sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Hamlet não existe, o Capitão Ahab não existe, o D. Quixote não existe, mas a gente gosta deles na mesma

Na inauguração de uma loja Fnac num conhecido centro comercial da periferia de Lisboa, este autor que vos escreve teve o privilégio de ir representar uma agremiação associativa, juntamente com outras forças vivas da terra, bombeiros voluntários e junta de freguesia, um evento, confesso, um tanto bizarro. Foi como transladar uma procissão do Senhor dos Passos com andor, bandeiras, meninas vestidas de anjinho e bombeiros de capacete reluzente para o Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia do senhor engenheiro, o camarada António Mexia. Na verdade, os padrinhos culturais da dita loja Fnac foram a bonita e simpática Carminho e o inteligente e feíssimo Mário de Carvalho, que a dado momento, instado a falar, produziu uma vistosa peça de oratória, do alto do seu ar inquisitorial: «o livro não é um produto mas uma criação do espírito humano». Este autor ia caindo ao chão. Ora, afinal, a literatura não é um negócio, não é uma arena de luta encarniçada pelo reconhecimento, não é um concurso de reputação, a literatura é um diálogo a bem da paz no mundo e da erradicação da fome em África.

Depois das variadas Igrejas e Seitas consequentes, ninguém como os escritores e respectivos coitos, as editoras, tem feito tanto pela mistificação dessa tragédia humana: a selecção sexual por via da carteira recheada. O problema não é tanto a carteira recheada, pois a carteira dos escritores anda quase sempre vazia, o problema é a facilidade com que o escritor, sempre que por acaso se enche a sua carteira, perde a cabeça e se atira para uma qualquer oração piedosa, correndo a esconder - esmagado pela vergonha - a natural parte de saudável negócio em tudo isto. O escritor podia poupar-se a estas figuras se, antecipadamente, compreendesse o quanto o livro (e sobretudo o Romance), seja no formato material, seja no formato semântico, é o resultado de mais de cinco séculos de próspero comércio.

Com efeito, o caso de Elena Ferrante merece ainda duas ou três palavras. Elena Ferrante estabeleceu um contrato quando assumiu uma personalidade falsa e resolveu desaparecer, no momento em que os seus livros eram colocados à venda nos mais variados locais de comércio livre e comentados nos mais diferenciados meios de comunicação. O público pagante - não consta que os livros tenham sido oferecidos - acorreu à chamada e entrou no jogo: se alguém se esconde, instiga imediatamente o instinto da caça, mecanismo (como já dissemos) sobejamente conhecido e legítimo. Se Elena Ferrante não queria ser importunada, bastava não publicar os seus livros, nem se dirigir a um público. Outra hipótese seria assinar em nome próprio e ainda hoje estaria, provavelmente, a fazer traduções obscuras algures em Roma. Acontece que Ferrante estava metida no negócio da literatura até à ponta dos cabelos, conhecia provavelmente editores e jornalistas, críticos e apresentadores de televisão, proprietários de livrarias e cabeleireiros com interesse na literatura e quis forjar uma persona, solitária, lutadora, angustiada, desinteressada, fora desse mundo intelectual odiado pelo cidadão comum, o que apenas demonstra uma profunda inteligência e uma certa desconfiança na capacidade dos seus livros se aguentarem publicamente sem uma encenação. Ferrante sabia naturalmente como estaria condenada ao desastre, mal fosse apresentada como literata. Não haveria «história» para vender o livro, e sem «história», o livro e o autor estariam provavelmente condenados ao fracasso durante várias décadas. James Wood mordeu o isco e forjou a história: Ferrante, a mulher mistério. Plim, plim, plim, plim.

