sexta-feira, 10 de março de 2017

A Pequena Europa e a grande chatice


Não sei se temos considerado devidamente a relação entre os «planos inclinados» e a «palavra como instrumento do pensamento». No meu caso, nutro um considerável interesse pela palavra como suspensão do pensamento ou mesmo como veículo das intenções mais baixas do instinto humano, ó maravilha fatal da nossa idade, a saber, a divinização de tudo quanto é humano, para citar Philip K. Dick, não foi o homem a matar deus, foi deus quem engoliu o homem, e isso tem sido um vasto problema, estamos todos cheios de ambições desmedidas, no fundo, não temos trabalhado bem o jogo interior, nem a reacção à perda, e isto vai de goleada em goleada.

Vamos lá ver se nos entendemos: a chamada recriação, nomeadamente, do porco preto, será também ela (a recriação do porco preto) subsidiária do pensamento? E quanto à cultura do pastel de bacalhau? Este exemplo foi dado por Lobo Antunes, numa entrevista relativamente recente, e parece-me um notável sintoma de hipocrisia intelectual, pois nunca vi a cultura do pastel de bacalhau devidamente tratada nas obras de Lobo Antunes, e o tanto que teríamos todos a ganhar com isso. Na verdade, se eu for andar de carrocel e tentar em simultâneo resolver umas palavras cruzadas, estamos diante de um exercício de recriação ou de um instrumento do pensamento?

Pergunta: onde pretende o senhor doutor autor da supracitada peça crítica, traçar a linha divisória entre pensamento e recriação? Paradoxalmente, os críticos literários, talvez por visitarem muitas vezes exposições de arte contemporânea, mantêm, regra geral, uma atribulada relação com a clareza do raciocínio, não gostam do lúdico, nem do entretenimento, nem do prazer da chalaça e do chavascal imagético, no fundo, são filhos do modernismo (essa adolescência tardia da civilização), não esqueçamos a carrada de horas passadas pelo pobre James Joyce entre melancólicos padres.

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Este assunto é tratado de um ponto de vista radical, num filme italiano da autoria de Tinto Brass, curiosamente, transmitido pela Correio da Manhã TV, numa madrugada destas. Com a excelente Anna Alexandrovna Jimskaya, nascida no Uzbequistão, de mãe ucraniana e padre russo, uma acrobata com experiência do circo, fabulosa atleta, praticante de ginástica artística e exímia bailarina clássica, o filme é uma reflexão sobre o mundo editorial, o desejo e as diferenças entre arte superior e chavascal. Vamos ver algumas imagens.

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Neste filme, a bela protagonista, fantasia eroticamente com uma relação adúltera, pois o marido (um editor) parece desinteressado de uma cabal utilização de todas as possibilidades do corpo feminino, isto sem ponta de exploração ou violência, mas numa verdadeira e cabal análise do prazer físico humano, amen. Com o pito a arder (peço desculpa mas a expressão artística não é minha) a bela protagonista trava conhecimento com um artista francês que a certa altura confronta o prazer oferecido pela leitura de vários autores, Byron incluído, e a posse, ainda que precária e breve, das excelsas ancas e das volumosas e firmes nádegas da bela protagonista, que vai coligindo todos os seus secretos raciocínios num livro, considerado pelo seu marido, e já perto do final do filme, como um obra-prima de erotismo. Dirão os mais conservadores: para certos homens, a mulher é apenas um objecto de prazer. Sim, é uma questão que nos inquieta, admitamos. A nós e a Homero, essa instituição colectiva, segundo a qual, a posse (repitamos, a posse) de uma mulher, leva os mais abrutalhados guerreiros do mundo antigo a mergulharem num arraial de porrada e assassínio, para resgatar a bela Helena. Isto é literatura masculina, por certo, e não estarei a ironizar quando antevejo um problema complicado, no momento em que o professor Eduardo Pitta considera que os melhores romances das últimas décadas tenham sido escritos por mulheres, dando o fabuloso exemplo da sua colega de trabalho, a vice-directora da Revista Sábado (onde, creio, escreve o professor doutor engenheiro Eduardo Pitta) de seu nome, Dulce Garcia, uma pessoa para quem Julian Barnes e Ian MacEwan são os modelos a seguir: o sagrado coração de Maria nos proteja, a julgar por este trailer, o livro deve ser um prodígio da profundidade literária, um hino à inteligência humana.

