terça-feira, 28 de março de 2017

Na sociedade da informação, o mérito, seja homem ou mulher, é de quem conseguir terraplanar a complexidade com um sorriso nos lábios


Portanto, deixem-me ver se estou já devidamente embriagado ou não. A imposição (artificial) de um mínimo de representação de mulheres vai acabar com a escolha dos homens só por serem homens. A meu ver, invocando a teoria dos conjuntos e as pressões reprodutivas da selecção natural, a avaliação dos mecanismos de «escolha dos homens só por serem homens», no caso de uma suposta medição dos critérios e análise da eventual justiça meritocrática da escolha, teria sempre de lidar com quantidades relativas, como por exemplo o número de homens interessados em cargos políticos à partida, num estado inicial, e as escolhas efectivas, no ponto de chegada, introduzindo depois o elemento, e passo a citar, «natural», acerca dos géneros reproduzidos no ecossistema, avaliando então o sistema informal de cotas. Até se pode dar o caso de termos uma pressão muito superior nos concorrentes masculinos. Imaginem um cenário onde 10 000 homens tentaram ser políticos e apenas 100 conseguiram e 50 mulheres tentaram idêntico desiderato (uma palavra que ainda não tinha utilizado no meu tempo de vida) e apenas 5 mulheres conseguiram o cargo. Não é necessário ter recebido o nome de Isaac Newton para compreender que a pressão meritocrática, nesta hipótese académica, seria superior para os homens, apesar da inferioridade comparativa em termos absolutos. O que estaria aqui em causa não seria tanto o mecanismo de selecção mas a razão de existirem muito menos mulheres interessadas nos cargos políticos, o que não é a mesma coisa. Não sei se o estudo faz isto, não fui ler, não sou maluco. 

Na verdade, é absolutamente espectacular de um ponto de vista cosmológico que a Fernanda Câncio, sempre disposta a ter em conta os meandros infinitesimais do sofrimento humano, apareça aqui a defender que o mero estreitamento dos canais de acesso a um dado conjunto humano, seja por si só, uma garantia de justiça e paz no amplo conjunto dos interessados na vida eterna. Saúdo os mais recentemente convertidos ao capitalismo selvagem legitimados pela luta de género. Acho, contudo, extraordinário, a introdução da meritocracia (oleada pela mecânica dos fluídos) ao nível da sustentação dos direitos sociais legítimos. As cotas também podem (se os critérios de escolha dos homens forem simplesmente parvos) expulsar ainda mais homens competentes dos cargos políticos, e trazer as únicas cinco mulheres incompetentes para a representação política, Aliás, creio que esta é a hipótese mais provável, no actual cenário.

Estarei com isto a defender uma repugnante descriminação do sexo feminino? Não me parece. Avancem as cotas, e sem qualquer discussão sobre os critérios de selecção dos candidatos a cargos políticos em geral. Se escrevo este texto é apenas por embirração com a Fernanda Câncio (não por ser mulher, isso pelo contrário, até a favorece, peço desculpa, isto é sexismo, devia já passar ao insulto, mas nesse caso, seria acusado de sexismo, enfim, valha-me deus, estou confuso) e sobretudo indignação perante o tratamento leviano de um tão fundamental assunto. Platão já esgotou o tema com o seu diálogo Teeteto (não sei se etimologicamente o título está relacionado com tetas, mas parece-me que não). No fundo, Fernando Câncio, com a eficácia que a caracteriza, está aqui a recorrer a uma das mais bem remuneradas práticas da vida moderna: para resolver um problema, colocamos em prática um mecanismo, qualquer que seja a relação deste mecanismo com o problema. Se o mecanismo funcionar, aconteceu ciência, mesmo que o problema se tenha agravado e multiplicado por mil.

1 comentário:

Um Jeito Manso disse...

Por acaso, estava a pensar começar por dizer que talvez quisesse dizer 'quotas' e não 'cotas' mas, prudentemente, fui verificar e, vá lá, salve-se isso: 'cota' pode ser sinónimo de 'quota' e, portanto, adiante.

Quanto ao resto, com o propósito de ser engraçado e fazer alusões mais ou menos discretas, perde-se em argumentações muito ao seu estilo. E, com isso, se me permite, esquece um aspecto: nem todos os homens em lugares de exercício de poder são medíocres mas muitos são, medíocres (e, talvez por isso, cobardes), e esses, pelo instinto de sobrevivência, tenderão a escolher quem não lhes faça sombra, quem não desestabilize o habitat e, portanto, tudo menos meter ali, no meio deles, uma mulher, em especial uma mulher com valor.

A evidência dos factos fala por si.

Não vale a pena invocar os gregos ou as velhas leis da física. Basta olhar em volta.

Há dias falei nisto (e fi-lo ao arrepio do que pensei até há pouco tempo):

http://umjeitomanso.blogspot.pt/2017/03/a-favor-das-quotas-para-mulheres-e.html

Uma boa noite, alf.