segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

João Tordo e a tourada metafísica.

Ando a preparar dois importantes contributos para o esclarecimento da moralidade pública, um sobre problemas de interpretação do estilo no discurso escrito e outro visando uma revisão em alta da zarzuela moral redigida por David Foster Wallace a propósito da indústria pornográfica, e que constitui, quanto a mim, uma triste capitulação da burguesia esclarecida perante a vanguarda proletária da moralidade judaico-cristã, uma coisa, paradoxalmente, muito comum em quase todos os escritores americanos. Entretanto julgo ser meu dever auxiliar os pobres em espírito, sobretudo os que, demonstrando pureza de coração, ou seja, vontade de um discurso crítico, revelam uma total inabilidade para pensar, criticar e expressar essa crítica a propósito desse órgão maligno e multifuncional, a língua, uma serpente falante capaz dos mais variados movimentos.


Interessado em recolher alguns materiais para o estudo do estilo, nomeadamente o tratamento retórico desastroso das relações sexuais em jovens autores portugueses (salvos sejam) encontrámos uma interessante reflexão de João Tordo. Quem é João Tordo? É um escritor entalado entre a técnica do policial e uma olímpica falta de cultura literária, mas é sobretudo um atrapalhado polemista, sendo ao nível da imaginação que revela as mais profundas debilidades, provavelmente por excesso de exposição às nobres disciplinas do pensamento, e passo a explicar. Não vamos proceder a uma análise integral da sua obra pois não seria justo, nem para João Tordo, nem, sobretudo, para mim, uma vez que me obrigaria a uma leitura atenta de todos os seus numerosos livros, vários, vários, produzidos entre os bastidores do guionismo (enxameado de longitudinais pernas e revitalizantes peitos) as fumegantes cozinhas dos restaurantes nova-iorquinos (enxameadas de baratas e indígenas provenientes do terceiro mundo) e os vários cursos de filosofia e escrita-criativa (enxameados de desempregados intelectuais e rebarbadoras especializadas no desbaste de qualquer densidade poética) sem esquecer o domínio, ainda que insipiente, do contrabaixo, tudo isto, meninos e meninas, ainda antes do escritor atingir os 40 anos de idade.

Diz João Tordo:

Leio o Jornal de Letras e deparo-me, a propósito do best-seller José Rodrigues dos Santos, com a cansativa conversa da polarização dos autores. A divisão entre os que "trabalham a linguagem" e os que "contam histórias" é a ideia mais absurda que pode existir em literatura. A literatura é linguagem: ponto final. É forma de contar, é "maneira" de dizer, é a construção de uma voz inequívoca que conta e que diz; aí reside a originalidade de um escritor e a sua arte. Qualquer pessoa pode "contar uma história" - o meu vizinho, o senhor do café, a minha avó que faz hoje anos (a minha avó conta excelentes histórias).

