terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Muro das lamentações

A coisa está mesmo negra: "Nunca aqui escrevi nada de jeito, nem em lado nenhum". Pelo contrário. Nunca se escreveu como ele. E eu lamento-me. Porque agora vai escrever menos vezes.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

"Desabafo"

Mais um poema do SAPO_COCAS para vocês...
espero que gostem :D

Escrevo por entre estes sons
De podridao, de angustia, de medo
Mas recordando todos aqueles
Momentos nossos tão bons

Agora que não há mais esse carinho
passarei esta pequena vida sentado
Neste estado que me deixa pedrado
De não poder seguir o nosso caminho

Esse manto diarimente profetizado
pela memoria que permaneceu no ar
deixou esse esse estranho ser agoniado
Por nao sentir mais o beijo à beira mar

Foi o tudo o que este ente te deu
Para tras ficou toda essa cumplicidade
que outrora que me trouxe felicidade
Mas que agora simplesmente morreu

Aguardarei a tua chegada, essa novidade
Porque so eu vacilarei por esses momentos
que tornaram o nao foi vivido em tormentos
E renunciarei por ti amor, à fama e à criatividade

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Senhor engenheiro Ferreira do Amaral, nada mal...

Ferreira do Amaral declarou ao Público em 30 de Janeiro de 2001: "Esta polémica [acerca da negociação do contrato de travessia do Tejo com Lusoponte como ministro de Estado, sendo mais tarde nomeado administrador dessa mesma empresa] não tem nenhuma razão de ser. Se a regra é nunca entrar numa empresa com quem assinou um contrato, devo dizer que assinei milhares de contratos, e com todas as empresas. E a lei determina, e bem, uma quarentena de três anos. Aqui passaram doze", alega. Ferreira do Amaral acrescenta ainda mais três argumentos para "esvaziar uma polémica que desafia o bom senso". "Nunca esperei estar aqui. Só aconteceu porque o principal responsável por esta obra, Morais Leitão, teve uma morte trágica. Segundo, os sócios da Lusoponte não são os mesmos [com quem negociou o contrato], e até o contrato não é o mesmo, porque já foi alterado sete vezes."

Explicação: o senhor engenheiro Amaral refere conceitos como quarentena, assinar milhares de contratos, esvaziar polémica, morte trágica, alterado sete vezes. Na verdade, a polémica desafia o bom senso, porque o caro leitor julgava que se tratava de um problema de confusão entre a defesa do estado (leia-se defesa do interesse dos cidadãos e do Estado de Direito) e a defesa do interesse privado (leia-se defesa do interesse de alguns cidadãos e da sua legítima capacidade de ganhar dividendos). Afinal, tudo não passa de um thriller onde figuram assinaturas de contratos, o número sete, a morte, uma quarentena e o desafio do bom senso, ingredientes básicos do suspense. Agora sim, percebemos.

As opiniões e a confusão do pensamento: que consequências para a saúde mental dos nossos jovens.

Numa entrevista a um blog afecto ao jornal de Notícias, simtomáticamente intitulado “Farpas” o Magister César das Neves lançou um repto que não posso deixar de aceitar. Qual touro farpeado, refugiado junto às tábuas, vou aventurar-me em terrenos mais abertos e sujeitar-me a mais um par de bandarilhas. Daquelas douradas, pequeninas. Sabemos que o Magister, no seu belo Traje de luces encomendado em Roma, nos vota o mais profundo desprezo. Há quem diga que são baixas as nossas razões. Babamos cólera, como o touro baba a saliva do seu esforço. Quem sabe. Contudo, o animal fez-se para investir. Não pode deixar de cumprir a sua natureza. De um lado, o sacerdote com as suas crónicas. Do outro, a besta com a sua fúria irracional. O veredito final fica para a Praça, ao jeito dos velhos circos romanos, abonimados pelo Magister. Todos gostamos de escrever a nossa prosa, mas a sujeição à crítica, o nosso tempo considera-a coisa de povos bárbaros. A democracia é, na verdade, uma chatice.
Talvez esta seja uma actividade que muitos consideram vil. Investir como animal nas respeitáveis carnes de respitáveis toureiros. Acontece que o nosso toureiro é lido por milhares de jovens, utiliza a cátedra, multiplica opinião. Seria tonto querer privá-lo dessa sua actividade. Mas seria ainda mais tonto não cumprir uma tarefa clarificadora. Como o touro quando investindo em velocidade obriga os bandarilheiros e toureiros a correr e a saltar, refugiando-se nas tábuas, deixando livre os terrenos do redondel.
Há ainda uma outra razão mais obscura. A necessidade de não deixar confundir cristo com tourada.

É em vão que o touro desce à praça. Não importa, o touro acredita na razão da sua força muscular e investe contra o estoque. Para tomar balanço, que nestas coisas de tourada não se deve recusar o picanço, há que ler caro leitor, há que ler.


(Neves) Não teme ser tenebroso?

“Existe uma personagem tenebrosa chamada "César das Neves" que povoa muitos blogs e conversas por aí. Conheço-a mal porque não frequento esses meios. Mas quando ouço falar dela (como, por exemplo, através destas suas perguntas), fico sempre surpreendido com os disparates que diz. Nunca concordo com ela.”

E não é que César das Neves anda a ler o nosso blog e não dizia nada. Não lhe ocorreu que essa figura tenebrosa, embora não concorde com ela, talvez tenha sido produzida por uma coisa a que se tem chamado "erro de interpretação" e que, ultimamente, é a grande ferramenta de todo o pensamento conservador. Devo esclarecer os leitores que, numa outra entrevista, o Magister censura com violência os blogs, espaços incivilizados que propagam os instintos mais baixos dos homens. Compara mesmo este tempo de desgoverno cultural da internet com as revoluções. Talvez não lembre ao Magister que os blogs servem ao menos para esse povo – baixo, incivil e culturalmente impreparado – dizer também qualquer coisita, enquanto o povo não é convidado para crónica semanal num jornal diário.

Reduz realmente o corpo da mulher 'às duas razões mais próprias da glória feminina o encanto da virgindade e a grandeza da maternidade'?
“Quem reduz um longo e meditado artigo a uma pergunta estúpida foi a senhora.”

