sábado, 20 de dezembro de 2014

Literatura: a minha amante de todos os dias - compreender a incompreensível ascensão literária de Alexandra Lucas Coelho à luz da pessoa que leu mais do que dois livros.

Comentário de leitor anónimo no Diário de Notícias ao mais recente romance de Alexandra Lucas Coelho, a de magníficas mamas, isto segundo maradona (e não vejo razões para o contrariar). 


Não beneficiamos dos necessários incentivos institucionais (e monetários) para aqui e agora (embora tal missão se revestisse de suprema importância) fundamentar o conjunto de razões porque julgamos ser esta nossa triste república refém de um analfabetismo contumaz, que tem no pobre jornalismo nacional (por razões históricas, económicas e médicas) uma das suas bases mais estruturalmente estruturantes. Bem sei que talvez se espere nesta casa demasiado do jornalismo (mais uma brilhante invenção do século XVIII) mas num ecossistema ameaçado pelo crescimento exponencial da informação, ou o jornalismo se põe fininho e direitinho e encontra o caminho da salvação, ou nós, citoyens (com grande desperdício de recursos) seremos forçados a auxiliar os fracos e oprimidos a encontrarem a saída desta selva escura e perigosa em que se transformou a paisagem mediática, uma selva onde tanto podemos ser abocanhados pelo prognatismo de Manuel Luís Goucha como expostos à sedução das abençoadas e exemplares protuberâncias de assistência à reprodução de uma Cristina Milf Ferreira, sem que exista uma profícua discussão na nossa comunidade sobre a relação entre o sucesso comercial das empresas de comunicação (sobretudo as que possuem antena aberta concedida pelo Estado) e as toneladas de ignorância (repito, de ignorância) despejadas em cima das reformadas, adolescentes e crianças, para não falar da brutalização mediática das crianças desfavorecidas, perpetrada por bandos de malfeitores.


Daily Cristina

A forma como certas tendências irracionais insistem em colonizar o espaço da nossa vida pública, cultural e epidémica, não pode deixar de causar um enorme desconforto ao observador desprevenido, sobretudo quando pensamos no estrondoso desajuste entre as sempre enjoativas manifestações de altruísmo político dos nossos escritores e os interesses económicos dos mesmos, sem que nada se saiba (e seria muito interessante sabê-lo) acerca do círculo hipnótico através do qual certas redes de amigos, companheiros e conhecidos frequentadores de festas, lançamentos, encontros, almoçaradas, e provavelmente, alcovas, acumulam capital mediático sem a mais pequena explicação (ao menos por motivos folclóricos e higiénicos) dos critérios estéticos, artísticos, sociológicos e erógenos, que presidiram, presidem e presidirão às mesmas e referidas tendências, e pensamos aqui nessa torrente de impressões avulsas que passa, entre nós, por crítica literária, sobretudo ao nível da imprensa escrita, o que agrava sobremaneira a responsabilidade dos autores das referidas torrentes de impressões avulsas (ou seja, os paneleiros dos críticos) quando produzem juízos inteiramente subjetivos e pessoais (e é triste sermos obrigados a recordá-lo ao pobre leitor) apresentando os críticos esses juízos (às vezes com estrelinhas numericamente valorativas) sob a prestigiada forma de uma «crítica» em jornal de referência, e procurando, desta forma, implicitamente: 1) reivindicar o estatuto de especialistas (quando nada no conteúdo dessas críticas qualifica esses críticos como especialistas, nem sequer, por vezes, como pessoas capazes de interpretar a língua portuguesa) ou 2) defender uma suposta validade universal do texto avaliado, sem qualquer explicação dos critérios valorativos e estéticos (não digo morais, para não assustar ninguém) e assentando uma suposta validade universal dos textos avaliados em afirmações tão profundas, gerais, consistentes e sólidas como «Há muitos anos que não aparecia na literatura portuguesa um livro assim» ou ainda, nos casos mais patológicos, como veremos em seguida, 3) fazendo comparações lunáticas entre os livros dos seus amigos/as (escritos numa linguagem ao alcance de cerca de 95% dos estudantes de língua portuguesa das nossas escolas secundárias) e os livros de escritores tão raros e originais como Joyce ou Beckett. Não seria necessário fazer uso de um pouco de lógica e de um conhecimento, ao menos moderado, da literatura ocidental? Mas acreditarão estes críticos na generalidade congénita da estupidez como atributo do cidadão leitor de jornais, julgando-o incapaz de separar a crítica da publicidade? É uma hipótese.

