O melhor para Portugal é mesmo de facto o benfica ser campeão e o papa chegar na terça-feira. Isto das crises é sempre relativo, dependendo do que está a dar na TV. E neste momento é só gente aos saltos em todos os canais. Bem haja Jesus e teus cabelos ao vento.
Entretanto o Gil quase conseguiu. Bela derrota, mas caiu de pé.
domingo, 9 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
Este tipo de comportamento é próprio de adolescentes imberbes
Os assessores do governo chamam a atenção para o crescimento das exportações no primeiro trimestre. Não estamos assim tão mal como as agências de rating dizem que estamos. Senhores, Portugal vai regularmente ao estrangeiro pedir carcanhol porque pelo menos desde que o Cavaco Silva foi primeiro-ministro, o governo tem gasto muito acima do que pode. Querem o dinheiro dos porcos capitalistas ? Sujeitam-se às regras dos ditos suínos. É a vida, diria um conhecido socialista cuja paixão pelo país o levou a fugir do pântano que ajudou a criar. Deixem-se mas é de lamurias, e aconselhem (é isso para que serve um assessor ou são só paus-mandados ?) os Sócras e demais entourage sobre as formas de cortar na despesa para não ter que pedir emprestado. Uma sugestão: comecem pelos vossos salários.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
ainda estamos vivos e a aproveitar. bom fim de semana

um novo hobby que descobri. nada como ir para o campo tirar fotos e apanhar momentos como este. mais aqui
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Se siente superior porque lo es
Granero é um rapaz que sabe. A capacidade de síntese é um atributo que as Academias nunca treinarão o bastante para alívio de quem se sente intelectualmente superior, precisamente em virtude desta capacidade ser muito resiliente ao treino: é uma forma condensada, insuflada de sentido, capaz de acelerar a adaptabilidade do organismo a situações desconhecidas, mas colocando em jogo todo o manancial técnico-espiritual acumulado ao longo de milhares de situações de vida, e cujo potencial de utilidade apenas pode ser deflagrado por meio de uma linha que vai dos testículos ao centro do cerebelo, passando pelos dois pulmões bem abertos em forma de borboleta rara. Não espanta, por isso e muito mais, que a actual situação do país não nos deva merecer um grama de preocupação pela simples razão de que nada nos deve merecer um grama de preocupação enquanto o deputado oitocentista do PSD, qualquer coisa Martins, com a sua barbicha cuneiforme - o mais parecido que temos, visualmente falado, bem entendido, com Almeida Garrett - continuar a desenhar sibilantemente uma defesa da maior elegibilidade do oráculo de Delfos para mais um mandato na Presidência da República, quando na outra mão, com um sentido circense digno dos mais invulgares predestinados, faz oscilar no arco do desenvolvimento económico de Portugal, a indústria das pescas, a indústria do vidro e a indústria dos cortumes, meu deus, a indústria dos cortumes. É que já nem vamos para as centenas, que digo eu, milhões de arrancos regurgitadores que nos impõe o contacto visual com a primeira dama e as suas referfências à poesia contemporânea portuguesa, como é do domínio publicamente incomodado, uma matéria que em nada aproveita à performance orçamental, sequer ao comportamento gay dos padrões da despesa pública; basta-nos a necessidade biológica e a morfologia natural como mediterrânicos sub-desenvolvidos para que seja um imperativo de consciência e de construção civil, civilizaste, civilizarás, a não eleição do oráculo de Delfos. Os portugueses já sabem, desde Artur Jorge - e das duas peras meticulosamente aplicadas por Sá Sua Alteza Pinto - que precisam de se lembrar de Alcácer Quibir e de se conhecerem a si próprios. Mais importante que a eleição do poeta de Águeda - o rapaz que pregava pregos numa tábua - é a não eleição continuada de um Presidente que, pregando pregos na língua portuguesa, utiliza o mesmo argumentário político na definição do seu vocabulário presidencial, a mesma estratégia psico-motora que o defesa Lúcio utilizou para impedir que Xavi alvejasse a baliza de Júlio César. É preciso entender, com urgência hospitalar, que o Presidente da República imprime uma certa tonalidade à emanação harmónica da pátria, e mesmo tendo em conta o analfabetismo musical da República, onde até os maiores escorregam com estrondo, não podemos dar-nos ao luxo de continuar a lutar pela volta mais rápida ao volante de uma carrinho de rolamentos, ainda por cima com uma tábua rachada importada do reino do Algarve, feita de macieira bravia nascida nos penedos do Caldeirão, espinhaço de cão, e envernizada com britania, o verniz que nunca cede. Em todo o caso, estou atraso para apanhar o comboio depois de ter consumido os tecidos oculares com uma letra inaceitável num PDF fornecido por uma brasileira de Goiás, versando sobre impostos setecentistas no sertão do Sabará, uma prova de que a minha vida é, com efeito, com muito, mas mesmo muito efeito, espectacularmente espectacular.
Ah, a literatura...
O sublinhado, naturalmente, pertence ao distinto escritor, e não me passaria pela cabeça julgar a emoção alheia quando tais emoções nascem nas mais intertesticulares entranhas do amor regional. Acontece que isto faz de mim um indivíduo cada vez mais consciente das suas possibilidades, externas e internas, de atingir um nível geral de convivência com as grandes maos (mortas) da literatura, inegavelmente muito satisfório e irrefutavelmente vocacionado para missões de carácter não agressivo. O lado escuro da ascensão implica ter que sofrer a erudição e a inteligência linguístico-encéfala de grandíssimos autores (vivos) na literatura de expressão expressiva, embora com nascimento no Douro interior, aquele local onde as amendoeiras já nascem com um sentido da vernaculidade implícita na cor branca com que furam os céus anil de uma tarde de Domingo qualquer em que eu, para triunfo de mim próprio sobre mim mesmo, estiver a perder tempo com coisas tão melancólicas como o vôo de uma águia-de-asa-redonda. A colocação do problema em termos de estética individual não impõe que me furte à explicação do fenómeno: vinte anos de corrupção continuada, com recurso aos mais variados métodos de confecção romântica (viajens, amor livre, frutas exóticas) guindaram o FCRubén Micael a uma situação que está para o panorama desportivo como o empresário de cortumes está para a manada de bois. A reducção do contínuo estado de excitação gloriosa, em que viveram os adeptos do FCRubén Micael durante todos estes anos, a uma sádica e impiedosa confrontação com o imprevisto de um jogo, cujo árbitro ainda não bebeu café, irá redundar numa tentativa de reducção do défice orçamental pelo estímulo continuado da indústria de lançamento do paralelípipedo e produção de bolas de golfe. Cá estaremos com toda a humildade para fornecer o respectivo auxílio psicológico especializado e recolher os destroços.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Um PhD em Harvard
e sai-se com "SWORDS is basically the Talon's pissed-off big brother", a páginas 32 do Wired for War. Existem mais pérolas deste tipo, mas por agora o que interessa é o entusiasmo do autor com a revolução da robótica no modo de fazer guerra.