Note-se a autoqualificação de homem que medita longamente. A julgar pelas duas próximas respostas, o conceito de meditação longa deve aqui ser relacionado com uma fusão entre a actividade «medium» e a natação. Portanto actividade em torno de mantos azuis, muita água e visões proféticas, logo, meditação.

Deus existe mesmo só porque não é possível provar a sua existência?
“Deus existe mesmo e é possível provar a sua existência”.

Ora aí está. Eis o que se chama uma declaração bombástica. Deus existe e o Magister tem provas mas sonega-as da opinião pública. Inqualificável.

Estudou 67 aparições “e detalhadamente 36 delas”. O que o fascina na hipótese de Nossa Senhora?
“O que me fascina Nela é precisamente aquilo que fascina todos os portugueses há séculos. Em Portugal são os que não se fascinam com Nossa Senhora que têm de explicar a sua estranha atitude.”

E aqui está. Por uma vez o Magister acerta. Aceito o repto. Vou ter de explicar a minha estranha atitude, em desacordo com os milhares de portugueses, mortos e vivos, desfilando vivos pelos séculos dos séculos, passando junto da minha casa com os seus rostos hieráticos voltados para a minha vergonhosa face. Contudo, não posso explicar a minh estranha atitude com palavras pois fui neste momento alcançado por duas lagostas gigantes em levitação que me confidenciaram ter visto num prato de arroz à valenciana a libertação do Afeganistão das garras do talibans, se eu empreender três dúzias de voltas ao quarteirão em pé cochinho. Da mesma forma, expressaram com veemência que o deus se encontra muito ofendido com os pecados cometidos pelo engenheiro José Sócrates em matéria comportamental, as chamadas questões fraturantes. Recomendam, por isso, a leitura intensiva da filosofia marxista como substituição sacrificial das orações em estilo livre «joelhos sobre a brita», de forma a obtermos a reparação das nossas culpas. Como é bom de ver, quem fala com lagostas gigantes não compreende Nossa Senhora. Eis a razão da minha estranha atitude. Lagostas, demasiadas voltas ao pé cochinho e leitura de Marx. Não tenho salvação.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Adivinha do dia

Há umas semanas atrás ouvi na televisão esse senhor do desporto nacional que é o Rui Ramos. Dizia ele: "Ainda está por descobrir o que está debaixo desse grande guarda-chuva que é o futebol". Desde esse dia que este dilema não me sai da cabeça. Não durmo descansado. Lanço um repto de tentar ajudar o homem e descobrir o que la estará debaixo. Podem enviar as vossas respostas para os comentários.

A meio gás

Ainda estamos vivos. As férias são boas para nos lembrarmos disso. Se bem que noticias destas nos deixam com o pão na boca.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

É cedo ainda

Ainda só são 9h21, mas já li o disparate de hoje (que por acaso até é de ontem). Notável a resposta deste comentador. Como o autor diz. QED.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O elogio do Ronaldo. Directo ao canto

Um disparate nunca vem só

Hoje na imprensa um tema recorrente:

Fado

Futebol

Fátima

Durão Barroso Nobel da Paz? Ronaldo é a melhor imagem de Portugal? Bispos do país ao lado que "sugerem" o melhor caminho politico a tomar?

Às vezes acho que o caminho é mesmo estar na bancada. Sentado e de barrete até a testa. Como na liga dos últimos. Resignados. E aparentemente soluções mesmo, só as do Correia de Campos. Rumo à saída sem fim.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Regresso aos clássicos

Descobrir este homem aos 28 anos:


Onde andavas tu, quando eu andava na faculdade de volta disto:

ou agora disto:

Segmentation fault (core dumped)

Fico-me com esta:

History is not like some individual person, which uses men to achieve its ends. History is nothing but the actions of men in pursuit of their ends.

E vou dormir porque estou cansado.

Tell me a story IX

Era uma vez um senhor ministro. Fez o negócio da altura. Prometeu as pontes aos homens do capital. Eles agradeceram. Depois eclipsou-se. Teve um rasgar minimo, quando quis ser presidente de todos. Não precisou disso. Anos mais tarde, foi parar aos homens da ponte. Tornou-se um deles. Uniu margens de lucro, que crescem para a foz do bolso. Tudo isto se fez. Hoje diz estar confortável com tudo o que se passou. Porque não há coincidências. Apenas derrotas. Impossíveis.

Uma vez que já tudo se perdeu

Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de troçar de nós a tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, quem convocaste, que deliberações foram as tuas? Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes factos, o cônsul tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar, um a um, para a chacina. E nós, homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura. À morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul; contra ti é que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.
Primeiro discurso de Cícero contra Catilina.
O discurso foi proferido em 8 de Novembro de 63 a.C.
Todos os dias são dias a perder. Este elogio da derrota talvez siga inspirado pela derrota que todos sabemos anunciada. Derrota de quem? Será o Estado de direito democrático o grande perdedor? Serei eu? Serás tu, caro leitor?

“Gente que acerta, gente que erra”, na expressão do poeta de Queluz. Com efeito, existe uma derrota inevitável. A de todos os que teimam em procurar razões onde apenas forças, movimentos, inércias e vontades, repousos. O homem no lagar do mundo. O homem…

De modo que o estado de direito democrático são os soluços do peixe miúdo. Ou a forma liceal com que o Professor Aníbal lê os discursos. A forma caduca com que anuncia o que não faz. O que não fez. Ele já venceu. Nós, caro leitor, quem sabe num futuro próximo.

Quem sabe a paciência acabe. Quem sabe o bastonário acabe demitido, saindo por baixo, sem voz e com umas palmadinhas nas costas. Ou processado. Quem sabe sejam as palavras do poeta de Queluz a triunfar um dia. Ele que escreveu no Outono, esse inspirado livro denominado Homem de Palavras.

