segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Terceiro e derradeiro post sobre irrelevâncias - em que se faz referência a uma eventual necessidade de se repensar o sistema de incentivos na economia da edição.

Foram aqui lançadas várias acusações em virtude do manifesto desperdício de tempo (esse mítico recurso do século XXI) levado a cabo pela minha pessoa, quando decidi envolver-me em lutas de lama com espécimes do mais irrelevante tipo nesta nossa ecologia mediática. Permitam-me, para efeitos de justificação, citar a famosa afirmação de Thomas Kempis, esse excelso imitador de Cristo «Toda a perfeição, nesta vida, é mesclada de alguma imperfeição, e todas as nossas luzes são misturadas de sombras.» 

Julgava ser ponto assente a vocação temerária e ensandecida deste blogue. Quem melhor colocou a coisa foi Vicent Poursan, permitam-me os restantes leitores e comentadores uma curta citação de um dos nossos mais antigos e eruditos leitores:

O que se sabe (sobre alf) em concreto é a sua contumaz queda pra marrar com comboios que, até hoje, teimam em passar no ramal do lado.


É isto, é isto. Marremos por isso mais uma vez no comboio, independentemente do ramal, bem sabemos que não sou um fanático da eficácia. A minha religião é o estilo. Parece-me que estou justificado e, por isso, em condições de prosseguir com a última peça desta Trilogia dedicada ao nosso triste e irrelevante mundo.

Ora, neste caso, o estilo também passa pelo estilhaçamento dos diferentes bastiões da muralha. Claro que existem bastiões mais robustos e pontiagudos do que outros. Escolhemos um: Joel Neto, e o seu romance, Os sítios sem resposta, Porto Editora. Bem sei, não é propriamente uma fortaleza inexpugnável, mas, caros amigos, não devemos negligenciar as forças do inimigo, a muralha é forte, quase indestrutível, a saber: uma consideração impensada, irrefletida, bolsada pelos vencedores do nosso sistema de comunicação, que insistem em tirar partido da miséria alheia e da concentração de poder, económico e informativo, para traçar sobre as costas do povo vergado, os mais sabujos negócios, sem pinga de consideração pela elegância ou pela qualidade dos produtos que pretendem comercializar, para não falar do profundo desprezo pela beleza e pela obra dos santos autores que os precederam. Dizia Fernando António Nogueira Pessoa: quando um tipo escreve tem que se notar que existiu Homero. Simples, barato, não dá  milhões. Vem isto a propósito de Joel Neto, de quem muito se espera.



«A grande afirmação do autor como romancista.»
JORNAL DE LETRAS

«Um romance fluido e sem pontas soltas.»
LER 

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TIME OUT
 
«Melancólico e comovente.»
DIÁRIO DE NOTÍCIAS



As editoras do grupo Bertrand (Bertrand, Quetzal, Pergaminho, Temas e Debates, Arte Plural, Contraponto, GestãoPlus, 11/17), bem como o Círculo de Leitores, a Distribuidora de Livros Bertrand e a cadeia de livrarias Bertrand passam, a partir de hoje, a estar formalmente integradas no Grupo Porto Editora, abandonando o DirectGroup, uma divisão de negócios da multinacional Bertelsmann.Segundo jornais de ontem, «o volume de negócios do GPE em 2009 foi de 95 milhões de euros, prevendo-se que, com a entrada da Bertrand e do Círculo de Leitores, a faturação de 2010 se situe nos 150 milhões de euros». A revista LER é publicada pela Fundação Círculo de Leitores.


Não podemos iniciar esta pequena crónica sem mencionar algumas opiniões tipo, a propósito da publicação do livro de Joel Neto, Os Sítios sem resposta. Penso aqui, sobretudo, na firme opinião do atleta intelectual, génio ilimitado, praticante da perspicácia felina e dos mais arriscados domínios da sageza guerreira, destemido e pioneiro, o ínclito, o visionário, Pedro Boucherie Mendes, funcionário do Grupo Impresa, Boucherie Mendes que a 4 de Abril de 2012 já tinha, note-se, com admiração e espanto, lido umas dezenas de livros. Diz-nos Boucheirie Mendes a propósito do livro Os sítios sem resposta:

«Um tour de force. O melhor livro que li este ano (e já li umas dezenas). Magnífico, com tudo no sítio e a demonstração que é possível escrever em português de Portugal como os brasileiros descobriram há muito ser possível com o português deles
Pedro Boucherie Mendes (4-4-12)


Decidimos então averiguar essa maravilha literária e fomos em busca do livro, encontrando, no blogue do autor, várias informações jornalísticas e uma pré-publicação. Decidimos escrever uma carta.