Pois.... Até agora a única coisa que revolucionou foi as contas bancárias de meia-dúzia de empresas nos States. Futurologia é um exercício perigoso, mas olhando para os resultados actuais eu diria que o efeito dos robots na guerra foi nulo. O Afeganistão e o Iraque são atoleiros onde, não importa a quantidade de dinheiro e rapazolas do Iwoa que se lhes jogue, os USA se vão afundando a cada dia que passa.
Pois.... Até agora a única coisa que revolucionou foi as contas bancárias de meia-dúzia de empresas nos States. Futurologia é um exercício perigoso, mas olhando para os resultados actuais eu diria que o efeito dos robots na guerra foi nulo. O Afeganistão e o Iraque são atoleiros onde, não importa a quantidade de dinheiro e rapazolas do Iwoa que se lhes jogue, os USA se vão afundando a cada dia que passa.
The myth of the rational voter
é o senhor que se segue, mal acabe de ler "Wired For War". Até lá, O Vasco Graça Moura, diz-se que leu mais do que eu, pode ficar com ele:
"Na altura, afirmei (e mantenho) que essa eleição [a última] foi um acto da mais pura estupidez por parte do eleitorado.. E recomendei aos interessados que se besuntassem com o resultado"
"Na altura, afirmei (e mantenho) que essa eleição [a última] foi um acto da mais pura estupidez por parte do eleitorado.. E recomendei aos interessados que se besuntassem com o resultado"
O catenaccio: uma perspectiva burocrática na leitura setubalense do real
O Maradona escreveu sobre o Barcelona-Inter de Milão, o Besugo escreveu sobre o Barcelona-Inter de Milão e até o Vitor Serpa escreveu um romance sobre o Barcelona-Inter de Milão, mas passado durante a revolução dos cravos, pelo que se torna imperioso escrever sobre o Barcelona-Inter de Milão, sobretudo com uma semana de atraso, algo que está cronologicamente para o futebol como um ano civil está para poetas como Pedro Mexia deixarem os poemas desfamiliarizarem-se, metaforicamente falando, das irrelevâncias bruxelenses, ali mesmo, entre as meias pretas fetichadas de um figura pública qualquer e um volume de ensaios estéticos de um homossexual croata. Eu sou daqueles que pensa que o Barcelona não é uma equipa de futebol mas sim um desfile de adolescentes espanhóis com excesso de gel no cabelo e um ludibriante défice de pelos púbicos, o que invariavelmente teria que redondar num confronto com o setubalense mais italianizado dos últimos trinta anos a pisar os relvados ibéricos. Desse confronto, há quem tenha optado por uma leitura jorgegabrielmente irritante dos acontecimentos, com tentativas filosofico-nucleares aplicadas à teoria dos jogos, e aqui não partilho da opinião de Besugo: é que a grande vantagem do Inter não foi ter desaparecido napalmente do campo now, criando um holograma mafioso e obrigando os catalães a perpetuar uma jogada por uns crístico-dolorosamente-ineficientes 82 minutos. Nada disso. A grande vantagem aritmética, filosófica e psico-motora do Inter de Milão foi ter no comando um apreciador de peixe frito que, além de nunca ter cruzado o olhar com Gonçalo M. Tavares – o que teria inutilizado a sua capacidade de distinguir um bom livro de poemas de um manual de auto-ajuda de confecção centro-europeia, uma coisa imprescindível em todos os processos defensivos –, foi ainda capaz de unir numa mesma equipa Zanetti e Cambiasso, os dois únicos argentinos capazes de roubar um casting a Robert de Niro.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Hei, you, girl simpatic, remeber me for last summer? I'm Zézé. Do you want a sumo de laranja? The risks associated with our debt are now greater!
Well, we stopped growing (our biggest problem) and the country’s external indebtedness increased substantially. Thus, the risks associated with our debt are now greater.
Não há nada mais engraçado do que observar um indivíduo que não domina as escalas harmónicas da guitarra a tentar superar Mozart num piano, um instrumento que esse mesmo indivíduo aprendeu a tocar com 15 anos de idade. Tirando isto, só mesmo Fucile a tentar convencer-nos de que é um lateral direito com grande flexibilidade táctica e um belíssimo jogo de cintura.
Não há nada mais engraçado do que observar um indivíduo que não domina as escalas harmónicas da guitarra a tentar superar Mozart num piano, um instrumento que esse mesmo indivíduo aprendeu a tocar com 15 anos de idade. Tirando isto, só mesmo Fucile a tentar convencer-nos de que é um lateral direito com grande flexibilidade táctica e um belíssimo jogo de cintura.
Se um desconhecido lhe oferecer flores isso é...
