quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Toy, Levinas ou Blanchot: isto não é uma daquelas merdas para ter piada, aqui falamos muito a sério, ou seja, metemos o nosso pescoço nos carris onde passa impiedoso o mortal comboio da história

C’est dans cette perspective que Maurice Blanchot avançait cette formule admirable de précision et de grâce : « les amants sont ensemble, mais pas encore ». L’amour semble n’offrir qu’une illusion de plénitude. Il dépouille l’Autre qui lui est de fait impénétrable. D’où le paradoxe. Moins qu’une entreprise de destruction de l’Autre, l’amour serait une vaine passion, l’amour essaye de dompter une figure opaque, insensible à la caresse. L’amour est un investissement éperdu, une étrange ascèse, une marche vers l’invisible. Le toi du « je t’aime » n’est jamais mon contemporain. Terminons avec Levinas : Je l’ai choisie pour ce qu’elle avait de merveilleux, de spécial, ou d’unique ; maintenant, « j’aime en elle non pas une qualité différente de toutes les autres mais la qualité même de la différence ». Elle a beaucoup changé.

Mas também seria possível recorrer a Herberto Helder, o poetastro:

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo


eu morrerei contigo.

Uma espuma de crepúsculos e crateras? A fome encanta? Talvez, talvez, em todo o caso, neste final, é Toy quem triunfa, o poeta sente-se intoxicado pela pirotecnia de imagens bizarras (para não dizemos burguesas) e converte-se aos encantos da utilidade, no fundo, sente os limites da racionalidade e encara a língua de frente, assume corajosamente a sua pobre condição de pessoa que acabou a viver da única coisa que lhe foi possível manejar com uma certa distinção, a língua: «Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo.» Ainda que não estejamos certos de que o poeta esteja disposto a morrer por uma gaja, não sabemos, apesar de tudo, o Toy parece mais convincente. Posto isto, venho informar o público sobre a espectacular sabedoria democrática das nossas vidas empurradas umas contra as outras, de onde tem resultado uma esforçada mas inequívoca marcha em sentido de um Kantiano e germânico progresso. Quer isto dizer que o caminho é fácil? De modo nenhum, se fosse fácil era para os outros. Como diria Rui Vitória, não estou nada focado nesse tipo de coisas, é preciso encarar cada jogo com seriedade e ter alegria em jogar, mas que isto não nos distraia das nossas responsabilidades, o progresso, atentos aos sinais do grupo, do colectivo, da soma desta maravilhosa espécie a que pertencemos e temos orgulho em pertencer. Como sinal e prova dos fundamentos pelos quais norteamos as nossas decisões aqui fica o exemplo. Podemos interpretar o amor à luz dos textos de Blanchot, ou podemos ouvir Toy que diz - o senhor, a natureza, a humanidade e a semiótica sejam louvados - a mesmíssima coisa de forma mais económica, mais democrática, mais transparente, mais exígua e travejada, numa palavra, de forma mais racional.

Porque é que eu vou ao teu encontro se nem me vês/ porque é que me arranjo e me apronto, fico a teus pés/ (L’amour semble n’offrir qu’une illusion de plénitude) vou fingindo que até nem percebo que te sou indiferente/ E apenas por uma palavra que tu me dirijas, eu fico contente/ Porque é que eu prometo a mim mesmo não mais te ver/ e no dia seguinte procuro me convencer/ porque ainda é possível quem sabe, voltar a ter carinho/ nessa esperança procuro falar-te mas acabo sozinho/ (Il dépouille l’Autre qui lui est de fait impénétrable) Estupidamente apaixonado (D’où le paradoxe) quem me manda ser assim/ a culpa é minha por sofrer (l’amour serait une vaine passion, l’amour essaye de dompter une figure opaque, insensible à la caresse) com a mania de viver à espera que gostes de mim/ estupidamente apaixonado 
é mais forte do que eu/ tenho a certeza vou deixar a vida inteira para te amar porque o meu coração é teu. Terminons avec Levinas (j’aime en elle non pas une qualité différente de toutes les autres mais la qualité même de la différence).

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