Se a empresa é (na actual teoria económica espontânea) uma caixa negra, cujos preços dos produtos fornecem toda a informação relevante do ponto de vista do interesse público, não podemos deixar de manifestar as nossas mais sérias dúvidas sobre a simples aplicação deste princípio, quando o produto das ditas empresas consiste num jornal com diversos sub-produtos, incluindo a crítica literária, não sendo esta sujeita aos ditos preços e comportando, por isso, uma parasitagem de certos interesses económicos (nomeadamente das editoras), a coberto do investimento no jornal (cuidado senhor engenheiro Belmiro). Aos que remetem qualquer crítica da «crítica literária» para os resultados da performance económica dos referidos jornais (sendo esta performance definida pela decisão final de compra dos pobres leitores) eu diria que também a estrondosa desgraça económica da imprensa escrita (e de grande parte do mundo editorial), concorre para desconfiarmos de que algo vai mal no reino da crítica, e por conseguinte, no reino da imprensa escrita, seja impressa ou digital, bem como no mundo da edição, num mercado, reputado pelos próprios agentes, como cada vez mais hostil, e com margens canibais (pudera), pois cá estaremos (se não morrermos antes) para assistir às falências em cascata.

Conhecemos muitos casos de meteórica ascensão literária de autores, sem a mais pequena evidência de que a referida ascensão corresponda aos méritos do texto produzido por esses autores, quando seria natural a existência de uma certa relação entre os juízos dos leitores/consumidores e o espalhar da notícia (o murmúrio, para utilizar uma expressão de Umberto Eco) sobre o interesse de um dado livro. Todavia, mesmo sabendo como funciona o mercado, a forma despudorada como o mais recente livro de Alexandra Lucas Coelho, O Meu Amante de Domingo, colonizou a paisagem jornalística com as respectivas consequências comerciais, e sem uma justificação literária ou anatómica convincente, diz muito sobre o que ainda nos falta percorrer quando falamos da relação entre o funcionamento do mercado e a informação despejada (por obscuros critérios e com incerta origem) acerca dos produtos trocados nesse mesmo mercado. Fica contente a autora, fica contente a editora, fica contente a redacção do jornal, mas pergunto se a médio prazo, e com a galopante descida do preço da informação, não será para todos clara a manipulação do valor real do produto (sentiram isto?).


Não quero apressar-me em matéria de juízo estético, até porque a justiça deve estar separada da política, nesta como em muitas outras matérias (e veja-se o caso das magníficas mamas de Alexandra Lucas Coelho, sobre as quais, e muito injustamente, nada sabemos) e até porque as referidas críticas acerca do mais recente livro da autora, chamam a atenção do leitor para a forma enérgica e penetrante com que Alexandra Lucas Coelho trata os assuntos sexuais, nomeadamente, dando vida a uma literata (a personagem principal) praticante de ginástica sueca, e natural do Canidelo, assunto em que não tenho qualquer interesse em entrar de forma descuidada.

Diz-nos um crítico de referência acerca da protagonista da referida obra em apreço:



para logo em seguida confessar que:




Ora, consultando qualquer interposto comercial, constatamos que a sinopse do tal livro de Ricardo Adolfo, Maria dos Canos Serrados, livro e autor que temos o prazer de ignorar em absoluto, refere a história de uma moça dos arredores de Lisboa que adora a igualdade de liberdades, o seu namorado gigolô, as noites intoxicadas com as amigas e a ideia de vir a ser directora. Mas, de um dia para o outro, vê-se desamada, despedida e falida. E, entre resignar-se ou virar a mesa, Maria decide acertar contas de arma em punho. Contada de rajada na primeira pessoa, Maria dos Canos Serrados é uma história desbocada, nascida da Grande Crise. (O sublinhado é nosso).


