segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Televisão em movimento


Para lidar apropriadamente com a quantidade de ideias confusas lançadas nesta prosa poética, seria preciso uma verdadeira legião de autores com o dobro do meu gabarito intelectual e o triplo da minha energia literária, mas como bem sabe o público deste blog, nunca nos negamos ao confronto.

Subscrevemos a primeira afirmação, ou seja: a Cristina Ferreira não só é uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, como é também uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, sendo que a professora doutora camarada Paula Cosme Pinto, autora do artigo acima supracitado, considera que, em verdade vos digo, a Cristina que muito prezamos Ferreira é também (e passamos a citar, portanto, abrir - perdão - aspas): «uma grande estratega e empresária» e um símbolo vivo da «meritocracia». Recomendamos, neste momento, muita calma. Não vamos referir o investimento em horas de televisão por metro quadrado de área de construção em Malveira da Serra, mas queremos, contudo, dizer algumas palavras sobre gostar ou não gostar do tipo de programa que a Cristina Empresária Estratega Ferreira faz no pequeno ecrã: a relação entre o gosto, o valor comercial de uma marca e a capacidade de gerar audiências é um problema com capacidade para fritar os neurónios à doutora Paula Cosme Pinto, o que, bem tememos, talvez tenha acontecido. O programa é direccionado às massas, massas essas que, em verdade vos digo, concorrem para o sucesso da referida apresentadora, segundo o critério de aferição do que pode considerar-se, a preços de 2016, uma apresentadora de sucesso, ou seja, uma cavalona, digamos, de qualidade estratégica. Mas quantos anos de exposição mediática de homens com bigodinho pagos por uma televisão pública com monopólio da emissão seriam necessários para gerar o referido valor da muito justamente valorizada Cristina Ferreira? Seria justo começar por aqui.

Será que isto belisca a nossa consideração pela condição, digamos, feminina? En-ten-da-mo-nos, se queremos citar o camarada Francisco Louçã, pois o público bem sabe estar, no caso da minha pessoa, na presença de um autor que, inclusivamente, frequentou o mês de Maria, rezou o terço, ajoelhou muitas vezes diante da graciosa e imortal criatura, a estrela da manhã, o berço de virtudes, a cheia de graça, farol do desejo, graciosa mãe natureza, vulgo, a mulher.

Deixando de lado a melindrosa questão acerca do reverencial respeito com que eventualmente se possa misturar chavascal e consideração, perguntamos à doutora professora engenheira Paula Cosme Pinto, de que modo se consegue a atenção de milhões de pessoas sem o recurso a um canal de televisão e à companhia de um desde já por si, apresentador com a atenção de milhões de pessoas, vulgo, Manuel Luís com todo o respeito Goucha? De modo algum queremos aqui beliscar a honorabilidade da referida Cristina Tranca Ferreira, e tudo temos feito neste blogue para a salvaguardar dos vampiros da crítica literária, mas não levemos longe de mais o esforço de justiça, transformando esta questão num problema de índole, digamos, filosófica.

Pergunta, pois, e de lágrimas nos olhos, este famigerado autor que vos fala: quantos anónimos extenuados de trabalho, empenho, profissionalismo, tenacidade, capacidade de criar uma marca em torno de si próprios, continuam a limpar casas de banho ou a levantar graciosamente tabuleiros no centro comercial - com um máximo de televisiva simpatia, eloquência, competência, apetência, suavidade - sem que isso se traduza, digamos, num centésimo do valor conferido pelo sistema de preços, vulgo, carrocel circense em que vivemos? E isto apesar do valor estratégico com que levam o detergente às imundas casas de banho, ou da cabal responsabilidade com que encaminham os hóspedes à porta de um hotel.