Passemos então ao jogo da encenação em concreto e o que nos diz sobre a absoluta falência da literatura, no fundo, sobre o declínio da mentira. Têm sido muitos os textos publicados em defesa da privacidade de Ferrante e poucos os textos a arriscar uma interpretação lúcida do que está em jogo. Na verdade, os leitores/críticos/escritores adeptos de Ferrante correram angustiados em defesa do direito da escritora à sua privacidade. No fundo, parecem crianças a quem um adulto cruel contou a verdade sobre as vassouras voadoras das bruxas. Com efeito, já ninguém acredita na literatura, desde a patologicamente entediante e estéril empresa levada a cabo pelo cabeludo norueguês, Karl Ove Knausgård, até este lamentável caso Ferrante. Importa tudo menos a arte de dizer coisas com interesse de forma interessante.

Muitos críticos mostram-se chocados pela exposição pública da encenação Ferrante, mas se o livro é uma criação poderosa não vejo em que possa ser prejudicado pelo facto de sabermos que Ferrante afinal é uma senhora de meia-idade com aspecto de quem gere uma retrosaria e anda a comprar casas de milhões em Roma. Ou se calhar, Ferrante, no fundo, pratica auto-ajuda para pessoas com licenciatura, e os seus leitores poderão não gostar de saber que, afinal, não vai tudo correr bem, pois Ferrante não é uma mulher deslumbrante magoada pela vida. É uma ligeiramente obesa tradutora de literatura alemã - que ninguém leu - e nada em dinheiro. Mas não sejamos tão básicos.

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Elenas Ferrantes, à escolha dos estimados leitores.



Tudo isto é pueril, tudo isto é fado, tudo isto é Bruno de Carvalho vintage, tudo isto é até um pouco ridículo. Não vejo porque razão não conseguirá Ferrante escrever sem anonimato. Se Ferrante quiser aceitar um conselho do velho Alf, é muito fácil: invente um outro pseudónimo. Ou publique utilizando o mesmo pseudónimo, entrando em diálogo com a sua própria identidade: talvez aí aconteça literatura. Em que medida o facto de o público saber quem é Elena Ferrante prejudica o acto criativo da personagem Elena Ferrante? Como é evidente, não tem como prejudicar. Ora, com tanto choro, parece-me que há aqui publicidade a mais e poder literário a menos.

There’s an essay by TS Eliot from 1919 called “Tradition and the Individual Talent”. He talks about personality – and how creative work is a means of escaping personality. This is the I Not I that is difficult to explain. You lose yourself, yet you are most clearly yourself in the creative act.

Outro argumento deprimente. A diferença entre fuga da personalidade, heterónimos e ficção da autoria é do tamanho da Oceania, caso contrário os malucos seriam todos sucessos literários. Há até quem cite Fernando Pessoa. Nada mais absurdo. O nosso famoso empregado de escritório criava personagens num jogo de imaginação e até os publicou em vida, mas não consta que tenha feito qualquer esforço em se esconder da sua autoria, até me parece bem o contrário, que o pobre coitado Fernando Nogueira teria dado tudo para conseguir viver do seu trabalho literário. Daí ter tentando criar uma editora, logicamente, um rotundo falhanço. Mas precisamente porque o interessava o artifício na página e não o folclore extra-discurso, os heterónimos eram expressões da imaginação, e o Fernandinho nunca sentiu necessidade de gastar demasiado tempo com o protocolo literário, ou a fugir da suspensão da incredulidade. Era demasiado bom escritor para ficar dependente de um artifício típico do burlão rural. Com efeito, os heterónimos não perderam nada da sua eficácia pela descoberta do seu autor real, pois foram preenchidos com uma personalidade, ao contrário de Ferrante que encheu a sua dupla vida com relatos de novela das oito. Pessoa era, com todas as suas forças trágicas intensificadas pelo álcool, um puro literato e não - por paradoxal que pareça - um vendedor especializado em marketing de vendas. Ou seja, vendia metáforas e artifícios de linguagem com recurso ao alfabeto, não vendia livros ou mistérios com recurso a críticos e entrevistas. O artifício literário sobrevive ao mecanismo de produção da verdade. Ou melhor, o mecanismo literário cria a sua própria verdade, não precisa do mundo para nada.

