sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Boa noite.

A única coisa a concluir do triste espetáculo a que o país se entregou durante esta semana, é a tremenda e coletiva falta de respeito das elites, dos jornalistas e das pessoas educadas, pela morte de Eusébio, uma pessoa exemplar, discreta, competente e simpática. Sem ponta de paternalismo ou ironia, acho que o descontrolo geral é a própria demonstração de que algo de relevante se joga neste triste evento, com o cruzamento entre o controlo dos eruditos sobre a cultura, a fantasmagórica sombra da estúpida herança deixada pelo Estado Novo, a roda livre da sociedade do espetáculo, e a humildade e inegável prestígio desportivo de um brilhante português nascido em Moçambique, uma antiga colónia do império mais arcaico e caduco do Ocidente moderno. Além do mais, lembro que o futebol talvez seja o mecanismo social mais democrático do mundo, e por isso, a única porta verdadeiramente mágica para todas as crianças pobres. Se a indústria do futebol gera hoje exclusão, seleção absurda e desigualdade, não devemos culpar por isso o próprio futebol e os seus mais brilhantes intérpretes, pois não representa mais do que uma amplificação da nossa condição trágica, marcada pela incerteza da trajetória individual e das verdadeiras razões do mérito. O que é muito difícil, confesso, é continuar a suportar declarações de pureza diante da tecnologia, por pessoas que todos os dias ganham a vida com essa mesma tecnologia, com o mediatismo, explorando até ao osso, o decrépito esqueleto desta moribunda sociedade do espetáculo, em programas irónicos, capazes de transformar os temas mais sérios em entretenimento saloio. Eu próprio fui arrastado pelo mirabolante circo da atualidade e não me contive diante da antropofagia jornalística. Em primeiro lugar, peço desculpa à família do Eusébio, pois era merecedora do nosso silêncio e contenção, pelo menos neste momento. Em segundo lugar, peço desculpa aos leitores deste blogue, por ter respondido a um comentário do Daniel Oliveira, quando muitas vezes não respondo às solicitações (frequentemente, muito mais inteligentes) dos anónimos. Se é verdade que seria deselegante não responder, tendo em conta ter sido eu o autor das duras (ainda que justas) críticas, não deixa de ser igualmente verdade que muitos anónimos têm ficado sem resposta. Só não apago o texto, abaixo colocado, e por incrível que possa parecer, por razões de decoro, pois apesar do tom nem sempre elegante, seria uma tremenda cobardia fugir agora a uma posição que mantenho, num debate bem mais importante do que possa parecer a um leitor mais desprevenido. Não estive à altura das circunstâncias, e não dormiria descansado se não viesse aqui reconhecer essa dura realidade. Como penitência, ainda hoje mesmo estareis a ler o post sobre o trabalho científico de Nabokov, retomando as águas tranquilas, constantes e ininterruptas desta fantástica ilha dos amores, o Elogio da Derrota.

2 comentários:

Anónimo da Silva. disse...

alf,

os anónimos estão contigo, não te preocupes.

eu acho que nós, os anónimos, continuamos a ser um elemento indispensável no equilíbro de forças da sociedade, isto apesar de, sendo nós uma parte significativa do povo e, por isso mesmo, odiarmos todas as formas de liberdade (e é aqui que homens de bem como daniel oliveira - além disso escreve no expresso, portanto, um ser humano quase perfeito - se espalham ao comprido porque estão convencidos do contrário, ou pelo menos aparentam, ou se não estiverem fingem que estão ou então não estão mesmo e tem vergonha de o dizer, ou então dizem mesmo isso mas fazem-no de uma forma tão rebuscada que parece o contrário, seja como for que se foda), como dizia eu, apesar de odiarmos todas as formas de liberdade, porque povo somos, estamos contigo e concedemos-te duas liberdades (isto apesar de não gostarmos de liberdade... mas aqui para nós que ninguém nos ouve, só mesmo pessoa com ideias transviadas sobre liberdade, como eu, anónimo da silva, podem achar que a dão ou tiram a alguém): a de escreveres as merdas que bem penas; e, sobretudo, a de ignorares as merdas que aqui se escrevem!

caro alf, acima de tudo, parabéns!

e que venham mais postas de pescada tuas e mais mamas arrancadoras de caricas do binary.

e para o senhor daniel oliveira, uma abraço hospitaleiro, os anónimos estão consigo.

anónimo da silva, representante dos anónimos.

silvia disse...

O Eusébio deve ter sido dos poucos que viu a sua própria estátua ;))

Quanto à família conviveram sempre com a parte amarga e hipócrita do sucesso..

Para mim que nao tenho pudor em ser injusta ;) afirmo :acho ridículo a Sofia M B ir parar ao panteão