quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Futebolista, preto e benfiquista, no Panteão? Isso não.

Finalmente, após séculos a discutir o papel das elites no estrangulamento desse hércules natural que é o povo português, sempre armado de garrafão e sardinha assada, temos, pela mão dos intelectuais de esquerda, a tão esperada polémica pública envolvendo uma vasta gama de tópicos escaldantes. O retrato do nosso ideal de Nação, as supostas verdades históricas, o papel dos museus de mortos na democracia constitucional, os males das overdoses mediáticas e, como cereja em cima do bolo, a medição do prestígio solene a conceder a uma antiga glória do Sport Lisboa e Benfica. Não por acaso, Sport Lisboa e Benfica, a instituição campeã na glorificação do garrafão e da sardinha assada, e também, diga-se em abono da verdade, da comunidade africana em Portugal, como as exéquias fúnebres de Eusébio tão eloquentemente revelaram.

Claro que todos nós sabemos como o Bloco de Esquerda, e os antigos simpatizantes dessa área política, conseguem mobilizar e incentivar a comunidade africana, ou de origem africana, levando-os à participação política, pois o futebol é apenas um resquício neocolonialista. Quando não conseguem guindar africanos, ou portugueses de cultura africana, aos esplendores da liberdade política, também o sabemos, é apenas por que a transformação da comunidade africana em catedráticos da Ciência Económica leva muito tempo e precisa de um verdadeiro esforço revolucionário. Felizmente, temos a voz dos jornalistas, da esquerda à direita, filhos de escritores, primos de escritores, cunhados de escritores, sempre prontos a travar mais uma batalha contra o sistema mediático. Os jornalistas, sim, os jornalistas: sempre perspicazes e brilhantes, usando a circunspeção de quem se move, com particular equilíbrio, entre a difícil e complexa análise da democracia mediática, imediata, mediata, baseada no facebook, e nas redes sociais, esse monstro da modernidade que irá descabelar os nosso mancebos e emporcalhar as nossas donzelas, senão travarmos essa peregrina ideia de elevar Eusébio a herói nacional. Futebolista, preto e benfiquista, no Panteão? Isso não.

São os ingredientes perfeitos para travarmos a nossa parte na luta contra essa overdose mediática servida diariamente pela populaça (pois os jornalistas não têm culpa nenhum, são os anjos do Senhor). Uma luta, uma verdadeira luta contra a histeria popular diante da morte de uma antiga glória desportiva, ao lado da digníssima intervenção de um careca adepto do Sporting Clube de Portugal, Daniel Oliveira, filho de uma atual glória da poesia portuguesa, o anti-mediático mais mediático da Europa Ocidental. Haverá alguém a escrever nos jornais sem familiares célebres? Espero que não, seria uma afronta e uma perigosa brecha por onde se poderia talvez introduzir Eusébio na galeria do ideal nacional, um lugar onde figuram personalidades imorredoiras como João de Deus (Quem?) Aquilino Ribeiro (quem? o mais chato do escritores do mundo ocidental, será esse?) ou Sidónio Pais, (Quem? O terrorista, proto-fascista e tudo?) tudo pessoas de bigode, habituadas ao compromisso político, à luta revolucionária, adestrados no gosto pela alta, que digo eu, pela altíssima cultura, plenos de virtudes cívicas, lornhão e dragonas, e muito bolor, sobretudo muito bolor, um condimento essencial ao prestígio das elites. Por isto mesmo, comecemos pelo complexo tema da articulação entre as elites e o Panteão.

Daniel Oliveira, num deslumbrante texto onde se afirma a legitimidade das elites no controlo do Panteão, define o âmbito da problemática: Não se trata, portanto, de medir a importância de Eusébio. E mais abaixo, entusiasmado com a sua refutação da importância social e política do afro-português, afirma: Eusébio, no papel que desempenhou na sociedade portuguesa, não corresponde a nenhum dos valores centrais que nos dão o sentimento de pertença a uma comunidade. Deu-nos alegrias, não nos deu a liberdade nem mudou a nossa história. Sim, sim, pois todos sabemos que é a Daniel Oliveira que cabe definir os valores centrais que nos dão o sentimento de pertença a uma comunidade. Na República Oliveirista a que todos pertencemos, a liberdade e a mudança da história são os valores supremos da ideia pura, da alma republicana, do ardor cívico, as colunas do altar onde sacrificamos a nossa vida irrelevante. Curioso, eu pensava que a história era um processo de difícil controlo individual, mas não, mas não. Eu pensava que a liberdade era um valor relativo e apenas funcional numa relação ponderada com o valor da igualdade e da fraternidade, mas não, mas não. Na República Oliveirista, benfiquistas, incultos, futebolistas e pretos, no Panteão? isso não.


