sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Em defesa de Pedro Chagas Freitas (e sem ter ingerido qualquer bebida alcoólica).

Desde há muito tempo nos perguntamos: quem são os nossos inimigos? A fazer fé no jornalismo desportivo, temos para nós ser fundamental a constituição de um menu de inimigos, seja por razões de coesão interna (e sabe deus como precisamos de um antídoto para a dispersão mental dos nossos supersónicos interesses) seja por razões de eficiência estratégica (e sabe deus a dificuldade das pessoas em calcular os efeitos de uma decisão neste mundo onde reinam os pivots da Correio da Manhã TV). A fazer fé nesse épico freudiano-ó-militar, Coriulanus, a natureza ensina quem são os nossos inimigos. Mas nós desconfiamos da natureza (já pisámos demasiadas vezes cocó de cão, aleatoriamente deixado num passeio de calçada à portuguesa, sem nada disto ter sido assinado por Joana Vasconcelos).

Assim sendo, somos forçados a utilizar o poder computacional da nossa cabeça. No mundo da literatura (vamos para já assumir este conceito operacional, imaginemos, sei lá, uma jaula de macacos) não há entendimento claro sobre o valor estético de uma obra, e ainda assim, há consensos. Quase todos os conhecedores, críticos, treinadores de bancada, leitores especializados, massagistas, escolheriam, por exemplo, Gonçalo M. Tavares como um digno representante da «grande literatura». O crítico marxista-leninista-jornalista António Alexandre Lucas Guerreiro chega mesmo a dizer como Tavares vale por uma literatura inteira.

Todavia, contudo, temos cada vez mais interesse em pessoas menos dotadas de antecedentes metafísicos, pessoas limitadas, mas com capacidade para potenciar de forma quase milagrosa os seus parcos conhecimentos, colocando-os ao serviço ninguém sabe de quê. Pensemos no edificante exemplo de Abel Xavier, antigo futebolista internacional português e atleta de vários prestigiados clubes, sem ter chegado a saber o que era uma bola. Quando um escritor como Chagas Freitas, do alto do seu talento para inventar títulos (assim como dos alçapões do seu absoluto desconhecimento da mecânica da metáfora ou da narrativa) inventa um império comercial, ao estabelecer a Lamecholândia (como o próprio ironicamente afirma) como derradeiro destino da natureza humana, está a ser de uma sinceridade atroz. Estamos seguros em reconhecer como o público (no meio da sua comovente burrice mas também entronizado pela sua soberana capacidade produtiva e falta de tempo) corre a premiar esta sinceridade, este galopante desejo em comunicar, esta leveza estilística, para utilizarmos um conceito caro a Italo Calvino. Que as obras de Chagas Freitas sejam tão leves ao ponto de não levar nada dentro, é fenómeno merecedor de todo o interesse, e não se julgue que estou a brincar. Naquele rendilhado mecânico, naquela matemática sentimental (com variáveis reduzidas quase ao absurdo do binário gosto/não gosto e amo/não amo) onde o mais ignorante leitor consegue encontrar alguma coisa da sua tragédia mental, há um gosto pela engenharia de paradoxos (Prometo Falhar e Ou é tudo, ou então não vale nada) bastante mais interessante do que a acrobacia aristocrática (e plastificada) do professor universitário Gonçalo M. Tavares. Os jogos a que Chagas Freitas se presta na sua relação comercial com os livros, são de uma inteligência refinada, directamente proporcional à sua enciclopédica ignorância dos grandes textos, o que permite a Chagas Freitas dormir sossegado (isto em princípio, nunca - deus nos livre - compartilhámos a cama) mesmo depois de produzir milhares de páginas de uma falta de inteligência atroz.

