quinta-feira, 2 de maio de 2013

Desconto de tempo!

 


Tal como o sol suspenso no altar do meio-dia, também a longa consideração do nosso próprio movimento nos pode cegar com uma dor incerta, incandescente. Significa isto que a velha metáfora do rei-sol se metamorfoseou, fazendo de cada um de nós uma superfície onde é refletida a luta impiedosa entre senhor e servo? É bem possível e com trágicas consequências. A escrita transformou-se num espelho multiplicador da nossa triste imagem, revelando do pensamento humano uma degeneração a que o indivíduo parece não poder (ou querer) resistir por muito tempo. Há mesmo qualquer coisa de perturbador na especialização do pensamento sobre o próprio pensamento, diria mesmo, e para utilizar duas belas metáforas caninas, que há no indivíduo que se volta para a escrita qualquer coisa do cão que morde a própria cauda numa enlouquecida rotação circular, ou traços comportamentais do triste cão bíblico a quem se recomenda em vão que não retorne ao próprio vómito. Se existe a possibilidade, ou ao menos a utilidade, de dividir os escritores numa sistemática, podemos defender com moderada segurança a existência de dois grupos: os fulgurantes, vitalistas e clássicos (para quem o discurso se deve apoiar numa arquitectura desenhada segundo uma física da credibilidade, e para os quais a retórica serve a construção de um público - Platão, Dickens, Stevenson, Conrad, Nabokov - e veja-se o moderado reconhecimento e longevidade destas carreiras); e por outro lado, os recursivos, barrocos e auto-punitivos (para quem o discurso é uma estratégia exasperante e dolorosa para se furtarem à vida em comum e uma armadilha constante ao seu próprio raciocínio - Shakespeare, Melville, Joyce, Proust, Kafka, Sebald - e veja-se o terminar abrupto destas carreiras, a ambiguidade da sua situação profissional ou a retirada para a província ou para a morte, que é uma outra forma de vida provinciana). A bem da verdade, devo dizer que esta divisão é em si mesma uma prova da doença gradualmente progressiva neste autor que vos fala, sendo escusado confessar a sua vigorosa vontade de inclusão no segundo grupo, o que o anima a continuar com esta inútil e febril actividade.




Se venho aqui fazer considerações sobre tão desinteressante matéria é porque muitas vezes me vejo acossado pela necessidade de responder à pergunta fundamental: escrever e publicar para quê? Não pode descartar-se a sede de fama e seria pouco consistente com o vigor analítico demonstrado neste blogue não reconhecer o que nisto se deve a uma sede de glorioso reconhecimento, mesmo que esta sede de fama venha filtrada pela nobre contaminação da distinção ao jeito romano, e não por uma simples valorização do conforto trazido pelo sucesso (aspecto de que pode duvidar-se de pronto), ou do desejo mórbido perante o afecto do «povo» (qualquer coisa que nunca me inspirou senão sentimentos de repulsa, pois desde criança as viagens às feiras eram para mim um carrocel de horrores). Por outro lado, não só existe nesta bizarra actividade, e tendo em conta as características auto-reflexivas já assinaladas, uma clara perseguição de territórios insondáveis (seja o belo, o efeito mágico de verdade presente na analogia eficiente, ou o transe atingido pelo amplo domínio técnico) como há muitas, mais confortáveis e eficientes formas de atingir a galeria do sucesso nesta sociedade plena de prazeres, e que temos a sorte de habitar.


WG Sebald


Em suma, não pode sobretudo negar-se o que nisto de escrever se deve a vicissitudes várias da vida, à célebre e tantas vezes involuntária tentativa e erro que nos vai adaptando ao que o mundo espera de nós, ao invés de sermos nós a forçar a mundo às nossas ambições. Ao considerar a economia geral do meu desenvolvimento passado (apesar do humilde e pobremente cultivado berço que viu nascer o autor enquanto criancinha) vejo aqui e ali emergirem os sinais de um claro prémio, colocado pela realidade sobre os atributos do raciocínio especulativo materializado na qualidade/velocidade da produção escrita sobre mim próprio, razão que deve explicar este momento a que somos chegados, e é este o lugar para reconhecer que neste particular tanto o desejo sexual como o desarme perante a beleza feminina desempenharam o seu clássico papel de compensar com a inteligência  discursiva o que a mota ou o blusão de marca (ou a beleza física, reconheçamos com humildade) não permitiu garantir. Tão pouco nobres são as voltas deste mundo mas ao mesmo tempo tão naturalmente embelezadas por essa escultórica seleção das formas a que nem Darwin conseguiu dar inteira explicação.