Já não restam dúvidas de que Portugal é um país onde os gafanhotos cursam especializações dedicadas à análise do padrão da despesa pública e os escaravelhos estão muito preocupados com o comportamento das exportações face ao endividamento externo ou, se quisermos, estão muito preocupados com as repercussões do investimento público no agravamento do défice externo, isto se o financiamento desse investimento se basear, sobretudo e mormente, em instituições financeiras estrangeiras, facto que, além de estar na posse de toda a disneilândia, irá agravar (todos em coro) «o já muito grave e preocupante endividamento externo». Sobre a proveniência da massa crítica no reino de Portugal pode ler-se isto, com a vantagem de ser escrito por um indivíduo que secciona a história da situação trági-cómica da questão-que-eu-tenho-comigo-mesmo, em 1974, o que não deixa de ser curioso num blogue de inspiração soviética. Acontece que a estratégia de construção de obras públicas implica analisar a reprodutividade do investimento (ou seja, o comportamento dos fluxos financeiros decorrentes da troca de bens e serviços), ou seja, a questão das obras públicas - como de todas as obras e investimentos (e isto até os grilos falantes sabem) - está no maravilhoso, vetusto e anquilosado problema da nacionalidade da produção e sub-sequente controlo dos fluxos monetários. Eis que o novi-liberalismo de Campos e Cunha, António Nogueira Leite e João Salgueiro - entre outras espécies de anciãos sábios com acesso directo ao oráculo de Delfos - está a redondar num arqui-mercantilismo de cabeleira de rolos, sabendo nós que a luta económica nunca deixou de ser uma luta pela imposição de padrões de consumo. Não pode, portanto, estranhar-se, pelo menos não menos do que se estranharia uma conquista da Liga dos Campeões por Carlos Azenha, que volte à ordem do dia o problema da travagem do consumo, com a consequente-alucinante recuperação (técnico-táctica) da indústria nacional, aquela indústria considerada obsoleta em face da integração dos mercados, da especialização produtiva (em Portugal diz-se que é, foi, será, seria o turismo) e da transferência dos recursos para actividades do sector terciário (expressão que não cruzava os mares profundos do meu cérebro desde o 7º ano do cliclo preparatório). O problema, tal como não tem sido colocado pelo Rei da Selva, e sua Corte, parece-me ser muito outro, como diria um constitucional oitocentista se tivesse resitido à inelutável lei biológica da putrefacção. A luta pelo timing das obras públicas é a luta pela capacidade de cortar o paio, fatiar o queijo, seccionar a alheira, dividir a tarte. Em suma, discute-se o dia da semana em que será confeccionado o peru, em ordem às possibilidades de tirar partido, técnico-competitivo, num quadro de corrupção generalizada, perdão, de competição generalizada pelos escassos recursos da república, isto é, da bela trincha que a todos provoca estímulos indizíveis das papilas custo-gustativas (expressão que não sulcava as estepes infindas da minha inteligência desde o 7º ano do ciclo preparatório). Os cozinheiros do próximo turno, naturalmente, defendem uma protelação da operação - e se cortássemos o animal, mais daqui a pouco - e eu, que não tenciono disputar a concessão do troço Poceirão-Alhos Vedros, nem a ligação alta-velocidade Rio Tinto-Maçarelos, faço já aqui uma promessa: no caso de qualquer um dos economistas oraculares continuar a defender, nos próximos dez anos, o adiamento das grandes obras públicas, prometo ir assistir a um FCRubén Micael-Benfica envergando uma camisola onde poderá lêr-se a seguintes afirmação jocosa: «José Maria Pedroto é piço».
segunda-feira, 3 de maio de 2010
segundo parece, a olaia é a árvore de judas
alf, moço, eu sou capaz de muita coisa mas não de um racioncío escorreito. Sim, o mundo parece demasiado bem esgalhado para ser fruto do acaso. Não, isto não é prova da existência de Deus. Nesse ponto ou se tem fé ou não, nada tão é simples quanto isso.
Invariavelmente o (manifestamente pouco) que tenho lido sobre a condição humana termina com a defesa de algum tipo de religião. Pode ser resultado da influência da igreja cristã no pensamento ocidental. Será então a referência a partir do qual todos os outros se definem. Talvez seja por isso que o John Gray parece ir buscar as suas referências aos gregos, embora eu conheça pouco do pensamento do tipo.
A vida humana não tem um propósito ? Eu não vejo como seja possível responder sem fazer uso de boa dose de fé na resposta que se quer dar. Ser filho da tradição cristã e ter uma formação em engenharia necessariamente enviesa o raciocínio.
Invariavelmente o (manifestamente pouco) que tenho lido sobre a condição humana termina com a defesa de algum tipo de religião. Pode ser resultado da influência da igreja cristã no pensamento ocidental. Será então a referência a partir do qual todos os outros se definem. Talvez seja por isso que o John Gray parece ir buscar as suas referências aos gregos, embora eu conheça pouco do pensamento do tipo.
A vida humana não tem um propósito ? Eu não vejo como seja possível responder sem fazer uso de boa dose de fé na resposta que se quer dar. Ser filho da tradição cristã e ter uma formação em engenharia necessariamente enviesa o raciocínio.
Filomena Pinto da Costa sente-se enganada, destroçada, magoada, e nós também
Sempre defendi que a forma educada, clarividente e erudita como Jorge Nuno Pinto da Costa tem dirigido a sua agremiação regional vai acabar, tal como a monarquia constitucional portuguesa, ou por uma revolução ou por um crime. Contudo, de que vale o exercício da racionalidade quando podemos erguer uma taça? Se ela estiver repleta de vinho e gajedo bem delineado, ainda melhor. Ontem, mais uma vez, a espectacular inteligência e sentido do colectivo(nomeadamente isqueiros, bolas de golfe e pedras) com que as massas foram galvanizadas para derrotar o demónio, recebeu o aplauso da multidão. Costa Monteiro, adepto do FC Rubén Micael travestido de jornalista aos microfones da TSF, reflectia serenamente que a equipa oriunda de Lisboa se mostrava estranhamente intranquila. Estranhamente é muito estranho. É deveras estanho que uma equipa que viu voar pedregulhos a 1 cm do nariz se apresente intraquila. É muito estranho, sobretudo quando nos lembramos de ver Mourinho regressar ao Porto com guarda-costas. Tudo é justificável quando do lado de lá se encontra a besta popular - o adepto do Benfica. E o crime continua, alado, impoluto, triunfal. A uma escaramuça ridícula num túnel onde vimos jogadores do FCRubén Micael pontapear gradeamentos, eis que o perigoso e violento Pablo Aimar é recebido com pedras atiradas à cabeça. O FC Rubén está a querer destapar uma caixa que pode acabar por chamuscá-lo. Um dia, quando as massas já não possam alvejar o circo inimigo, hão-de voltar-se para devorar os seus próprios filhos. Enquanto esse dia não chega, faço já aqui o meu apelo, com todo o sentido de responsabilidade, para que na próxima época, quando o autocarro do FC Rubén Micael passar as portagens de Sacavém seja alvejado com tiros de canhão, rajadas de metrelhadora, morteiros, rockets e granadas de mão, seguindo-se uma bela declamação de José Régio, um individuo que, como todos sabem, adorava relacionamentos instáveis.
