quarta-feira, 9 de março de 2016

A Anglo-Saxónia é onde um homem quiser.



Fiz aqui promessa de não voltar ao assunto. E não voltarei ao assunto. Voltarei, contudo, ao problema (mais profundo e preocupante) implícito no assunto, a saber, a ignorância (potenciada pela vaidade e a falta de contraditório) de uma quantidade muito relevante da nossa imprensa. Há quem ainda não tenha conhecimento do investimento (público) educativo, numa população cada vez menos disposta a ler bovinamente os nossos cronistas, uma população com capacidade para zurrar o seu desagrado, sempre que lhe apetece, o que tem sido considerado uma suprema infâmia. É este, em suma, o problema das redes sociais. Os chamados «imbecis» sempre existiram, mas antes não sabiam sequer ler ou escrever. Podiam ser facilmente calados, ou pelo aparelho de Estado ou pelo sufoco financeiro. Por isso, os intelectuais do regime podiam elaborar com livre trânsito, sem sofrer o incómodo da aguadeira, do almocreve, do professor retorcido, ou do empregado de escritório deprimido e proto-revolucionário. Agora, a populaça não só escreve, como manifesta indignação, atrevendo-se a chamar nomes aos bastiões da propaganda.

Será sempre muito mais fácil, depois da criação das redes sociais, alguém encontrar o tempo e a vontade, para mandar algum cronista ir ler um livrinho e moderar o alcance do disparate. Se pensarmos bem, o problema é profundo. Numa época de especialização, o cronista, e mesmo o autor publicado, ao querer iluminar a multidão sobre os mais variados assuntos, logicamente, perde em toda a linha, pois haverá, em quase todos os domínios, alguém mais qualificado. Os jornais (e pelos vistos, as Fundações) não perceberam muito bem isto. Ou perceberam mas não querem perceber. Quanto ao cronista, ferido no seu orgulho de relíquia desqualificada pela modernidade, não gosta de ser contrariado pela plebe, ainda mais a partir de uma coisa grátis, e acessível a toda a gente, de forma escandalosamente igualitária. Como se pode tolerar isto? Só lhes resta despejar livros pagos pelo Alexandre Soares dos Santos sobre as cabeças da multidão.

Interessa-me para já a rara capacidade de João Miguel Tavares, ao introduzir numa mesma crónica uma penalização da crítica ao disparate, para logo em seguida, o mesmo João Miguel Tavares se multiplicar no esforço de defesa do próprio disparate. Sem ter entendido o problema implícito na publicação de Alentejo Prometido, João Miguel Tavares parte do princípio de que as pessoas não leram o livro. Nem precisavam. A indignação nasceu da boçalidade das declarações de Raposo na entrevista e não da leitura do livro, tortura psicológica a que felizmente, muito poucos se entregaram ou entregarão. Henrique Raposo não é odiado por ser cronista de direita. Por exemplo, Lobo Xavier é de direita, fala todas as semanas na televisão, e não é odiado. Não quero justificar os efeitos virais da chacota. Mas é estranho que não passe pela cabeça de João Miguel Tavares que possa, por vezes, existir um levantamento popular de indignação com boas razões, nomeadamente, a incrível estupidez da pessoa alvejada (salvo seja), mesmo sendo de direita. No fundo, isto mostra bem a cultura democrática dos nossos «anglo-saxónicos». O povo sim, tudo bem, mas caladinho, direitinho e na ordem.

Se a filiação política não deve ser motivo de descriminação, também não deve servir de escudo perante a crítica ao disparate. João Miguel Tavares também é, sem o querer, um perigoso indignado, a quem a indignação dos outros incomoda, apenas por ser muito pouca indignação, como no caso Sócrates. Um pouco mais de inteligência lógica, se faz favor.