Sim, estamos confusos, mas não importa. Lancemos mão à analogia. Ao contrário de Nelson Mandela (um homem que, como todos sabem, muito fez pela humanidade, incluindo a luta armada) Eusébio é mais um triste símbolo do encolher de ombros diante das grandes batalhas cívicas, típico dos adeptos do garrafão e da sardinha, pessoas que teimam em não ler os textos espetaculares do Daniel Oliveira. Também não leem os meus, mas eu sou só um triste verme, caramba, felizmente ninguém partilha os meus textos no diabólico facebook, esse antro de velocidade e contaminação popular, mas já lá vamos.


Mandela é um estadista, um campeão da liberdade, capaz de juntar ao seu colar de espetaculares virtudes político-liderantes, o devido calvário cristo-judaico da humilhação, da prisão e da perseguição, e todos sabemos como o homem sofredor está sempre mais perto da imortalidade. Já o atleta, adestrado no jogo de equipa, que fez de si e do seu corpo o verdadeiro trabalho político, esse deve figurar nas caves do nosso desprezo. Já agora, temos de perguntar, indignados, que febres delirantes terão levado Mandela a investir tanto na entronização do rugby como desporto de africanos, e digno de africanos, capaz de potenciar as suas conquistas políticas, não recorrendo aos brilhantes escritores eruditos da sua pátria, o que só demonstra como a televisão nos deixa sempre confusos. Por outro lado, é uma autêntica conspiração do destino que após a libertação do povo sul africano (comum, aliás, a muitos outros lutadores anti-coloniais africanos, muito desprezados por todas as pessoas dos livros) a África do Sul continue a ser um país ainda mais absurdo e desgovernado do que Angola (esse antro da corrupção). Mas Mandela é Mandela. Frequentou a política radical, os antros onde se congeminam os ataques à bomba, ou seja, é portador de um «ideal de nação». Um simpatizante da luta e um pacifista, um camaleão mediático, perdão, um campeão da liberdade. Claro que temos a questão da violência, como se disse por aí, o que só demonstra como os meios de comunicação de massas se prestam a servir todos os lados do conflito. Eu próprio sou um defensor do terrorismo, desde que ao serviço de nobres causas, sobretudo contra jornais de referência e televisões, as mesmas que garantem vantagens na luta pelos direitos de propriedade sobre o galinheiro dos mortos, perdão, sobre o Panteão Nacional, onde figura Amália, essa figura que mudou a nossa história e nos deu a liberdade.


Permitam-me que dê a palavra ao ilustre Daniel Oliveira para se concluir, com mais propriedade e eloquência, quais os critérios de seleção:

Houve justificação para lá pôr Óscar Carmona e Sidónio Pais. Erradas, do meu ponto de vista. Mas corresponderam ao olhar que o poder político de então tinha da Nação e queria passar para o povo.

Isto sim, é tolerável. Já a introdução de Eusébio no galinheiro dos prestigiados cadáveres é intolerável, pois jamais se pode aceitar uma justificação assente sobre o olhar que o povo de hoje tem sobre o Eusébio de ontem e, ó clemência, ó piedade, nunca se poderia aceitar que o povo pretendesse, sem perguntar ao Daniel Oliveira, condicionar o olhar do poder político.

Até a presença de Amália, muito mais discutível, pode ser defendida pela ponte que conseguiu fazer entre a cultura erudita e a cultura popular tradicional, juntando o fado a grandes escritores.

Nem mais, a ponte entre a cultura erudita e a cultura popular. Mas nunca, note-se bem, mas é que nuca a afirmação da cultura popular por si só, mesmo que consagrada internacionalmente, sem Salazar a arbitrar os jogos, nessa terra campeã do fascismo, a Inglaterra, que como sabemos, tão devota de Fátima se tem revelado. Pontes? Só para os eruditos. Cultura popular, vinho tinto e sardinha assada, dentro do Panteão? Isso só por cima do cadáver do Daniel Oliveira. Futebolista, preto e benfiquista, no Panteão? Isso não.

