quinta-feira, 10 de outubro de 2019

O Prémio.

Declaração de interesses: este é um texto movido pela inveja. Ver alguém ganhar 25 mil euros e de caminho ser incensado pelas mais prestigiadas instituições políticas e culturais, é de uma pessoa ficar sem dormir uma semana. Sendo o autor jovem, com bom aspecto e beneficiando do material genético do maior ironista em português de todos os tempos, é coisa para um gajo se atirar ao rio. Sentirás, caro leitor, quem sabe, um certo ressabiamento a querer erguer a sua cabecinha escamada, entre as frases, as ideias e os símiles do texto que se segue. Ou como disse, certa vez, uma nossa comentadora aqui no blogue, poderás dar de caras com um «recalque do tamanho do mundo». Um recalque, digamos, do tamanho dos 25 mil euros mais os 100 mil do prémio Leya já entesourados, o que tudo somado, dará uns 300  mil euros, se acrescentarmos os chorudos juros do contexto bio-sociológico. Mas citando o próprio autor, a natureza humana tem o melhor e o pior. Há quem receba os louros do melhor. Da nossa parte, cumprimos a função de garantir a continuação do pior. E a Literatura, como o futebol, é isto mesmo.

O membro do júri, a quem coube fazer o elogio da obra e doautor, explicou que os seus caminhos e os de Afonso Reis Cabral já se cruzaramantes, “algures nas regiões etéreas da universidade”, mas que não foi por issoque votou em Pão de Açúcar: “Votei na obra dele porque de facto admiro muitoeste autor”.

Ando nos últimos dias atrapalhado com um problema digamos, de natureza esfíngica: não será chegado o tempo de reconhecermos os limites epistemológicos da nossa pobre cabeça humana? Não será a hora de consagrarmos ao sorteio uma boa parte das nossas escolhas? Não, de modo algum. Felizmente, alguém zela por nós e acende nos pântanos fumegantes das grandes superfícies pejadas de livros empilhados, o caminho das delícias eternas, ou se quisermos citar um ilustre membro de um júri recente: o caminho que nos permite «o prazer da literatura pelo mistério de tocar a alma mais pungente da realidade». Logo a pessoa humana sente o instinto de se precipitar para a caixa registadora com o livro na mão, a fim de tocar a alma mais pungente da realidade, isto na hipótese de a simpática colaboradora não nos deixar tocar o seio não menos pungente da sua corporalidade. Lá está a mente a resvalar para a natureza, mas aquela que parece mal, a natureza de todos os dias, a que não cabe no caminho estreito da Literatura. Eis o mistério que os reverendíssimos membros do júri logo se apressam a desvendar, em frases de uma inacreditavelmente generosa (e rigorosa) análise do problema.

Um ponto prévio. Apesar dos esforços dos júris, e dos magníficos autores premiados ao correr dos dias - disponíveis para oferecer o seu «talento literário e também», nas palavras da Sua Excelência (continência) a Ministra da Cultura, a sua «imensa dignidade e sentido ético» - no fundo, não se pode esperar que sejam os referidos júris, as instituições empresariais e o Ministério da Cultura, a fazer tudo. É fundamental que o público se digne a mexer os neurónios, e desça dos seus instintos congénitos para o hambúrguer e o Despacito,  e reconheça o que não pode deixar de ser reconhecido: que os premiados acrescentam às - e passo a citar - Letras Portuguesas, casos irresistíveis de esplendorosa originalidade, desta feita, resgatando (e passo a citar) do «esquecimento acontecimentos que os jornais e os relatórios da polícia tinham tratado de forma redutora e parcial com silêncios e omissões que o autor se propõe aqui a revelar». Note-se: o autor não se limita a ser um talento literário e um contributo para as letras Portuguesas, o autor não se limita a ser um cavaleiro andante da memória e do esquecimento, o autor propõe-se ainda - e consegue - vencer o tratamento redutor e parcial (e chamo a atenção para a Correio da Manhã TV) dos jornais e relatórios da Polícia acerca do caso Gisberta. Moita Flores e Carlos Anjos: andais a dormir!

(...) Pão de Açúcar “não foi influenciado por nada” a não ser pela “procura da natureza humana no seu melhor e no seu pior. Inspira-se num caso real mas, para mim, vive da ficção”.