Ora, arrisco dizer, estamos aqui diante do principal problema literário de todos os tempos: atingimos a felicidade pelo chavascal ou pela ascese? E pensará a mulher da mesma maneira ou prepara, na sombra, uma revolução capaz de separar de uma vez por todas chavascal e ascese, negando aos homens a relação atribulada com o corpo feminino? Meus amigos, não será esta uma falsa questão? Creio que estamos, homem e mulher (e todas as variáveis possíveis a partir deste modelo binário) unidos na mesma luta: como intensificar o prazer sem destruir a fonte do prazer e sem nos destruirmos?

Do meu ponto de vista, e ao contrário do preconceito, não há qualquer divisão entre os sonhos de fusão sexual, voluptuosidade matrona e o triunfo intelectual da mulher. Curiosamente, as mulheres (devido ao alto valor conferido pelo desejo masculino ao prazer sexual) parecem ser as principais promotoras desta divisão, fazendo pagar bem caro a posse da beleza (loira burra) e ameaçando com o ostracismo social toda a mulher, apostada em baixar o preço do relacionamento sexual, o que é antes demais, uma tremenda castração da mulher como sujeito do desejo, e isso é justamente o que o filme de Tino Brass põe em causa, ainda que a condição fisiológica da mulher, considerada em geral submissa (como anatomicamente penetrada) seja um problema difícil de ultrapassar e tenda  a inquinar uma parte do debate. Diria, com a coragem que me assiste, que os homessexuais têm uma palavra a desempenhar na história sexual da humanidade, expondo como o ser penetrado (uma razão de opróbrio para a cultura romana e latina) em nada devia beliscar a dignidade das pessoas.

Na verdade, basta ler os comentários sobre as mulheres participantes na Casa dos Segredos ou das mulheres envolvidas na indústria da pornografia para se ter uma ideia deste problema, como se vender o corpo diante de uma câmara fosse assim tão diferente de vender a inteligência ao comércio da literatura e da reputação artística, ou da santidade religiosa. Custa-me sobretudo que Jesus Cristo tenha visto claramente visto este problema («comem comigo pecadores e publicanos») mas as pessoas em geral insistam em não ver.

No fundo, o problema da raiva contra o entretenimento, é um sub-problema da nossa relação com o prazer físico, ou seja, da nossa relação com os limites do nosso corpo. Não quero ressuscitar o cadáver de Freud, mas o facto deste velho austríaco e devasso se ter enganado em muita coisa, não significa que não tenha olhado para o fundo do abismo. Aliás, foi por ter olhado, sem medo, para o fundo do abismo que falhou redondamente e motivou o ódio generalizado, foi por nos ter assustado que hoje tão facilmente cuspimos no seu maravilhoso delírio.

Quanto a mim, e considerando as coisas de um certo ponto de vista, digamos, rebarbado, a recriação, o lúdico, o entretenimento, são conceitos a que falta uma historiografia do uso mediático e literário. Posso jogar xadrez, é certo, e com isso estaria a usar o pensamento, mas também posso recriar-me observando a Casa dos Segredos, e aí posso usar o pensamento mas também outro tipo de complexos físico-neurológicos. Na verdade, este assunto continua a ser embrulhado em celofane e distribuído como brinde avulso em jeremiadas produzidas por uma grande parte das pessoas da Cultura, sempre muito amiguinhas dos desgraçados, e veja-se o mais recente filme São Jorge, mas também sempre prontas a considerarem o seu gosto como um modelo da excelência universal. Pergunto: qual a diferença substancial entre o pensamento utilizado para tocar uma Sonata de Mozart ou aturar a Teresa de Guilherme, respondendo a perguntas comportamentais, durante meia hora? Claro que o problema está sobretudo naquilo a que chamamos educação, hábito, mecanismos de reputação, e não tanto no grau ou na intensidade da inteligência ou do pensamento. Não negamos contudo os continentes de distância em termos de horas de treino e automatismo acumulado na infância (para os quais é imperioso guito e estatuto), para não falar do custo de um piano em casa, o que desde logo nos remete para uma economia das funções intelectuais, tema que não tem merecido o interesse dos vanguardistas dos nossos dias (talvez exceptuando o chatíssimo e péssimo escritor Bordieu) e sabemos bem porquê. #poesia

Voltemos portanto ao assunto que aqui nos trouxe, um livro escrito por uma mulher educadíssima e espectacularmente inteligente.