Talvez o bastonário seja um homem de palavras. Um homem inspirado. Talvez seja apenas o “estilo agressivo”. Ele que arrasta pela lama, com as luvas da “irresponsabilidade cívica”, a frágil honra da dignidade política – essa varonia da pátria ilustre. Parece que os advogados servem apenas para defender (com moderação e cálculo responsável) os interesses dos accionistas bancários. Ou fazer estudos sobre a aplicação jurídica do cágado francês. Não para proteger a República. Aliás, a República resume-se hoje às “boas práticas”. Quais práticas? Ah, já sei, as práticas do banquete oitocentista. Senhor Comendador faça o favor. Concerteza senhor Secretário de Estado. É para já Senhor Presidente da Tribunal Constitucional. Ohh, caríssimo Procurador. Como está ilustríssimo Senhor Ministro.

“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, perguntou um dia Cícero no meio da revolta, dos punhais do turbilhão em sangue.

O estado de direito democrático, a respeitabilidade, o bom nome, as boas práticas, a credibilidade do sistema. Quando vier o sangue e a fúria (como sempre vem) eu já aqui não estarei. Talvez esteja na bancada a torcer por um de vós. Um dos que no calor do jogo ainda acredita no lance.

Ou como diria o poeta de Queluz à boca da noite:
“Nada se perde por mais que aconteça, uma vez que já tudo se perdeu”.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Aqui vai um poemazito

Desculpem as rimas no infinitivo :D

Tu...Ser imperfeitamente perfeito
Retrato de um rosto metafisico, transcendente
Onde nem o mais profundo pensamento filosofico penetra
Um delinear de tracos, uma suave pele
Um amor por ti diletante

Amar?
Palavra que o passado faz relembrar
Uma quimera e uma utopia no presente
Uma realidade esperada amanha

Amar depois de Amar
Uma impossibilidade possivel
Um sentimento por ti platonico
Tornado real

Tu... Mostras-me o amar
A angustia, a inseguranca, o medo
que me apertava o coracao quando
Por entre os vidros do meu insconsciente
nao te via a meu lado

Porque tu...
tu es a minha fonte hedonista
um prazer intenso, mas suave
Um girar num turbilhao de sentimentos
Em que todos os instantes
que são gastos longe de ti
sao desperdicados

"Amo-te"
Talvez a expressao mais dificil de dizer
Mas que contigo tudo e facil

Mas tu...tu percebes?
Tu nao es apenas o meu consolo
Tu es o complexo labirinto
Onde a cada canto aprendo-te

Tu..Sera que percebes?
A ferida que nao sara
por nao deixar de pensar em ti

Nesta nausea em que apodreco
Ou melhor apodrecemos
Ficam estas as palavras
Que ditam as nossas regras:
AMO-TE

"Falar Claro"

Ouvi as declarações da ex-ministra Manuela Ferreira Leite no programa "Falar Claro" da Rádio Renascença. Já tinha ouvido, de outra fonte do PSD e a respeito do mesmo caso (Lusoponte), a mesma justificação.
Não me parece que esta "suspeição" sobre a classe política - que não é, certamente, a questão essencial - ponha em causa um Estado de Direito Democrático.
Também não entendo o alarido, tendo em conta que estas declarações do Bastonário da Ordem dos Advogados não passam de um "lembrete" - afinal, os casos e os protagonistas a que se refere já foram aflorados na nossa imprensa, sem que alguém se lembrasse de daí retirar consequências, ou agir consentâneamente...
E quanto ao incentivo claro ao desrespeito de uma decisão de um Tribunal, como no caso Esmeralda, por mais injusta que nos pareça ou nos seja apresentada pela imprensa, que hoje em dia vai dar ao mesmo, ou o apelo ao boicote à aplicação de uma lei, como a recente lei do tabaco, por mais "imperfeita"(?) que seja... Como fica o Estado de Direito Democrático?

Time to say goodbye

Foi com esta breve nota, que se anunciou a saída do ministro da saúde mais polémico e comentado dos últimos governos.

Sai um que não queria ver e entra uma que canta pelo mesmo tom, admitindo que acredita nas reformas efectuadas. Além disso já conhece o sistema (foi presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, quando a socialista Maria de Belém Roseira era ministra da Saúde, no governo de António Guterres). Aguardemos pelos próximos dias para ver se há diferenças.

Enquanto isso é chegada a hora de dizer adeus. Obrigado Sr. Ministro. Alijó e arredores estão contigo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Serviço público

Depois da situação do INEM era previsível que isto acontecesse:



Não tem o fulgor de outros sketches feitos por ele, mas acredito que seja difícil ultrapassar a realidade triste deste episódio. Retrato de um interior a falecer aos poucos por falta de tudo. E em que os cemitérios teimam em ganhar.

Comunicado à navegação

Os nossos leitores assíduos (num total de 2, talvez mais, 3 vá) devem ter reparado que alterámos o título do espaço. Usando linguagem de futebol, optámos por mudar a táctica, e garantir que os textos que aqui são escritos são opiniões independentes e que não se vinculam com a Ermida - Associação Cultural.
Pretende-se com o blog lançar um espaço de discussão livre e aberto, onde os temas da actualidade são abordados em opiniões fundamentadas (umas mais que outras).
Vamos assim começar com o elogio da derrota, que é como quem diz o FC Porto ontem perdeu e o Sporting ganhou.

sábado, 26 de janeiro de 2008

O elogio da derrota

Não há nenhum pensamento importante que a ignorância não saiba usar, ela move-se em todas as direcções e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem
Robert Musil, O Homem sem Qualidades



Rodney Stark, o autor citado pelo Magister, é o novo profeta de Deus. Afinal a questão é simples. O cristianismo (designação muito utilizada por tutti quanti mas que eu não sei o que seja) gerou o sucesso do Ocidente. Parabéns, caro leitor. Somos todos homens e mulheres de sucesso. Nas palavras de Stark, que o Magister aprova, este" sucesso do Ocidente deve-se a quatro grandes vitórias da razão. A primeira foi o desenvolvimento, dentro da teologia cristã, da fé no progresso. A segunda foi a forma como a fé no progresso incentivou inovações tecnológicas e de organização, muitas vezes apoiadas por centros monásticos. A terceira vitória foi que, graças à teologia cristã, a razão influenciou a filosofia e a prática política de tal maneira que surgiram na Europa medieval estados responsáveis com um elevado grau de liberdade pessoal. A vitória final foi a aplicação da razão ao comércio, que resultou no surgimento do capitalismo dentro dos ambientes seguros proporcionados por esses estados. Foram estas as vitórias que levaram o Ocidente a vencer. "

Não contesto. O ocidente venceu, o progresso venceu, a razão venceu, a tecnologia venceu, o capitalismo venceu. Tudo graças ao cristianismo e à crença num Deus racional (outra criatura que eu não sei o que seja).