Shakespeare comparou um dia o peixe apanhados na rede com os direitos do homem pobre apanhados na lei
O ngonçalves - um dos dois autores deste blogue que, confessadamente, já conseguiram dar vida a um novelo de ligações electro-mecânicas - esboça aqui em baixo, ainda que timidamente, uma quase-defesa (resultante da observação continuada das performances psico-motoras de Rui Patrício) do célebre argumento de que esta merda toda que nos rodeia é demasiado organizada, bem gerida, ostensivamente bem esgalhada (ou bem limitada pelas leis da física) para ser fruto do acaso. Discordo. Em primeiro lugar, discordo da apresentação formal dos conceitos: se é verdade que a evolução não pode ser remetida para a caixa das leis universais - uma vez que é o resultado diferenciado (as aves voam, os pexies nadam, os homens andam) de diversos organismos sujeitos a processos também diversos, parece-me simples ver na evolução das espécies não uma homogeneidade de capacidades mas o desenvolvimento de capacidades diversas (resultantes de posições diferentes: essencialmente geográficas) pela resposta casual, mas não arbitrária, (resultante da dupla e muito imbricada relação entre adaptabilidade e selecção natural) dos equipamentos de sobrevivência dos genes e da sua replicação. Se a evolução natural das espécies está bem delimitada pelas leis naturais do planeta, isso em nada permite a pirueta à rectaguarda desenhada pelo ngonçalves no ponto seguinte, onde vemos desfilar um conjunto de palavras-aladas que não aparentam o rigor do primeiro ponto, e eu sei porquê: porque no primeiro momento ngonçalves está a pensar e no segundo está a procurar recrutar-nos para a contemplação do grande mistério das coincidências que não podem ser coincidências. As «características únicas da mente humana»? A «teleologia» que nos diferencia da máquina? Quanto à perspectiva elogiosa da mente humana, sem dúvida ela é enternecedora mas padece, sem dúvida, de um complexo, não teleológico mas auto-referencial, o que também explica o fascínio com o problema da criação e das coincidências: será assim tão difícil à maravilhosa, plena e super-omnisciente consciência humana suportar a ideia do sempre-existente ou será que ainda nadamos na lama medieval das causalidades totalitárias? O retorno aos jardins pré-cristãos é hediondo. Contudo, a cambalhota no sentido das coordenações inteligentes parece-me um retorno ainda mais pronunciado ao animismo cavernoso das ensanguentadas unhas compridas do neanderthal. Não tenho nada contra a existência de criadores mas aviso desde já que esta questão enferma de conceitos deformados por catequistas com decotes pronunciados e pernas voluptuosas que não nos saiem da consciência e ela, maravilhosa e única, não a catequista, mas a mente humana, continua a viver essencialmente segundo princípios em nada diferenciados dos teleológicos princípios do arminho, da porco preto ou da águia de asa redonda.
O Sporting lá conseguiu o quarto lugar
não obstante o empenho que demonstrou jogo após jogo em lutar pela não despromoção.
Estou a acabar o "Black Mass" do John Gray, que foi em todos os aspectos excelente excepto, claro, a parte final. Avança-se com o argumento que a espécie humana em nada difere dos restantes animais. Porque estamos sujeitos às mesmas leis naturais que os demais ser vivos neste planeta. Porque os humanos são apenas um producto da evolução natural das espécies.
Ora vamos lá ver bem. A evolução das espécies não é uma lei universal da natureza. Mesmo que fosse e embora todos os ser vivos estejam sujeitos às mesmas leis naturais, não se pode concluir que todos desenvolvam as mesmas capacidades. Os pássaros conseguem voar, os humanos não. A constante gravitacional é a mesma para ambas as espécies.
Segundo, a evolução natural das espécies é um processo cujos resultados estão bem delimitados à partida pelas leis naturais do planeta. A altura máxima que uma árvore pode atingir e as dimensões extremas dos mamíferos, por exemplo, estão limitadas pelas leis da física. O relojoeiro afinal não é assim tão cego quanto isso.
Embora a mente humana seja um produto da evolução natural, dificilmente se pode concluir que as suas capacidades únicas resultam de acidentes de percurso. Como o John Gray bem notou, a espécie humana parece estar programada para a teleologia. Uma vez que esta característica faz parte dos resultados possíveis da evolução natural, porque razão terá de ser uma característica improvável ? O Robert Rosen argumentou precisamente que o que distingue os seres vivos das máquinas (Turing & Ca) é exactamente a característica teleológica dos primeiros.
Nenhum destes argumentos prova a existência de um relojoeiro, embora comecem a ser coincidências a mais. O "Black Mass" é brilhante enquanto chama a atenção para o perigo das utopias e para a contribuição do Cristianismo na génese das mesmas. Falha ao argumentar o retorno a um mundo pré-cristão de comunhão mágico-mística com a natureza. Não obstante, estou curioso para ler os argumentos do "Straw Dogs".
