terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Silva de equívocos vários (a minha homenagem a Camilo Castelo Branco, esse porco) em que discutimos imagens mentais, enganos naturais e merdas que nos fodem em geral.

Quero começar por esclarecer vários pontos prévios e termino com a organização prática da nossa Revista Literária:
 
1) Quem tem a vantagem comparativa de me ler há mais de três meses sabe de ciência certa que estou absolutamente calmo, sendo portador de um ressentimento que longe de ser produzido nas camadas românticas, nubladas, lamacentas da minha personalidade, constitui antes um produto artificial da minha criatividade intelectual e do meu projecto político-social, duas fontes de energia que se alimentam mutuamente, numa combustão tranquila que produz os seus anéis de fumo subindo até vós como incenso. Por outras palavras, a cultura faz-se tanto com livros como com pichotas e maminhas (como os meus fiéis comentadores fazem questão de lembrar a toda a hora), pelo que não vejo qual o problema de organizar a produção humana em termos colectivos, o problema está em manter consistente coerência e altíssimos níveis de qualidade, numa articulação que acaba quase sempre por provocar a morte do articulador. A questão é que se temos uma hierarquia estética para, digamos, as gajas, ainda que numa geometria variável, mas sobre a qual podemos chegar a consensos - o que me parece claro a julgar pela política de contratações da ficção televisiva portuguesa, onde apesar das diferenças de pormenor, de gosto anatómico particular, de estilo facial ou simpatia vocal, todos estamos de acordo que sim senhora -, não vejo porque não havemos de possuir uma hierarquia estética para os  livros produzidos, e nisto se fundará a nossa revista literária que me ofereço desde já para dinamizar. O problema está todo na intersecção dos planos. Vejamos se conseguimos abordar o assunto sem sermos decepados pela dificuldade.
 
2) Comunico a todos os leitores que já rapei a cabeça como penitência pelo indesculpável engano de ter confundido Sandra com Sara mas estava todo concentrado na sua introdução à teoria das massas em movimento.
 
3) O silêncio profundo a seguir a Estremoz era relativo à obra supracitada, precisamente numa manifestação de calma e grandeza intelectual perante a tentação de incorrer numa combustão apressada e não controlada (tornando o pensamento infértil rima) do próprio organismo pela eventual baleia cujo esguicho diabólico se ergue no céu da minha consciência mal oiço pronunciar certos nomes, em certas circunstâncias (e remeto aqui o leitor para a minha teoria da informação que apresenta demonstrações de causalidade entre a diminuição da qualidade dos espectáculos, dos livros, e até das gajas, note-se, e a ausência de competição pública pelo investimento cultural disponível, o que logicamente pressiona a curva dos custos sociais até que esta se assemelhe ao dorso branco, ameaçador e tenebroso da baleia branca que foi, por exemplo, capaz de introduzir nesta nossa opereta de garagem um invertido histriónico oitocentista como Vítor Gaspar).
 
4) O Chapitô está eventualmente repleto de apetecíveis elementos do sexo feminino, não nego. Mas qualquer empresa de sucesso médio, qualquer escritório de advogados com ligações ao Orçamento de Estado, qualquer Universidade de Verão do PSD, pode fornecer matéria para análise sociológica comparável. Os meus amigos insinuaram que a taxa de esforço para se obterem os mesmos índices de remuneração fibro-muscular poderá ser no Chapitô mais favorável mas a facilitação do combate retira os retornos gloriosos da vitória, reduzindo-nos o prazer de envergar os ornamentos obtidos com o sangue da nossa carne distinta e experiente, Aquiles de pés velozes já sabia isto quando o mar de Tróia se encheu de mastros gregos.
 
Com estas merdas todas em geral fico para já impedido de completar totalmente as minhas próprias sugestões para o primeiro número da nossa Revista Literária, avançando apenas com a ordem de trabalhos:
 
alf
a) uma análise sobre a importância do ano de 1579 na elaboração de Hamlet.
b) curto ensaio intitulado: Haverá em O Sistema Periódico de Primo Levi uma filosofia da literatura?
 
Trabalhos de casa:
 
O Tolan vai escrever um pequeno ensaio sobre o belíssimo «O caminho de San Giovani» de Italo Calvino versando sobre o curso irreversível do tempo e a morte dos progenitores.
A Izzy vai elaborar um comentário crítico ao Soneto 16 aqui traduzido colectivamente.
O Ex-Vincent Poursan assina um coluna livre intitulada «Gajometria e literatura».
A F. pode esboçar um pequeno texto «Alta competição desportiva e sucesso fisiológico: porque é que os maus escritores nunca conseguiriam completar a maratona?»
O antónio machado pode sintetizar «As dez regras para nunca escrever mais de dez linhas», numa espécie de auto-referencialidade formal que se constituísse no Teorema de Gödel da blogosfera.
A alma pode fazer uma recensão sobre Londres e o pedantismo português pós-queirosiano.
A Silvia ficará a cargo da parte gráfica e pela recolha de imagens de cafés - obrigatoriamente frequentados por pessoas de raça negra - entre Massamá e Alhos Vedros.
O orfinho parece-me a pessoa indicada para redigir algo sobre Álvaro de Campos, a paisagem e a infertilidade da literatura em geral e por oposição às gajas de todo o mundo.
O anónimo (qualquer um deles, ou todos em conjunto) pode refletir sobre a importância da morte do autor para o regresso do Anónimo como grande criador intelectual, em particular neste blogue.
 
