhos de funcionários dos Correios de cidades periféricas do Estado da Baía, assuntos de uma complexidade que a ser quantificada ultrapassaria o número de pelos púbicos na população feminina acima dos setenta anos no concelho de Mirandela? Será que a blogosfera é uma ampliação em comédia do canal parlamento, se bem que descontando os abusos de confiança em empresas de construção civil e somando produtos de satisfação pessoal expressos pelos seguidores nas caixas de comentário? Correndo o risco de ser confundido ou com um taxista zangado ou com o pacheco Pereira - o que do ponto de vista da psicologia social é a mesma coisa - teremos sempre de dizer que a frase que se segue é estúpida:

A limpeza não é um bom argumento de autoridade. O que é o limpo e o que é sujo não é propriamente da ordem do natural e mesmo que fosse está por provar que as paredes nascem brancas.

Logicamente, o Zé Neves não tem um gato, e nunca teve a maravilhosa oportunidade de observar como ele - o gato - lambe meticulosamente a sua aparelhagem sexual em ordem à obtenção de uma ordem natural das coisas. Isto quer apenas dizer que identificar alguma coisa como natural é tão pantanoso como discutir o que é sujo e o que é limpo, fenómeno argumentativo que não só confirma a ignorância de Zé Neves, mas mais uma vez faz triunfar indirectamente as ciências exactas por desconfiarem de pessoas que argumentam logicamente tropeçando a cada dois segundos em palavras armadilhadas de alçapões histórico-semânticos que fazem mais pela confusão mental de qualquer leitor do que observar as performances mentais de Pedro Boucherie Mendes. O que perigosamente também nos faz pensar que não existe grande diferença entre a intervenção pública de um ex-director da FHM e a de um simpatizente de movimentos anti-Nato. Isto quer dizer que continuo à espera de uma boa explanação da forma-função ou da função-produção destas discussões e creio que na resposta os três (Neves, Câncio e Maradona) estariam de acordo sobre as virtudes terapêuticas do debate público, da dialéctica da responsabilidade expressa nos maravilhosos efeitos curativos da persuasão; falariam até, quem sabe, no sonho da palavra que salva a república, e eu continuo a achar que isto tudo não passa de vaselina e que o malho se erige cada vez mais (bela imagem de colaboração entre erudição e cultura popular) como o mais eficaz instrumento de participação social em tempos de muito barulho por muito menos que nada.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Por falar em humanidade, bom fim de semana

Sabemos que a humanidade não está perdida

Quando acontece isto por causa disto. O pão que ficou engasgado na garganta quando vi esta manhã na TV esta gente. E não me lembro de melhor homenagem que podia ter sido feita.

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sites com sabor

"A grande limitação actual dos sites está relacionada com a impossibilidade de ter uma experiência sensorial completa, pois o tacto e cheiro estão ainda ausentes na Internet"

Tantas vezes que eu me prometi nunca mais comprar livros de gestão, marketing ou afins. Tantas vezes que acabo a cometer o mesmo erro. É o que dá entrar numa livraria no ínicio do mês.

Em tempos de crise, é necessário definir prioridades

e ontem fui ver o Carlos do Carmo com a Count Basie Orchestra. Burguês clamam alguns, foste ver quem perguntam outros. Pena que tenha sido no Pavilhão Atlântico, um conselho: nunca vão para a plateia no Pavilhão Atlântico. Pena que tenha sido curto. Pena que os músicos não tenham agraciado uma plateia que passou o tempo todo a aplaudi-los de pé, com um ou dois encores. Fora isso, a música foi genial.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Vai ser a noticia do dia

Exportações continuam a crescer mas importações desaceleram

ou quem como diz:

Adelaide de Sousa quer ter sexo sem compromisso comigo mas a Silvia Alberto também

Queria vir e deixar de escrever aqui

Mas não consigo. Esta semana comprei o Expresso e li o Fernando Seara a dizer: "Quando aqui cheguei pediam-me trabalho, depois foram casas, agora pedem-me de comer. Chegámos ao fim da linha". De facto, crianças com fome na escola enquanto outros dividem o bolo dos dividendos de 1.500.000.000€ parece-me algo que precisamos mesmo de mudar. Não me falem de justiça, que cada um tem o que merece, porque ainda hoje ouvi que a sentença da casa pia afinal vai ser cancelada por uma questão técnica no processo que o invalida. PC Portugal. Precisamos de muito melhor. Já chega. A sério.