Caríssimo Joel Neto, cronista do Diário de Notícias e de O Jogo (grupo Controlinveste, com participação do genro altamente patrocinado pelo Presidente da República, e o respetivo e respeitável carcanhol angolano) parabéns pela publicação do teu livro de que só agora, infelizmente, tive auspiciosa notícia. Mal eu sabia que tendo tu regressado aos Açores, já preparavas um outro romance sobre as vivências rurais. Desculpa, não entendas isto como uma quezília pessoal Benfica-Sporting, um tema caro às tuas preocupações literárias, mas temos de partilhar a tua obra com os nossos leitores (não somos esquisitos, frequentamos todas as esquinas, temos esperança no ser humano) até por que nos vídeos de divulgação da tua obra, Os sítios sem resposta, tu pareces um padre, e confessas mesmo, sem pudor, ter adaptado um verso do Poeta e Padre, Tolentino Mendonça, como título do teu livro. Isto merece reflexão mais demorada.

Repara bem, tu desperdiçaste uns infinitos sete minutos e vinte e quatro segundos de uma entrevista com uma estimulante e fresquíssima gordinha, de fabuloso semblante (no sentido de propensa a fábulas, pela carnação e cores rosadas) e cheia de vida, numa palavra, uma bela e voluptuosa rapariga, lembrando as lavadeiras que debruavam os tanques das nossas aldeias (quando o sol rodopiava em fogo e as pastorinhas analfabetas e febris sonhavam com virgens do mundo antigo, pairando sobre nuvens de ouro entre frondosas azinheiras) e que entre os intervalos da lavagem, conversavam, entre risinhos e grandes calores, com um morgado de botas altas e cavalo russo, que a dado momento, se tornava circunspeto e as tentava convidar para umas cambalhotas furtivas entre os lírios do campo.

Contudo, Joel, diante da lavadeira, tu mantiveste uma postura de confessor. Bem sei que a televisão é um sítio público, e os segredos da sedução obrigam a manejar um sem número de instrumentos perigosos de exibir em público, mas caramba, nem um sorriso maroto (só gargalhadas boçais) nem um elogio à perspicácia da menina, nem uma insinuação sobre a particular beleza, renascentista, da sua tez, e chegas mesmo a embaraçá-la perguntando se ela, que diabo, leu o livro. Ler o livro? Mas tu não sabes como a cena funciona? Tu apareces em tudo quanto é jornal mas sabes perfeitamente que tiveste de fazer os teus telefonemas. Não tiveste que utilizar o poder comercial da editora para te abrir portas? Achas que menina não tem mais nada para fazer se não ler os teus livros? Podias ter mantido a concentração no que interessa, e elogiar o seu deslumbrante cabelo escadeado, a tonalidade brônzea da pele, as madeixas simples, de fortes raízes escurecidas, que em nada lembram a grosseria da coloração artificial, mas se assemelham às caudas de fogo dos cometas, ou uma menção aos bonitos ténis dourados, lembrando as asas que Vénus trazia nos pés, ao menos uma referência, curta que fosse, ao simples, elegante, recorte da anca, espartilhada em escura ganga, aos ombros carnudos, coroados por aquele franjear fúnebre celebrando já as exéquias do  homem atingido pela seta do cupido. Nada, nada, só generalidades sobre o teu profundo livro, o amor dos filhos pelos pais, o amor dos pais pelos filhos, considerações sobre o Sporting,  e chegas mesmo a  dizer «se eu despir este casaco vais ver». Joel, vais ver o quê? Caramba, manténs uma postura de menino de coro e depois ameaças mostrar os peitorais descaídos, insinuando tatuagens e piercings? Aquilo era ironia? Pior, aquilo era verdade? Neste contexto, e com falinhas mansas, ameaças o mundo com a tua sensibilidade, quando, na verdade, o teu livro parece ser um hino ao sexo entre desconhecidos. Em que ficamos? Estaremos desorientados?


Não leves a mal, mas algo me diz que é preciso zelar pela saúde financeira das nossas editoras, enquadrando o exército de críticas positivas que fazes desfilar no blogue, e a fortíssima propaganda dos nosso jornais, instrumentalizados pelos grupos económicos, geridos por pessoas convencidas de que podem moldar o mundo de acordo com a sua própria ignorância. Dirá o leitor que leu dois livros e meio de má economia: é o que vende. Dirá uma pessoa informada: ai sim, então se os agentes são racionais, o que é uma falência? Sopraram-me ontem ao ouvido que o Joaquim Oliveira, uma pessoa que sabe o que vende, e patrão da Controlinveste, está atulhado de dívidas até aos dentes. No entanto, isto não tem problema absolutamente nenhum, pois estamos em equilíbrio. Falemos, pois, de coisas elevadas.