Passemos então ao estilo, colocando no mesmo saco dois exímios praticantes do chamado caterpillar lógico (uma actividade caracterizada pela terraplanagem da complexidade, de forma a construir uma avenida entre o modelo de realidade pré-concebido e a explicação da própria realidade). Aquilo a que João Miguel Tavares (e outros parolos) chamam estilo cru, provocador, estimulante, não passa, na maior parte dos casos, de disparates ditos com muita força. Isto é, disparates sem argumentação, fundamentação empírica ou encadeamento lógico. Basta tomarmos como exemplo a defesa do livro de Raposo. Criticando os críticos do livro (por não o terem lido) Tavares escreve uma crónica em que, precisamente, não usa um único argumento (empírico ou lógico) para defender o livro, nem sequer invoca qualquer argumento apresentado pelo livro (o que, convenhamos não seria fácil de encontrar). Tavares, um liberal, alérgico a sebentas, recorre, pasme-se, ao argumento de autoridade. Ou seja, não gostando de sebentas, vai refugiar-se debaixo das saias da professora.

A autoridade, portanto, de Maria Filomena Mónica. Interessa-me sobremaneira esta apologia da brutalidade como factor de sedução. Gritar muito alto, utilizar afirmações tremendas e aforismos definitivos, apresentar certezas inabaláveis e juízos grandiloquentes. Mas eu diria que isto não é inventivo (todo o taxista tem uma mundividência semelhante a Raposo e Filomena Mónica, feita de tremendismo e provocação, e por vezes, ódio aos comunistas). Ora, no caso de Raposo e Filomena Mónica, e sobretudo, no caso de João Miguel Tavares, o «arrojo interpretativo» e a «provocação» não são a marca do estímulo intelectual, e muito menos da sabedoria, mas um sinal de provincianismo e pouca leitura. Onde devia estar a ponderação das diferentes posições de quem estudou o caso, está uma ideia arrojada, tida ao pequeno almoço entre o croissant e a leitura do Expresso, e onde devia estar uma análise racional e comparativa dos problemas, está a ideia de Portugal como choldra, pocilga, degeneração (caso do Alentejo de Raposo) a que os provincianos recorrem desde há vários séculos.

Uma escrita que mistura a autobiografia com o ensaio é uma tradição anglo-saxónica que ainda não entrou nas cabecinhas nacionais. Sobre isto, nem sei o que diga, pois revela tudo sobre a cabecinha de João Miguel Tavares e muito pouco sobre as cabecinhas nacionais, aliás, um conceito revelador dos méritos analíticos do autor. As cabecinhas nacionais são um conjunto de 10 milhões de sistemas nervosos. Não é muito, mas é alguma coisa. Não me vou dar ao trabalho de provar como na tradição anglo-saxónica existe tanto a qualidade como a indigência, normal, onde há abundância de autores. A diferença relevante entre Portugal e a Anglo-Saxónia, em termos de cultura editorial, não está tanto no estilo dos livros publicados, como na crítica e rigor analítico na recepção dos maus livros publicados. Em Portugal foi o povo, nas redes sociais, a indignar-se. Na Anglo-Saxónia, Raposo seria dizimado por cronistas e críticos de referência. Curioso, não é?

Uma segunda nota para o aparelho ideológico do Estado no que à soberania dos neurónios de João Miguel Tavares diz respeito. É sintomático como recorre ao conceito de inteliigentsia, quando Maria Filomena Mónica e Henrique Raposo e o próprio João Miguel Tavares, se enquadram muito mais, e com menos entorse lógico, na dita inteliigentsia. Como não tenho tempo para explanar aqui esse ponto, consultem a wikipédia.

No fundo, importa ainda lembrar que o estilo (biografia + ensaio) do qual o pobre João Miguel Tavares não encontra melhor filiação nacional do que a Professora Doutora Maria Filomena Mónica, e que parece não ter entrado nas cabecinhas nacionais, teve muitos outros praticantes, mais cultos, mais equilibrados, mais conhecedores das mais diversas disciplinas, e com maior domínio da gramática. Talvez João Miguel Tavares esteja esquecido, devido ao facto de as cabecinhas nacionais serem agora deixadas à mercê de intelectuais públicos como Maria Filomena Mónica e Henrique Raposo. Contudo, repito, essa «inovadora» junção (biografia+ensaio) sempre teve cultores em Portugal, não é preciso ir fazer doutoramentos a Oxford para o saber, bastaria ter lido um bocadinho mais algumas cabecinhas nacionais, ou mesmo consultar os catálogos das bibliotecas, uma actividade capaz de provocar o bocejo, compreendo.