Portanto, julgo que até o mecânico amante da personagem inventada pela adorável Alexandra Lucas Coelho seria capaz de chegar à conclusão que o último dos atributos deste livro, O meu Amante de Domingo (e não nego que possa ter muitos) é a originalidade do tema, pelo que a referida crítica começa logo à cabeça por dar prova de uma total incompetência na ponderação da singularidade do livro, apresentando o próprio crítico inequívocas provas da sua incapacidade. Como podemos classificar isto? Distracção? Ilusão de impunidade? Sonolência patológica?


Em segundo lugar, seguindo o elogio do crítico, somos confrontados com um efeito pirotécnico de festa de aldeia, aliás, relativamente típico dos estilhaços estético-linguísticos encontrados entre as ruínas dessa nobre tentativa de recuperação da verdade, intitulada neo-realismo, a saber, a recuperação dos dialectos, ou da linguagem franca e regional, representando uma suposta psicologia humana mais próxima da terra, dos sentimentos carnais, ou seja, deus nos valha, da natureza, esse cadáver que os poetas do século XVIII inventaram e que o romantismo regurgitou para, qual Frankenstein, nunca mais acabar de nos encanitar a paciência.


Segundo Riço Direitinho (quem?) a linguagem da personagem dominante, feita de fúria e raiva, contrasta com a suposta gravata envergada pela língua dos lisboetas (uma imagem horrível, diga-se em passagem) isto a julgar pelos critérios da personagem, e é bonito ver como a crítica baseia a sua análise da personagem no mundo psicológico da personagem analisada.

Também o simpático crítico-guru José Mário Silva, a quem o meio literário parece prestar uma assinalável vassalagem, em face de méritos absolutamente desconhecidos, avança com a sua leitura de fenómeno linguístico, pelos vistos, um aspecto significante no belo instrumentário estilístico associado à autora, Alexandra Lucas Coelho:



Coloquemos pois um ponto de ordem no assunto: a invocação desse horrível problema de geografia humana, o regionalismo (e veja-se a mais recente Europa a foder-se à grande com estas brincadeiras) levanta problemas graves e particulares, mas não no caso de um país, Portugal, com precoce centralização política, onde alguma coisa deve explicar a inexistência de uma nobreza ou elite económica regional, capaz de pressionar a construção de um parlamento em tempo útil (já não pedimos a decapitação de um rei) com tudo o que isso significa de artificialismo quando se pretende sublinhar em demasia o regionalismo de um país que é em si mesmo, apesar da diversidade geográfica, culturalmente uma região, e por isso, a cristalização de características regionais no caso da literatura portuguesa (e arriscaríamos dizer, em todas as literaturas) é sempre, na nossa modesta opinião, uma incapacidade de colocar problemas interessantes, por ignorância e preguiça mental, e fazemos o favor de reconhecer que no livro, ou ao menos no espírito da autora, pode estar uma vontade em tratar assuntos pertinentes, que o crítico ou não compreendeu, ou não soube interpretar, despejando em cima da cabeça do potencial comprador do livro, uma torrente de banalidades e lugares comuns, de resto, extraídos da banalidade torrencial da personagem principal do referido livro, a boazona de Gaia.


Na verdade, se o crítico tivesse ido à escola, esclareceria o leitor sobre o facto de a suposta brutalização das gajas nortenhas apontar quase sempre para uma triste generalização, típica da revista à portuguesa (triste generalização a que nenhuma citação literária, de Balzac ou Joyce, consegue disfarçar o cheiro a sardinha assada) pois que as gajas desabridas amantes de mecânicos, em princípio, não traduzem Nelson Rodrigues, quem sabe não farão antes broches a empresários do calçado, a fim de pagar o material escolar dos filhos, e esta seria com toda a certeza uma situação de muito maior interesse literário (digo eu) sobretudo se a referida gaiense e boazona, apresentasse indícios de querer esmagar o crânio ao referido empresário, por uma de várias malfeitorias, sempre possíveis de serem praticadas por homens com poder, o que não é, em princípio, o caso dos mecânicos, por muito que a nossa indignação conspire na sombra contra os autênticos assaltos praticados sob a capa de reparações por essas oficinas deste nosso Portugal.