Por acaso, sou capaz de me lembrar de uma mão cheia de ideias absurdas a propósito da literatura, a começar pelo sentido geral do texto de João Tordo. Critica-se a polarização entre o escravizado, malcheiroso, conceito de «trabalho da linguagem» e os tristes, mas ricos, especialistas em contar histórias. Claro que Tordo, baixando a armadura, tenta aqui investir contra a linguagem mais próxima do relato jornalístico, do texto científico ou do relatório policial, precisamente por ser esta a linguagem em que pretende fazer «literatura» e não suportando um macho cobridor com mais capacidade de cobertura.  Por outro lado, todos percebemos onde quer chegar José Rodrigues dos Santos, ao insistir na polarização entre literatura e contadores de histórias. Para o derrotar seria necessário demonstrar (o que temos aqui feito algumas vezes) que, segundo as suas próprias instruções estéticas, dos Santos (o que eu andava mortinho para escrever dos Santos) revela  inabilidade, mesmo como contador de histórias. O problema é que dos Santos, embora um medíocre utilizador da língua portuguesa, e não obstante a inabilidade como contador de histórias, revela um controlo mínimo dos mecanismos dramáticos, do jogo da informação relevante, da capacidade de descrever a oposição entre segurança e perigo, da exploração da ambiguidade implícita nos mecanismos de decisão. E o problema é que a literatura, temos pena caríssimo João Tordo, é também isso. Pode depois ser melhor ou pior literatura, quando se avalia a capacidade de sobrevivência do texto a longo prazo, analisando a imaginação, o rigor das figuras de estilo, a mestria da combinação entre ornamento, ritmo e atratividade dos temas, mas não vamos lá com distinções entre literatura e contadores de histórias. Espera, mas não era exatamente isso que pretendias criticar? Estimado João Tordo, não resolvemos o problema da qualidade e da definição de estilos e dos tipos de produto, cegando em relação à crítica minuciosa do texto. Se dos Santos quer produzir um Lava-tudo e João Tordo quer produzir um Corrosivo para superfícies cromadas, o público terá tudo a ganhar com esse tipo de distinções funcionais entre os respetivos detergentes e terá tudo a perder com mistificações em torno da necessidade de lavar a casa. O que é necessário é testar se o Lava-tudo lava mesmo tudo e se o desengordurante de superfícies cromadas consegue reproduzir o nosso melancólico rosto na tampa das panelas como a face de Narciso na superfície do lago.


João Tordo meteu-se por um atalho, como preguiçoso que é, e perdeu-se. Afirma que qualquer um pode contar histórias: o vizinho, o senhor do café, que pode eventualmente estar envolvido com a mulher do vizinho (e isto seria já um interessante piscar de olhos à literatura, mas segundo Tordo não é, pois não se tratou aqui de qualquer trabalho de linguagem) e a avó do escritor, uma contadora de excelentes histórias. Repare o leitor que aqui, o próprio João Tordo confessa que a avó conta excelentes histórias, em vez da alternativa, ou seja, ser a avó uma excelente contadora de histórias. Quer dizer que se uma história pode ser excelente, mesmo contada pela sua avó (que foi integrada, segundo a teoria dos conjuntos, no grupo dos que não trabalham a linguagem, a saber, o vizinho e o senhor do café) então significa que uma história pode ser excelente sem trabalho de linguagem. Como sair deste labirinto? Ora aí está um bom tema para um livro.


Falta debelar uma difícil questão: o que fazem, segundo João Tordo, os praticantes da literatura? O primeiro contributo para a definição começa por ser, antes de mais, quantitativo, e como o compreendemos, como o compreendemos, neste mundo de escassez monetária:

Por outro lado, são em muito menor número os que sabem (e podem) escrever literariamente.

Isto é verdade, e João Tordo não se encontra entre eles. Depois, assustado com o seu próprio raciocínio, uma vez que José Rodrigues dos Santos se encontra entre os muito poucos que passam os 300 mil exemplares vendidos por livro, João Tordo decide puxar pela sua formação filosófica, pela sua experiência de refugado nas traseiras dos restaurantes nova-iorquinos, sobretudo pela sua distinta capacidade de escrever literariamente. E o que faz? Chama Aristóteles? Não. Chama S. Agostinho, um mestre na manipulação de mamas, vinho verde e problemas de linguagem? Não. Chama Vico e Hume? Não. Dada a nossa reverência à atualidade, chama I.A. Richards ou Northorp Frye? Não. Chama, que porra, ao menos Jacinto do Prado Coelho, ou vá lá, vá lá, David Mourão Ferreira, por razões de amor pátrio? Não, não, três vezes não. João Tordo esmera-se, arregaça as mangas, cerra os dentes, limpa o suor da testa, e chama Miguel Real:


Miguel Real escreve (e bem): "Eis porque a obra de JRS é academicamente mal vista: nada de novo traz à categoria de persoangem, nada de novo traz à categoria de acção, de enredo, de tempo, de forma estética".