Já não vou a Almeida Garrett ou a Alexandre Herculano e presumo que será escusado falar de Francisco Manuel de Melo. Contudo, bastaria pensar, por exemplo, em dois livros editados no século XX, dois livros com um discurso claro e rigoroso, ou se quisermos ser pedagógicos, e utilizar a língua dos intelectuais Pingo-Doce, dois livros de estilo «anglo-saxónico», além dos mais, ainda disponíveis nas livrarias: Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro, ou Fernando Namora, Diálogo em Setembro. São comunas, eu sei, mas isso não dispensa João Miguel Tavares de conhecer o campo e o «estilo», sobre o qual pretende dar lições acerca do que faz falta (à malta) ler. O desconhecimento absoluto da realidade nacional, como rampa de lançamento para uma provinciana subserviência anglo-saxónia, é sintomático de uma certa cultura Pingo-Doce, a que não gosto de passar atestados de menoridade, mas que se revela extremamente irritante, quando pretende escolarizar, sem saber o que é a scola. Em muitos casos, essas lições são possíveis, por lhe terem oferecido, na parvónia onde tanto cospem, cátedras universitárias ou colunas de jornais. Até porque essas espectaculares pessoas não encontraram lugar para exercer a sua competência na Anglo-Saxónia da liberdade e da sabedoria.

Como o próprio João Miguel Tavares reconhece, o risco do erro está lá, e está lá em doses cavalares. O arrojo interpretativo está sempre muito próximo do delírio, e da própria estupidez, conforme nos ensinou o sábio de Milão, desaparecido há pouco tempo. Para separar o delírio do arrojo interpretativo, convém recompensar os críticos, ou o sono da razão produzirá os seus monstros. Quanto ao bocejo do papagueio, tudo depende da espécie a que pertencemos. Os papagaios, por certo, encontram elevado estímulo no papaguear das papagaias, e vice-versa. Que os jumentos bocejem perante o canto dos rouxinóis, é normal, afinal de contas não entendem nada daquela doce melodia. Mas a Academia, e a crítica pública, foram criadas para estudar o comportamento dessa selva tribal e agressiva, submetendo-a à razão universal. Seria bom não desistirmos assim tão facilmente da análise, refugiados no coito da «biografia» ou da «liberdade de expressão». Se alguém se levanta para falar, é bom que seja tomado a sério, e é bom que o clima de crítica às ameaças e insultos, não sirva para dar livre trânsito ao disparate encartado, e à propaganda política, paga pelos jornais e as fundações, e apresentada ao público mascarada de literatura.

1 comentário:

Anónimo disse...

um gajo quando quer dizer qualquer coisa sem ambições académicas publica um post no facebook, não pública um livro chancelado pela tentacular fundação francisco manuel dos santos.

o mesmo vale quanto ao cruzamento da história, com a sociologia e com a antropologia. um gajo quando só quer dizer umas merdas não cruza história com sociologia e antropologia, a não ser que esteja muito bêbado. e mesmo academicamente pode ter inúmeros problemas se empreender por esses caminhos negros do contactos entre ciências tão distintas. um gajo inteligente limita-se, academicamente ou não, a ficar quietinho e a trabalhar de modo a que conseguir aquele saudável equilíbrio entre a criatividade e a educação.

(e a propósito de criatividade, para terminar, cheira-me que no excertozinho que encabeça mais um arguto texto de dr. alf [somos todos dr., até o henrique raposo] dr. joão miguel tavares não queria dizer "inventividade" mas sim "criatividade"; posso estar a ser chato, mas acho que são coisas assim um bocadinho diferentes e "inventividade" no contexto da publicação deste livro pode ser assim para o complicado)