sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

E se O Elogio da Derrota fosse um blogue de maternidade, paternidade e questões associadas aos dilemas de viver entre fraldas, crianças e brinquedos?

Estou deitada, a dormir. O Ricardo vai buscar a Madalena para a nossa cama para depois a vestir. Ela aninhou-se, abraçou-se, deu festinhas e beijinhos. Eu sorri, ainda meio adormecida. E de repente, ela perguntou:
- Mamã?
- Humm.
- Ainda falta muito para tu morreres?

(Ora digam lá se não é uma bela forma de acordar)


Versão O Elogio da Derrota, sob inspiração da melhor versão da música mais apropriada para acordar em manhãs particularmente difíceis, e tendo em conta todos os tempos e todas as latitudes possíveis do planeta.


- Papá?
- Hummm.
- Ainda falta muito para tu morreres?
- Depende.
- Depende do quê?
- Depende do que estás a pensar quando dizes muito?
- Muito, papá, muito é assim como um dia de sol, na praia, que nunca mais acaba.
- Então já não falta muito.
- Oh, e eu?
- Tu vais continuar aqui, mas não faz mal, pois a vida é maravilhosa, e depois da morte, é como antes da vida, já dizia um senhor romano cujo nome rima com marreca. Já agora, diz-me lá, o que é que tu achas que significa morrer?
- Morrer, tipo, apagar, ser enterrado, desaparecer, ser engolido, estilo as bolinhas do Pacman, aquele jogo que me mostraste no outro dia, juntamente com a fotografia do Jorge Jesus.
- Ah, isso. Não tem problema. A morte é só a continuação da vida por outros meios.
- Como assim, papá, todos morrem, até nos jogos da PlayStation.
- Todos quem?
- Todos, os pais, as mães, os cães, os gatos, a Popota, o Nodi.
- Shakespeare não morreu.
- Isso é aquele senhor do brinco?
- Isso mesmo, cabelo ralo, rosto latino, gibão negro e golilha espanhola.
-  Os meus coleguinhas do infantário dizem que tu és esquisito.
- Como assim?
- Não fazes nada, papá, estás sempre no sofá com a cabeça inclinada para aqueles livros que não mexem e são muito descoloridos e dizes coisas melancólicas e complicadas.
- Belo uso da palavra melancólico, sim senhor. Como não faço nada? Olha ali aquele senhor, o Shakespeare, achas que ele fazia alguma coisa?
- Fazia peças de teatro, não foi o que tu disseste? A Professora da minha sala também faz peças de teatro para nós representarmos, de vez em quando, mas está sempre a correr de um lado para o outro, a suar muito, e as peças acabam sempre mal. A Julinha agride sempre invariavelmente (gosto desta palavra que a mamã está sempre a usar) o Bernardo e a Carminho, e eles choram muito porque têm inveja da Julinha que anda sempre com doces nos bolsos, enquanto a mãe deles não os deixa comer coisas com açúcar. É como naquela peça que me mostraste. Não percebi nada, estava tudo escuro, os ingleses falam muito alto, mas os gritos daquela senhora, como é que se chamava, a McBeta, parecia a Professora Fátima, quando o marido telefona lá para a sala.
- Vês, filho, isso é a prova de que Shakespeare não morreu?
- É o senhor do brinco?
- Sim, filho.
- Por que é que tu não usas brinco?
- Isso agora demorava muito tempo a explicar, mas lembras-te daquela peça sobre um Príncipe Dinamarquês?
- Sim, aquela da caveira, é fixe, papá.
- O Príncipe também faz perguntas, muito parecidas com as tuas, e apesar de o Príncipe viver muito triste, pois não conseguiu prolongar a memória do pai, e traiu os sonhos da mãe, e mesmo que a partir de uma certa altura, tenha desejado que já não faltasse muito tempo para morrer, a verdade é que ainda hoje vive, ao contrário de certos e determinados organismos biológicos.
-  Isso é muito confuso. Quer dizer que sou como um príncipe?
- É mais ou menos isso, filho.
- E quer dizer que ainda falta muito tempo para eu morrer?
- Quer dizer que esse tipo de perguntas mostra como estás vivo e bem vivo, pois ainda não te fizeram a cabeça (como o Príncipe, o Hamlet, que não deixa que lhe façam a cabeça, e desafia todos, e até se bate em duelo com um amigo, chamado Laertes, lembras-te) e quando já não puderes ou quiseres fazer essas perguntas, não terá muita importância se já morreste realmente, embora vivas, ou se ainda falta muito tempo para morreres, aí de forma definitiva. Bem, vamos vestir-te que o tempo é muito traiçoeiro e não podemos chegar atrasados à escola. E como dizia um escritor maneta e castelhano, hasta la muerte, todo es vida.
- Não percebi, papá.
- Não faz mal, filho, já não falta muito tempo para perceberes.

3 comentários:

Francisca Russo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
F. disse...

:)

alf disse...

Bom regresso às boas leituras, F.
:)