Estou a acabar o "Black Mass" do John Gray, que foi em todos os aspectos excelente excepto, claro, a parte final. Avança-se com o argumento que a espécie humana em nada difere dos restantes animais. Porque estamos sujeitos às mesmas leis naturais que os demais ser vivos neste planeta. Porque os humanos são apenas um producto da evolução natural das espécies.
Ora vamos lá ver bem. A evolução das espécies não é uma lei universal da natureza. Mesmo que fosse e embora todos os ser vivos estejam sujeitos às mesmas leis naturais, não se pode concluir que todos desenvolvam as mesmas capacidades. Os pássaros conseguem voar, os humanos não. A constante gravitacional é a mesma para ambas as espécies.
Segundo, a evolução natural das espécies é um processo cujos resultados estão bem delimitados à partida pelas leis naturais do planeta. A altura máxima que uma árvore pode atingir e as dimensões extremas dos mamíferos, por exemplo, estão limitadas pelas leis da física. O relojoeiro afinal não é assim tão cego quanto isso.
Embora a mente humana seja um produto da evolução natural, dificilmente se pode concluir que as suas capacidades únicas resultam de acidentes de percurso. Como o John Gray bem notou, a espécie humana parece estar programada para a teleologia. Uma vez que esta característica faz parte dos resultados possíveis da evolução natural, porque razão terá de ser uma característica improvável ? O Robert Rosen argumentou precisamente que o que distingue os seres vivos das máquinas (Turing & Ca) é exactamente a característica teleológica dos primeiros.
Nenhum destes argumentos prova a existência de um relojoeiro, embora comecem a ser coincidências a mais. O "Black Mass" é brilhante enquanto chama a atenção para o perigo das utopias e para a contribuição do Cristianismo na génese das mesmas. Falha ao argumentar o retorno a um mundo pré-cristão de comunhão mágico-mística com a natureza. Não obstante, estou curioso para ler os argumentos do "Straw Dogs".
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Última hora: livros de George Steiner estão a ser usados como analgésico no serviço de pediatria oncológica do Hospital de Santa Maria
No domínio mental onde procuro situar a concentração respiratória de todos os meus poros, sou cada vez mais acossado por dificuldades estruturais apresentadas pela realidade onde me situo, isto é, tenho tido dificuldades em adormecer perante a combustão imediata, mal afundo os cabelos oleosos na almofada branca, de um carrocel de ideias feridas por imprecisão sentimental, rigor estético e uma ambição ultrajante que é, em suma, uma incomodidade violenta com o meu universol mental, entidade tirância, despótica, com sapatos de fivela e cabeleira de rolos, de quem estou, literalmente, cheio. Se leio um jornal, entorpeço. Se abro um livro, sou humilhado. Se ligo a televisão, entorno a chávena do café nas calças vincadas. Todos estes problemas devem ser imputados a mim mesmo, e apenas a mim mesmo, uma vez que não existe outro responsável de mim mesmo que não seja eu mesmo. Embora me tenham falado de um corvo zarolho, ou seria um cão preto de tres patas? A verdade é que isso agora não interessa. Porém, não deixo de sentir uma brisa interior que quer soprar a responsabilidade destas dificuldades sobre uma outra personalidade, mais sombria, mais esquisita, mais defensora de políticas de reducção das prestações sociais, mais adepta de toldos listados, mármore axadezado e estátuas de gesso, estações periféricas, quiosques de jornais encimados por uma bandeira branca, esplanadas com cadeiras de ferro pintadas de verde, comboios que passam incandescentes carregados de mercadorias, gaivotas escanzeladas com o bico descolorido, janelas com grandes e outras instituições decisivas. Por outro lado, tenho pensado em administrar a mim mesmo uma boa dose de analgésicos, mas entretanto foi-me comunicado por escrito - um marco na arte de produzir bulas em forma de aforismo - que «a ciência não chega aonde dói.» Talvez a principal característica da modernidade, logo a seguir à compulsiva absolutização da ciência - normalmente levada a cabo por praticantes olímpicos de uma imponente e monumental ignorância científica - seja a absoluta relativização de tudo, incluindo os prodigiosos contributos da ciência para a atenuação substancial do sofrimento metafísico desses atletas olímpicos da ignorância, sofrimento que é em grande medida o resultado de práticas pseudo-labiríntico-libidinosas, desocupação e uma preguiça ancestral perante o rigor, tudo mascarado com o traje da inquietação metafísica e bem servido sob a capa de um académico inglês que tem sobre o seu tempo a visão que têm dodos os sacerdotes: incomodam-se com o mau cheiro, desconhecendo que o mau cheiro provém precisamente do seu bolorento e apodrecido aparato escolástico da realidade. Ainda assim, não tem doído muito e a ciência, graças a deus, tem chegado para verificar o funcionamento do mecanismo mental. Enchemos o peito de ar, sopramos algum alcatrão misturado com o polén primaveril e vamos riscando tracinhos na parede, até perfazer a contagem que dizem estar inscrita no livro secreto do nosso código genético, isto se entretanto não formos solucionados por um caminiosta embriagado a caminho de Nice, com um carrgamento de queijos de Niza. O comentário de Miguel Esteves Cardoso, no Público de hoje, caracterizando a filosofia defensiva do Inter em Camp Nou, foi um dos momentos genesíacos da minha biografia intelectual. Não me lembro de outro momento constitucionalmente tão fundador, pelo menos desde o minuto em que António Veloso puxou as meias, cofiou o bigode, e atirou à figura de Van Breukelen, na humidade cruel do relvado de Estugarda. «Without Diamantino at their disposal, Benfica played in a negative style with eleven men behind the ball for the majority of the game. PSV had most of the possession, but they were unwilling to commit too many men forward and the game lapsed into sterility.»
Esterilidade é um grande título para um romance, se o romance ainda fosse alguma coisa capaz de despertar a mínima reação capilar. Conrad e Copola enganaram-se. O problema não é o horror, o horror, é a esterilidade, a esterilidade de tudo.
