quarta-feira, 1 de maio de 2013

O problema é que o ministro da educação já foi um menino de 9 anos.

 «I'll never Be such a gosling to obey instinct, but stand,
As if a man were author of himself And knew no other kin».
Shakespeare, Coriolanus (5.3.37-40).


Peço desculpa por só agora chegar a mais esta manifestação de sociologia real. Após muitos e variados anos da minha adolescência e juventude passados no convívio serviçal com mães preocupadas com o destino psicológico da sua futura população doméstica, entregando os mais espectaculares, tontos e viris anos do meu crescimento à beleza, criatividade e genorosidade mas também traquinice, rabujice e por vezes idiotice de singelas crianças em ascensão (razão pela qual estou a desfrutar de umas férias da paternidade que espero durem até à terceira idade) estou em condições de vos garantir que um (mas não o único) dos factores típicos da crise económica ocidental se deve ao que tenho chamado a degeneração materna do ponto de vista do sofrimento necessário. Aliás, parte da estupidez política atribuida a Vítor Gaspar (para os leitores internacionais, estou a falar do Drácula Financeiro ao serviço do governo de Portugal) depende em grande medida deste singelo problema que é o facto de todos os pais acharem que deram à luz príncipes da Dinamarca, para descobrir com horror, mais tarde ou mais cedo, que existem milhões de príncipes da Dinamarca a reivindicar cuidados semelhantes, o que significa que os pais deram à luz cidadãos, o que não tem nada de mal, antes pelo contrário, mas por uma razão sinistra (que agora não posso desenvolver em detalhe) os pais e mães acham que as crianças não podem ser tratadas de acordo com este príncipio geral e belo, mas devem antes ser interpretadas e reverenciadas como raridades excepcionais ao funcionamento geral das coisas, aspecto que multiplicado por duzentos (pensemos numa escola com 200 alunos) resulta numa espectável confusão, seguida de gritaria e troca de insultos. Na verdade, esta é a razão pela qual a ascensão das economias de tipo moderno é proporcional ao crescimento do prémio pela redução do número de filhos por família (e nisto há uma aliança perfeita entre a emancipação da mulher, a transferência dos príncipios da Oikonomia para as Finanças Públicas, e a desorientação demagógica, de recorte ateniense, a que temos votado a educação das nossas crianças coitadinhas).

Não quero chegar ao ponto de com Medina Carreira (para os leitores internacionais, estou a falar do nosso Marreta com experiência militar) recomendar banhos frios até à primeira pívia, mas caramba, já chega de confundir o ponto de vista do indíviduo com o mínimo denominador comum da comunidade. Reconheço (escusam de bufar) que há no elo da paternidade estratosferas de amor, afecto e realização pessoal insubstituível e particular, a que a minha alma sem filhos ainda não chega mas o amor filial não pode justificar a nossa cegueira perante um dos mais penetrantes e disruptivos problemas do nosso Contrato Social (quer nas leis da hereditariedade do capital sub-tributado, quer na partilha das despesas de produção e reprodução de pessoas adultas); a verdade é que não fazemos a mais pequena ideia do que fazer com a vida (e já agora com a possibilidade de reprodução ou controlo concepcional) e transferimos para as incertezas do futuro das crianças todo o nosso complexo de culpa em relação à nossa incompetência política, toda a ansiedade doentia em relação ao que um filho espera de nós, e todo um desejo patológico de segurança e controlo, agravado pela facilidade de informação e comunicação da vida contemporânea. A educação representaria, se fosse possível, um elo mínimo com o que a comunidade impõe, ou devia impor, como uma divisão de vantagens entre a oportunidade de perseguir a felicidade (lado direito da assembleia nacional constituinte de 1789) e a obrigação de responder aos desejos de igualdade da República (lado esquerdo da assembleia nacional constituinte de 1789) mas isto se as pessoas pretendessem utilizar o cérebro para começar a tentar, pelo menos tentar, resolver problemas políticos globais, o que está completamente fora de questão pelo que tenho visto.

Segundo o comentário da Palmier Encoberto, Está tudo de cabelos em pé... atenção ao cabeçalho que eles vão ter de preencher na prova. Onde diz escola, têm de escrever, não o nome da escola onde andam, mas o do agrupamento onde vão fazer o exame. Para além disso, têm de saber qual é o número de identificação civil - no B.I ou cartão de cidadão, para preencher devidamente o cabeçalho... tudo coisas que os meninos de nove anos fazem no seu dia-a-dia escolar...