Darwin in old age
 

Nenhuma das metáforas dualistas (paraíso/inferno, terra/céu, carne/espírito) consegue dar conta da ambiguidade presente no impulso da escrita e muito menos da publicação e palpita-me que neste como em muitos outros casos, permaneceremos nas trevas, pois a nossa vida, pelo menos para já, não obedece a nenhuma intenção computável em números. Se eu fosse uma personagem narrativa, o que por vezes sou, seria possível identificar uma lógica fechada e moderamente computável numa boa metáfora, mas tal como Lampedusa dizia dos protagonistas de Otelo (nenhum deles representa símbolos ou categorias, projectos ou causalidades; são apenas pessoas que como todos nós nascem, debatem-se e morrem) também nós, humanos, não representamos nada que não seja variável e fugidio, e julgo por isso que o nosso caso é muito pior, pois que não nos está sequer reservada a conturbada mente de um génio ou o tablado de um palco Isabelino. Debatemo-nos cruelmente com um projecto profissional de satisfação das nossas precárias e equívocas necessidades sociais (com o dinheiro como equivalência de todas as coisas à cabeça do que julgamos ser o conjunto dos nossos desejos mas nem isto é certo) e encaminhamos esse projecto o melhor que podemos de acordo com os estilhaços das nossas sensações mentais, ou para sintetizar isto numa categoria realmente cómica, de acordo com a nossa personalidade. Veja-se o seguinte exemplo, por mim recolhido na procura de saber o que sou e que eu próprio apresento aqui como um exemplo transparente desse ridículo processo:


INTERVIEWER
What place, if any at all, does delirium have in your working life?

ITALO CALVINO
Delirium? . . . Let’s assume I answer, I am always rational. Whatever I say or write, everything is subject to reason, clarity, and logic. What would you think of me? You’d think I’m completely blind when it comes to myself, a sort of paranoiac. If on the other hand I were to answer, Oh, yes, I am really delirious; I always write as if I were in a trance, I don’t know how I write such crazy things, you’d think me a fake, playing a not-too-credible character. Maybe the question we should start from is what of myself do I put into what I write. My answer—I put my reason, my will, my taste, the culture I belong to, but at the same time I cannot control, shall we say, my neurosis or what we could call delirium.


Aqui está um escritor na plena posse das suas faculdades, dizendo tudo e não dizendo nada, brincando com a forma e o conteúdo, apresentando uma ligação melancólica com a história que o precedeu mas concedendo espaço a um futuro a que é preciso dar consistência, desenhando um sentido para quem vem a caminho, mas enquadrando os fantasmas do passado; aqui está um escritor deixando pistas sobre esse difícil trabalho de recolher pedaços da vida mental alheia para dar coerência ao trágico mundo da sua vida interior, ensaiando um bailado sinistro e elegante entre desespero e esperança, um casamento entre as sentinelas da ordem e os invasores da doença, esconjurando, ou escondendo, que a doença deve ter a sua ordem, tal como a razão deve ter uma parte de delírio, e tal como um mecanismo de controlo deve por certo ser também constituído por pequenos circuitos de rebeldia. A verdade é que publicar textos escritos deve ser uma estratégia muito particular e desesperada para salvar a unidade mental que o indivíduo, a partir de determinado momento do seu longo caminho por esta selva escura (e não garanto que tenha sido a meio), sentiu ameaçada, uma unidade digna de se chamar humana, merecedora da atenção e do esforço dos outros (e isto, meu deus, sabendo o quanto há de rídiculo nisto, quando nós próprios estamos exaustos pelo cansaço de nos expormos a nós mesmos) já não pedimos um trono, e muito menos uma Corte, já não pedimos um sentido para morte, nem sequer um beijo da Gogoliana e juvenil rapariga, pedimos ao menos três minutos de atenção numa página, alguém que nos considere dignos dos impostos despendidos com o Parlamento, a Polícia, os Tribunais, os sinais de trânsito, enfim, pretendemos apenas uma coerência para as coisas onde vamos obtendo o mínimo de paz, segurança e previsão dos nossos movimentos, o que estando a matar qualquer coisa da nossa animalidade intensifica ainda mais a necessidade de uma forma de convívio qualquer que substitua os grunhidos em redor da fogueira no interior da gruta. Escusado será lembrar com Sebald (o homem que reinventou a literatura do futuro por ter visto com especial precisão a que ficou reduzido o escritor e o seu trabalho público) o que de trágico e absurdo existe neste esforço de produzir uma página, as toneladas de melancólica auto-destruição presentes nesta irmandade de construtores de códigos e charadas, neste grupo de exploradores da sua própria vida, de mercenários dos seus próprios sentimentos, nesta seita de obcecados com símbolos e as suas possíveis utilizações, escusado será lembrar o que existe de mortal neste esvoaçar soturno de corujas, com olhos cansados pela letra miudinha, e que só ao anoitecer levantam vôo.