Uma pesquisa no Google logo colocar diante do olhar estupefacto a multiplicação de textos, comentários, críticas positivas perante os livros e artigos de Stark. Entre os seus críticos contam-se uma minoria.

Descobrimos, entre outras coisas, um texto de Rodney Stark, "Fact, Fable, and Darwin" (2004) onde vemos desfilar toda a imponência criacionista de argumentos estilo…“ Nós somos muito humildes e não se pode saber nada sobre a origem do homem, logo Darwin e seus sequazes impuseram a teoria aos fracos e oprimidos do conhecimento”. Claro que, quanto às tolices históricas em torno da influência positiva de uma amálgama pastosa composta por cristianismo, Igreja, teologia cristã, comunidades cristâs primitivas, catolicismo, já podemos saber tudo e mais um saco de batatas. Et voilá, o “grande sociólogo das religiões" defende a abolição da teoria da evolução e o envio de Darwin para a gaveta. Porque será que isto não me espanta.

Sabe, caro leitor, às vezes acredito no conhecimento, na Universidade, na leitura, na capacidade de o homem discernir, pensar, avaliar, olhar para o passado, discutir sobre os factos, estabelecer o que são territórios conquistados e o que são mundos por descobrir. Mas depois assalta-me o fantasma de Darwin Nietzsche e Foucault. Então penso: não há outra coisa se não luta, “todo o ser vivo quer expandir a sua força, a própria vida é vontade de poder”.
Talvez fosse interessante este "duo dinãmico", Magister e Stark, Batman and Robin, dedicarem-se a um projecto de investigação:
a) Onde terá nascido esta canção do mercado e do sucesso que, agora pela mão de Deus e de Jesus, o Cristo, tudo engole?
b) Porque será que os discursos de poder têm esta capacidade de secar toda a possibilidade de crítica? (Os textos de Stark já devem ter tido mais leitores que 150 anos de Origem das Espécies). Já sei, é a força da razão e do Deus racional que escreve direito por linhas tortas, enterrando tudo o que cheira ao mínimo trabalho de interrogação e multiplicando edições da Bíblia e onde o racionalismo germina como lagartas em galinha podre, explondido em ciência e tolerância. Platão, Aristóteles, Sócrates, Heraclito, Tácito, Eurípedes, Plínio, Cicero, Arquimedes, Pitágoras, Sófocles, Lucrécio, Séneca, Ovídio, Epitecto, Empédocles, Anaximandro, Demócrito, Anaxágoras, Epicuro, Marco Aurélio, Tales, Plotino, Hiérocles, Antístones, Zenão, Plutarco, Heródoto, Tucídides não passam de um bando de intelecutais de gabinete às voltas com a derrota, coisas sem aplicação no mercado. Esta gente devia toda ser banida do nosso ensino escolar. Entretanto, surge à direita o meu gato:
Alf, mas essa gente há três séculos que não faz parte do ensino.
E muito bem, respondo eu.
Torna o meu gato: Mas olha que sem a filosofia grega e as instituições romanas não há teologia cristã. Por isso é que os filósofos das luzes, grande parte deles cristãos com uma cultura clássica consistente, voltaram às fontes para perceber o que se tinha perdido. O resto são as lutas marcadas pelo binómio saber-poder. Em todos os tempos o saber serve o poder e o poder serve o saber. Por isso esta desorientação com a verdade. O único saber que não se deixa domar pelo poder é o silêncio. Por isso nem Sócrates, nem Cristo, talvez os dois maiores professores, escreveram o que quer que seja.

Nisto, recordo que, como escreveu um dia Yourcenar, também eu sou daqueles que reconheceram demasiado cedo a derrota, logo na juventude. Baixei os braços e a cabeça. Na bela citação da Íliada, que Yorcenar tanto amava na limpidez do mundo grego, lembrou a pergunta inicial, aquele gosto luminoso que teima em não vencer, ao contrário do cristianismo e do Ocidente; o gosto de perguntar mais do que responder: “Filho do magnânimo Tydeo, porque te informas sobre a minha linhagem? As raças dos homens são como as das folhas”. Talvez se reconheça aqui a pergunta, indiferente e desmotivada de Pilatos, a pergunta sem resposta, permanecendo sem resposta, ensombrando o sucesso do cristianismo e do Ocidente: “O que é a verdade?”



Do baú das memórias

O Joselito quando era novo:



Depois disto andou nas drogas duras, foi mercenário e a vida azedou.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

César das Neves: o mestre que nos guia

O caro leitor irá desculpar a repetição. Parafraseando Ruy belo, por sua vez parafraseando o Livro dos Provérbios, “não convém que o cão volte ao seu próprio vómito”. Acontece que eu, autor destas linhas, cão negro, além de piolhento e deprimido, tenho por costume voltar ao próprio vómito, a fim de não esquecer a que sabem as entranhas da terra. Os cães costumam ser amigos do homem pelo que, além do vómito, não posso deixar de ladrar ao cowboy desta caravana sinistra e pejada de larápios, a quem, a caminho da Jerusalém celeste, não terá lembrado o facto de, por vezes, no meio do deserto que é Portugal, algum cão da periferia ter ultrapassado o 12º ano e lido pelo menos dois livros e meio de história. O caro leitor desculpará pela extensão do texto mas esta é uma longa viagem que merece a imensidão do espaço e a respiração dos astros. Tem o cheiro da expedição ao abismo e o ruído das perigosas feras na escuridão da noite. Nem o leitor encontraria animais tão raros em plena savana africana.