Mas quem pretende inteligência pura, recorrerá à literatura? Duvido. Ou melhor, antes de sermos agredidos por deputadas do Bloco de Esquerda (o que muito nos agradaria, ao contrário de Pedro Arroja) clarifiquemos este ponto. Os territórios da razão lógica e da especulação matemática onde Tavares julga arriscar um lugar de prestígio, estão muito para lá das capacidades do mesmo Tavares, e esta propriedade sobre um olho em terra de cegos, é uma coisa para a qual me falta saúde, paciência e dinheiro. Quem passar os olhos pelas páginas da obra de Tavares (e o mais difícil será escolher por onde começar dada a prolixidade do génio) e tiver frequentado, pelo menos, o currículo de Matemática do 12º ano, não leva nada de significativo em termos de capacidade operativa, curiosidade ou conhecimento dos belíssimos labirintos do pensamento exacto. Quem tiver lido os sonetos de Camões nesse mesmo 12º ano da era da sua própria escolarização, também, convenhamos, ficará muito insatisfeito com as experiência emocionais proporcionadas pela obra de Tavares, à parte um livro onde a acção começa com um pequeno-burguês a «fazer» a criada. Já o despreocupado e pouco exigente leitor de Chagas Freitas, também não atingirá os terrenos obscuros dos fundamentos da matemática ou das lógicas não lineares, nem a sofisticação emocional do carrossel camoniano (ora com lágrimas correndo no rosto, ora desejando a morte do dia do nascimento) mas terá pelo menos a experiência de contacto com a mente de uma pessoa com algum conhecimento dos seus limites (e sabe deus a falta que isso nos faz nos dias de hoje) uma pessoa, e falamos de Chagas Freitas, note-se, com a coragem (inteligência?) suficiente para desvalorizar a literatura na era dos computadores e dos bombardeamentos da Síria.

Que Gonçalo M. Tavares chame repetidamente a si mesmo o papel de guardião da consciência moral e impute à (sua) literatura a função de despertador, ao contrário de uma literatura supostamente com propriedade soporíferas, é um sinal bastante claro, de como o mesmo Tavares se permite destacar a raridade da sua inteligência, e apresentar-se como um pilar da cultura, desconhecendo como o futuro se rirá da superficialidade académica das suas brincadeiras vocabulares, tal como hoje, todos nos rimos das academices de Filinto Elísio. Eis-nos pois chegados ao nosso resultado. No momento de sermos chamados a escolher (diante de um pelotão de fuzilamento) um titular da nossa herança mental e guardião dos nossos manuscritos, não hesitaríamos em escolher Chagas Freitas, uma pessoa consciente de que em primeiro lugar, vem a nossa paixão pelas mulheres/homens/cães/gatos/bananas/objetos de borracha (riscar o que não interessa) e só depois, as nossas construções programáticas e holográficas sobre o mundo. Sim, podemos afirmar corajosamente: não hesitaríamos em escolher Chagas Freitas, não só por estarmos com uma venda nos olhos (e não termos de olhar para a sua cara) não só por estarmos prestes a entrar no reino da morte, mas também pelos seus notáveis dotes de organização comercial e empreendimento, uma pessoa, creio, consciente de que os livros servem para ganhar dinheiro e prestar um serviço, e isso da literatura, é um lugar onde só os chamados têm entrada.

3 comentários:

bonus betclic disse...

O Abel Xavier ainda deu muitas alegrias aqui ao povo na Selecção. Estava no lugar certo à hora certa, e também há mérito nisso! ;)

Cuca, a Pirata disse...

Oh pá... Não!! Ao Chagas Freitas não o nomeava guardião de coisa nenhuma.

Anónimo disse...

Apreciei muito a sua reflexão. Nomeadamente, mas não exclusivamente, pelo estilo da sua escrita. A ascendência quase espiritual que se experiencia nos meandros dos seus arrazoados, deixa entrever uma inteligência neo-abjeccionista em cornucópias sinusoidais pseudo-circundantes mas eticamente estimulantes. Cria como que uma nova abstracção nas premissas intelectuais que se prevêm pelas variáveis em antes. Chega a um surrealismo surreal (aliás supra-real) que se poderia traduzir como um gato a defecar mesas de papel em novos blocos de gelado epá mas com que autoridade de se fazer uma bossa criando computadores azuis subindo autoritariamente pelos blocos sinergéticos dos patrões infra-proletários. Em resumo, aprecio muito o seu blogue e espero que continue.