Esterilidade é um grande título para um romance, se o romance ainda fosse alguma coisa capaz de despertar a mínima reação capilar. Conrad e Copola enganaram-se. O problema não é o horror, o horror, é a esterilidade, a esterilidade de tudo.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Estava a falar do Tony Blair mas bem podia ser o Sócrates
"It is not so much that he is economical with the truth as that he lacks the normal understanding of it.(...) The result was that whereas in the past lies were an intermittent feature of government, under his leadership they became integral to its functionings". John Gray in Black Mass.
Os meus agradecimentos ao comentador que me indicou o livro, num post algures perdido nos arquivos desta chafarica.
Os meus agradecimentos ao comentador que me indicou o livro, num post algures perdido nos arquivos desta chafarica.
Com efeito, Javier Zanetti é o melhor jogador do mundo
Depois do suicídio estético mais estrondoso dos últimos trinta anos, eis que a Standard & Poor's, numa pirueta analítica capaz de desfrisar os caracolitos de Rui Santos, decide cortar o rating da Monarquia Espanhola, continuando a contribuir para a turbulência dos mercados, num momento em que, paralelamente falando, o organismo político português parece ter sido atingido por uma síncope trombo-embolémica, com declarações conjuntas (em linguagem tauromárquica pode dizer-se emparelhadas) produzidas pelos dois portugueses de meia-idade mais solicitados pela indústria onírica-erotica, a cargo de um grupo de mulheres caracterizado pela prática de profissões remuneradas abaixo dos 1500 euros e com idades compreendidas entre os 48 e os 62 anos. Para quem quiser detalhes justificativos dos cortes inflingidos à República Portuguesa aqui fica um pequeno escalope:
«Under our revised base case economic growth scenario, we expect the Portuguese government could struggle to stabilize its relatively high debt ratio over the outlook horizon until 2013. Portugal's public finances in our view remain structurally weak, notwithstanding the government's substantial public sector reforms of recent years."
«Under our revised base case economic growth scenario, we expect the Portuguese government could struggle to stabilize its relatively high debt ratio over the outlook horizon until 2013. Portugal's public finances in our view remain structurally weak, notwithstanding the government's substantial public sector reforms of recent years."
Nem sempre temos sido justos com o papel das agências de rating. Pacheco Pereira faria aqui uma comparação com os panfletos pornográficos revolucionários na Paris de 1789 que acabariam por custar o esbelto pescoço a muitas damas de Versalhes. Digo, desde já, que não tive nada a ver com isso. Com efeito, os mercados não são responsáveis pela demagogia dos políticos (aqui, cuspir com asco sobre napron com motivos republicanos) e os portugueses têm vivido «por cima», «em cima» e «acima» das suas possibilidades, com toda a honra e toda a glória, agora e para sempre - como até o coração contrito de Júlia Pinheiro seria capaz de reconhecer perante uma plateia de sexagenárias lusas com «mise», tingidas de preto pela viuvez marital e com diâmetro do ante-braço a rondar a marca dos 25 cm (aqui, consultar a programação do canal Mezzo, para constratar). O autor do relatório assassino, Kai Stukenbrock , caracteriza-se por ter um conjunto de amigos onde pontificam um bem-diposto piloto-aviador, um visivelmente visível homossexual holandês, uma lúdica loira alemã, vistosa mas um pouco gasta, uma holandesa melancólica com camisola vermelha e um inglês economicamente desajustado mas fundador do clube de fãs de Boy George portador de um par de patilhas na melhor linhagem de George Best. Recomendo que nos tornemos todos amigos ( Kai Stukenbrock Facebook ), em caso de situação claramente não clarificável, sob pena de ficarmos sem dinheiro e sem possibilidade de sermos seguidos no twiter, o que, todos sabemos, seria o mais pungente drama humano, logo após o dia em que Humberto Bernardo se enganou na apresentação da classificação final do concurso Miss Portugal. Chamo ainda a atenção para as ligações da Standard & Poor's a hipotéticos braços de irmandades sicilianas - o que explica a sinistra obsessão com os antepassados mediterrânicos -, como os sinistros nomes dos seus dirigentes confirmam, Pat Milano (Executive Vice President, Operations Services) e Tony Angel (Executive Managing Director), são dois exemplos de indivíduos que devem ter pasta perfurmada no cabelo, cambalear em casacos de napa, enquanto mastigam azeitonas curtidas em azeite e oregãos.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Utopia ou corrupção, eis duas potenciais respostas
à pergunta gritada por Paulo Portas: "Porque é que não se cancelam os projectos do TGV e do novo aeroporto de Lisboa !?". Uma resposta possível será que a clique do arco governativo (PCP-PS-PSD-PP) acredita no investimento público como motor da economia. Crença permanentemente desacreditada pela realidade.
Por outro lado, se eu fosse cínico diria que já foram untadas as mãos de demasiada gente para se poder voltar atrás agora sem incorrer numa revolta das clientelas dos políticos eleitos. Algo que o Paulo Portas conhece muito bem.
Por outro lado, se eu fosse cínico diria que já foram untadas as mãos de demasiada gente para se poder voltar atrás agora sem incorrer numa revolta das clientelas dos políticos eleitos. Algo que o Paulo Portas conhece muito bem.
A situação é desesperada mas não é séria
Parece que Portugal está a caminhar a largos passos para o abismo. Há anos que andamos a caminhar para o abismo. Portanto ou já lá estamos ou o abismo é longe cumócaraças. Se não for pedir muito, façam uma pausa na caminhada entre as 19h45 e as 21h45. É que eu gostava de ver o Barça vs Lo Speziale em paz. Agradecido.