No Panteão, só elites, só grande escritores, a lançar pontes para a cultura popular. Grande escritores, presidentes de farfalhudo bigode, e a devida e respeitável ascendência. Sim, sem dúvida, Amália lançou a ponte para grandes escritores. De onde devemos excluir Alexandre O'Neil, que era um parente do grande capital, um publicitário, e por isso na fronteira da respeitabilidade do galinheiro da escrita e da ética política. Amália foi um autêntico abono de família para enormíssimos escritores, tal como um David Mourão Ferreira (Quem?), esse génio das coxas e dos protuberantes seios, tal como José Régio (Quem?), o Cristo de Portalegre, o torturado aldeão de Vila Conde, essa terra que só produz génios, de vater hugo mãe a Fábio Coentrão, mas Fábio Coentrão, já o sabemos, nem que marque vinte golos à Alemanha e trinta à Espanha, no jogo da final, não é homem da cultura, não lança pontes para o mundo erudito, não entrará no Panteão Nacional. Para quem pensa que Eusébio lançou pontes de afirmação desportiva e financeira num desporto que começou por ser um desporto de elites, como se mantém ainda hoje o ténis, porque não teve Eusébios, nem Pelés, oiçam o Daniel Oliveira e reconheçam o vosso imundo e injustificado erro.

A popularidade é fugaz (mesmo que dure décadas), enquanto as representações de supostos "valores nacionais", em democracia e fora dela, pelo menos aspiram a ser perenes.

Calma, calma, coisas que duram décadas podem ser fugazes, e o correr dos séculos pode ser apenas um segundo da nossa mente coletiva, e para citar o Romeu apaixonado pela jovem Julieta, um só minuto pode parecer muitas horas, sobretudo durante a leitura de certos artigos inflamados da justa indignação a arder no peito generoso dos nossos jornalistas. A nação, esse tema predileto da esquerda renovada, deve ser fundada em valores perenes, e para quem pensa que a nação e os seus valores perenes sempre foram o açaime e o chicote que as elites utilizam enquanto cavalgam as pessoas em geral, desengane-se. O instrumento de exploração do povo é o tempo acelerado. Daniel Oliveira, muito justamente, pergunta:

se é possível, num tempo sempre tão acelerado, manter as liturgias oficiais necessárias para a construção e preservação duma "identidade nacional". Se essas liturgias não exigem uma de duas coisas: ou um poder político elitista que se recusa a ceder aos humores populares, ou um ritmo lento que transforma esses humores em convicções firmes e legitimas dum povo.

Exato, a identidade nacional fascista, elitista e retrógrada precisa de liturgias controladas por um poder elitista que se recusa a ceder aos humores populares, tal como precisa de um ritmo lento que transforma esses humores em convicções firmes e legítimas de um povo, e por isso, o futebol e o Facebook jamais poderão ser aceites como liturgias públicas, e se queremos manter o controlo das elites sobre a identidade nacional, faz muito bem o Daniel Oliveira em negar a Eusébio a entrada no Panteão. Futebolista, preto e benfiquista, no Panteão? Isso não.

E por isso, mais uma vez, o pensamento progressivo pretende, contra tudo e todos, é isso a Democracia, liderar a transformação do povo e o combate à austeridade. Os progressistas dos nosso jornais sabem que o verdadeiro combate não se trava contra Sic, o Expresso, os políticos com assento Parlamentar, os partidos, onde não se dá um passo sem bater com a cabeça numa conspiração de sótão. Não, nada disso. O verdadeiro combate trava-se contra os mortos do Estado Novo, e os hipotéticos e alegadamente ícones dos mortos do Estado Novo, o combate justo, perigoso, direi mesmo mortal, não se trava com esforço de raciocínio e coerência de vida, trava-se envergando camisolas futebolísticas e o eloquente culto do jargão político da esquerda reconvertida pelos quadros universitários e amplificada pelos jornais e televisões de referência.

Talvez a democracia, que tem por natureza menos instrumentos para impor a sua própria mitologia, não se preste muito a este tipo de heróis. E, por essa incapacidade, herdou da ditadura os dois únicos símbolos que, por pessoalmente nada terem a ver com ela, podiam ter sobrevivido à mudança de regime. De resto, parece-me que o templo de todos os deuses vai deixar de ser um Panteão tutelado pelo poder político. Talvez seja no facebook.

