terça-feira, 30 de abril de 2013

América.

Quando o tempo deixar finalmente de passar transformando-me numa criatura enfim disponível para as desutilidades das minhas humanas preferências, eu, doente e febril com os raciocínios da minha própria perseguição, marcado a fogo com o incandescente brasão da infância, redigirei um livro inesquecível intitulado Kafka na América: uma história dos intelectuais ressentidos, entre os quais eu próprio me incluo como autor falhado e fecho da abóbada celeste, fazendo uso de toda a violência permitida a um prazer puro e viril: o pensamento original, conciso, comovente. A primeira pista para esta relevante investigação foi lançada por Michel Foucault nessa fantástica obra pedagógica registada em cassetes de fita, nos anfiteatros apinhados do Colégio de França em Paris no final dos anos setenta, O Nascimento da Biopolítica, conjunto de lições produzidas num cenário onde conseguimos imaginar belas raparigas bretãs, vigorosas e tristes, em camisola de lã, de faces rosadas e seios juvenis, com o olhar suspenso na virtuosidade do raciocínio analógico, um raciocínio onde pela primeira vez se procurava colocar em perspectiva a prodigiosa redução do amor pós-industrial  a uma relação funcional entre dois conjuntos muito bem determinados (desejo sexual e curva de rendimentos).


Embora o livro do autor de As Palavras e as Coisas incorra na prolixidade amaneirada de quem se perdeu no labirinto das relações entre as coisas e as palavras, muito por influência da má literatura ingerida, fruto de uma escassez de instrumentos estatísticos, a verdade é que foi talvez o primeiro a tornar claro o indestrutível elo entre a emergência do monstro nazi e a fuga americana de um conjunto de extraordinários intelectuais, burocratas, engenheiros, matemáticos, nascidos no melancolicamente a caminho de se estilhaçar Império Austro-Húngaro, um grupo de ressentidos e tementes do Estado, apostados desde então numa utopicamente comunista busca de um futuro mais justo e mais fraterno. À cabeça de todos o nunca e sempre esquecido fenomenal John von Neumann (János Lajos Neuman, nome de baptismo em Budapeste, 1903). Vem a calhar verter aqui duas lágrimas por uma outra fugitiva, a mãe de Nabokov, cuja amarga viuvez exilada foi alimentada pelo governo Checo, instituição que antes de ser esmagada pela bota hitleriana e estalinista, garantiu à bondosa mulher uma velhice quase elegante, feita de passeios pelos subúrbios de Praga - levando pela encarquilhada mão uma cadela, cria neta de um casal de animais pertencentes ao Dr. António Tchekóv - e que pode muito bem ter-se cruzado com a mãe de Austerlitz, antes de esta ter sido deportada para Terezín, segundo nos conta o emigrado W. G. Sebald, e segundo o imaginamos a atravessar os subúrbios de Londres (as pistas abandonadas onde outrora se realizavam corridas de cães, os estádios pelados, os cemitérios cinzentos e as fábricas cobertas por uma nuvem de fuligem) a fim de consultar um oftalmologista, isto em meados dos anos 80 do século XX.


Children in a spinning mill in Fall River, Massachusetts, 1912.

Crianças operárias num fábrica de Fall River, Massachusetts, 1912.
Recebiam metade dos salários pagos aos adultos (Photo by Lewis Hine)

Depois de duas semanas de delírio académico e circo econométrico em tudo quanto era imprensa cor-de-rosa, o silêncio tem vindo a instalar-se na minha cabeça, e recordo a esse propósito a estúpida querela a propósito dos apelidos Reinhart, Rogoff e o programa Excel, um enredo em si próprio inspirado nos movimentos cegos e manietados do escaravelho de Kafka. Naturalmente, o apelido de Reinhart pertence a uma filha de Havana, Cuba, que em 1966 se pôs a andar por razões que agora não nos interessa analisar em detalhe mas que terão implicado as sinistras movimentações da mão do medo, sempre disfarçada e insinuante na sua luva de veludo negro. Como na altura fiz questão de lembrar em um outro orgão de comunicação social, a questão fundacional do problema do artigo académico sobre a austeridade (que é no fundo a questão do ressentimento e das suas origens) está em saber qual o estatudo da racionalidade matemática no estudo do comportamento humano. Ora, estes problemas são muito difíceis de vender juntamente com o comentário de José Luís Dantas Peixoto aos Lusíadas, pelo que temos que ser nós a tentar debelar a questão. Claro que agora ninguém pretende perder tempo com este breve mas brilhante cálculo de probabilidades perante a tentativa de controlo dos estragos da maquiavélica dupla que muito calmamente tem vindo a recentrar o debate no coração das trevas:

In some cases, we have favored more radical proposals, including debt restructuring (a polite term for partial default) of public and private debts. Such restructurings helped deal with the debt buildup during World War I and the Depression. We have long favored write-downs of sovereign debt and senior bank debt in the European periphery (Greece, Portugal, Ireland, Spain) to unlock growth. In the United States, we support reducing mortgage principal on homes that are underwater (where the mortgage is higher than the value of the home). We have also written about plausible solutions that involve moderately higher inflation and “financial repression” — pushing down inflation-adjusted interest rates, which effectively amounts to a tax on bondholders. This strategy contributed to the significant debt reductions that followed World War II.