terça-feira, 27 de abril de 2010
A economia do ressentimento católico: uma censura e duas recomendações
Marco Tardelli refere que na hora do golo, quando escorrega e mesmo assim lhe resta força melancólica suficiente para disparar a bola para o fundo das redes, sentiu aquilo que dizem suceder na hora da morte: revisão da vida e das expectativas de criança. Tardelli não hesitou e, mesmo em queda, foi ainda o jogador concentrado no seu objectivo. É por isto que o futebol é muito mais importante, pedagogicamente falando, do que a literatura. É verdade que entre os comentadores profissionais ainda existe uma certa confusão sobre o papel da inspiração no futebol, problema já solucionado pela literatura há um século e meio. No que me diz respeito, basta ler a coluna de João César das Neves no DN para que desça sobre mim a pomba do espírito, com seu dardejar de asas doces, e me leve a planar sobre as alturas seráficas da contemplação e da paz, país onde brotam as fontes da inspiração. Oráculo do Senhor. Eu já sabia que isto iria acontecer. Isto o quê? Procuremos colocar o problema. Com as críticas demolidoras do século XVIII e XIX ao obscurantismo mental dos indivíduos – críticas essas decorrentes da própria modernidade política e económica – mais tarde ou mais cedo, o homem teria que confrontar-se com a sua finitude e dar uma pirueta. Se essa pirueta evoluiria progressivamente ou à rectaguarda era a grande questão que permanecia (e permanece) em aberto. A transformação social é uma coisa complexa, não será necessário relembrar, pelo menos para aqueles que não acreditam no papel dos pastorinhos de Aljustrel (Concelho de Fátima) na história europeia do século XX. E quem conhece um pouco da história da Europa sabe como as transformações subterrâneas partem dos próprios fundamentos orgânicos das sociedades. Ou isto, ou a vara de Moisés, o sopro invisível dos caminhos insondáveis e o camandro. Prefiro isto. (De qualquer forma ainda gostava de saber como se harmoniza o Orçamento Geral do Estado como aquela passagem dos passarinhos). Aiante. O problema é que explicar o motor biológico que leva uma célula a dividir-se, a partir da sua própria informação genética, é muito mais fácil do que explicar porque razão uma asa cresce num dado sentido funcional, como resultado da competência mecânico-reprodutora de um ser-vivo. Se quisermos entender fenómenos sociais, o caldo está definitivamente entornado, pelo que já era tempo de reconhecer a nossa ignorância, não desesperando, mas começando a trabalhar com humildade e muito rigor. Tentemos alguns tópicos soltos. Coisas tão banais como o relógio mecânico foram responsáveis por uma demolição dos ritmos cristãos da existência. Na galeria das recordações saudosas pode referir-se o sino, e sua marcação do tempo, decalcada da liturgia das horas (alguns de nós ainda se lembram de ouvir pessoas mais velhas dizer «à hora das trindades» ou utilizar o conceito de «matinas», e lembramo-nos porque portugal, nem teve reforma protestante, nem se industrializou verdadeiramente até aos anos 50/60 do século XX). E que dizer sobre toda a literatura que explica como o mercado operário e as necessidades da indústria alteraram a organização da casa e a estrutura da família? Contudo, para o Professor César das Neves (e aqui me inclino respeitosamente como diante do sacrário onde repousa o sacratíssimo corpo de nosso senhor Jesus Cristo) a destruição da família é obra de um monstro chamado José Sócrates. E todos nós trememos nas nossas cadeiras, recolhemos no regaço protetor de um braço forte e saudável - como o asa do espírito - a carne inocente das crianças, nós, horrorizados com a hidra socialista que mergulha, na lama hedionda da perversão, a bondosa família natural, essa instituição que viveu durante 300 anos de forma espectacularmente harmoniosa com a economia de mercado, qual cordeiro mamando no úbere de sua mãe, até à chegada do monstruoso engenheiro da Covilhã, balouçando o seu balde de ordenha e sorrindo sinistramente para o pastor gay que ronda as imediações do curral divino.
De acordo com o Professor Catedrático da Universidade Católica (é favor não rir) «Desde 2007, a mortalidade ultrapassou a natalidade. Portugal é o país com menor fertilidade na Europa ocidental, das mais baixas do mundo. Esta catástrofe demográfica faz de nós um povo em vias de extinção e ameaça a nossa herança e cultura. O número de divórcios é mais de metade dos casamentos, enquanto a coabitação precária e os filhos fora do casamento explodem, gerando lares esfarrapados, insucesso escolar, depressões, miséria, crime.».
Não é possível continuar a ignorar este quadro, digno de um prospecto das testemunhas de Jeová, mas apimentado com o impulso racionalista da economia clássica. O professor César das Neves - dr. Jekill and Mr. Hyde do profetismo económico-espiritual – ainda não compreendeu (e seria bom que um dos seus confessores lhe explicasse, rapidamente: se não existir nenhum disponível, eu próprio posso dar uma aula a título completamente gratuito) que a destruição da família, que ele contempla horrorizado, virando-se para o seio protetor de Maria, estrela da manhã, é apenas o corolário da «modernidade». Sim, da modernidade. A mesma que trouxe a divisão do trabalho (ai, a mulher), a mercantilização das relações sociais (ai, os mosteiros e a estrutura da terra), a concorrência como factor de progresso (ai, a lealdade do casamento), o consumo como motor do desenvolvimento (ai, a apologia do sacríficio e a condenação da lascívia), a monetarização da economia (ai, a tradicional lentidão dos laços sociais). Professor César das Neves, será preciso falar da importância da pornografia na sustentabilidade dos mercados em empresas como a Vodafone ou a Google? Também me parece que não. Com toda a sinceridade, apenas à luz da escuridão pré-histórica e cavernosa de uma fé boçal se entende que um economista possa desconhecer a estreita relação entre demografia e padrões de consumo. José Socrátes, como é evidente, não é um monstro. É, quanto muito, um organizador da paródia.
