terça-feira, 12 de março de 2013

Deus proteja os americanos, já que no meu caso está tudo perdido.

The next pope should be increasingly irrelevant, like the last two. The farther he floats up, away from the real religious life of Catholics, the more he will confirm his historical status as a monarch in a time when monarchs are no longer believable.

Garry Wills, Does the Pope Matter?

 
 
Façamos o ponto da situação. Pedro Henriques, ilustre comentador desportivo, e ex-dispensado pelo Sport Lisboa e Benfica, acaba de produzir a seguinte frase: «a baliza do Milan é uma cómoda onde Messi, jogador do Barcelona, coloca a bola na gaveta de cima, na de baixo, enfim, na gaveta que lhe apetecer». É isto a literatura.
 
 
Entretanto, Patrícia Reis publicou um novo livro, Contracorpo, se não me engano e julgo que não me engano, se me tiver enganado, venho aqui e suicido-me publicamente. É um livro espectacular e não estou a falar de excelência mas de espectáculo, dramaturgia, movimento, voz própria, crueza, farturas a rodar no óleo, ciganos roucos a vender relógios metálicos e óculos de hastes fluorescentes a cair em cascata nas abas do casaco comprido, estendais de lâmpadas coloridas pendurados nos plátanos, e claro, cantores de feira, mas no tempo em que se faziam acompanhar por minhotas de perna gorda envolta em meia de rede, um pouco depois dos bombeiros desfilarem, o capacete reluzente, a farda engomada, e ao ombro o andor repleto de cravos.

O referido livro apresenta nas poderosas badanas recomendações de João Mário Silva, Eduardo Pitta, além da já citada pelos queridos comentadores, Maria Alzira Seixo. Estive para comprar mas deu-me uma dor na perna direita e amanhã o flanco esquerdo do meio campo-poente do pavilhão localizado na vila de A. é da minha total e inteira responsabilidade, pelo que abandonei a correr a livraria e fui enfiar-me no carro, a ler à luz baça do tejadilho, o magnífico Amuleto do cada vez mais perigoso na abordagem aos lugares cimeiros da minha galeria de ilustres, Roberto Bolaño.
 
 
O Galatasaray está a ganhar ao Schalke e só se ouvem as gargantas fanáticas dos turcos. A Turquia é um país esquisito mas a Alemanha ainda o é mais. Está tudo bem. Só ontem fui informado sobre um curso de escrita criativa a cargo de Raquel Ochoa. Agora sim, temos conversa. Confesso que estou cada vez mais imunizado perante fenómenos da sociologia da cultura, tais como a divulgação das ideias sobre a econometria da restauração e pastelaria de fabrico próprio, avançadas recentemente pela jovem promessa da humanidade, João Fernando Tordo, mas isto é outro bacalhau. Infelizmente, as inscrições acabaram dia 2 de Março. Os senhores leitores bem podiam avisar estas coisas, caramba; é o mínimo que se pode pedir em troca de prosa zelosamente gratuita com sistemática assiduidade. O curso intitulado Como escrever um romance? deve ser um festival de sensações, tendo em conta que o mais premiado romance da autora versa sobre indianos, casas em forma de comboio, Moçambique, retornados, e outras bizarrias estranhamente introduzidas no calendário cultural por uma volta mais descontrolada do planeta. Mas está tudo bem, a Raquel é gira, simpática, agradável, promissora. Se por cada Tordo existisse uma Raquel, transmutava toda a minha teoria psicanalítica do ressentimento numa defesa do amor livre, rodeado de malmequeres e barrinhas de incenso a queimar até de madrugada; em momento oportuno explicitarei as minhas ideias para restaurar a confiança das pessoas no projeto Europeu.
 
 
 
Cena que os queridos leitores não fizeram o favor de informar, muito obrigadinho.
 
 
Pessoa da cultura com Raquel Ochoa.
 
 
 
Um Ogre da floresta tenta atacar Raquel Ochoa, e esta, corajosamente, apesar do descontrolo visível, com evidente sobressalto cutâneo, mas também instabilizada ao nível do vestuário, recusa-se a entregar o estojo com o anel mágico.
 
 
 
Pessoas da cultura visivelmente incapazes na presença de Raquel Ochoa.
 
 
Pessoa da cultura...não, esfregona com casaco de veludo castanho e camisa branca ouve religiosamente Raquel Ochoa.
 
 
 
 
Raquel Ochoa numa iniciativa desse projeto sustentado, a Byblos (mas eu é que sou maluco) e na companhia do desaparecido justiceiro, Michael Knigth, um homem que.

9 comentários:

Anónimo disse...

esta posta parece o jardim zoológico!

alma disse...