Por outro lado, também se podia colocar a questão de a sobrevivência do dialecto ser muitas vezes sinal de resistência perante movimentos de normalização, apresentando-se como sinal de distinção em face da massificação da língua nacional, tal como ficou estabelecido no célebre debate Calvino/Pasolini a propósito da repressão educativa em torno de uma língua única, concorrendo para a ambiguidade inútil, a torpe aproximação, a vaga indiferença, a obscuridade sem profundidade da língua burocrática, tão típica dos nosso tempos, acrescentaria este pobre autor que vos fala.



Em suma, embora não seja fornecida ao leitor (pelo menos ao leitor na posse de um sistema nervoso central) qualquer prova cabal e inteligente para o injustificado entusiasmo pelo livro de Alexandra Lucas Coelho, nem quanto ao enredo, nem quanto à eufonia e ritmo (a tal capacidade de construir sobre a linguagem uma violência organizada), nem quanto à capacidade estilística, nem quanto à qualidade da retórica (figuras, símbolos, imagens, apresentação de variações, repetições, hierarquia das frases) nem quanto à coragem temática, nem quanto à erudição, fosse ela histórica ou literária, já não peço técnica ou prática, nem quanto a nada, os críticos, valha-nos deus, resolvem ainda, para não fugir ao clássico fedor escolástico, lançar mão do famigerado e incansável argumento de autoridade, e com que espalhafato o fazem, deus nosso senhor.

Se Joyce multiplicava o mundo, acrescentando camadas ao seu texto em vez de o rarefazer, como Beckett, então Alexandra neste livro está claramente mais próxima de Joyce, a quem de resto pede emprestado o artifício do fluxo de consciência

Quem sou eu para negar que um romance arquitetado sobre as ruínas do famigerado fluxo da consciência, lançando a mão a Beckett e Joyce, e ostentando a ambição de relatar os abismos de sentido que haverá (quem o nega) em toda a mulher que se preza de ser mulher, não possa fazer uso de uma suposta boazona de Gaia, apostada em matar o namorado. Porém, Alexandra, neste livro, e lamentamos transportar esta pesada novidade, está claramente mais próxima de Margarida Rebelo Pinto do que de Joyce ou Beckett.


«Complexidade formal do livro? Personagem sem par na literatura portuguesa recente?» Servirá isto para esconder o facto de o livro simplesmente não ter o mais pequeno interesse, por ser a escrita da autora de uma desarmante indigência literária, psicológica, dramática, retórica? No fundo, depois dos ridículos encómios (o computador queria forçar-me a escrever manicómios) em que entram à espanhola Joyce e Beckett, o melhor que se pode arranjar, num livro de quase 200 páginas, foi uma analogia entre uma nespereira atravessada pelo sol cuja sombra é (e passo a citar) uma filigrana em movimento, projectada na cal e no anil que os árabes deixaram cá. Se me permitem, isto mais parece prosa de prospecto turístico de junta de freguesia, esgalhada pela secretária do presidente (lá está) entre uma ida ao cabeleireiro e um croquete mastigado em pé na pastelaria da praça, todavia, é imperioso dar a voz à autora, Alexandra Lucas Coelho, e por isso, mergulhemos no material para avaliarmos a tal «verdadeira beleza desta prosa», a partir do primeiro capítulo generosamente cedido pela Tinta da China.




Não vamos implicar com a total incapacidade de sugerir a «linguagem dos mecânicos» mas não podemos deixar de nos sentir insultados com a total ausência de ritmo neste frasear, e muito pior, com a desajeitada utilização do vernáculo, sendo de destacar a quase inexistência de analogias, imagens ou metáforas de modesta originalidade, problema que, a julgar pelos primeiros capítulos, afeta todo o livro. Mas um dos aspetos mais inaceitáveis de O Meu Amante de Domingo vai para uma sociologia descuidada e violentamente preconceituosa, que podemos caracterizar como a «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas», o que podendo ser uma prova do espetacular realismo da personagem (deduzida nós bem sabemos de quem), não casa nem com o uso do vernáculo, nem com a atracção pela violência da gaja de Gaia, pois que a «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas» considera inaceitável toda a forma de violência, com excepção das cargas policiais. Com efeito, esta simpatia pela mãe da amiga (com  doutoramento e agregação na Faculdade de Letras) a juntar à simpatia pelos doutorados que, coitados, não podem comprar carro, tem origem na ideia de que as pessoas com estudos estão mais próximas de alcançar a verdade, o que sendo interessante como discussão filosófica, se revela uma tragédia do ponto de vista do tratamento como tema literário.