Queria vir aqui mandar vir como já estou farto de estarmos sempre a falar da crise

E alguém já o fez por mim, neste notável elogio da crise

obrigado JR pelo link

Queria vir aqui e mandar vir com o sporting e com o treinador que temos

mas alguém já o fez por mim

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Rumoreia-se que o FMI está para chegar

e a senhora minha esposa, inquietada que anda com o estado do país, pergunta-me para quando a chegada dos "gajos dos FMI". Respondi que não sabia, mas que esperava que não fosse este fim-de-semana. A casa precisa de uma arrumação e eu não queria passar vergonha diante das visitas. A senhora minha esposa retorquiu com um sonoro "és tão parvo" enquanto se punha a ajeitar as almofadas no sofá.

Apesar da hora ser já tardia

penso que já é óbvia a minha descrença na democracia enquanto forma de escolher os glúteos que ocuparão Belém, São Bento e outros cadeirões afins. Resta portanto saber para onde prosseguimos se se abandonar a democracia.

Isto de ser pobre é uma canseira

e volta e meia ainda tenho que gramar com indíviduos que pensam que não se deve reclamar do o governo oposiçao que temos, porque afinal forams eleito pelos portugueses. Ora responsabilizar os eleitores pelos actos dos eleitos é asneira da grossa.

Em primeiro lugar, a população não tem outro meio de escolher quem governa a não ser votando nas listas que lhes são apresentadas. Mais, o processo de construção destas listas é tudo menos transparente e honesto e cada bípede eleito pode ser substituído após as eleições por qualquer outro bípde da lista.

Segundo, um eleitor tem que decidir o voto pesando mil e um factores: afecto político, tachos na familía, para que lado é que a maré está a virar, média de golos num jogo do Sporting na Europa, etc. É no mínimo rídiculo pensar que a intenção de voto é objecto de apurada reflexão. O tipo sai de casa, está sol e tem dinheiro para a bejeca, vota no governo. Se está de chuva ou falta o guito, vota nos outros. Pouco mais complicado que isto será a dinâmica de voto.

Terceiro, mesmo que o voto seja resultado de intensa meditação em retiro espiritual apropriado, existe sempre a possibilidade dos políticos serem uns sacanas duns mentirosos. Tome-se o Obama por exemplo. Agora é moda dizer-se que "era óbvio que o tipo não ia resolver os problemas do mundo. Aqueles americanos são mesmo uns tótós".  Pois, a memória é curta. O slogan da campanha foi "Yes we can" e quem quiser consultar os arquivos do Youtube, encontra este vídeo. Só faltou aos democratas declarar que o Obama era o Martin Luther King ressuscitado. Os americanos podem ser donos de um limitado entendimento intelectual mas o facto foi que a campanha do Obama o apresentou como a dádiva  de Deus aos US of A.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Posso ter sido um bocadinho rispído demais

com os cavalheiros na foto apensa. Afinal o Teixeira dos Santos tem ar de ser boa pessoa, amigo do seu amigo, bom pai de família e, parece-me óbvio, sócio do Sporting com as quotas em dia. O jovem de 67 anos que se vê do lado esquerdo também merece uma certa e quantificável dose de respeito. Ainda por cima, ostenta a medalha de ter sido o único ministro das finanças que conseguiu realmente baixar o déficit. Tudo bons rapazes, portanto. Mas aqui é que a porca torce o rabo, por assim dizer. Se este dois senhores, certamente intelectualmente acima do verme que vos escreve, nem conseguiram reduzir 1% ao Orçamento de Estado então qual era o problema de vivermos de duodécimos ? Mais se pergunta, qual é a função do Governo e da Oposição se nos tempos de aperto a que vamos sobrevivendo por enquanto, não é capaz de diminuir em um ponto percentual a ração da marsupial vaca pública ? A trinta e seis anos depois de Abril, a liberdade para decidir sobre o nosso futuro não chega a 1% ?  