Como é do domínio público, este pequeno país está atulhado de ignorantes, um país que tu acusas de ter uma massa crítica reduzida (pois é compreensível que meças o país pelo tamanho do teu nariz - desculpa a rima -, ou pela inteligência dos teus amigos jornalistas) e por isso, considera este texto como um produto da tua imaginação, num futuro longínquo em que Portugal tivesse uma massa crítica mais consistente e fermentada, ainda que retorcida, com azia, e ressabiada. Felizmente, é uma conjetura, não existe, na realidade, qualquer massa crítica. Encara esta carta como o desabafo irrelevante de um daqueles anónimos cobardes e repugnantes que enxameiam a blogosfera; encara isto como a retorcida imoralidade da natureza humana, que tu dizes se preferível à amoralidade. Não estou a retirar-te o direito de seres um escritor, mas permite-me que torne o jogo um pouco mais competitivo. Não quero estragar essa lenda nacional, onde se constata que somos um país de invejosos, sem massa crítica, muito silencioso e ovino, que só sabe criticar sob a capa do anonimato, por isso, endereço desde já o pedido: arranja-me uma coluna de jornal, e eu deixo cair a máscara. Se te repugna a utilização do disfarce, chamo em meu auxílio a viperina língua de Shakespeare: arranja-me um máscara e eu direi a verdade, e, maria santíssima, como nós estamos desesperados pela verdade. Caso contrário, e tal como as equipas pequenas, segundo a velha tática do catenaccio (deus abençoe a Itália) cada um joga com as armas que tem e segundo a estratégia preconizada, por muito arriscada que pareça essa estratégia (sigamos Jorge Jesus). Pois aqui vai uma folha de couve, um pedaço de lixo, humilde contributo para a generalização da literatura popular de qualidade, uma coisa que tu aprecias e que eu, sinceramente, não sei o que seja.

Vamos analisar uma curta cena da pré-publicação. Repara, isto não é a maldade do crítico, não desfolhei furioso e com um líquido esverdeado a escorrer-me dos dentes pontiagudos, todas e cada uma das páginas da tua obra, em busca desse minúsculo pedaço de texto, em que tu, exausto pelo laborioso confronto com as musas, perdendo a concentração de ferro e descansando, por um só segundo, o estilete de aço da tua imaginação, acabas por soçobrar e cair na mediocridade. Não, não,  nada disso, pois dei de caras com o rastilho que tu próprio espalhaste com precisão, expondo-te ao perigo, em troca do elogio montado pela santa academia dos órgãos de comunicação de massas; pode dizer-se que me limitei a acender um fósforo.

Isto é a pré-publicação, apresentada como cartão de visita do teu blogue e publicada nos jornais. Vejamos então o que nos contas. A coisa é simples mas de inigualável alcance. A malta está a almoçar e de repente, alguém diz: muda-se de mulher mas não de clube de futebol. E nisto, o herói, espicaçado no seu orgulho de ser pensante, decide exercer a crítica. E eu, descansando por um pouco os olhos do ecrã, pensei que o nosso herói pudesse atirar qualquer coisa do género:

- Quem disse que não se pode mudar? Todo o mundo é composto de mudança, e mesmo o verde manto...

Mas não, nada disso, isto seria lirismo serôdio. Bem, antes de mais, parece que é Outono, pois escreves umas considerações sobre a abundante chuva enviada por um Deus impiedoso (ai, ai, ai, a metafísica cristã que não nos larga, a nós, homens que tivemos o infortúnio de frequentar a catequese, fazendo da nosso libido um farrapo de cozinha). Bem, aceitemos o Outono, em que chove, e por isso, o verde manto cobre o chão, que já coberto foi de neve fria, pensaria o teu herói. Todavia sou forçado a dominar a minha mente, e a disciplinar esta minha mania de projetar sobre o mundo, pois o teu herói, sendo ele próprio, não pensa nada disto, pois maneja o nosso português como os brasileiros manejam os português deles, e diz uma coisa muito outra, utilizando o falajar popular (a gigante expressão é do gigante da crítica Miguel Real):

- Agora já não sou do Sporting, agora sou do Benfica.