Recentemente surgiu no Diário de Notícias o texto “COMO A IGREJA CRIOU A EUROPA” da autoria do Magister César das Neves. Aviso desde já os mais sensíveis que, mais uma vez, a estrondosa argumentação, ao desmontar mitos de séculos, pode provocar uma visão do eterno, nalguns casos poderemos mesmo contemplar a face de Deus. Deste modo recomenda-se a leitura moderada de forma a evitar a perda de consciência.

O texto abre com as trombetas de uma novidade espantosa:

«’Como os debates da Constituição Europeia e Tratado de Lisboa mostram, a Europa vive uma grave crise de identidade. A origem profunda está num antigo mito que o volume A Vitória da Razão (Random House, 2006; Tribuna da História, 2007) do grande sociológico da religião Rodney Stark se esforça por destroçar. O subtítulo indica-o claramente: "Como o Cristianismo gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico no Ocidente."»

Na verdade, não só gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico, como a varinha mágica, a barbie, o martelo pneumático, a bíblia ilustrada e os pensamentos da irmã Lúcia que não devem ser descurados na emergência deste milagre cultural que é a Universidade Católica. Seguro desta verdade, única e inabalável, este catedrático avança por um poderoso encadeamento de factos indesmentíveis:

“Esta ideia não surpreende. Dado que a Europa criou os valores da sociedade moderna e é uma zona cristã, seria muito estranho não existir uma relação estreita entre esta origem e aqueles efeitos. Apesar disso é preciso afirmá-lo, porque segundo a tese comum, a Igreja manteve o continente na obscuridade e miséria durante séculos até que a emancipação, com o Humanismo e Iluminismo, permitiu a ciência, liberdade e prosperidade actuais. Esta visão, divulgada por discursos, livros de escola e tratados de História, é simplesmente falsa”

Em seguida conclui:

“Pelo contrário, a Igreja Católica, vencendo o paganismo obscurantista e civilizando os bárbaros, foi uma poderosa força dinâmica, estabelecendo os valores de tolerância, caridade e progresso que criaram a sociedade contemporânea. A Idade Média, conhecida como "Idade das Trevas", foi uma das épocas de maior de-senvolvimento e criatividade técnica, artística e institucional da História”

Não sei se o caro leitor reparou no salto "zona cristã para Igreja Católica". Eu, pelo menos, gostei muito. Apesar da leve indisposição, devo dizer que engoli com satisfação as galáxias de distância entre o percurso católico e os diferentes movimentos e credos iniciados com Lutero. O Magister Neves vai então expôr de forma pujante uma história que, pela sua eloquência, consistência, robustez e beleza, não tenho coragem de interromper. Até já, caro leitor. Vemo-nos daqui a uns séculos…

“As razões desse engano são muito curiosas. Como explica Stark, todas as ditaduras exploram o povo para criar obras grandiosas à magnificência dos tiranos. Foi assim Roma e os reinos orientais. Destroçado o despotismo com a queda do império, a Cristandade gerou um surto de criatividade prática, pois as populações não temiam a pilhagem dos ditadores. Assim as realizações da Idade Média resultaram em melhorias da vida das aldeias, não em monumentos que os renascentistas poderiam admirar. Por isso esses intelectuais posteriores, nos seus gabinetes, desprezaram uma época sem mausoléus, enquanto louvavam as tiranias de que só conheciam a arquitectura e a erudição. Os avanços conseguidos na chamada Idade das Trevas são impressionantes, todos dirigidos a melhorar a vida concreta (op. cit. c. II): ferraduras, arado, óculos, aquacultura, afolhamento trienal, chaminé, relógio, carrinho de mão, etc. A notação musical, arquitectura gótica, tintas a óleo, soneto, universidade, além das bases da ciência, a separação Igreja-Estado e a liberdade dos escravos (c. III) são também criações medievais. Em todos estes avanços, e muitos outros, têm papel decisivo mosteiros, conventos e escolas da catedral, bem como a confiança da teologia cristã no progresso, contrária à de outras culturas. Mais influente, nos séculos XI e XII em Itália nasceu o capitalismo (c. IV), sistema que suporta o desenvolvimento, e que tantos ainda julgam ter origem oitocentista e protestante. A prosperidade mercantil e bancária então conseguida gerou verdadeiras multinacionais que promoviam a manufactura e comércio na Europa saída do feudalismo. Depois a peste negra, a guerra e os déspotas iluminados, retornando à pilhagem clássica, destruíram esse florescimento e levaram os filósofos tardios a pensar ter descoberto o que os antepassados praticavam.

Nessa reconstrução perderam-se alguns elementos centrais da versão católica inicial. Por exemplo, no século XII, "cada vez que faziam ou reviam um orçamento era criado, com algum capital da empresa, um fundo para os pobres. Estes fundos aparecem registados em nome 'do nosso bom Senhor Deus' (...) quando uma empresa era liquidada, os pobres eram sempre incluídos entre os credores" (p.167).


Então? Sente-se bem? Vamos então ao relatório e contas. Devo confessar que neste momento hesito. Não sei se o que mais espanta é a má fé (concerteza uma invenção dos filósofos iluministas) se a ignorância (concerteza uma invenção dos ditadores romanos). Claro que não posso refutar esta bela canção. Os mistérios da arte devem ser respeitados. Mesmo a arte dos malabaristas, hoje em franca expansão com todas as artes circenses (outra bela invenção da idade média), deve ter um lugar no nosso coração. Fico apenas preocupado com os incautos alunos que, desprevenidamente, vão a caminho das aulas do Magister para ver levantar vôo a coruja de minerva e acabam a ouvir este faduncho inglesado. Nesta soturna noite em que nos encontramos, abandonadas as luzes excelsas da Igreja medieval, as noites são longas e o medo espreita outra vez nas carantonhas dos ditadores romanos. O belo e seráfico monge copia a sagrada escritura na placidez do bosque. À sombra dos carvalhos, o bom lavrador empurra o seu arado ao canto do ribero e o nobre (justo, bondoso e fraterno) protege os filhos de Maria, enquanto saltitam pelas veredas, a caminho do regaço doce, do casto gineceu da escola catedralícia. Todos dão as mãos em torno do criador e oram santificados pelos dons do espírito, elevados na comunhão do corpo místico de cristo. Uns governam, outros trabalham, os mais santos rezam. Não há sujidade ou impureza. Tudo é bom à sua volta. A guerra desvaneceu-se como uma nuvem cinzenta dispersa pelo sol da primavera, os tiranos greco-romanos (esses pérfidos homossexuais) foram degolados pela espada do viril bárbaro (agora civilizado pela mão do santo pregador da boa nova) e mergulharam na poeira do esquecimento, com os seus mausoléus e a arquitectura da sua oca erudição. A ciência e a fé, conduzidas ao redil da alegria pelo bom pastor, servem as aldeias bucólicas onde tudo é para todos, segundo os dons de cada qual. A alegria jorra pelos montes e a abundância das colheitas, animada pelas desobertas dos irmaõs monges, sacia a fome de todas as crianças, fazendo esquecer as lágrimas do tirano intelectualizado em Roma. Reina a Igreja de Cristo, mão protectora e doce, estrela que nos guia, sede da sabedoria.
Ó Magister, é noite e eu tenho medo, conta outra vez como foi.