Eu sou um tonto alegre que por aqui anda

mas isso não impede que almas bem-intencionadas me tentem puxar para ser um "cidadão mais activo na política. Estás sempre a mandar bocas, mas a ver se te vejo a arregaçar as mangas e mudar o país". A crítica é certeira, mas a verdade é que tenho muito mais que fazer. Tome-se a palhaçada da aprovação do orçamento. Se não estou em erro, o estado contava gastar este ano cerca de 65 mil milhões de euros. Suponha-se que conta gastar o mesmo para o ano que vem.  Ora os 500 milhões que tão orgulhoso deixaram o Eduardo Catrógada representam menos de 1% do valor total do bolo. Tanto barulho para isto ?

E claro, hoje o "mercado internacional", essa entidade tão misteriosa e elusiva quanto o bom futebol do Sporting, deu sinais claros de aprovação ao acordo a que se chegou. A sério ? Os dois PS's andaram à bulha durante meses por menos de 1% do bolo, e quando no final lá se fartaram toda a gente elogia o patriotismo destas almas. O sentido de Estado do Passos Coelho e a flexibilidade do Sócrates. Não tenho tempo para perder com palhaçadas. São capazes de dizer um do outro o que Maomé não disse do toucinho, tudo por menos de 1% do orçamento. Mas manter as migalhas do abono de família isso já não ? Nada de despesismos, que estamos em crise. É isso ? Se o Eduardo Catrógada considera a passada sexta-feira o ponto alto da sua vida, imagino a má-vida que tem levado.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Nação Paulo Sérgio


A malta sabe que a situação do país é séria. Os jogadores são medianos, a equipa roça a medíocridade e estamos a levar um baile em campo. Olha-se para o banco e não se vislumbram alternativas para a segunda parte. O que fazer, portanto ? O país está a caminhar a passos largos para uma sportinguização da derrota, fazendo minha a expressão do alf.

Dum lado chove, do outro troveja

As palhaçada recente do orçamento espelha muito bem o modo de fazer política em Portugal. Primeiro tentaram-se as negociações à vista do povão. Falharam, e ainda bem. A última vez que o PS e PSD negociaram, produziram a asneira monumental das portagens nas Scuts. Estes pagam, aqueles já não, os outros não se sabe.

Mas o PSD em vez de anunciar o chumbo que se impõe, já que não chegam a acordo, espera pela véspera para decidir pela vida. Até lá, negoceia às escondidas e argumenta com sondagens. Daqui nada de bom pode sair.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Há que tempos que andava para falar sobre isto

e eis que tropeço no artigo do Rui Ramos, aqui pirateado. Com um bocadinho menos de floreados na escrita, o meu entender é bastante igual ao do Rui Ramos. Existe uma elite que se julga dona e senhora do país, existe uma multidão de gente que faz pela vida como pode, umas vezes bem, outras mal, outras assim-assim.

A divisão não é de agora, pese o meu limitado conhecimento da história. Antigamente, a elite era a nobreza proprietária de terras, foi durante algum tempo os barões da indústria no século XIX, e durante a maior parte do século XX os senhores doutores de Coimbra e outras paragens. A multidão de bestas de carga era em qualquer período, todo o resto do país.

Com a democracia, a organização manteve-se mas fico com a ideia que a elite se sente livre para fazer o que lhe dá na real gana porque, a intervalos mais ou menos regulares, são "legitimados" por eleições. Não que a elite d'antigamente fosse melhor ou pior. A diferença parece-me que no passado, a elite era obrigada a mostrar a cara limpa em público, mesmo que em privado limpasse o cú com pinhas e carolos de milho como todos os demais mortais. Não é muito, mas parece-me que é bastante mais do que temos hoje. Temos "legitimidade eleitoral", temos "liberdade de impressa", temos "Abril", formas mais modernaças de dizer républica das bananas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Não me lixem, tá

Através do Joaquim, venho a saber que na Grécia as farmácias são um negócio protegido. Tal como em Portugal. Tal como muitos outros negócios, medicina por exemplo. Mas respondam-me o seguinte: os medicamentos são mais caros em Portugal do que em países com o negócio farmacêutico liberalizado ? Os clientes são maltratados ? Existe escassez de farmácias ou dificuldade de acesso a quem precisa ?

Eu não sei a resposta a nenhuma destas perguntas, mas caso sejam negativas não vejo porque razão se deve liberalizar o mercado farmacêutico. Ou qualquer outro mercado, a medicina por exemplo. E quem quer que defenda a liberalização de um mercado, tem que me dizer qual o custo da liberalização. Existe um custo em manter áreas de negócio protegidas ? Existe sim, mas também existem custos no mercado liberalizado. Ou o capitalismo é uma cornucópia de vantagens ?