E está lançada a épica questão. Entretanto, telefona uma gaja desconhecida, combina um encontro às sete e comparece no apartamento do nosso herói, com uns sapatos de salto-agulha. (Esta cena dos saltos-agulha só pode ter sido inventada por uma freira - esgazeada de fome e de desejo, e encerrada num mosteiro por trágico desgosto amoroso -, para se vingar da condição masculina). Noto que a indústria pornográfica, guiada pela insinuante mão de Mefistófeles, tem vindo a cobrir todo o pé, anteriormente nu, com o mais elegantemente desenhado sapato de salto, altíssimo e estilizado, corrigindo uma das últimas imperfeições de uma atividade de excelência e desbravando os deliciosos caminhos que nos conduzem aos prados verdejantes do prazer. Joel, mais pornografia e menos Tolentino Mendonça, e a qualidade literária subirá em flecha. Agora, dou-te a palavra para nos ilustrares:

No momento em que estalei o trinco da porta, e enquanto tentava ainda perguntar-me quem era aquela mulher, por que me telefonara e o que afinal queria de mim, ela deixou cair o casaco, pousou a pasta com um gesto negligente, descalçou os sapatos um no outro, sem sequer lhes tocar com as mãos, e dirigiu-se à sala com a autoridade de quem a conhecesse desde sempre.

Isto pode ser perigoso de imaginar. Eu próprio tento várias vezes descalçar os sapatos um no outro, sem lhes tocar com as mãos, e uma ocasião cheguei mesmo a tropeçar, quase partindo os dentes na mesa de cabeceira.

Depois, voltou-se para trás, esperou um pouco, encheu o peito de ar, soltou a camisa do cós da saia e abriu os três botões de baixo, um de cada vez.

Encheu o peito de ar? Como assim? Repara, isto é uma cena de sedução selvagem, não é a disciplina olímpica de saltos para a água. Mais concentração Joel, mais concentração.

A seguir, tornou a esperar um pouco, arqueando as sobrancelhas – e, então, como eu continuasse ali estático, encostou-se finalmente a mim, à espera de ser persuadida a abrir os botões que permaneciam fechados: tudo com a naturalidade de uma velha concubina que tem de amar depressa porque, entretanto, outros afazeres a aguardam.

Caramba, Joel, o teu herói parece um termóstato, a gaja descalça os sapatos, abre os botões de baixo (da camisa, da saia, não interessa) incorre em olhares insinuantes para que o teu herói a liberte dos botões ainda fechados e nada acontece. Nada acontece? Mas tem de acontecer, caramba. Em todo o caso, existe, para tudo, uma explicação. Tu insuflaste na cabeça do pobre homem uma imagem terrível: uma velha concubina. Uma velha concubina. Pior que isso, só a sogra em roupa interior. É preciso mais respeito por personagens que trabalham, que dão o melhor de si, pois nestas condições, um homem não consegue exibir-se de acordo com os seus pergaminhos; com velhas concubinas, só a poder de fármacos. Vê tu próprio como o pobre homem se confessa:

Eu continuava atarantado, procurando situar-me no meio daquela farsa – e, incapaz de evitá-lo, olhava e tornava a olhar para a janela, certificando-me de que ninguém estava a ver ou, estando-o, me dissesse que não tinha enlouquecido, que aquilo acontecia mesmo, que bastava esperar um pouco e logo compreenderia tudo. Quando a mulher me encostou à parede e me segurou com ênfase os testículos, no entanto, percebi que tinha uma erecção.

Espera, espera, espera, a gaja agarrou-lhe os testículos, não, não, a gaja segurou com ênfase nos testículos. Vais ter que explicar isto. Segurou com ênfase nos testículos? Como assim? Primeiro, isto pode não ser o pináculo da analogia, [ênfase + testículos] articula-se mal com a aritmética da sedução. Vejamos alguns exemplos sobre a variação dos testículos no mundo animal. Parece que entre os chimpanzés todos os membros do grupo tentam desesperadamente copular com todas as fêmeas do grupo o que obriga a uma competição violenta entre machos, provocando o aumento dos testículos. Já os gorilas parecem ter desenhado uma organização social em que o macho copula com as fêmeas, sendo o próprio sistema social a excluir, automaticamente, e sem luta, os competidores da atividade sexual, resultando isto no definhamento dos testículos dos machos. Deste modo, bem se vê que, no que respeita a testículos, há segurar e segurar. Segurar com ênfase pode significar algo de preocupantemente ameaçador. Embora tudo dependa do tamanho dos testículos e da capacidade preênsil da mão que os agarra, neste caso, a executiva misteriosa. No entanto, a informação mais importante é sem dúvida esta: o nosso herói percebe, finalmente, que tinha uma ereção, e nós queremos perceber o que andou a fazer o nosso herói nos últimos três minutos e meio, enquanto a executiva desapertava os botões da camisa, descalçava sapatos de salto agulha, sem tocar com as mãos nos pés (e agora se percebe, estava a preparar-se para lhe segurar com ênfase nos testículos e talvez não quisesse sujar as mãos) e desapertava botões da camisa, retirando a mesma para fora do cós (uma palavra horrível Joel, soa a mosteiro beneditino) da saia. Estaria o nosso herói a assistir a um jogo do Benfica, por cima do ombro da referida senhora, tendo paralisado com um movimento incompreensível de Oscar Cardozo? Terá um problema de ligação ao nível do sistema nervoso, com um intervalo de vários minutos entre a ereção e o funcionamento neuronal responsável pelo reconhecimento mental da ereção? Isto sim, era motivo para todo um livro imperdível. A ação segue o seu curso irreversível.

