quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Nesta mensagem encriptada está o segredo da vida e da morte, do centro e da periferia, da construção do ser em si, para ti e para mim, no fundo, para todos nós, os tocadores de bombo

Peço desculpa aos leitores pelo que vai seguir-se, a saber, a Sinopse de um livro recentemente publicado, o Dançarino Subtil, e sem mais, trau:



O leitor sente-se bem? Procure uma cadeira, feche os olhos, dentro de momentos voltará a sentir a normalidade do mundo em que vivemos. Talvez por enquanto sinta ainda uma forte vertigem, como se uma mão invisível o tivesse agarrado pelo pescoço. Um vertigem, sem dúvida, podemos mesmo falar num certo efeito de absorção ao contrário, ou melhor dito, numa espiral de ideias e propostas de leitura em que a pessoa desprevenida é agitada, que digo eu, é sacudida de cabeça para baixo, até avistar círculos concêntricos centrais e periféricos, com patinadoras francesas a recitar o Levítico em grego, altura em que aparece um poeta alemão do século XVIII, nu da cintura para baixo, declarando a morte do realismo, recomendando a depuração da morte (com soda cáustica ou ácido muriático) ou no caso de não ser possível depurar a morte (a morte às vezes está indisponível a tricotar umas meias para os netos) recomendando ao leitor uma modificação da identidade (por uns módicos 17,91 euros) ou se o leitor quiser pagar mais, um memento ético-religioso, o que não recomendamos por causa do fígado.

Respiremos fundo e tentemos em primeiro lugar lidar com o conceito de autoimunidade da democracia: portanto, a democracia seria um sistema com tendência para utilizar mecanismos imunitários contra agentes do próprio sistema. Mas quais mecanismos? Os legítimos ou ilegítimos? Partimos do princípio que ilegítimos se utilizamos aqui uma patologia, o que nos obrigaria a lidar com o conceito de normalidade ou saúde em sistemas políticos, e estaríamos com um pé no fascismo, pelo que a autora deste livro, como se vê pela sinopse, não faz a mínima ideia do que pretende dizer. Não bastaram 2500 anos de más metáforas biológicas a lançar a confusão sobre a política, embora nessa época, servisse de desculpa o estado incipiente dos conhecimentos em Biologia. Agora temos analfabetos científicos (tanto em Biologia como em Política) a fazerem salada russa de conceitos, vendendo esta refeição estragada por 17,91 euros. 

Não vou entrar na apreciação crítica da obra de Gonçalo M. Tavares e já por diversas vezes considerei ser justo reconhecer a Tavares um mérito razoável, não por qualquer relação com um suposto desafio da racionalidade ou confronto com a cultura científica mas porque revela preocupação com o rigor da metáfora, embora esse rigor não esteja ao serviço de coisa nenhuma a não ser o carrinho de compras repleto de banalidades filosóficas que vai buscar a intelectuais pós-modernos, sendo esse - na minha humilde opinião - o seu grande problema. Tavares é filho da confusão que pretende combater. Não se conseguiu orientar no pensamento, formou-se no pechisbeque filosófico contemporâneo (razão pela qual foi parar à Motricidade Humana e não à Filosofia). Tavares é um tipo a quem tudo correu socialmente bem (emprego, fama) e por isso, não há sombra de protesto (para utilizar a imagem de Tchékov) e por isso, é incapaz de assumir ou alimentar uma ideia política, acabando por se dedicar por inteiro à descrição do vazio (o que seria um projecto legítimo e até aliciante) se não fosse vendido como lucidez, mas sim apresentado como sátira de si próprio (um académico violentamente publicado que diz ter perdido o mapa). Contudo, caros amigos, é preciso muita confiança no próprio sistema nervoso para abraçar um projecto de auto-satirização, e por isso, a literatura acontece tão raramente (e digo isto para o leitor não ir daqui de mãos vazias). 

Talvez essa descrição pomposa (e até pedante) do vazio filosófico e literário contemporâneo (as boas cabeças vão quase todas atrás de bons empregos para cursos de base tecnológica e científica), seja a razão do grande interesse suscitado numa legião de académicos com ambições literárias mas sem qualquer talento para escrever (como é o caso da autora em apreço) uma multidão de intelectuais excluídos e desorientados em face do triunfo económico e político da tecnologia e da ciência modernas, intelectuais incapazes de se voltarem para uma literatura mais comprometida com o sofrimento por lhes cheirar a neo-realismo. 

Na verdade, há uma legião de intelectuais que adora o glamour tecnológico mas não compreendendo a beleza da ciência, cospem no prato onde comem, ladrando todos os dias contra o comboio, incapazes de perceber que se aprende mais sobre a crítica da tecnologia e da ciência numa página de Kant ou Rousseau do que em toda a obra de Gonçalo M. Tavares. Mas para quem abandonou a matemática no 9º ano, a prosa de Tavares cheira a «ciência» social, e no terreno da «escrita» e da errância (onde não há regras formais) talvez seja possível finalmente vencer um (ao menos um) combate contra o sistema.

A finalizar, um exemplo de como Tavares laborava (esperemos que já não labore, o texto é de 2004) numa espécie de filosofia do gajo privilegiado que se julga muito inteligente:

E o que me parece é que só podemos treinar e desenvolver a lucidez em tempos tranquilos, afastados portanto da guerra ou das grandes tragédias. Porque nestas situações limite temos de agir com urgência. Agir. Todos nós temos então de agradecer não sermos obrigados a agir constantemente em situações limite. E uma forma de agradecer é aproveitarmos bem esse tempo. Treinar a musculação da lucidez é uma boa hipótese para aproveitar o tempo, parece-me.

Portanto, nada mais claro. A literatura é para quem anda tranquilo, ou seja, é para o académico, porque não precisa de agir. Guerras ou grandes tragédias não são compatíveis com lucidez, sendo que aproveitar bem o tempo, é treinar a musculação da lucidez, contando que alguém vai lavar a roupa e fazer a comida, despejar o lixo, aturar as crianças na escola, ocupar os balcões das lojas, as linhas de montagem das fábricas, os andaimes da construção.

Quando à sinopse, talvez tenha sido escrita pelo editor (embriagado) e a autora não tenha culpa. Ora, tomem lá mais um excerto da autora de O Dançarino Subtil:

O Senhor Gonçalo M. Tavares é um poeta que parece não necessitar mais, minimamente, de qualquer ideia de verso ou de linha ou de frase, esta discussão não é mais a sua. É um poeta que sugere, contra e com o cogito, a hesitação e a emergência. A sua questão, ou propósito, é emergir o espírito livre na figuração errante de um dançarino sutil em meio a uma escrita oscilante, errante, que se pretende uma dança investigativa das conexões mais equivocadas e certeiras entre a existência e a linguagem.

Meus caros amigos, o sublinhado é meu, e deixa-me deprimido, preocupado com o que andamos todos aqui a fazer, contra e com o cogito. Boa sorte a todos os que entre a hesitação e a emergência, gostando de livros, ainda precisam de investigar as conexões entre o saldo bancário e as contas a pagar.

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