segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Lamento muito, mas não há nada de mais triste do que uma imensa loja de brinquedos, cheia de crianças a apontar em silêncio, ou a chorar e vou abster-me, por hoje, de citar Charles Dickens.

Marcel Proust hesitou durante muito tempo sobre a natureza do seu discurso. Seria mais apropriado escrever um ensaio ou um romance? O primeiro texto publicado, em 1894, é uma simples queda, em roda livre, apesar de constituir, precocemente, uma excelente imitação da vida, uma lamentação cheia de considerações elegantes, um sem número de claríssimas demonstrações quanto ao rigor da observação, e uma necessária desorientação narrativa, típica do nosso mundo moderno. Mundo moderno que era já o seu, quando em 1914, diante da velocidade e da mecânica (as duas forças motrizes que estilhaçaram a ordem antiga, a ordem própria do mundo da cultura impressa) tentou publicar o mais extraordinário delírio lógico de que há memória na história da escrita com alfabeto.


Tal como todas as pessoas de coragem intelectual, Marcel Proust era de uma total desconsideração para com a sua própria segurança. Conta-se que empreendia religiosamente os seus passeios noturnos no meio dos bombardeamentos de Paris, para desespero da sua governanta e cuidadora nos derradeiros anos de vida, e só isto seria suficiente para dar nota da sua grandeza, o facto de ter concedido a uma criada (sempre usando de uma liberalidade que aprendeu com os Guermantes) toda a sua intimidade e favor material, precisamente no momento em que mais se afirmava a sua glória literária. A hesitação entre ensaio e romance não seria mais do que uma hesitação entre a consideração pelo público e o amor da arte, e nisto reside a única e terrível tragédia daquele que foi tocado pelo demónio da beleza. Assim, também as criatura forjadas nessa obra prima da consciência ocidental são, nas própria palavras do autor, «demasiado frágeis para quererem o bem e demasiado nobres para gozarem plenamente o mal, conhecendo apenas o sofrimento (...)» e por isso a investigação sobre o tempo perdido é a investigação sobre as mais diversas formas de queda no interior da própria vida. Palavras terríveis que nestes últimos dias me têm roubado o sono. Para onde estou eu a cair com tão avassaladora velocidade?
 
 
A consistência artística tem sempre qualquer coisa da coragem aristocrática e da robustez militar do indivíduo educado na elegância do combate. A fragilidade do escritor apenas comprometido com a beleza e o seu simpático mas restrito público, acaba por constituir, com o tempo, a mais eficaz força demolidora. Que força é essa, pergunta o leitor angustiado, parafraseando a conhecida canção de um desafinado cantor socialista e português? A força de quem recusa o tacticismo e não teme viver a sua vida, orientado por escolha forjadas no silêncio e no exame do seu próprio mecanismo mental. Sim, é verdade, qualquer um de nós pode fechar os olhos e recordar o sabor do seu bolo preferido, retomando uma tarde da infância, mas é preciso que essa tarde, e esse sabor, tenham sido companheiras de uma generosidade perante a beleza, é preciso que o tenham sido vividas por alguém capaz de sacrificar a sua vida diante de uma fotografia onde consta, finalmente, a imagem de uma mulher até então invisível. Uma coisa é o mercado, qualquer que seja o produto trocado neste mercado, outra coisa é a nossa sede de beleza e prazer e os sofrimentos implícitos na busca dessa beleza sempre demasiado distante. Agradecia que não se fizessem aqui especulações sobre o caráter adolescente desta economia, pois que outra razão existirá para que a paixão da mente, naquela alegoria grega, seja Cupido, o filho adolescente de Vénus? E que outra coisa senão isto, repete biliões e biliões de vezes o martirizado Oscar Wilde? E que outra coisa senão isto arrastou para a doença e a morte John Keats?
 
 
Quem está com Proust sabe que, na vida, só existe esta estranha triangulação: a beleza é o fim, e o prazer o único caminho para aceder ao inacessível  reino da beleza. Mas o resultado será sempre e irrevogavelmente um imenso e irremediável sofrimento. A literatura já foi clara a este respeito, quando as legiões romanas marchavam sob os frondosos bosques da Europa, as mulheres ofereciam flores e acendiam lâmpadas de azeite a pequenos altares perdidos nas orlas das florestas, e os homens não temiam ainda pagar o preço do exílio público pelo prazer de uma paixão terrível, nobre e magnífica. Um autor tão austeramente genial como Apuleio construiu uma daquelas labirínticas alegorias sobre a mente, numa época em que o dualismo psique/corpo não constituía um erro de tal modo grosseiro que levasse a negligenciar a nossa condição prática, e o texto do velho romano é tão claro quanto à necessidade de engenho, que é de fazer inveja a muitos cursos de engenharia. A definição da vida humana passa pela ciência do projeto e a literatura antiga consagrou-o, no seu desmesurado gosto pelo género literário na época conhecido por Metamorfoses: o segredo da vida era para os antigos o processo de transformação. Contudo, nós, ignorantes até à medula, a percutirmos como macacos as nossas tabletes luminosas, achamo-nos tremendos, julgamos ter atingido o pináculo da evolução mas temos produzido uma literatura, e um discurso em geral, que é de fugir. Todavia, temos esperança na vitalidade da juventude.