Nem de propósito :)))
Ontem acabei de ler um livro de alguém que nem sabia que existia :) Raquel Ochoa "sem fim à vista" . li-o porque me foi oferecido pela figura retratada no tal livro.
hahahahah agora vem os foguetes :)Gostei !!! revejo a pessoa tal e qual como se fosse uma autobigrafia de viagem de alguém que considero um herói :)))
não consigui dissociar a narrativa da pessoa que conheço :)

silvia camara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ex-Vincent Poursan disse...

Querido diário

Hoje podia ter tido uma síncope mas não tive. Também não encontrei a Isabel a quem devo 500 euros. Choveu e até fez sol. Consegui um ramo de flores, elegante e amarelo, por 12 euros ali na forno do tijolo. O dia até nem correu mal.

No corriere della sera li esta pérola “E con i rossoneri sbilanciati Messi avvia l’azione del contropiede e Jordi Alba fa poker e completa la caduta milanista. Questo Milan giovane avrà altre occasioni.”, desconfio que é literatura, mas como não percebo um corno de italiano, não posso afirmar.

Saiu fumo negro da chaminé (que desconfio ser modelo português) no telhado da capela Sistina. Cláudia Bancaleiro (este nome é neo realista… cá está, literartura) escreve sobre o conclave no público, e a dada altura diz “Depois de caminharem em procissão desde a Capela Paulina até à Capela Sistina”… capela Paulina à capela Sistina… isto é literatura, de viagem mas literatura. Mais à frente refere “Pelas 16h35, monsenhor Guido Marini, mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, disse em voz alta e forte a expressão em latim extra omnes (saiam todos).”… isto é literatura querido diário… ou história, agora confundi-me um bocado. Já dispúnhamos do “vae victis” do brenus, agora podemos acrescentar “extra omnes” ao “delenda Cartago” nos cercos a são bento. Fodaçe agora já não sei se é literatura, história ou agiprop. Não encontrei nenhuma foto da Cláudia, de modos que não sei se é gaja pra pois está bem sim senhor, se gaja pra espera aí que vou ali já venho. Penso no entanto que isto em nada afecta a literatura.

Ainda no público leio “terra abre os olhos para procurar a origem do universo com alma”… caralho isto é um hino à inflação religiosa!... quando penso que ainda há 500 anos se discutia se os pretos tinham alma e agora até a querem impingir ao universo???!!!... bom, com algum esforço também podemos considerar isto literatura.

Abri o livro que comecei a ler ontem e apanho pela proa com este diálogo:
“- Acabo de ter uma conversa muito filosófica com sua Exmª esposa, e raras vezes tenho visto uma senhora tão instruída… discutimos Vitor Hugo…
- Ah, ah! Sim, é apreciadora!... e eu não lhe proíbo esse gostinho, porque sou do meu tempo e entendo que uma mulher, para fazer figura na sociedade, deve ter o seu bocado de literatura e o seu vernizinho de filosofia.
- Tem V. Exª muita razão…”

Querido diário… vou-me aos sais de frutos… isto já é literatura a mais!!!

Ainda bem que não soube do curso “como escrever um romance” nem encontrei a Isabel pra lhe cravar mais 72€… apanhava um carcinoma literatus pela certa.

silvia disse...

ahahahahah
excelente caro Poursan :)
não te ofendas :)por reconhecer excelência no teu comentário :)

alma disse...

Alf,

No mundo do AEIOU :) Há quem saiba o abcedario todo heheheheh
Ser mulher gira e desenvolta tem as suas vantagens (a alzira que o diga):)


alma disse...

Ainda ...
apesar da escrita ser light do tal livro o personagem não o é e aí é engraçado como tudo muda

Zé disse...

Querido Alf,

Este é um post de quem já leu o Dr. Roth como deve de ser! Tem (muita) graça e lê-se de seguida porque é tudo explicado, fundamentado e até documentado como também deve de ser. Muito bem!
Aliás lamento informar que estou em condições de informar os ouvintes de que o neandertal que está com a Raquel (numa época em que esta ainda marchava, em antes de escrever pessoas a ensinar romances) na segunda foto é provavelmente o Filósofo com letra grande João Maria de Freitas Branco que hoje subscreve a fls. 47do jornal Público um texto cuja inanidade, ao mesmo tempo infantil e pretensiosa, é digna de registo pelo que de mau augura para o dito Público, para a língua portuguesa, para Portugal, para a filosofia, eu sei lá para o mundo.

Graças a Deus temos textos como o teu e com o do ex-Vicente aí em cima para nos reconciliar com a condição humana.

Aquele abraço

Izzy disse...

O da penultima foto eh o novo sec. da energia, nao eh?