No fundo, o Portugal dos pequeninos é o Portugal onde os pequeninos nunca podem, contudo, exteriorizar o seu ódio em paz, ou seja, apenas podem, no fundo, utilizar os recursos democraticamente postos à disposição pelo capitalismo libertário, para fundamentar os pilares da criação de riqueza, oleados pelo ódio (e o desejo) dos referidos pequeninos (quando não incomodam ninguém), e isto num continuado ciclo sofredor que faz as delícias dos doutorados em Economia austríaca com sotaque portuense. Na minha humilde opinião, este estado de coisas tem beneficiado muito pouco o público, no sentido em que as ineficiências de mercado (geradas por tiques de autoritarismo pedante) continuam a representar uma rigidez essencialmente frígida no que ao sistema de preços diz respeito. E isto significa que a valorização dos produtos - se continuamente condicionada por organizações centralizadas, como as televisões - continua a ser cavalgada por uma hierárquica, soviética, católica, apostólica, vitoriana, concepção do público enquanto conjunto de solteironas e solteirões (somos sensíveis às questões de género) muito pouco dados a, digamos, sair das suas, digamos, posições conservadoras, ou se quisermos, dos seus sofás. Vejamos, a título de medição do empenho, um excerto diarístico, da referida Cristina vulgo Ferreira:


Isto não justifica qualquer tipo de insulto, embora revele níveis de empenho e trabalho muito reduzidos, e por isso, convidamos os leitores a pensarem esta relação entre o sucesso da «estratega e empresária» Cristina vulgo Ferreira, e os «valores do trabalho, do empenho, do profissionalismo, da tenacidade, da capacidade de criar uma marca em torno de si própria, partindo do zero».

Na verdade, caríssima psicóloga engenheira doutora juíza Paula Cosme Pinto: não serão as razões do sucesso de Cristina Ferreira bem mais prosaicas (nomeadamente, sorte e tempo de antena) apesar de inteiramente legítimas? Que os projectos comerciais promovam o ódio é justamente compreensível, sobretudo quando milhares de pessoas com o triplo da inteligência e da capacidade de trabalho da Cristina Ferreira não beneficiam das suas condições, nomeadamente, a oportunidade como apresentadora da televisão, um trabalho que consideramos um justo castigo para todas as pessoas ambiciosas. Em suma, a consideração do intervalo entre as capacidades de Cristina Ferreira e a sua remuneração (directa e indirecta) justifica moralmente a difamação? Talvez não, mas seria mais fértil avançar para um enquadramento da referida difamação que não passasse pela consideração topológica e geométrica das pessoas. Entretanto, uma vez que a referida Cristina Ferreira está longe de ser caso único, recomendo ao público calma e paciência.

Por outro lado, e em verdade vos digo, toleramos todo o género de badalhoquice ao nível das cabeças de topo nos sistemas centralizados, mas quanto à liberdade de expressão no espaço público, alto lá, insultos é que não. Entretanto, está tudo bem, a Cristina Ferreira continuará a prosperar, sem revelar especial incómodo pelo ódio da turba de inquisidores, por estar plenamente consciente - e disto estamos também nós plenamente conscientes - da importância da turba na criação do valor de que a própria Cristina vulgo Ferreira se alimenta. Pode dizer-se que a bela e simpática Cristina Ferreira será nisto de um alcance mental a que justamente podemos colocar o epíteto de estratégico. Estou certo de que a mesma compreende cabalmente os insultos que, certamente, em dado momento da sua vida, também lhe terão passado pela cabeça, ou se não passaram, isso certamente se deveu a um particular benefício dos deuses da televisão. Temos pena que neste particular não seja acompanhada por mais pessoas. Por outro lado, o ódio do público nutre-se de uma justificada consciência da exploração das fragilidades civilizacionais, o que de modo algum deve ser negligenciado pelo público, sendo que, digamos, está tudo bem. Que os medíocres colunistas do Expresso ou do Diário de Notícias julguem importante insultar o público dado a insultos, é apenas um sinal de que, digamos, também está tudo bem.

© Revista Cristina

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