E prossegue João Tordo:

Contar uma história não tem nada a ver com literatura: todos o fazemos, todos os dias, a todas as horas. "Contar bem" uma história, como reivindica JRS, continua (sic) não tem nada a ver com literatura. Qualquer filme menor americano conta razoavelmente bem uma história. A literatura não pode ser polarizada desta maneira porque acontece-lhe uma coisa curiosa: deixa de o ser.

Calma, vamos todos tentar manter a calma, pois estamos numa situação perigosa. Vou começar por estimular, muito devagarinho, apenas um dos meus neurónios. Não vou perguntar sobre o que traz de novo à categoria de personagem, à categoria de acção, de enredo, de tempo, de forma estética a obra de João Tordo, de Miguel Real, de Patrícia Reis, de José Luís Peixoto, de João Pedro Ricardo António João Manuel Francisco, ou de qualquer outro dos mastodontes agraciados, recentemente, com o favor das academias, pois não seria justo nem para o leitor, nem para mim, nem para os pandas selvagens. Mas gostaria de perguntar qual a relação entre a escassez literária e a abundância do que fazemos, a todos os dias e a todas as horas, pois o texto de João Tordo não parece esclarecer esta fascinante questão, e os meus leitores, habituados à colocação destes problemas, gostariam de ouvir aqui uma explicação de João Tordo, digamos, mais manejável. Também gostaríamos de ver respondida a questão sobre a mecânica responsável por fazer com que a literatura, quando polarizada entre trabalho da linguagem e contar histórias, deixe de o ser, pois não foi ainda explicado, mas temos esperança, temos esperança. Bem, se a literatura deixa de o ser quando se processa esta polarização, eu diria que, nesse caso, é intensificar essa polarização para que o que não é literatura deixe de tentar convencer-nos de que o é. Mas este raciocínio prende-se mais com a sociologia da edição e do jornalismos literário, que Tordo parece defender e sobre o qual não diz uma palavra (lembre-se que, saindo da Leya, só faltou lamber o rabinho empresarial do Grupo, não vá o diabo tecê-las) do que com o exercício da crítica literária consistente, que não vemos João Tordo ter coragem de sequer esboçar na suas muitas oportunidades para aceder aos meios de comunicação. Vai uma parceria Tordo? Não garanto é que não saias maltratado.

Trabalhar a linguagem é o dever de qualquer escritor - ou, pelo menos, o de qualquer escritor cuja existência e essência se confundam, isto é, aquele que procura, com os livros que escreve, abrir uma brecha no muro de pedra em que a realidade se constitui; essa linguagem - ou essa voz, ou essa forma - constituem, por si só, a história de um livro. Isto é: um romance é a forma de contar um romance; a voz que se constrói com as palavras. E esta polarização do absurdo é muito cansativa.

Peço ao leitor para colocar a máscara de gás pois entramos em terra de ninguém, a visibilidade é muito reduzida e há diverso material explosivo a sulcar velozmente os céus com um silvo ameaçador, para não mencionar o estrondo ensurdecedor dos grandes sistemas metafísicos em ruínas. A fusão entre existência e essência julgo ser aqui uma referência subterrânea aos dotes culinários da avó de João Tordo (parabéns atrasados) pois as reduções de vinho do porto, não só têm tendência para queimar com facilidade como produzem estados inebriantes capazes de sugerir as mais diversas cambalhotas da mente, sobretudo no que respeita aos objetivos da escrita. Quanto ao escritor que escreve livros resta-lhe abraçar a construção civil, munido com a sua maceta e ponteiro (que o meu pai, apesar de eletricista, manejava com algum brilhantismo) e abrir «uma brecha no muro de pedra» em que a realidade se constitui, aproveitando os intervalos em que a mesma realidade se distrai, esquecendo que o escritor também faz parte do muro de pedra que ambos, escritor e realidade, constituem. Estamos confusos, isso é certo, e não nos apetece nada ir trabalhar para as obras e abrir brechas em muros de pedra, preferimos escrever, pois no que respeita a muros de pedra da realidade, eu diria que os acabamentos manhosos e o reboco estalado são normalmente da responsabilidade do escritor, enquanto não anda a tergiversar sobre problemas que não consegue compreender ou interpretar devidamente.