A mãe era a gaja mais gira de Letras, e continua a ser a gaja de cinquenta anos mais gira de Letras, doutoramento, agregação, etc. Isto de ter cinquenta anos não sabemos bem como acontece. Um dia uma gaja está com quarenta, toda a gente lhe dá trinta, e de repente faz cinquenta. Aí, toda a gente diz que os cinquenta são os novos trinta. Mas como eu sou do Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, o que digo é, quero o meu pescoço de volta, caralho. 

Portanto, numa prosa que se reputa como bela, desabrida, nunca antes vista, e capaz de caracterizar uma singularíssima personagem na ficção portuguesa, a mesma gaja que faz a revisão gramatical da biografia de Nelson Rodrigues também é capaz de dizer «Mas como eu sou do Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, o que digo é, quero o meu pescoço de volta, caralho.»


Temos dado nota do crescimento exponencial da mulher como compradora de romances, e mesmo sem estatísticas rigorosas, sabemos de ciência segura que a mulher terá sido, desde o século XVIII, a consumidora preferencial do romance popular, e tendo em conta o terramoto sociológico originado pela descoberta da pílula e da mecanização da vida doméstica, é da mais elementar justiça reconhecer que, mais tarde ou mais cedo, a mulher criaria um produto romanesco da sua própria lavra, tendo em conta a sua mitologia específica, e veja-se um recente trabalho da nunca devidamente apreciada Eva Illouz, sobre a triunfante cultura de auto-ajuda que ameaça toda a narrativa acerca do hipotético e desgovernado imaginário sexual da mulher moderna. Contudo, os riscos de simplificação são mortais, e não me parece que Alexandra Lucas Coelho tenha conseguido tocar o lodo em que se forjam os mitos da criação, ao dar vida a uma natural do Canidelo, loura, relacionada com mulheres que viajam para o Rio de Janeiro (na estafada forma do «disse-me uma amiga»), profissional do mundo da edição, adepta do ginásio, e aposto que do ioga e do vegetarianismo, e utilizadora desajeitada de palavrões, de resto, se fosse assim tão fácil criar mitos, não seriamos forçados a gastar tanto dinheiro em vinho, cerveja e ansiolíticos.


Outra prova desta sociologia de bolso decorre da análise que a personagem faz dos lisboetas, certamente contagiada por conversas com os amigos de Alexandra Lucas Coelho, no que respeita ao uso do vernáculo.


A minha melhor amiga diz caralho mesmo sendo lisboeta mas deve ser a única. Depois de uma garrafa de vinho debruçámo‑nos sobre esse clichê do porno que é um mecânico, mais clichê só bombeiro, canalizador, trolha, de acordo, e daí?, no apocalipse do capitalismo seremos enfim irmãos, e entretanto o clichê é apenas a gaveta onde o civilizado acha que arruma o selvagem (...)



Lazar Marković i Darko Lazović
Prometo desde já ir a Fátima a pé no caso do Liverpool emprestar Lazar Markovic ao Benfica.

Isto é tão doloroso para a minha sensibilidade que tenho muita dificuldade em comentar, pois da ideia de «apocalipse do capitalismo» até à teoria do clichê como «gaveta onde o civilizado arruma o selvagem», é tudo tão autenticamente produto da «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas» que só pode ser fruto da pressa com que Alexandra Lucas Coelho transportou para o livro muitas das suas conclusões apressadas. 