Na verdade, a bela Psique, a mais jovem e bela das três irmãs de um dada família, foi forçada, no meio da sua desgraçada paixão, ao ousar ver a cara do seu amado, a separar sementes, obter lã de ferozes ovelhas, e trazer água de fontes alcandoradas em penhascos inacessíveis. Pois o que é a vida? Cumprir com método, e uma programação apropriada (Psique é auxiliada pelo sábio plano de uma Deusa experiente) as mais terríveis tarefas e passar pelas mais absurdas e estranhas transformações (modificando as próprias regras de raciocínio e operação interna) e manter, apesar de tudo isto, uma certa coerência de processos, como dizem os jornalistas desportivos. Tanto Ovídeo como Apuleio (e eu não quereria agora dizer Jorge Jesus) sabem que a condição humana está sujeita: i) a uma cadeia de recíprocas ligações (ai, ai, a novidade das redes sociais) e a nossa forma é afetada pela adaptação a um meio e nessa adaptação, a forma do corpo e da mente será sempre função da relação com os outros (a teoria das populações, tão fértil na biologia dos anos 50 e 60 do século XX) e da relação com o meio; ii) as nossas relações com os outros determinam a nossa vida ou morte, o insucesso ou o insucesso da nossa vida; iii) o problema central dos indivíduos é por isso o da escolha entre a sobrevivência a todo o custo (mesmo cortando a cabeça, como nas práticas religiosas mais sinistras) ou da realização de um projeto de prazer, o que nos casos mais felizes, será sempre a combustão da vida na perseguição da beleza, o que constitui uma ética moral da mais fina estirpe, onde vão inscrever-se todos os grandes samurais da inteligência constantes da nossa breve história civilizacional. A este propósito, não gostaria de fazer grandes distinções entre as equações de Newton e os sonetos de Shakespeare: são duas materializações do mesmo tipo humano. Também aqui Apuleio tem uma palavra a dizer e fornece uma excelente teoria sobre a história tecnológica da iluminação. A luz artificial, na sua elegante expressão, deve ter sido inventada por certo apaixonado, quando pela primeira vez, inventou um processo de iluminação (a lâmpada de azeite) a fim de contemplar, possuindo durante mais tempo, e noite dentro, a mulher dos seus desejos.
 
 
Neste sentido, esta famigerada rede social, bem como todos os nossos toscos instrumentos não significam muito mais do que o prolongamento glorioso da nossa sede de beleza. Que a vida seja para todos os caros leitores e leitoras tão fértil de deslumbramentos como tem sido a minha e que a mão terrível do sofrimento possa ser indulgente diante da nossa condição. Amanhã celebra-se o nascimento de um desorientado samaritano mas autor do sábio aforismo que muito tem gerado esforços de interpretação castradora por todos os filisteus deste mundo: «são-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou». A frase é clara, meus amigos, a frase é clara, pois para quem muito amou a beleza, o sofrimento implícito nesse amor, constitui, por si só, uma coroa de santidade. Sabia-o Jesus Cristo, sabia-o Marcel Proust, e sei-o eu que tenho sido um mártir às mãos da beleza. A luta continua, cuidado com o bom vinho, pois preciso de todos os meus leitores e leitoras, sóbrios e aguerridos. Até breve.

4 comentários:

condenado disse...

"as nossas relações com os outros determinam a nossa vida ou morte, o insucesso ou insucesso da nossa vida" :)

silvia disse...

Grande texto ;) sim senhor ;))) muito obrigada.


Nao deixes de ver este vídeo
http://youtu.be/yt93QpIQeM8

Boas festas ;)
Obrigada



Anónimo disse...

Desejo-te um Santo Natal em todos os planetas que habitas, meu rico alf
Abraço
GB

Vincent Poursan disse...


alf, companheiro, ainda bem que te reencontro. A vida deu-me um pontapé e tenho andado por aí a ganir fingindo ser gente. Eu já volto, vou só ali fingir que é natal.