O clube britânico

As afirmações de Berlusconi são prementes. Jesus Cristo não é o senhor. Berlusconi é o senhor Jesus Cristo. Logo na semana em que se falou de clandestinidade da Igreja, a semana em que o Papa saiu em ombros, com Rui Ramos (ó sábio de Entre-Campos) de bandeira liberal levantada bem ao alto. Resumo: o livre pensamento, as religiões como garante da protecção do indivíduo contra as religiões de estado, os nacionalismos assassinos e as religiões seculares do fascismo e do comunismo, que os arábes é que são culpados disto tudo sempre a arrebentar, a burka, o cinto de explosivos. Eu diria, em suma, que esta erudição histórica de quem acha que o mundo se inciou em 1776, com a publicação da Riqueza das Nações, cura-se de forma simples: sardinhas com vinho tinto.

Para quem não está familiarizado com a fina flor da pátria comenteira, Rui Ramos é o erudito pensador responsável pelo departamento humanidades do Compromisso Portugal. Nesse fantástico livro denominado Revolucionários vemos desfilar diante de nós, com todas as roupagens da revolução, o bafio secular do século XVIII (é claro, na sua versão via enciclopédia britânica traduzida por um adepto do Liverpool embriagado via golo do Simão em Anfield Road).

Alguém podia fazer o favor de me explicar o que fez esta gente em Oxford?

Em verdade vos digo. O Berlusconi é que sabe.

«While openly revelling in power, Berlusconi has also called it a burden, saying: "I am the Jesus Christ of politics." He once said he was second only to Napoleon in European political history, adding: "But I am definitely taller."»

Em verdade vos digo. É para rir.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Os relógios parados também estão certos

Após já boas horas de conversa com o Alf, tem sido fascinante aperceber-me (e vergonha minha só o fazer agora) que a História da Humanidade anda as voltas. ciclos que se repetem, com novas personagens, mas em que o fio condutor se volta a repetir. Eis mais um bom exemplo, muito bem apanhado via avatares:

"Palestinians streamed over the border to buy supplies that have been cut off from the Gaza Strip by Israel".

Não fogem do Egipto pelo meio das águas mar vermelho. Vão para Egipto em busca da comida tal como foram um dia os filhos de Jacob, os irmãos de José. É de facto espantos
o como pode ser cruel a falta de memória.

Génesis 42: 1-Vendo então
Jacob que havia mantimento no Egipto, disse a seus filhos: Por que estais olhando uns para os outros? 2-Disse mais: Eis que tenho ouvido que há mantimentos no Egipto; descei para lá, e comprai-nos dali, para que vivamos e não morramos.

Mais fotos do novo ciclo aqui

"E a ficardes cá só vós, que Deus me leve de vós bem antes disso"

via Bandeira ao vento

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Tabacaria



A lei do tabaco tem ocupado mais espaço do que merece. É inegável que a lei chegou, pelo menos em parte, porque os fumadores abusaram um pouco da paciência social dos não fumadores. Fumava-se em todo o lado onde, manifestamente, não era prudente que se fumasse. Plataformas do metro, espaços exíguos, até hospitais. Mas os bancos, as seguradoras, a PT, também abusam (todos os dias, sem que chegue uma lei que os meta no sítio). Acontece que com a lei do tabaco não chega apenas a protecção do fumo. Chega também um celofane contra esta sujidade imensa que é estar vivo. Há, é certo, o argumento do incómodo provocado a quem não é fumdador. O problema é que estarmos todos no mesmo espaço é incomódo. Porque uns preferem respirar o ar puro e outros respirar alcatrão, monóxido de carbono e nicotina. Assim como uns preferem ler Bento XVI, a irmã Lúcia ou Magister César das Neves e outros Marx, Foucault ou Ruy Belo. Tudo depende se preferimos ter a nicotina nos pulmões ou no cérebro. Há os bem-aventurados que não têm nicotina, nem nos pulmões, nem no cérebro. Calma. Não puxem já da pistola, perdão, do spray ambiente. Eu sei que estou a reduzir a questão. Mas são assim os lógicos, gostam de reducções e outras violências aritméticas.