Sobre a questão do interesse público da revelação da fortuna de Elena Ferrante: desde há muito, os grandes sucessos literários são procurados, investigados, escrutinados, por interesse comercial e por um genuíno interesse do público. Se é relevante conhecer a conta bancária de Ferrante? Bem, inclino-me para uma posição geral de abolição do sigilo bancário e não vejo razões para os escritores beneficiarem de protecção especial. Há quem tenha seguido uma linha de defesa mais elaborada, não vendo em que medida o estudo da literatura beneficia com estes conhecimentos.

Scholars work with books over centuries; I don’t believe the study of literature needed Gatti’s help.

Meus amigos e irmãos em Cristo, ainda recentemente, foram publicadas as cartas íntimas de Nabokov para a sua mulher, para dar um exemplo. Postumamente, é certo. Contudo, é curioso notar como se exige tanto dos políticos e dos banqueiros e tão pouco de outras profissões, a começar pelos escritores, quando poucas coisas existem tão carregadas de significado político como uma autora que facturando milhões, opta por não utilizar a influência da sua persona na vida pública da sua comunidade. Foi a este estado de infantilidade moral que chegámos meus caros amigos.



Bem, percebemos agora porque aparece esbaforida e a correr, tanta a gente de mãos na cabeça, perante o fim do mistério, e suspeito que a última das suas preocupações seja a literatura. Basta pensar na indigência dos argumentos utilizados.

Her anonymity has been a protest against those who can no longer read books as works of fiction. What’s interesting about novels isn’t that they imitate life, but that the ways in which they perform reality aren’t the ways in which real reality works.

É exactamente o contrário, meus caros leitores. Se os romances não funcionam como a realidade, qual a razão de convocar a suposta existência real de uma Elena Ferrante para justificar a coerência interna ou a pertinência artística dos seus romances? Respeitemos o público! A encenação de Ferrante é como uma gigantesca cavilha cravada no coração da literatura, como se o discurso não fosse suficiente para mover a imaginação dos leitores, como se a mera declaração de um outro nome já não tivesse a força necessária para colocar em marcha um novo mundo, como se as palavras impressas na página já não fossem capazes de levantar um cenário convincente, como se a linguagem tivesse perdido o poder de inventar personagens mais reais que o mundo real. Ferrante não acreditou o suficiente na literatura, precisou de um enredo falso para intensificar a sua mensagem e com isso, não cometeu crime nenhum, antes pelo contrário, jogou precisamente com as regras de todos os dias, inventou uma treta real, ou seja, feriu de morte a literatura. Aos autores pede-se maior coragem para aguentar a indiferença do mundo perante o discurso. Ferrante quis furtar-se a esse derradeiro teste, quis ignorar o esvaziamento dos discursos escritos às mãos dessa superabundância de ecrãs e imagens, e cavalgando o discurso mediático, venceu pela meta-literatura. Não considerou a personagem «Elena Ferrante» com força suficiente para se aguentar para lá da charada barata da sua autora. Foi porque Ferrante quis passar como autora confessional, foi porque, sem avisar o leitor, Ferrante quis apresentar a ficção como um livro de memórias real, que paga agora este preço, embora o dinheiro, graças a deus, já não seja um problema para ela.

3 comentários:

Anónimo disse...

sem dúvida uma problemática relevante.

Cuca, a Pirata disse...

Concordo com quase tudo o que dizes.
Porém, há um ponto essencial que merece clarificação. Ninguém normal gosta do Ahab, Alf. Terás de pensar muito bem no que essa afeição diz de ti!

alf disse...

bem observado, vou reflectir sobre o assunto, embora possa desde já avançar que o gostar literário é magnânimo e inclui toda a variada (e perversa) paleta das emoções humanas