Com a calma que é possível, somos levados a constatar que vivendo da ficção, o livro suplanta os Relatórios da Polícia. Percebemos agora melhor - e por isso agradecemos ao júri - as razões do prémio. Deslindar um caso policial já seria muito, mas o autor resgata da realidade a alma pungente e de caminho, procura pela natureza humana. Bendito seja, é tudo quanto pode dizer-se sem ofender os deuses da justa medida. Só um demiurgo, um génio da prestidigitação, um ser paranormal, um Deus da percepção, um campeão da sensibilidade literária, seria capaz de, numa pernada, desautorizar a Polícia e o Sistema Judicial (que digo eu, os próprios fundamentos da Realidade e tudo o que julgamos - sim, julgamos - saber sobre a Natureza Humana). Tudo isto, produzindo uma obra-prima que inspirada na realidade, não é contudo a realidade. Tremei ó paradoxos de Zenão, um outro nome vem para inscrever-se nas bibliotecas do mundo.

Quem passa os olhos pelas justificações de mais um prémio literário, além de encontrar um mais do que provado conhecimento da Coisa Literária (professores obscuros, poetas de terceira divisão, gestores de empresas com notável conhecimento dos hotéis italianos) vê com doce perplexidade as justificações passadas à imprensa. Uma pessoa - entre o pastel de bacalhau e o penalty - bem se esforça por ascender às regiões alpinas ou interestelares, onde a matéria negra da Literatura contamina espiritualmente os tocados pelo mistério. Temos de aceitar a nossa incapacidade, se queremos chegar a vislumbrar coisas tão profundas. Somos estúpidos, temos o hábito de ler livros e utilizar as mais elementares regras da Lógica e por isso, melancolicamente, damos por nós a bater com os cornos no portão da Literatura como Macbeth nos portões do Inferno.

O autor esclarece então o paradoxo:

Citando André Gide, declarou que “bons sentimentos não fazem boa literatura”, frisando que “os livros têm de ser lidos à luz do que está escrito e não [à luz] das boas intenções ou da biografia de quem os escreveu”.

Ora, a ver se a gente se compreende, como diz o Eclesiastes. Citando André Gide - esse poço de sabedoria intemporal - num tempo de moralismo, cabe ao premiado-agraciado – cuja aceitação do esquema premium é desde logo um moralismo e dos valentes – descontaminar e desmoralizar a leitura, dizendo de que modo o pobre e estúpido leitor deve exercer c-o-r-r-e-c-t-a-m-e-n-t-e a sua leitura. Aliás, o tom é cristalino e alérgico a ambiguidades: «os livros têm de ser lidos à luz do que está escrito». Tal como as laranjas têm de ser pesadas à luz do seu peso e as canções interpretadas à luz do que foi cantado. Segundo julgava saber, na minha terra, chama-se a isto moralismo. E moralismo assente na mais tola das premissas: a de que o texto é uma entidade divina cujo significado se encontra encerrado nas quatro linhas desse relvado significante, e em péssimo estado, a que chamamos Literatura. Como o autor premiado-agraciado nunca seria capaz de produzir uma tolice destas, e a minha biografia não pode ser invocada para ler este texto, resta-me parabenizar as leis da Lógica deste nosso admirável mundo.

Felizmente (duas vezes o digo) o júri sabe da poda e por isso clarifica, perante as mentes menos dotadas, o potencial da obra, usando para isso artefactos infalíveis como «frescura estilística notável» e a capacidade de «equilibrar o próprio potencial trágico da obra», gerando no leitor «aquele interesse ou aquele querer saber que nos prende irremediavelmente ao texto que vamos lendo». A saber, (1) frescura, tal qual a alface, (2) equilíbrio, tal qual a teoria das vantagens comparativas e (3) interesse em querer saber, isto é, o factor "Dan Brown" mas em versão sacerdus magnus.