A própria disposição textual do romance engendra um sistema respiratório do romance em que manchas textuais distintas correspondem a diferentes intensidades e sentidos. 

Isto poderia ser dito sobre o romance, o facebook, a lista telefónica, as legendas informativas do telejornal, os letreiros e montras de um Centro Comercial ou o teleponto da Cristina Ferreira. Peço ao estimado leitor para fixar esta curiosa semelhança entre o romance considerado vanguardista e o tipo de comunicação comercial do mundo contemporâneo, que parece contaminar toda a literatura dita de ruptura. Na verdade, a suposta ruptura, imposta pelo «fluxo de consciência» não é mais do que a consagração dos meios de comunicação de massas (jornais, rádio, televisão e agora facebook e twitter) em termos literários, de forma mais ou menos irónica, e basta, como exemplo, invocar a enorme preponderância da estrutura das notícias impressas em folha de jornal no Ulisses de James Joyce.

Com efeito, confesso estar perdido acerca do que pretende o crítico assinalar neste novo e desorientado livro de Mafalda Ivo Cruz. Mas temo ser aqui forçado a informar o referido crítico e a romancista, acerca de uma velha e recorrente problemática da arte narrativa: dizer qualquer coisa de relevante e original, com estilo, elegância e profundidade, é muito difícil, é quase um acidente estatístico, e depende de muitas coisas para além da vontade do autor. Ou seja, é preciso muito mais do que um ambiente propício e interesse literário. É necessário termos sido agraciados com uma espanholada das deusas, ou um minete dos deuses (para não sermos acusados de descriminação) mas aviso desde já como as deusas e os deuses são muito selectivos naqueles a quem conferem espanholadas e minetes. Ou seja, aos promotores da ideia da necessidade de excelência quanto aos leitores e à palavra como instrumento de pensamento, esquece tantas vezes que, pelos mesmos padrões de exigência, 99% dos escritores considerados como dotados de qualidade literária, não passam de pedantes desajeitados, com amizades seguras em pontos estratégicos da nossa cidade. Exemplo:

Nesse aspecto, importa que Schönberg compareça em Pequena Europa na sua dupla condição de compositor e pintor. Não só porque essa condição dual o torna menos linear e, portanto, mais frutífero para este romance de formação elíptica, espiralar, à maneira de Sebald, mas também porque a arte, no geral, desempenha um papel fulcral em Pequena Europa.

Em crítica admite-se tudo, menos o facto dos críticos não terem lido os livros. Ver neste livro Pequena Europa qualquer semelhança com Sebald é digno de uma arbitragem de José Pratas. Sebald tem um domínio narrativo, sequencial, e convencionalmente respeitador da paciência dos leitores, que em nada se pode comparar com o livro em apreço. A comparação com Sebald, portanto, só pode ser apontada por quem nada compreendeu dos textos de Sebald, onde a sensação de vertigem é dada pela deambulação interior da personagem, e não pela deambulação da linguagem do narrador, e é nesta tensão que está o génio de Sebald, o que vem na melhor tradição germânica. Como mostrar o absurdo e a loucura do mundo, virando o convencionalismo, a disciplina e a ordem (fontes de autoridade artificial) contra si mesmas, sempre respeitando a mais burocrática das subserviências perante a gramática e até um certo conservadorismo formal da linguagem. Isto, naturalmente, provoca tonturas. No fundo, se há coisa segura, sistematicamente cadenciada, quase proporcionalmente maquinal, de tão constante, na sua frieza recolectora, é a linha narrativa de Sebald. Nem sequer o parágrafo longo pode ser confundido com qualquer tipo de confusão permanente. Uma elipse não é uma espiral. Tal como a revienga de Zidane não é a revienga de Bruno Caires (e por isso, não há vídeos). O desajustamento entre as ideias da personagem, um homem perdido e deslocado do mundo, e o registo rigoroso, ordenado, até meticuloso da narrativa, é precisamente o grande feito daquele autor alemão. Por alguma coisa, Sebald eliminou as notas de rodapé dos seus livros, e como grande artista, percebeu rapidamente o estrondoso ruído provocado por qualquer acumulação pedante e deslocada de notas de rodapé, e tratou de conferir ao todo o livro a simetria e proporção. Exactamente ao contrário deste A Pequena Europa, onde a autora julga até pertinente informar-nos sobre os excertos onde a tradução é da sua autoria.