Às dez e meia, o meu futuro amante de domingo entregou‑me o Lada pronto. Às onze eu ainda não tinha ido embora e ele já me tinha contado a história da sua vida, ilustrada por fotografias do filho no telefone, que era um smartphone, porque só os excluídos e os auto‑excluídos não têm um smartphone em 2014. Como o filho morava com a mãe, e ele dizia a mãe do meu filho, deduzi que estava separado. 


Estamos diante de mais um clássico da «mania das gajas de esquerda que se julgam cultas», ou seja, a raiva elementar contra a tecnologia, o que explica, de certa forma, esta outra afirmação bombástica, a saber, escrever sobre sexo é escrever sobre fracasso, e arriscaríamos interpretar esta dificuldade como decorrente da incapacidade de entender o sexo como mecânica, e por isso, dotado de uma técnica, como sempre souberam as culturas antigas (que tinham tempo, meu deus, que tinham tempo) o que nada implica desvalorizar os estados mentais subjetivos implícitos no sexo, ou as retribuições ditas mentais, espirituais ou conscientes (façam favor de utilizar a terminologia paranormal que mais vos aprouver) associadas à maior «sentimentalidade» da mulher. É aliás muito estranho como a própria autora não se apercebe (ou pelo menos não sinaliza) as ligações evidentes entre o mecânico, com a sua taumaturgia da reparação, e o desejo sexual de uma mulher em busca de soluções, no fundo, a assunção de um velho e incontornável problema da nossa civilização pós-moderna, identificado por Italo Calvino, ou seja, a incapacidade de associar a maravilha e o milagre com o prazer do trabalho. Escrever sobre sexo, só é escrever sobre fracasso para quem se encontra enterrado em quinquilharia psicológica, e tende a associar a escrita de ficção a um bazar indiano confusamente repleto de pedaços dos nossos estados mentais, onde é impossível ao proprietário encontrar os artigos solicitados pelo cliente, tal é a desilusão, depois das catástrofes do século XX, perante os limites da racionalidade humana, sendo a dita racionalidade, uma das poucas coisas de que nos podemos orgulhar. Para refutar este decadentismo burguês (tão nocivo para os nossos adolescentes) bastaria agora citar dois fundamentos da humanidade, o Kama Sutra e o Cântico dos Cânticos.


Bem vê o leitor como a escrita de Alexandra Lucas Coelho, como aliás todo o seu raciocínio, é vibrante de beleza e originalidade, e diria mesmo verosimilhança, mas não quero forçar a nota do realismo, que aliás me interessa pouco como género literário, e assim, quero apenas chamar a atenção para mais um pedaço da penetrante sagacidade da personagem principal de O Meu Amante de Domingo quando deduz da frase do mecânico «a mãe do meu filho», um mais que certo divórcio, sendo que se a frase fosse «o filho da minha mulher», poderíamos daí deduzir um casamento saudável e fulgurante. Ainda dizem que a literatura não comporta mensagens.


Eu e o meu futuro amante de domingo despedimo-nos a contragosto, achei eu (a capacidade de as gajas acharem é impossível de satisfazer). Felizmente, o multibanco dele estava avariado, eu não tinha dinheiro na carteira, e ele disse que preferia dinheiro em vez de uma transferência, portanto concordámos que no domingo seguinte eu voltaria para lhe pagar.


Em suma, esta prosa é tão pobremente jornalística, tão banal e incapaz de suscitar efeitos emocionais no leitor, tão pobre de temas e invenções, tão escassamente inteligente na caracterização psicológica, que diremos constituírem as referidas críticas (publicadas em jornais de referência, valha-nos deus) dois exemplares pedaços de absoluto delírio metafísico, de injustificada preguiça mental, de tresloucada lambe-botice, de incompreensível e circense raciocínio crítico, cuja justificação só pode ser a de uma sólida relação de amizade (e respeito) entre os dois críticos e autora, relação de amizade em que o leitor (infelizmente) não tem o prazer de participar.

3 comentários:

Anónimo disse...

"Mas como eu sou do Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, o que digo é, quero o meu pescoço de volta, caralho."

DE Canidelo, caralho, DE Canidelo, foda-se.

euexisto disse...

clap clap clap

aquilo são palmas.

Lourenço Bray disse...

Clap. clap.