segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A azia da influência: António Lobo Antunes e a dolorosa consciência da sua própria irrelevância

«Até Tolstoi é uma sombra insignificante, se for passear com Anna Karénnina».
Elena Ferrante, Escombros


Concordo em geral com o comentário aqui deixado, pelo nosso estimado leitor, Gerónimo Cão, à mais recente polémica literária, embora, no meu caso, dispensasse também as entrevistas dos últimos vinte anos, juntamente com os últimos vinte livros de António Lobo Antunes (daqui em diante, e até que a morte nos separe ALA). Arrisco dizer, a partir de Fado Alexandrino, entramos numa dolorosa e dorida repetição. Na verdade, estamos diante de um caso típico. Um escritor talentoso, abençoado pelo nascimento, a educação, e as condições materiais, um moiro de trabalho e um gigante na determinação, acaba por revelar-se incapaz de produzir uma obra à medida das suas ambições. Se quisermos resumir tudo numa frase jornalística, estamos perante um caso clássico de azia da influência.

Não queremos com isto colar à obra de ALA o rótulo de falta de interesse, o problema é a medida dos espaços intergalácticos sonhados pelo escritor, e o resultado do confronto entre esse sonho de infância e a qualidade/alcance da obra publicada. Por muito que se repitam os insultos a vultos das letras portuguesas (vultos esses que devem aparecer no silêncio da noite a ALA tanto maiores quanto mais a sua própria figura literária se vê reduzida com o passar dos anos) e por muito que se proclame o «consenso dos Steiners e dos Blooms» (no fundo, e para todos os efeitos de imortalidade, apenas dois velhinhos com livros tendencialmente irrelevantes) ALA entrou há muito num processo de sportinguização (peço desculpa a toda a gente) perante a realidade.

Comparações com Céline? Como responsabilidade política, é um disparate. ALA pode insultar todos os dias Camões e mijar para cima do busto de Almeida Garrett, nada disso se assemelha ao colaboracionismo nazi. Como medida do talento literário, um disparate ainda maior, pois ALA não chegou nunca a arranhar nem a originalidade temática e estilística, nem a dimensão artística do referido escritor francês. O crítico Alberto Velho Nogueira interroga-se sobre que tipo de culpa justificará esta raiva perante José Saramago. Tenho uma hipótese: ALA, como autor inteligente e muito culto do ponto de vista literário, terá uma vaga consciência do seu falhanço e de como a sua obra, sendo interessante, não é a magia que Cesarynamente procurava.

Proponho um teste simples: digam-me uma, digam-me só uma, uma personagem memorável criada por ALA. Podemos trabalhar a linguagem no torno, podemos torcer o frasear, fazer do hiperbato e da hiperbole os bombardeiros das nossas intenções narrativas, podemos desmontar peça a peça toda a gramática, triturar a acção, cortar em pedacinhos o narrador, isso de modo algum colide com o derradeiro teste de toda a potência literária: a criação de uma realidade, claramente definida num destino narrativo, mais intensa e duradoura que o próprio autor. Não existe, aliás, numa obra conseguida, qualquer contradição entre inovação (e até provocação) estilística e a energia revelada pelos personagens, antes pelo contrário.

Se tomarmos o caso de Ulisses (exemplo clássico de constante terrorismo perante as convenções narrativas) temos, nada mais, nada menos do que três personagens memoráveis: Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom, a quem o primeiro terá beijado, legitimamente, as nádegas. Ora, no caso de ALA não sobra nada a não ser uma indefinida cacofonia emocional multiplicada infinitamente pelas infinitas hipóteses de infelicidade do destino humano, personagens a que não chegamos sequer a fixar os nomes, de tal forma são meras convenções, escravizadas pelos ais e uis do tom narrativo, que a certa altura, nos começa a parecer sempre a mesma pessoa, ou seja, um escritor de livros sem outro interesse a não ser a sua própria glória literária (isto topa-se ao longe). Todavia, o projecto até seria razoavelmente interessante, se não tivesse sido feito centenas de vezes. ALA tentou uma mistura entre o anonimato Tchékoviano (com a sua galáxia de impressivas e breves tragédias quotidianas) e a interioridade de Joyce (com a sua torrencial transferência do sofrimento interior submergindo o eixo da narrativa) mas não produziu nada de verdadeiramente novo, a não ser um fluxo de interminável comentário a outros escritores maiores. ALA é um caso de evidente derrota às mãos de gigantes passados.

Há sempre grande escândalo quando se procura enquadrar, com alguma severidade, autores tão amplamente consagrados como ALA. Neste aspecto, o próprio ALA oferece um glorioso paradoxo, qualificando a obra de Saramago como «uma merda». No fundo, está a chamar (mesmo que involuntariamente) a atenção para o carácter precário e subjectivo de toda a obra literária. Faz bem, só é pena não lhe conhecermos o raciocínio crítico, e nisto reside a sua maior fragilidade e a clara denúncia do carácter angustiado da sua imitativa obra. Quanto a prémios e traduções, apenas um exemplo: sabiam que Luís Sttau Monteiro, durante os anos sessenta, era traduzido no impenetrável mercado dos EUA, e com muito favorável crítica no New York Times? Moral da história: calma, muita calma.

Com efeito, James Joyce tem sido uma espécie de Segurança Social para uma infinidade de escritores com razoável talento mas sem a força criativa (muito rara, diga-se) suficiente para virar o curso da historiografia literária do Ocidente. De Virginia Woolf a William Faulkner, passando por Beckett, ALA é só mais uma triste derivação na atormentada história das desesperadas tentativas para superar as muitas linhas de raciocínio literário abertas pelo mais famoso zarolho irlandês. ALA tem a seu favor, e devia recordar-se disso (o que certamente aliviaria o fardo) o facto de ser extremamente difícil produzir qualquer coisa de novo e duradouro em termos literários, ao contrário do que parece proclamado todas as semanas nos comunicados oficiais dos prémios. O que não significa qualquer elitismo da nossa parte, antes pelo contrário. Como tenho insistido aqui, a luta continua, e a primeira e mais duradoura regra da evolução literária, pode ser resumida no famoso aforismo evangélico: muitos são os chamados mas poucos os escolhidos.

6 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

É verdade. Não nos deu uma única personagem de que nos consigamos lembrar ainda que enfardemos doses letais de memofonte, ou lá como aquilo se chama. No entanto, não valia a pena empobrecer o argumento com a comparação com esse chato do Joyce que, ninguém me tira isto da cabeça, escreveu o Ulysses para gozar com as pessoas e nos fazer passar por parolos.

Cuca, a Pirata disse...

(Não são só as personagens que se esvaem no tempo da amnésia de curta duração. As estórias também se confundem todas. Até desconfio ser um esquema para nos levar a comprar o mesmo livro várias vezes e a oferecer outros que achamos, erradamente, já ter lido)

Anónimo disse...

Em "Os cus de judas" a personagem principal apanha um preto a lavar os dentes com a sua (dela - da personagem principal) escova de dentes. Não me recordo se este preto tem algum papel na história, mas é a única passagem que me recordo deste livro. (para falar a verdade nem sei se é deste livro. É a única passagem/personagem dos livros de lobo antunes que me ficou na memória. Acho que memofante não me fazia mal nenhum.)

gerónimo cão disse...

O estimado leitor Gerónimo Cão, agradece a lincadela...

Anónimo disse...

Não se davam porque eram farinha do mesmo saco. Embora por razões diferentes - que agora não tenho tempo para explicar - tanto um como outro são uma bela merda de escritores.

Anónimo disse...

Uma personagem? Salazar.