O leitor mais preguiçoso - e surdo às subtilezas da Literatura, como é o meu caso - pode contudo interrogar-se se a causa justa e urgente da dignidade dos transexuais não seria melhor defendida recorrendo a uma linguagem directa - com medidas concretas de protecção, segurança e apoio. Não seria o dinheiro do prémio mais justamente empregue no exercício de salvar outras «Gisbertas»?
Não, obviamente. Isso seria um ridículo moralismo e a insensibilidade digna de um filisteu. Isso seria colocar uma frágil cunha de boas intenções no reino das coisas-tal-como-são. Não se trata - diria ainda esse relapso leitor - de embirrar com a fértil fusão entre facto e ficção. Trata-se de uma muito provável falta de qualidade, e passo a citar, literária. Que os frequentadores do Goodreads e das Feiras do Livro sejam vítimas da estratégia do entesouramento, consideramos normal. Que os prémios (animados por - digamos - especialistas da Literatura) se prestem a agraciar quem responde ao mais normal (e legítimo, note-se) desejo de fama pública e repetição das convenções literárias, oleado pelo mais evidente sensacionalismo, é coisa que não pode deixar de surpreender. Mas tão estúpido leitor, felizmente, não existe. Estamos apenas no plano da ficção, ainda que inspirada pela realidade.

Sem tempo para mais, que a vida não agracia facilmente com 25 mil euros quem não merece, deixo-vos com votos de boas leituras e boa sorte ao premiado, sem esquecer uma última nota, triste e melancólica: pobre Gisberta, que não viveste o tempo suficiente para ler um tão grande autor; e ver como o teu sofrimento e a tua tragédia têm ainda o potencial suficiente para dar de comer a tanta pessoa ilustre.

Adenda: Para os que me consideram - justamente - um idiota chapado, convoco talvez um dos mais impressionantes autores de reviews do Goodreads (ver por exemplo a crítica de Ulisses, de James Joyce) Nelson Zagalo - que muito considerou o primeiro livro do autor, O Meu Irmão, mas que escreveu a propósito de Pão de Açúcar:

Mas era necessário este livro? Senti-me a maior parte do tempo um voyeur. Existe ali uma história, sem dúvida, mas devemos questionar-nos se produzindo obras como estas contribuímos para algo mais além do prazer do sofrimento de outrem. Repare-se que não precisamos de um livro para chamar a atenção, o assunto foi amplamente dissecado pelos media, e o artigo referenciado acima foi feito para recordar os 10 anos. Ou seja, o que podia um livro dar-nos mais? Conhecer melhor os envolvidos? Correto, mas com que objetivo, desculpá-los, ou aceitar a normalidade do acontecido? Repare-se que não é um assunto ficcionado para testar temperamentos ou efeitos da fraca educação (que é parcamente definida no livro), trata-se de um caso real, com pessoas que existem e sobre as quais devemos ter uma posição enquanto sociedade. Humanizar é preciso, mas enquanto sociedade precisamos de balizas concretas sobre o que podemos aceitar e o que não podemos de forma alguma. Um livro destes coloca tudo em questão, faz-nos questionar, faz-nos sentir impotentes porque co-culpados pela falta de apoio que aqueles jovens tiveram nas suas infâncias, ou da aparente falta de apoio que Gisberta teve. Mas tudo isto não o sabíamos já antes de ler este livro? Onde está o rasgo da arte para nos despertar do sentimento cliché, para nos transformar? Tenho de dizer que não me preencheu enquanto obra, enquanto Romance, longe disso.

Adenda 2: Sobre moralidade (e pedindo desculpa pelo inglês - quando tiver tempo, traduzo)  e como já cansa a confusão mental em voga sobre uma suposta kriptonite moral da obra literária agraciada-premiada, talvez fosse de voltarmos a um livro recente de Terry Eagleton (esse relapso neo-marxista) The Event of Literature, Yale University Press, 2012 (p.68): 

«(Martha) Nussbaum values plurality, diversity, open-endedness, irreducible concreteness, conflict and complexity, the sheer agonising difficulty of moral decision (what the French hyperbolically call its ‘impossibility’) and so on. These are precious values on any reckoning, but Nussbaum seems largely unaware of just how socially and historically specific they are. They are more typical of a middle-class liberal than a working-class socialist. It is not surprising that she takes her literary cue so often from that doyen of exquisitely agonised liberals, Henry James». 

Calma camaradas, está tudo bem.

1 comentário:

Anónimo disse...

Abençoado prémio lá do não sei quê... valeu a pena só por ter posto fim ao período de hibernação dessa tartaruga do criticismo literário que é o Alf.