quinta-feira, 12 de março de 2015

A escolha entre gajas entendida como ambiguidade sociológica.

O problema não é a existência de fenómenos de massas como a Cristina Ferreira, e a sua Revista Cristina, pois, apesar de tudo, e valha-nos deus, acreditamos estar na presença de um sintoma altamente positivo, a saber, gajas boas, para não falar desse singelo facto, a saber, as mamalhudas burrinhas terem passado a acreditar no poder cultural, financeiro, mediático e erógeno do raciocínio escrito (e mesmo contando com a hipotética quantidade de imagens, e a reduzida - ainda bem - quantidade de texto da referida revista), pensando nós, aqui e agora, nas consequências que todos adivinhamos no domínio das transformações ao nível da economia da informação, sendo inevitáveis os ganhos para todos os que, irmãos em Cristo e, iluminados pela filosofia do século XVIII, confiam no alastramento da exigência computacional, que todos temos necessidade de manter uns perante os outros, especialmente na articulação da vasta gritaria de que somos feitos, nós e o nosso vasto mundo moderno, acreditando ainda, pelo menos nós (e não querendo falar pelo mundo moderno, deus nos livre) que a Revista Cristina pode ser o esperançoso sinal desse amanhã cantante, na ultrapassagem do mais sabujo dos cepticismos, a saber, a steineriana ideia de que a cultura é compatível com a barbárie (não é, caralho, não é) assunção amplamente desmentida pelo autor de Os que Sucumbem e os que se Salvam, a quem a experiência do campo de concentração (mesmo numa versão moderada pela migração casual para um laboratório químico) não anestesiou a sentido analítico, desmentindo o saudoso escritor italiano o perigoso mito de que os oficiais das SS tocavam Schubert e liam Goethe - mas como, caralho, como? - e afirmando, claro está, como os oficiais nazis eram estatisticamente e em geral, humana e previsivelmente, emocional e artisticamente, uns burros do caralho (e aí está a confusa e paneleira obra de uma Hannah Arendt para confirmar a absoluta estupidez congénita do oficial típico do III Reich).


Repito: o problema não é a a existência em Portugal de pessoas como a Cristina Ferreira, o problema é a não existência em Portugal de pessoas mediáticas e intelectualmente estimulantes como a Maria Konnikova, e com isto, o leitor adivinhou, estou precisamente, de forma consciente, consistente e congestionada, a declarar a minha profissão de fé no aforismo tantas vezes aqui repetido, defendido e proclamado: libertem o povo, guilhotinem as elites, e teremos democracia, riqueza, saúde, cultura e gajas boas com neurónios na televisão, nos jornais e nas revistas.



It’s elementary

Deus nos ajude, pois, nesta paciente espera.

Sem comentários: