sexta-feira, 18 de novembro de 2016

No fundo, no fundo, o escritor contemporâneo (com sucesso junto das elites) é um gajo que não aguenta a pressão do progresso

«Chega a ser proibido
O que os meus sentidos
Me dizem em segredo
Para eu fazer contigo»

Mickael Carreira, Tudo o que tu quiseres

Vamos falar de catequese, vulgo, literatura contemporânea, elites, jornalismo cultural, investigação em letras financiada pelo Estado, vamos falar de pedantice, vamos falar de tempo livre, vamos falar de autonomia e liberdade moral, vamos falar de desorientação e ilusão, vamos falar de ideologia universitária e sobranceria moral, vamos falar de pseudo-hegemonia cultural e decadência, vamos falar de um certo descontrolo verbal, vamos falar de imediatismo e preconceito, vamos falar de amor: o mais maravilhosamente plastificado dos conceitos.





















Este excerto chegou-me numa outra rede social e pertence ao aclamado livro de Valério Romão, Autismo. Curiosamente, o autismo é uma patologia tornada visível numa civilização onde domina a cultura hipnótica, repetitiva e obsessiva do alfabeto, e da normalização da linguagem - e por isso, do comportamento - com o seu belo corolário artificial, o livro impresso. Com grande perplexidade seguimos a sinuosa prosa deste autor e não pudemos deixar de alinhavar algumas notas: pelos vistos, a segunda pergunta deste excerto, quer saber se o desejo é um atributo guiado de tal forma que um dado objecto a desejar exclui todas as outras hipóteses de satisfação. Como bem sabemos, ou deveríamos saber, o funcionamento da natureza não corresponde a uma mera repetição das limitadas capacidades humanas. Será necessário utilizar o raciocínio para fazer escolhas, mais ou menos exigentes do ponto de vista das vaginas ou dos pénis com os quais queremos relações de uma considerável, digamos com o Professor Doutor Valério, urgência.

Diria que se estas gentes «se aprontam a meter a picha onde Fellini nunca ousou meter a câmara», para além da péssima imagem, seria motivo para que as referidas gentes merecessem a nossa admiração artística. Sobre a alma, remeto o leitor e a leitora para o catecismo da Igreja Católica, não sou um especialista em metafísica, deixo isso ao critério dos poetas. Por outro lado, não vejo qual a relação entre neurotransmissores, publicidade, maquilhagem e a existência de quaisquer problemas na fornicação de fantasmas, com os quais não devemos excluir à partida o contacto físico, isto se os referidos fantasmas cumprirem os preceitos da elevada lei moral Kantiana, e corresponderem ao nosso juízo estético e moral em torno de uma, digamos, certa ideia de prazer. Mas agora é proibido manter relações sexuais sem estar devidamente apaixonado? Em que universo paralelo a paixão é um fenómeno menos artificial do que a indústria dos cosméticos? Ainda que admitamos um certo automatismo na ideia de desejo, quantas calorias serão necessárias ao trabalho da imaginação para converter uma simples e frágil impressão no poderoso império da paixão?

Apetece-nos recorrer aqui a Mickael Carreira, «O teu corpo é tudo o que vejo» sendo que a passagem das impressões do corpo a uma ideia de paixão mental, só é possível com o concurso de  todos os artificialismos morais, da família cristã ao sadomasoquismo, consoante a maravilhosa e diferenciada cabeça do apaixonado, que é sempre fruto de uma esforçada narrativa, se quisermos utilizar uma expressão cara ao engenheiro José Sócrates.  No fundo, a aclamada literatura (um produto circunstancial da derrota universitária das Humanidades) é a continuação, por outros meios, da cansativa e extenuada catequese vitoriana. Valha-nos Deus.

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Como apreciadores da beleza agressiva, gostamos imenso de livros.

2 comentários:

Anónimo disse...

Presenciamos um fantástico coming out nos tempos que correm: agora é a Ágata que homenageia Leonard Cohen.

Anónimo disse...

Porque é que o livros estão com as lombadas viradas para a parte interior da prateleira? (Sou um leitor tardio do blog, só agora aqui chegado, que saúda a redescoberta do alf na blogosfera)