Marcel Proust - typescript and revisions
 

9 comentários:

Cuca disse...

Prémio melhor resposta à pergunta porque escreve : "porque gosto" (Umberto Eco).

pedro leitão disse...

e um grande elogio à escrita, a mais nobre derrota.

alma disse...

Amerika :) foi o 1º livro que li de kafka :)

alf, sei que não será muito animador o meu comentário sendo positivo nunca será tão positivo como de alguém com os parametros desejados :)

adoro ler :) leio de tudo mas só alguns chegam à minha 1ªdivisão.
um dos que está no topo da lista é o Proust :) por quê não sei :) quer dizer até sei :)
se eu soubesse escrever seria assim que o queria fazer :)

sei que para qualquer escritor não basta um bom leitor :) precisam de milhares de leitores.

alf, mesmo assim penso que o poder de escrever e ter imediatamente o feedback do leitor já é um grande avanço :)
sabendo que a maioria não se manifesta porque terá vergonha ou insegurança de não estar à altura do escritor :)
peço-lhe seja grande e continue ...
algo ficará :)
um bem haja pela generosidade de escrever sem ganhar a não ser uns piropos deslavados como os meus :)

continue por favor :)

condenado e feliz disse...

O Proust é o pai natal, o alf é o coelhinho da pascoa, e a alma é a mamã natal :)

Anónimo disse...

"Aqui está um escritor na plena posse das suas faculdades, dizendo tudo e não dizendo nada"

dizer tudo sem dizer nada é o mesmo que dizer nada dizendo tudo?

a última, dizer nada dizendo tudo, é uma característica que encontramos, por exemplo, em pedro passos coelho. quando ele fala ficamos sempre com a sensação de que perdemos tempo ao ouvi-lo, de que nada falou, mas ao mesmo tempo sabemos que estamos tramados. aliás, acho que ele nem precisava falar.

mas concordo. pedro passos coelho é claramente um homem na posse de todas as suas faculdades, sendo a principal delas a faculdade de, vá-se lá perceber por que razão, achar-se no direito de nos estragar a vida toda sob pretexto de que no passado fizemos tudo mal e agora precisamos de levar tau-tau. bolas, que há gente tão frustrada neste mundo.

não interessa.

respondendo à questão. simples. publicas para existires. porque se não publicares o teu trabalho é como se ele não existisse. há quem goste e quem não goste. o humberto eco gosta mas de certeza que para muita gente publicar o trabalho que acabou de fazer pode ser algo traumático ou irrelevante. kafka por exemplo não publicou quase nada. não sei porquê. mas ele há-de ter tido as suas razões.

a questão é esta: porque razão não nos limitamos a viver a nossa vida, sem essa necessidade de (tentar) existir perpétuamente através da obra científica, literária, filosófica, etc.. que produzimos? porque não nos limitamos a fazer filhos?

se o homem vivesse tempo suficiente para compreender as forças cósmicas que moldam o universo, se conseguisse derrotar a passagem do tempo vivendo cem mil anos em vez de apenas cem anos, ou quem sabe eternamente, sendo a morte uma escolha e não uma inevitabilidade, se não fosse um mero e insignificante grão de areia, será que existiriam bibliotecas?

condenado e feliz disse...