Não está em causa que o tabaco é um vício que se agarra desprevenidamente pelas mais variadas razões e que nada de assinalável acrescenta à existência, para além dos problemas respiratórios. Mas esta é justamente a definição da maior parte das coisas que fazemos todos os dias (dos seguros ao trabalho dos merceeiros, da investigação em pedagogia de bolso ao vómito cimenteiro sobre o território, da medicina plástica à indústria dos enchidos, do ginásio ao marketing dos cereais fitness. Não tenho nada contra a protecção do ar ou a reprodução coerciva da vida saudável, simplesmente começo a sentir uma irresistível vontade de meter muitos cigarros na boca. Parece que mata mais depressa. Parece que tira em média dez anos. Está bem, concedo. Mas quantos anos nos tiram a ansiedade causada pelo mau planeamento do território, as discussões em torno dos baixos salários, a gordura do queijo, dos fritos, dos enchidos, da dobrada. Quantos anos, horas, perdemos em actividades inúteis, nas filas do trânsito, enquanto respiramos o saudável escape (parece que este caso a céu aberto não se inclui nos malefícios), de pé nas repartições enquanto desgastamos as articulações dos ossos (haverá estudos sobre os malefícios da religião como reducção da qualidade de vida, física e intelectual?), sentados no sofá enquanto queimamos os neurónios? Quantos anos de vida nos são retirados, pelo simples facto de estarmos vivos? Tudo isto, eu sei, pertence à liberdade de cada um. Exacto, tal como fumar. Pelo que voltamos à questão: apenas está em causa a protecção de quem não quer fumar, porque no que diz respeito a saúde, não me venham com proibições e virtudes (já disse que não me peguem no braço). Para garantir a protecção dos fumadores, proiba-se o fumo no espaço público, mas fique ao critério dos proprietários privados (empresas, cafés, lojas, restaurantes) a escolha do ar que querem ter no seu estabelecimento. Com ou sem fumadores. No caso de escolherem o fumo, basta sinalizar, sem qualquer necessidade de controlo do ar. Quanto a sindicatos, na protecçãod e trabalhadores não-fumadores. É um problema que devem negociar com a entidade patronal, tal como o salário e as férias, ou subitamente descobriram que têm direitos para não respirar fumo, mas não para impôr subidas dos salários. O sindicalismo está cada vez melhor...

Já sabemos que passamos a viver mais, a qualidade do sono, o gosto dos alimentos. Concedo novamente. Devo confessar que nem sequer sou fumador, embora, volto a dizer, me apeteça um cigarro. O problema, caro leitor, é o que vem aí. Ninguém duvide, começa a ser claro, que já vem a caminho passarada e da grossa. Algo me diz que não é a Igreja que vai passar à clandestinidade. Talvez a física teórica, a história e a filosofia passem mais depressa à clandestinidade do que a Igreja.


Tudo isto decorreu da bela prosa do Besugo, nestes dias de Prós e Contras, esse espaço sobre tudo e mais um cesto de maçãs.

“Multiplicai-vos e vivei para sempre, inenarráveis chatos, paneleiros e paneleiras do caralho. Mas a chá e a incenso não ides longe, nessa merda de viverdes saudáveis até se vos entupir a "veia da vida", uma que fica ao lado da inteligência, vós nem sabeis bem onde isso é, que não há bibliografia.
E a ficardes cá só vós, que Deus me leve de vós bem antes disso”

posted by besugo @ 3:02 PM 21.12.07, Blogame mucho




Ou se quiserem a versão mais elegante de Álvaro de Campos na Tabacaria

“E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando”



Einstein gostava de fumar cachimbo. Podia ter morrido de cancro. Podia não ter pensado sobre a relatividade. Pois é. Mas também podia não ter escolhido a ciência e ter aberto um negócio de exportação de camisolas de lã. Nem por isso deixou de poder escolher, facto que fez dele aquilo que foi. Um físico e um fumador. Além de que parece que defendia o socialismo e o planeamento da economia. Preocupava-se mais com Newton, Hume, Espinoza ou Gauss do que com o seu corpo. Sem dúvida, pertence a uma raça em vias de extinção.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Eles sabem bem o que fazem, não sabem é o que poderiam antes fazer

Um dia Cícero terá dito que o dinheiro é o nervo da guerra. Richelieu, na boa esteira do classicismo francês, não se cansou de o repetir. Toda a revolução industrial, apesar das "robinsonadas económicas" foi suportada pela guerra no Atlântico. A bomba, como reducção dos custos de transacção, continua a ser a estratégia de mercado mais eficaz. Em 2007 foi publicado na Princeton University Press um estudo sobre a importância da guerra no desenvolvimento da economia-mundo. Há quem acuse estas leituras de simplismo. Que a guerra é muito complexa, que a cultura e tal... Pode ser que seja. Nós somos muito mais que o nosso estômago. Acontece que almoçamos todos os dias (e como não se cansa de repetir o Magister Neves: não há alomoços grátis. Tomamos o pequeno almoço, o lanche, o jantar, a ceia, andamos vestidos, compramos casas, discutimos a inflacção, sonhamos com o aumento, pensamos nas contas, negociamos o crédito. É verdade que vamos à missa, à música na Gulbenkian, ao futebol. Acontece que a tudo isso subjazem relações de força, traduzidas nas relações económicas. A competição faz o mercado. A competição última, decide-se pela força dos argumentos. O melhor argumento é sem dúvida a exterminação do adversário. A guerra impõe-se como necessidade oculta das nossas relações objectivas, enquanto a competição não for substituída por outras formas de relação. A gasolina que compramos, as relações de mercado das quais fazemos depender o equilíbrio político e a segurança, a flutuação dos preço dependem de relações de força, onde concorrem factores muito variados mas que, nas suas consequências últimas gerninam nas relaçoes de força. Neste sentido, os homens da guerra precisam de ser protegidos, para que zangadas as comadres não se saibam as verdades. Às tantas poderia ficar claro que é tudo mais simples do que parece e isso não seria benéfico para o comportamento das bolsas.

Daí que a vida política esteja sempre dividida entre dois planos: o plano das acções concretas, que é simples e deriva das relações sociais objectivas; e o plano das explicação das acções concretas, que é complexo e se relaciona com as motivações dessas relações sociais subjectivas. Ninguém, depois de Marx, sintetizou isto melhor do que Pessoa: "o único sentido oculto nas coisas é as coisas não terem sentido oculto nenhum"

Perdoem-lhes porque não sabem o que fazem

Uns sobem ao topo do mundo. Outros fazem o possível para descer o mais que podem. Parece não haver limites para este senhores:



via dragão

Tell me a story VIII

Um dia um homem decidiu escrever poesia. A vida não corria bem, o tempo mudava rapidamente, a política instável como as estações. Ao escrever poemas pensou que, não salvando o mundo, salvava pelo menos a língua. Conheceu a guerra, deu morte a homens e outros animais. Regressou à noite, aos poemas e às mulheres. Nisto, aconteceu uma noite de fados e navalhas no dia do Corpo de Cristo. O resto, já se desconfia: tocado a vinho furou um homem importante e acabou na Índia como servidor do rei de Portugal. Passaram alguns anos, mais umas quantas mulheres, mais umas quantas páginas de poesia. Pelo meio um naufrágio e muitas dívidas.
Parece que muitos erros e alguma má fortuna, como convém a homens esclarecidos.
A morte surpreendeu-o entre a poesia. Não se rasgou o templo, não se converteram centuriões, não se inaugurou um novo reino. Foi apenas um homem que passou.