Tordo, Tordo, bem vejo que pretendes fechar o campo do que é literário e do que não é, mas esse é um trabalho só ao alcance dos predestinados, e leva uma vida inteira a fazer, e só a obra o confirma definitivamente, e depois da morte, sobretudo, pois o efeito catalisador do tempo é o juiz mais poderoso nestes labirínticos processos, pelo que te resta, para não fazeres figura de urso, desenhar raciocínios mais elegantes e informados. Sugestão prática: ler crítica literária (ver bibliografia recomendada neste blogue) e frequentar menos cursos de escrita criativa e encontros com leitores.


7 comentários:

condenado disse...

O Tordo não faz dissecação de livros. Falou e disse, exalou pela boca.

Ó alf sempre vais deixar de ver uma partida do mundial para ires à aula do Tordo? Ou ainda não tens respondo?

condenado disse...

O Tordo não faz dissecação de livros. Falou e disse, exalou pela boca.

Ó alf sempre vais deixar de ver uma partida do mundial para ires à aula do Tordo? Ou ainda não tens respondo?

condenado disse...

O Tordo não faz dissecação de livros. Falou e disse, exalou pela boca.

Ó alf sempre vais deixar de ver uma partida do mundial para ires à aula do Tordo? Ou ainda não tens respondo?

condenado disse...

eish, foi a primeira vez que isto me aconteceu, eheheh

silvia disse...

eheheheh
oh! condenado:) excelente refrão:)

alf,
Nunca li nada de o Tordo mastambém fiquei sem a menor vontade :)
sou muito influenciável :)))



Zé Melro disse...

isto é tudo inveja porque os homens com nome de pássaro costumam ser muito bem sucedidos.

Vincent Poursan disse...

Finalmente um post sobre tauromaquia, e logo metafísica que é a que mais aprecio. Tenho só aqui uma sugestão (se tal me permites, e se não permites agora já está e não há nada a fazer) a propósito das ilustrações com que costumas enriquecer os teus posts. Bom, então é assim: tens de descobrir uma merda dum aplicativo que só mostre a ilustração a quem leia o post todo.
Isto de um gajo ir por ali abaixo e regalar logo os olhos num touro astifino e de pelagem retinta num campo florido, e quem diz um touro astifino e de pelagem retinta num campo florido, diz a Mónica Belucci de meias pretas e a mostrar as mamas na personagem duma jovem viúva siciliana que lá por estar viúva não significa que prescinda de lides mais fogosas (isto de lides é pra fazer a ligação narrativo-semântica ao tema), tem de acabar.

Tem de se ler o post todo. Só então, venerando e agradecido como o escritor que com humilde alegria despeja na mesa de trabalho os 10% que a editora, num Jonetiano exercício de caridade e em nome da franciscana frugalidade, lhe entregou (não sem antes o forçar a algumas torturas com visibilidade social, tipo entrevista a suplementos ou revistas de alargada distribuição, presença forçada em acontecimentos dito literários, e até outras heresias que agora não me lembro, mas que são igualmente remuneradas, a 10%, porque concorrem para aumentar as vendas da obra e até porque os reconhecimentos das academias em moeda corrente são poucos e têm de ser racionadas).
Só então, dizia eu, quem quiser ver o bicho ou a Mónica (eu prefiro a Mónica mas isto sou eu), poderá regalar os olhos e estimular a imaginação na Mónica (ou no bicho, depende do gosto, orientação sexual, ou relação que mantenha com a autoridade tributária).


PS a longa metáfora deste último parágrafo foi só para: a) mostrar que li os posts anteriores; b) para que o comentário esteja à altura do post (em termos de caracteres e parêntesis claro).