O alf, pelo menos, já conta com a minha definitiva e irreversível caracterização enquanto bloguista, uma das mais potentes e certeiras metáforas desenhadas neste blogue de maluquinhos. Que se dê por feliz, maluquinho-mor e caro alf, pois a caracterização somente constitui uma belíssima recompensa ao árduo trabalho que aqui labora.

condenado e feliz disse...

Ah, e o orfinho e o gibão, como disse o tal anónimo, são as lebres ajudantes do coelhinho.

silvia disse...

Por casualidade ontem terminei um livro que para lá do histriónico a parte que se aproveitava dissertava sobre este mesmo tema :)

deve ser um problema sério ter talento :)))

mas para nós leitores que vivemos na paz do senhor adoramos que alguém nos dê materia para nos alimentarmos :)))

Dear alf, como a alma diz estaremos sempre por aqui para te ler .

Para o anónimo :))) deixemos os filhos para quem não sabe fazer mais nada :)))



Ex-Vincent Poursan disse...

Fodaçe, eu nem sei porque razão me ponho a ler isto numa manhã dum sábado de Maio, com sol e sem vento, em vez de ir à praia. Tá bem, não gosto de praia e vou arranjando desculpas (cada vez mais difíceis agora que a de: vou mas faço nudismo porque não tenho calções; deixou de funcionar), mas trocar a praia por isto parece-me masoquismo doentio, quer dizer excessivamente doentio. E logo um post sobre futebol. A um sábado, no fim da época e não me assistindo a mim as alegrias da qualidade de finalista… é de mais porra!
Até porque, adepto dos recursivos listados mas na posse duma fulgurante personalidade (não se nota muito porque é um fulgor recursivo o meu (mas é fulgurante… oh lá se é! Nas fazes agudas até ejaculação precoce mete), desta trágica contradição resultou um conjuntural desinteresse pela merda do futebol.

Claro que ler isto me enriquece o vocabulário e ilumina o conhecimento. Depois de ler isto, quando estiver na praia a esta hora, já posso pensar pra mim: lá está o sol suspenso no altar do meio-dia; O que, admitamos, é uma reflexão profunda comó caraças, bué de metafórica e que vai com o meus novos calções azuis escuros (que sendo azuis escuros penso que nem posso ser acusado do pecado cromático do azul… só vantagens. A leitura recomenda-se em todas as idades e situações, mesmo num sábado de Maio com sol e sem vento.

E oportuno este post, mesmo muito oportuno, ainda bem que puseste a questão. Eu que me dediquei á escrita, à literatura operativa digamos assim, numa fase recente da minha vida, mais exactamente entre as 19.30 do dia 2 de Maio (hora a que escrevi e publiquei n’acausa um portentoso início de romance) e as 20.30 do dia 3 (altura em que, após a comunicação do passos, passei a dedicar-me à guerrilha urbana e fui cavar no quintal pra ver se encontrava uma G3 enterrada), estou à vontade nessa coisa do escrever e publicar.
Bom, apressemo-nos que isto do sol no altar do meio dia me faz lembrar o cozido no altar da mesa. Ignorando aquela da distinção ao jeito romano (que desconheço tanto o que porra seja como o grego profundo que li agora ali num anúncio do correio da manhã na esplanada do café), estou em condições de afirmar (com a autoridade que 25 horas de escritor publicado permitem), que essa coisa do escrever e publicar só tem duas razões: impressionar o gajedo ou (com a devida vénia ao eremita http://ouriquense.blogs.sapo.pt/435869.html)… pour acheter un appartement!!!

E mai nada!!!... o resto que escreveste são tretas de quem não saiu do armário!!!

P.S. o meu comentário poderá, eventualmente, ser redundante. Só li até à foto do Darwin. Sempre que olho pra esta foto sinto uma irreprimível necessidade de ir aparar a barba a pente 3. No caso do alf ter concluído o mesmo que eu peço desculpa pelo tempo que vos tomei.