Fariseus e Doutores da Lei: o regresso

O caro leitor terá reparado que a polémica em torno do não discurso do Papa causou alguma turbulência nas sempre impassíveis águas do nosso quotidiano. A agitação universitária foi lestamente aplacada pela indignação. No Domingo os jornais multiplicavam a boa nova. No Vaticano, milhares de pessoas apoiavam Bento XVI. O Correio da Manhã dava o mote sob um título sugestivo, «Contra “censura” na Universidade». Não restavam dúvidas que dezenas de milhar de estudantes, políticos e cidadãos anónimos se tinham concentrado junto do Papa numa demonstração de solidariedade. Parece que o Papa, radiante e eufórico, naquele mesmo rosto alienado que lhe vimos à janela de S. Pedro, no dia da eleição, encorajou os “queridos universitários a respeitar sempre as opiniões dos outros e a procurar a verdade e a rectidão”. Aceitamos o desafio. Nesse sentido, respeitamos todas as opiniões (tanto a dos maçaricos-de-bico-direito como a do senhor Professor Marcelo). Quanto à verdade, à rectidão, e à consistência intelectual, resolvemos percorrer as páginas desse hino à liberdade de opinião, e de expressão, que é o Catecismo da Igreja Católica.


Na abertura desse magno texto, a Constituição Apostólica Fidei Depositum, assinada por João Paulo II, recorda que em 1986 foi confiada a supervisão de um novo catecismo a uma Comissão “presidida pelo senhor Cardeal Joseph Ratzinger”. Essa comissão tinha como missão “vigiar o desenvolvimento dos trabalhos”. Cá está mais um belo verbo (vigiar) que dignifica a tradição do pensameno livre preconizada pelo cardeal Ratzinger
A Comissão, ao vigiar o desenvolvimento dos trabalhos e a redacção, devia ter em conta conta as “explicitações da doutrina que, no decurso dos tempos, o Espírito Santo sugeriu à Igreja”. Ora aí está mais um consistente princípio intelectual, passível de verificação e discussão alargada. A “sugestão do Espírito Santo” tem aberto horizontes na explicação do homem, na libertação dos corpos, na melhoria das condições de vida das populações, no caminho da democracia, no desenvolvimento económico, no enraízamento da ética, no controlo da bola de Berlim, no aumento das diversões na feira popular, etc…

De qualquer forma, ao percorrermos as páginas do catecismo encontramos verdadeiras pérolas da consistência intelectual, da reflexão metódica, do pensamento estruturado, passíveis de crítica científica e de um verdadeiro manjar para a discussão universitária.

A título de exemplo vejamos o Parágrafo 390 em que se explana todo o profundo significado antropológico da Queda. Esse relato mítico, quase da mesma ordem do calcanhar de Madjer, interpreta com grande sapienza Gn, 3. Nessas sagradas linhas surge “uma linguagem feita de imagens, mas que “afirma um acontecimento primordial", um facto que "ocorreu no início da história do homem”.

“A Revelação dá-nos a certeza de fé de que toda a história humana está marcada pelo pecado original cometido livremente por nossos primeiros pais”. O acerto com que é fundamentada esta conclusão, a erudição das provas, a sabedoria das intuições, a solidez do argumentário é de fazer corar um Athusser, ou mesmo um Hegel.

Continuando a fértil leitura surge por exemplo que na opção de desobediência dos “nossos primeiros pais há uma voz sedutora que se opõe a Deus e que, por inveja, os faz cair na morte”. Só as galerias de conhecimento que se abrem, perante a nossa ignorância do processo de hominização, nesta metáfora dos “nossos primeiros pais”, justificaria por si só um triplo doutoramento honoris causa (Harvard-Oxford-Sorbonne) a Bento XVI, como representante do “livre pensamento e consistência intelecutal” do magistério.

Há mais. Se quisermos discorrer sobre a matéria angélica é todo um exposição clara e ambiciosa. A "queda" consistiu também na “opção livre dos espíritos criados, que rejeitaram radical e irrevogavelmente Deus e o seu Reino”. Temos um reflexo desta rebelião nas palavras do Tentador ditas aos nossos primeiros pais: "E vós sereis como deuses" (Gn 3,5). O Diabo é "o pecador desde o princípio" (1Jo 3,8), "pai da mentira" (Jo 8,44).

Mas não se pense que isto é um defeito de fabrico. Claro que não, em nome da sustentação do insustentável, perdão, em nome da consistência intelectual, foi “o caráter irrevogável da sua opção, e não uma deficiência da infinita misericórdia divina”, que fez com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado.

Todavia, não há razão para preocupações: “o poder de Satanás não é infinito. Ele não passa de uma criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito (…) Embora Satanás actue no mundo por ódio contra Deus e o seu Reino em Jesus Cristo (…) esta acção é permitida pela Divina Providência, que com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério, mas "nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam" (Rm 8,28).

Depois desta leitura proficiente, resta-me pedir desculpa por ter duvidado da consistência intelectual de Bento XVI e congratular-me pela rápida reposição da verdade. Farei penitência na cinza e rasgarei as vestes. Aproveito para censurar fortemente, reprovando a sua atitude desrespeitadora das opiniões, os professores e estudantes da Universidade de Roma. Iníquos, na forma como insultaram a dignidade pontifícia e a multidão de Católicos, esses universitários teimam em não perceber que a agitação que provocam, a sua luta contra a tradição, o seu desrespeito pelas veneráveis autoridades da fé, numa palavra, o seu reino, não pertence a este mundo.