Sim, devemos todos perguntar: não começarão as tiranias pela publicação de romances estandardizados? Não começarão as tiranias pela leitura da revista Maria? Por certo, o gelado Calippo tem o seu papel na instauração dos regimes totalitários. Mas o que é um romance standardizado, professora doutora Mafalda Ivo Cruz? É um romance rapidamente publicitado e aclamado nas páginas de um dos jornais outrora mais vendidos em Portugal, sem isso corresponder a qualquer interesse público?

Da mesma forma, pergunto: o que é uma arquitectura previsível? Quando Julieta está prestes a ingerir o veneno, numa standardizada sequência, ou seja, numa sequência muito bem contada, sabe a professora doutora se a belíssima Julieta irá ter sucesso no seu encontro com o bem amado Romeu? E quando Julieta, diante da ilusão do seu amado morto, por uma falha de sequência no plano idealizado, decide interromper a vida, o que nos diz o percurso do veneno no seu corpo acerca da linearidade do tempo narrativo?

Com efeito, tenho uma outra explicação para esta tão popular recusa da linearidade: é mais difícil esconder o facto de não termos nada para dizer quando nos dispomos a falar claramente. Será um crime não ter nada para dizer? Não. Mas isso, de uma forma ou de outra, acaba sempre por notar-se, e de que maneira.

A narração revisita acções e atitudes, movimentações e características, como se estas fossem fantasmas que perseguissem a própria possibilidade de narrar, questionando, obsessivamente, “Como é ainda possível ficcionar, como contar?” (num paralelo irresistível com os loucos ou alegados loucos que povoam o romance) Porque Pequena Europa é muito mais um romance que pergunta do que afirma. Duvida mais do que acredita. Descrê da capacidade afirmativa e, sobretudo, lúdica do literário.

Se há coisa que me interessa na sociologia da literatura contemporânea, é esta embirração com a possibilidade do ficcionar e do contar e o lúdico no literário. Mas desde quando foi fácil contar? Só o olímpico desconhecimento da história da literatura considera ter existido um tempo onde era fácil contar. Que tenham existido pessoas com facilidade em contar ou escritores com uma prodigiosa capacidade de narrar, não significa que a sua eficácia lhes tenha sido oferecida de mão beijada. Quantas horas de conversa, quantos manuscritos lançados ao lixo. Mas não vieram para os jornais lamentar as suas limitações, pois a dificuldade do narrar é, no fundo, a dificuldade em legitimar o projecto literário, ou seja, é o centro explosivo do que faz de uma pessoa alguém consagrado pelo tempo e a comunidade como um escritor. Pois é, caríssimos leitores, menos choradeira e mais paciência. a fama perene, como bem sabiam os antigos, implica o risco da própria vida.

Muitos anos depois do pobre Walter Benjamim ter escrito, numa introdução a Leskov, umas páginas confusas (mas apesar de tudo pertinentes), acerca do declínio do narrador no mundo industrial, este autor que vos fala quer dizer como tantas vezes ouviu velhas analfabetas manejar com invejável arte todos os segredos da narrativa. A complexidade do enredo, a densidade das personagens, as suspensões e acelerações, as divagações sobre o saber técnico (e lembro as páginas admiráveis de Italo Calvino sobre a técnica de marinhagem nas fábulas populares italianas) as famigeradas quebras de linearidade, a diversidade dos pontos de vista, e até a torrente e o fluxo da consciência, tudo isso é familiar a muita gente absolutamente desconhecida, anónima, analfabeta, entretanto morta e enterrada e perdida para sempre. Creio que três elementos alimentavam essa magistral arte de contar, em risco de perder-se diante do pedantismo da literatura impressa: a alegria e o prazer da voz entoada, aquilo a que Ariosto chamava o «canto»; o amor pela fragilidade humana e a consciência das limitações da razão e do discurso, que tantas vezes vi, em criança, de olhos esbugalhados diante dessas velhas sábias, magoadas e dotadas de uma coragem física e moral intransponível; e por último, e apesar de tudo, o profundo amor pela vida e o sentido de utilidade da comunicação humana e do contar aos outros, mesmo diante de todo o mal, mesmo diante de todos os perigos e desastres, ou se quiserem, sobretudo, perante todos os perigos e os desastres, a começar pela dificuldade em ganhar o pão de cada dia.

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