Epílogo: começo por uma singela pergunta dirigida às pessoas que querem salvar o país, o mundo e o universo, das garras do mal, da tecnologia, do grande capital, do bloco central de interesses, das elites corruptas e medíocres. Esse templo de todos os deuses, cuja apoteose é o triste Facebook (que vos duplicou, aliás, o poder) baseado nos campeões da igualdade e da libertação do desejo (Agamben, Zizek, Debord, e outro lixo universitário) não foi sonhado precisamente pelo Panteão que vos anima? Ou isso ou o Daniel Oliveira está só a ganhar a vida, o que é legítimo. Também Eusébio o fez, de forma particularmente brilhante, com nível internacional, sem estardalhaço discursivo ou grandes declarações de virtude. É precisamente este conjunto de valores relativos que leva o povo do garrafão e da sardinha a idolatrar Eusébio, e eu, que não estimo particularmente o povo, nem me preocupo muito com o seu destino, apesar de ter nascido entre os mesmos aromas de urze e de lama, emociono-me com isso, e acho que este desgraçado conjunto de analfabetos, esforçados, preguiçosos, brutos, incultos, labregos, por vezes preguiçosos, por vezes trabalhadores, sempre prontos a apedrejar a cultura e os livros, sempre prontos a odiar a política, sempre desconfiados da tremenda auto-disciplina e do esforço intelectual exigidos num regime democrático, este povo, cultor do imediatismo e do sensacionalismo televisivo, enquanto não aspira à libertação, que o Daniel Oliveira promete mas não cumpre (porque o seu ganha-pão é o estilo e não a libertação do povo) merece apesar de tudo ver um dos seus entronizado. Talvez com isso, o povo acredite que também há lugar para si neste desgraçado país de filhos de filhos de notáveis e amigos de notáveis.

7 comentários:

condenado disse...

Grande Texto!

Ó alf, és uma ponte para os grandes jornalistas eruditos; se não por ti nunca tinha sabido deste palhaço. Num dos meus primeiros comentários neste blogue lembro-me de ter referido que não lia jornais; pois bem, de hoje em diante dou passo atrás, e passo a frequentar o sítio do expresso na internet, para que me seja possível disfrutar das publicações deste blogue ao mais alto nível. Saudações.

Ó. disse...

Querido Alf, festejei este "post" como se de um golo do Benfica se tratasse. Estou em êxtase. Um abraço

Daniel Oliveira disse...

O texto é longo e não vou desenvolver uma resposta. Apenas gostava de explicar que "cultura de massas" não é o mesmo que "cultura popular". Nem pior, nem melhor. Apenas não é o mesmo. O futebol, de que eu gosto muito (até sou, como disse, adepto dum clube), faz parte da "cultura de massas", não da "cultura popular". Já o fado faz parte da "cultura popular". A Amália fez a ponte entre a "cultura erudita" e a "cultura popular tradicional". E a cultura popular ou erudita não é uma questão de classe, como o senhor, no seu texto, parece querer dar a entender.

De resto, gostei de saber que considera Mandela um terrorista. Ajuda a perceber o papel político de "preto" que atribui a Eusébio: a tanga do luso-tropicalismo. Ou então estou a imaginar que é mais elaborado do que é.

alf disse...

Caro Daniel Oliveira:

Obrigado pelos esclarecimentos. Tomo a liberdade de também fazer alguns.

1 - Só escrevo texto longos, não gosto da cultura de massas, muito afeita à brevidade sintética.

2 - Sobre a distinção entre massas, popular, cultura de multidões, ajuntamentos, tenho dificuldade em perceber as nuances, uma vez que, como sabe, só as pessoas que trabalham no Expresso são elaboradas. As outras são planas como uma tábua de contraplacado.

3- Não considero Mandela um terrorista mas é um dado inegável da sua biografia. Quanto ao mérito restante de Mandela, creio ter ficado claro no texto.

4 - Sobre o papel político de preto alegadamente atribuído a Eusébio, não esperava ter de explicar o efeito das figuras de estilo mas compreendo que tema ser conotado com uma posição que, na verdade, o seu texto sugere: o futebolista de origem africana como não merecedor de ser considerado um ideal da nação. Para mim, é óbvio que não existe nenhum impedimento e considero tão importante como importante seria termos deputados pretos e se calhar passaremos a ter, ao demonstrar como consideramos Eusébio como um possível ideal político. Sobre os sentimentos de culpa dos homens brancos, teríamos que envolver-nos numa interessante competição no campeonato do anti-racismo. Nesse nesse capítulo, a minha criptobiografia, que o Daniel não tem obrigação de conhecer, reconheço, fala amplamente por mim.

5 - Quem falou em luso-tropicalismo?

condenado disse...

eish ó Daniel Oliveira, com tanta coisa que por esclarecer, foste logo ao que não importava. Que pena.

silvia disse...

Quem nao entende quem foi o Eusébio, basta ler os mais variados e bons obituários na imprensa internacional.
Foi noticia de primeira página nos principais canais de TV e imprensa escrita ;) por quê?

Eusébio para o Panteão já ! ;)

Alf ;) mais uma vez ;) golo ;)))


euexisto disse...

eu até acho o Daniel um tipo inteligente, mas só tenho a dizer isto: incha porco!

para a amália é um free pass, para o preto alto lá! foda-se, que isto irrita.