Não sei se repararam mas isto era uma ironia da autora. Com efeito, pedir a uma criança de 9 anos que quebre o seu dia-a-dia escolar e inscreva o nome de uma escola onde está a fazer um exame (nome da escola que pode estar escrito, por exemplo, num quadro diante de todos); pedir a uma criança de 9 anos que copie o seu número de identificação civil (essa aberração republicana muito mais nesfasta, inútil e pesada do que toda quantidade de informação que aos 9 anos a grande maioria das crianças já decorou à saciedade, como por exemplo qualquer programa de tarefas do mais elementar jogo de computador) é de facto uma tarefa ciclópica, uma aventura torturante e perigosa, um acto de tal desgaste mental que até parece impossível que tenha sido aprovado num Estado de Direito.

A todas as mães martirizadas com a preocupação gerada na mente dos filhos como resultado das diversas situações de vida geradas pelas diversas situações de vida (atenção, o mundo existe mesmo, e é real) quero enviar uma mensagem de conforto e de esperança, pois é nesse sofrimento (ligado ao medo do mundo e à separação do ventre onde outrora se encontrou o sono e o alimento) que está a esperança de salvação dos vossos filhos. Feliz aquele sobre quem os pais e as mães não tiveram total domínio porque dele é a possibilidade de não vir a ser um tolinho e um menino da mamã desses que uma vez no governo nos fodem a vida como se não houvesse amanhã.

12 comentários:

António Machado disse...

és sempre assim anormal ou hoje estás particularmente inspirado

alma disse...

AM,
sente-se um filho da mamã ?
não percebo a sua fúria.

Não tive pachorra para ler o texto da Palmier(sorry).

O problema que assola neste momento a educação é a falta dela :)

Uma educação com algumas bases na estoicidade dá muito melhores resultados que uma educação baseada no facilitismo frouxo do centro comercial -
garantia de mãe :)

alma disse...

hehehehehehe
ainda hoje sorrio :)quando penso na liberdade que tinha para dizer à minha mãe:
Ouvi tudo com atenção até aos 15 :) aquilo que não colou :) não cola mais :)))

de pais fantasticos saiem corações de latão :)
como de pais idiotas saiem coraçoes de ouro :)
É uma questão mais de sorte genetica que educacional :)

Não sei quem foi que disse:
faça o que se fizer erra-se sempre.:) com esta relaxei e assumo que fui uma excelente mãe :)))

António Machado disse...

alma

é suposto responder?

alma disse...

Agradeço se responder :)

Anónimo disse...

o meu professor de psicanálise (é verdade, pelo menos há uns 7 ou 8 anos havia malta a ensinar psicanálise nas universidades, assim mesmo, psicanálise, freud e o caralho) dizia que as creches eram um dos problemas da sociedade actual pois as crianças estavam a crescer rodeadas de iguais com quem começavam a competir desde muito cedo e não de pessoas mais velhas com as quais tinham a menor possibilidade de competir (pais, tios, avós, etc..) e por isso a sociedade actual estava a degenerar-se lentamente, a transformar-se numa selva, o darwinismo social estava a triunfar.

nunca tive coragem de perguntar a este ganda maluco (era mesmo um maluco do caralho, foda-se, de vez em quando começava a contar histórias do arco da velha e a fazer análises das obras de arquitectos famosos, do que significavam os edifícios que projectavam, enfim, bons tempos) mas como dizia, nunca tive coragem ou vontade ou oportunidade de lhe perguntar se esta sua teoria (simplista na minha opinião) tinha algum fundo de verdade (dentro daquilo que em psicanálise se pode considerar verdade ou válido) ou se ele estava a gozar com a nossa cara (porque, como é evidente, a maioria dos meus colegas havia frequentado as famosas creches, e se vocês o tivessem conhecido compreenderiam que ele provavelmente poderia estar a gozar) mas a verdade é que este texto fez-me recordar este episódio da minha vida.

e porque razão não me esqueci desta teoria? porque apesar de a considerar simplista, não frequentei nenhuma creche. a minha introdução à selva deu-se apenas e só com aos 6 anos, na primeira classe.

e o que tem isto a ver com o texto do alf?

descubram vocês, putas de merda.

vou ali e já venho. foda-se.

Cuca disse...

Na generalidade concordo com o post, mas continua a ser irracional mandar os miúdos de 9 anos ir fazer exames a uma escola que não é a sua. Creio que era isso que a bloguer em questão estava a criticar.

Zé disse...

Alma minha gentil tu quase que não tens idade para ser mãe, quanto mais para ter sido mãe.
O texto do Alf é mais ou menos giro e o da Palmier é pateta e patético.
Tá gira a história do anónimo que estudou psicanálise na faculdade.

Cuca disse...

Zé, o texto da palmier não é pateta nem patético. É despretensioso e enquadrado no estilo do blog em questão. É preciso ver as coisas dentro do seu contexto.

alf disse...

É verdade, Cuca, reconheço que tens uma certa razão, embora o Zé também tenha alguma. Talvez um compromisso: o texto da palmier é pateta, despretensioso e patético mas está enquadradado no estilo do blog em questão.

:)

Cuca disse...

Alf, you snobish creature :)

Cuca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.