Na verdade, eu já sabia que isto iria acontecer. Isto, o desespero dos mais descontentes com a sua própria competência - intelectual e mentalmente falando – que perante a crise da modernidade se viram para a primeira banha da cobra estendida ao virar da esquina. Em Portugal, a primeia banha da cobra da esquina é, inevitavelmente, a Igreja Católica e a sua secular capacidade de criar sentidos para o mal que não compreende. O problema é que a sua estrutura profissional de sacerdotes (cada vez mais anacrónica) vai colidindo com o mundo em movimento (até aqui, o professor Neves ainda chega, uma vez que leu uns livros de economia). O problema é quando se torna necessário entender. Aí, quase sempre, os mugidos metafísicos tornam-se ensurdecedores, neste túnel de uma velha dor, para parafrasear um publicitário conhecido, e levam na enchurrada do medo qualquer tentativa de compreender o comportamento racional dos «players», indivíduos que, estranhamente, se revelam tão rcionalmente racionais no mercado dos produtos financeiros e das remunerações por objectivos e se tornam, com abominável surpresa, filhos irracionais do demónio, na hora de tomarem decisões no mercado da prática abortiva ou na hora de se posicionarem perante a oferta, manifestamente escassa - mas, graças a Deus, crescente -, no domínio das parceiras sexuais. Quanto a consequências reprodutoras, a diminuição demográfica pode ser entendida numa prática - bastante aconselhada por todas as instituições de rating -de privatização dos impactos amorosos e de contenção de custos. Gastar dinheiro em fraldas, numa conjuntura em que os risco de incumprimento subiram a níveis históricos? Limpar o cu a meninos, numa conjuntura de necessidade de novos conceitos de negócio? Receber no colarinho engomado o bolsado branco do recém-nascido numa conjuntura de indispensabilidade de afirmação da imagem positiva no âmbito da concorrência internacional?
De acordo com o Professor Catedrático da Universidade Católica (é favor não rir) «Desde 2007, a mortalidade ultrapassou a natalidade. Portugal é o país com menor fertilidade na Europa ocidental, das mais baixas do mundo. Esta catástrofe demográfica faz de nós um povo em vias de extinção e ameaça a nossa herança e cultura. O número de divórcios é mais de metade dos casamentos, enquanto a coabitação precária e os filhos fora do casamento explodem, gerando lares esfarrapados, insucesso escolar, depressões, miséria, crime.».
Não é possível continuar a ignorar este quadro, digno de um prospecto das testemunhas de Jeová, mas apimentado com o impulso racionalista da economia clássica. O professor César das Neves - dr. Jekill and Mr. Hyde do profetismo económico-espiritual – ainda não compreendeu (e seria bom que um dos seus confessores lhe explicasse, rapidamente: se não existir nenhum disponível, eu próprio posso dar uma aula a título completamente gratuito) que a destruição da família, que ele contempla horrorizado, virando-se para o seio protetor de Maria, estrela da manhã, é apenas o corolário da «modernidade». Sim, da modernidade. A mesma que trouxe a divisão do trabalho (ai, a mulher), a mercantilização das relações sociais (ai, os mosteiros e a estrutura da terra), a concorrência como factor de progresso (ai, a lealdade do casamento), o consumo como motor do desenvolvimento (ai, a apologia do sacríficio e a condenação da lascívia), a monetarização da economia (ai, a tradicional lentidão dos laços sociais). Professor César das Neves, será preciso falar da importância da pornografia na sustentabilidade dos mercados em empresas como a Vodafone ou a Google? Também me parece que não. Com toda a sinceridade, apenas à luz da escuridão pré-histórica e cavernosa de uma fé boçal se entende que um economista possa desconhecer a estreita relação entre demografia e padrões de consumo. José Socrátes, como é evidente, não é um monstro. É, quanto muito, um organizador da paródia.
Na verdade, eu já sabia que isto iria acontecer. Isto, o desespero dos mais descontentes com a sua própria competência - intelectual e mentalmente falando – que perante a crise da modernidade se viram para a primeira banha da cobra estendida ao virar da esquina. Em Portugal, a primeia banha da cobra da esquina é, inevitavelmente, a Igreja Católica e a sua secular capacidade de criar sentidos para o mal que não compreende. O problema é que a sua estrutura profissional de sacerdotes (cada vez mais anacrónica) vai colidindo com o mundo em movimento (até aqui, o professor Neves ainda chega, uma vez que leu uns livros de economia). O problema é quando se torna necessário entender. Aí, quase sempre, os mugidos metafísicos tornam-se ensurdecedores, neste túnel de uma velha dor, para parafrasear um publicitário conhecido, e levam na enchurrada do medo qualquer tentativa de compreender o comportamento racional dos «players», indivíduos que, estranhamente, se revelam tão rcionalmente racionais no mercado dos produtos financeiros e das remunerações por objectivos e se tornam, com abominável surpresa, filhos irracionais do demónio, na hora de tomarem decisões no mercado da prática abortiva ou na hora de se posicionarem perante a oferta, manifestamente escassa - mas, graças a Deus, crescente -, no domínio das parceiras sexuais. Quanto a consequências reprodutoras, a diminuição demográfica pode ser entendida numa prática - bastante aconselhada por todas as instituições de rating -de privatização dos impactos amorosos e de contenção de custos. Gastar dinheiro em fraldas, numa conjuntura em que os risco de incumprimento subiram a níveis históricos? Limpar o cu a meninos, numa conjuntura de necessidade de novos conceitos de negócio? Receber no colarinho engomado o bolsado branco do recém-nascido numa conjuntura de indispensabilidade de afirmação da imagem positiva no âmbito da concorrência internacional?
p.s. e não me venham com os engomados da Lapa com suas mil crianças, que esses pagam bem as empregadas da Amadora que lhes preparam as refeições da semana, lhes engomam os fatos e voltam em autocarros suburbanos, de cu tremido, enquanto os filhos delas apalpam as filhas deles e lhes surripiam trocos, alegremente divertidos, uns e outras, em centros comerciais da periferia patrocinados pela cristianizada e familiar Sonae.
Quanto ás recomendações:
1) Esvaziar a casa de qualquer artefacto que lembre, vagamente, a relação estreita entre sexualidade e objectos em forma de cruz onde está dependurado um indivíduo semi-nu com pingos de sangue.
2) Doar a Timor toda as encíclicas, biografias da Irmã Lúcia e livros de Aura Miguel e iniciar a leitura e estudo das obras completas de Kant: se é para ser cristão ao menos saibam sê-lo com higiene mental.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
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