quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Tudo o que tu quiseres

A julgar pelas informações continuamente despejadas pelo Facebook sobre as nossas cabeças, os jovens escritores aclamados pela crítica fazem Like, em todos os textos de estrelas emergentes, vulgo, a Alexandra Lucas Espectacularmente Coelho, com toda a sua eloquência supostamente pop, não faltando a nossa sacerdotiza inatingível, a imortalmente bela, a doutora Inês Fonseca Santos. Temos vindo a colocar esta questão do star system, vulgo, amiguismo, seguidismo, surrealismo, sem contudo obter qualquer tipo de resposta. O que nos diz esta escassa informação sobre o mundo em que vivemos? Nada, somos apenas escritores (risos) a tentar viver das suas mais singelas capacidades, a saber, o uso da inteligência,  a saber, uma coisa tão pouco escassa quanto qualquer outro dos humanos atributos, nomeadamente, um pastor chamando as ovelhas, um taxista palitando os dentes, um bombeiro coçando a urgente micose, um lojista vendendo a sua fruta, uma produtora de televisão com os seus lábios maravilhosamente untados com bâton, se for o Curto Circuito da SIC Radical, digamos, friamente, uma bela, uma belíssima rapariga, embora desligada dos frágeis mecanismos das relações (pausa) humanas, o que só podemos compreender, perfeitamente, e em toda a sua plenitude, tendo em conta as calças de cintura (trau) subida, ou seja, os ténis dourados da referida produtora, não apagam, facilmente, o cansaço de uma vida ao serviço do sucesso.

Ocorre-me indagar, pois, qual a razão do sucesso de Pedro Chagas Freitas? Só pode ser, numa palavra, a condição tão humanamente humana das pessoas, tão humana quanto no tempo de Fernandinho Nogueira, o tótó, Pessoa (ainda assim, remetemos o leitor para a miséria do historicismo), uma época em que, tal como a nossa, os familiares da Rita Ferro - da qual ilibamos os seus descendentes humanos de inegável sucesso - estavam prestes a colaborar na entronização de uma solução política de tendência, digamos, anti-democrática, anti-popular, anti-desenvolvimentista (saudações ao camarada José Neves) e anti-digamos, PUM. E isto, sem, no entanto, beliscar o futuro comercial de qualquer projecto editorial, no fundo, aos famosos será mais fácil ter sucesso editorial do que entrar no reino nos céus, o que só pode constituir motivo de esperança para o mundo dos vivos. Seremos camelos ou não seremos. Gostamos muito de sol, aguentamos a extensão do caminho, estamos conscientes da nossa responsabilidade, a saber, constituir um acidente estatístico, ou se quisermos, um milagre, no fundo, aquilo que faz da natureza o particular atributo da natureza, a saber, um espaço contínuo onde os milagres, a preço de sangue e lágrimas, são obrigados a cavar o seu glorioso caminho.

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