No momento em que me beijou, melando-me por completo os lábios, com a língua enfiada bem fundo na minha boca, senti um tal ardor percorrer-me o baixo ventre que por pouco não me vim de imediato.


Joel: a língua enfiada, bem fundo, lembra qualquer coisa como a matança do porco, enchidos, morcelas de arroz, velhas transmontanas suadas, com braços gordos e viris, munidas com facas e alguidares de latão. Não tragas estas expressões para aqui, pois o nosso herói parece, neste momento, um pobre cavalo de tiro.

E, tão cedo me abriu a braguilha, me puxou as calças para baixo e me passou a língua ao longo do pénis, do princípio ao fim e depois outra vez ao princípio, desemaranhando com cuidado os pêlos que se eriçavam de surpresa e de desejo, agarrei-me à ombreira da porta da sala, lancei a cabeça para trás e deixei-me conduzir ao quarto.»

Aqui, e para terminar, várias perplexidades. A senhora puxou as calças para baixo ao nosso herói e aplicou várias lambidelas no pénis do mesmo. Ok, até aqui, tudo bem, ainda que a descrição do principio ao fim e do fim ao princípio deixe transparecer a ideia de que não se trata de um pénis mas de uma autoestrada. Agora, a questão dos pelos: causa-me espécie, pronto, reconheço. Um gajo que não sente a ereção, não pode ter pelos que se eriçam de surpresa, mesmo tendo em conta que existe uma língua a viajar longitudinalmente ao longo do pénis. Mas, perante tais pormenores, estou preocupado com uma coisa: tendo o nosso herói as calças em baixo, de que forma terá sido conduzido ao quarto, sem que volte a reportar-se qualquer notícia sobre a situação do vestuário? Por certo, trata-se da imaginação do escritor, bem sei, selecionando, da realidade, apenas a informação relevante. Mas era relevante saber o que aconteceu às calças, não fosse o homem esquecer-se de que tinha uma ereção, e deixa-se conduzir, pelos corredores, com o pénis aos trambolhões de encontro aos móveis.

Com toda a amizade, Joel, és um tipo simpático, mas deixa-te disto ou compra todos os livros que puderes e passa os próximos cincos anos da tua vida em leitura silenciosa. Para citar novamente Fernando António Nogueira Pessoa, lembro o que uma vez escreveu a certo poeta de circunstância: se o senhor não sabe música para que se põe a tocar rabeca? E repara, Joel, que nesta maravilhosa rede social, talvez tenha sido um repugnante anónimo a dizer-te o que nenhum dos teus amigos teve coragem ou sabedoria para te dizer, quando era o que o teu eventual amor pela literatura merecia que te dissessem. Não te sintas perseguido, vê isto como um simpático aviso, pois o anónimo digital prepara-se para um terrível contra-ataque contra os gigantes da comunicação.

3 comentários:

condenado disse...

Os sítios sem respostas... mas o pénis sempre deu resposta... agora só faltou saber se o gajo deu resposta... é bem possível que não, o gajo quase que se veio com uma lambuzada... e isso sim é fundamental... porque se o pénis lá vai... bem, deixa de ser um sítio e passar a ser o viajante. Pois é pah, que grande confusão que para aqui vai, mas quando o pénis deu resposta ainda era um sítio, um sítio, cara***, foda-se que grande ingénuo e queimado, mas eu ainda sou mais queimado que tu.

condenado disse...

Espera lá que tenho algo a acrescentar ao meu comentário anterior, que abona, talvez, a favor do Neto .

é bem possível que não, o gajo quase que se veio com uma lambuzada, mas vá lá que o sítio aguentou-se e ficou sem resposta.

Era só isto. Não importuno mais.

Cuca, a Pirata disse...

porra Alf, és muito bom, pá.