O mandarim


O Henrique Raposo é proprietário de uma ignorância que toca por vezes o brilhantismo mas isso nada aproveitará à nossa felicidade

Sem querer invocar qualquer tipo de justificação que alinhe pela tipologia dos bilhetes deixados pelos suicídas adolescente em cima da cómoda da sala, perigosamente perto do napron deixado pela avó, e expostos à influência nefasta da imagem de nossa senhora das dores comprada nas festas do Castelejo, devo deixar algumas palavras que justifiquem o meu ressentimento perante a blogosfera. Começo por trazer em meu auxílio, não uma citação de Melville ou sua adequação à situação psicológica compreendida entre a mama e a infância (sendo que mama e infância podem ser estados ou acções que cruzam com idades cronológicas muito díspares), mas a análise comparativa do comportamento dos comentaristas - um dos brasileirismos mais estúpidos da última década, e que não lembraria sequer ao gigolô Agualusa -no vetusto e simultaneamente vanguardista blogue A Causa foi Modificada. Num post tão mediano como os centros remate de Paulo Ferreira, Maradona aplica uma espécie de teoria homeostática ao jogo de influências mútuas entre os polos justiça/pena de morte, obtendo com o seu razoável exercício a quantidade de 85 comentários.
publicado por maradona às 14:49link do post comentar ver comentários (85)
Num outro post, que escolhemos com a mesma esmerada imparcialidade com que o Público trata os rankings das escolas (o Nuno Pacheco existe mesmo ou é a concretização material do mandarim de Eça de Queiroz?), Maradona procura esboçar, e consegue, a propósito de mais um espectáculo de contorcionismo gramatical e coerência morfológia de Henrique Raposo, uma aplicação directa da teoria do iluminismo de Kant tocando as alturas de um, vá lá, Jorge de Sena, mas sem as referências a Lídia Franco, aliás perfeitamente justificadas. E o que sucede? Obtém apenas 15 comentários.
publicado por maradona às 01:23link do post comentar ver comentários (15)
Isto significa que a blogosfera reproduz padrões de actuação decalcados, tanto da teoria dos jogos como da sociobiologia dos falcões, manobras de eficiência energética (segundo a consideração da máxima economia entre esforço e resultado), muito semelhantes às que emergem do admirável democrático-glamour em que pontifica Ana Lourenço («então a imprensa portuguesa é que é a merda da imprensa portuguesa»). Corando eu com a mesma facilidade e intuição adolescente de um Alexandre O'neil - partindo de uma premissa tão deslocada como a carreira muscial de Maria de Medeiros, isto é, a ideia de que a blogosfera significaria um alçapão onde talvez fosse possível encontrar Alice e as maravilhas do seu mundo - não posso continuar a esconder um certo enfado, que deve ser aproveitado para a produção de uma coisa que, sendo tão pretenciosa como os jardins de Serralves, a literatura, no entanto, não busca, pelo menos no filtro das minhas explosivas sinapses, uma imediata resolução do seu objectivo, que é talvez a característica que faz da blogosfera uma das mais emblemáticas realizações culturais da modernidade decadente, e um dos maiores equívocos na sangrenta história da meritocracia: a ficção de igualdade, o imediatismo entre desejo e resultado, a aparência de neutralidade do seu mercado de comentários. Não por acaso, Maradona passa dois terços do seu tempo a explicar que autonomia e pensamento científico nada têm que ver com método. Acontece que o próprio blogue de Maradona confirma a superioridade do método sobre toda a inteligência autónoma (pisar as pégadas de quem veio antes é sempre mais produtivo do que arriscar veredas normalmente frequentadas por Cabras - que já subiu ao pé do Cabril que me desminta se for capaz). Sem uma estratégia - meus caros infelizes que tiveram o azar de chegar até aqui, embalados por uma biliosamente humana argumentação de inveja - tudo acaba na irrelevância e na não-existência, que é onde muitas vezes encontro a única consolação de tudo isto que nos cerca.
P.S. Acabei de perder uma hora de salários nas Minas Gerais do século XVIII. Terei muitas dificuldades em adormecer.