Contudo, nenhum destes acertados e plausíveis argumentos nos impede de lembrar aqui que Reinhart trabalhou como economista no Bear Stearns, envergando na lapela do saia-casaco o bonito título de bank's chief economist, mesmo que (segundo a Wikipédia) tenha mais tarde sofrido a influência redentora do fascinante Robert Mundell. Na década de 1990 e depois entre 2002 e 2003 a foragida latino-americana Carmen Reinhart trabalhou como directora do Departamento de investigação do FMI, um sítio onde se ganham rios de dinheiro e se embrutece com a velocidade do avião a jacto. Neste momento, e quando estamos prestes a incorrer numa grave inconsistência relativamente ao nosso tema inicial, convém aqui recordar que Robert Mundell, mentor da emigrante Cubana, foi considerado o pai conceptual do Euro, um sonhador, portanto, em suma, um homem capaz de se envolver numa controversia monetária com o perigoso e incorrigível Milton Friedman(voilá). Milton Friedman, o quarto filho de Jeno Saul Friedman e de Sarah Ethel Landan, um simpático casal de origem judaica apostado em fugir às misérias da tchekoviana vila ucraniana de Beregszász, outrora propriedade do império Austro-Húngaro, e que foi parar a Brooklyn, um Distrito a crescer demograficamente naquela época de 1912 a 40,1%,  registando 1 milhão 634 mil e 351 pessoas. Milton haveria de envolver-se, portanto, com Mundell, resultando a envolvência num fértil debate a propósito da desvalorização do ouro e da quebra disciplinar de Breton-Woods, debate de onde nasceu uma das mais fascinantes leituras históricas sobre a relação entre a necessidade de financiar a guerra do Vietnam e a construção do sistema financeiro contemporâneo. Esta espantosa demonstração de eloquência mental, nobreza discursiva, coragem intelectual e desejo de conhecimento devia ser suficiente para desencorajar os estúpidos de todo o mundo a produzirem as mais nefastas aldrabices sobre as mais sensíveis questões do nosso tempo, a saber, quais os parâmetros mais indicados para construir uma taxa fixa de transacções comerciais. Em todo caso, as merdas são o que são, e o melhor é continuar a manter a calma nos momentos mais desafiantes da nossa vida porque dos estúpidos é o reino dos céus, pelo que a nós nos resta desfrutar desta bela e perecível terra.

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Underground Railroads in Forty-Second Street in Front of New Grand Central Station.
 

Nesta espantosa demonstração de esperança no futuro auspicioso dos pobres, a cidade de Nova Iorque fornece o exemplo paradigmático da nossa condição, Jerusalém das mentes racionais, e que recebia em 1912 os desesperados de todo mundo, em espasmos monstruosos, e com a velocidade silenciosa e duplicadora dos tecidos vivos, onde se tramavam espirais de conspiração, crime e eficiência, projectando as linhas de transporte subterrâneo, os cálculos das despesas, a repartição dos custos mas tudo com tal clareza contratual que é de fazer um meridional ir às mais amargas e sentidas lágrimas, chorando a rotação dos cilindros da história e o desaparecimento fatal do mediterrâneo e da sua cultura como berço da razão. A magnitude da multiplicação subterrânea, as toneladas de dólares despejados sobre o bem comum, as linhas elevadas de Manhattan vindas do passado na sua cruel perenidade, as estimativas do trânsito automóvel, podem e devem animar-nos a não desistir perante a desordem do mundo. Quem não for capaz de ver nesta nuvem de petróleo, sangue e linhas paralelas a mais resplandecente metáfora da nossa estirpe divina não compreendeu ainda de que forma a beleza da tragédia humana, embora metamorfoseada na condição e no lugar, continua a lançar as suas fagulhas resplandecentes enquanto mergulha nas trevas do esquecimento. Aproveitemos a viagem.

2 comentários:

António Machado disse...

o Milton envolve-se com o Mundell e quem acaba fo-fo-fo na merda somos nós - os burros que a mais não ambicionam que fazer da "nossa" terrinha um pálido espelho
a fuga do monstro Nazi deu-se em todas as direcções e não foi a partir daí que (o paragrafo é tonto e infeliz)
pela bela metáfora agradeço

Anónimo disse...

este texto podia se fosse apresentado nas conferencias do estoril seria um sucesso. és uma estrela em ascensão alf. não desistas.