Se me esqueci de alguém, inscrevam-se.
 
Vamos a trabalhar que isto é para fazer dinheiro.

11 comentários:

Anónimo disse...

alf, da parte que me toca, quero que a tua revista se foda. eu, assim como todos os outros anónimos, estamos noutra onda. a do anonimato. explico o meu sentimento com uma história.

aqui vai ela, toda lambona.

era uma vez o mês de janeiro de 2013. o mês passado, portanto. nesse mês, lá para dia 10 ou 11 ou o caralho, comprei a revista ler. li a revista ler, nomeada e mormente os artigos que previamente sabia lá constarem. pensei que podiam ser interessantes. perdi 5 euros. nada é interessante. o interesse morreu. o autor, esse, continuará vivo e de boa saúde, a produzir cagalhões de todas as formas e feitios. mas muito pouco interessantes.

fim da história.

nutro um profundo desrespeito por revistas de literatura. durante cerca de 10 anos comprei todos os dias o jornal "a bola" (melhor jornal de literatura alguma vez produzido) e foi essa a relação humana mais duradoura que mantive até hoje. 10 anos. nunca mais consegui olhar para o jornal a bola.

boas festas.

ps: uma pergunta, não entendas como uma provocação, mas sim como curiosidade. és o maradona? se fores não confirmes, se não fores vai para o caralho. noto semelhança estilista, a verve literária, e a confusão mental pujante da causa.

muito obrigado,

anónimo.

Anónimo disse...

lá está, escrever comentários sem ler aposta completa.

"porque é que os maus escritores nunca conseguiriam completar a maratona?"

parece que o murakami, por exemplo, corre maratonas.

mas há quem diga que ele é bom.

eu não percebo nada de nada.

copiando descaradamente as duas ultimas frases do penúltimo parágrafo de uma versão portuguesa de algo que aprecio particularmente:

"Em primeiro lugar, é uma coisa de nenhuma utilidade para a pátria; em segundo... em segundo lugar, também não tem qualquer utilidade. Nem chego a entender o que é isto..."

beijos.

Tolan disse...

Bem, eu estou à procura dessas memórias de Don Giovani do Itálico Calvini, assim que encontrar leio e faço um ensaio sobre isso.

Izzy disse...

"a taxa de esforço para se obterem os mesmos índices de remuneração fibro-muscular poderá ser no Chapitô mais favorável mas a facilitação do combate retira os retornos gloriosos da vitória, reduzindo-nos o prazer de envergar os ornamentos obtidos com o sangue da nossa carne distinta e experiente"

Alf, es um romantico.

Quanto ao meu assignment, lamento mas nao vai dar, ha mais de um ano que nao leio livros. Eu eh mais bolos. Ou bricolage. Posso assinar uma pungente coluna de critica gastronomica, ah la Jose Quiterio, p.e. E, para contrabalancar a gayzice literaria, assino outra rubrica onde ensino a fazer pequenos moveis, reparacoes electricas, isolamento termico e remodelacoes em geral.

Eh pegar ou largar.

orfinho disse...

Vai ser dia
d'orgia
paroquial.

António Machado disse...

revistas literárias (luterárias) também não são a minha cena
o último que tentou (e esta é para a alma), foi o Eça
falhou
posso embeber, instead, tubes com patinadoras?

António Machado disse...

para o primeiro anónimo

"DADA permaneçe dentro do quadro europeu das fraquezas, continua a ser merda, mas doravante queremos cagar em cores variadas para ornar o jardim zoológico da arte com todas as bandeiras dos consulados."

Sete Manifestos DADA, Manifesto do Senhor Antipyrina, Tristan Tzara

alf disse...

Quero clarificar que se há coisa que é reveladora de marcas inexoráveis e irreversíveis devio a prolongada exposição e contacto com os igualmente péssimos revista ler e jornal A Bola, é precisamente a confusãop estilísitica. Verve literária na Causa? Muito pouca. Confusão mental neste blogue? Muito pouca. Semelhança estilística entre mim e o maradona? Alguma. Como diria Ruy Belo, «a única coisa que não perdoo a um autor é não me ter influenciado».

Anónimo disse...

antónio machado, não alcanço.

alf, está tudo bem. já não leio a bola faz 7 ou 8 anos. estou a recuperar. lentamente, mas a recuperar.

aquilo da revista ler foi... como explicar, uma recaída. não voltará a acontecer. até porque a puta da revista custa 5 euros.

cumprimentos,
primeiro anónimo.

alma* disse...

alf,
muito obrigada :) uma revista não :)
vejo-te mais assim (clica no nick)

alma disse...

adenda : David Mamet ou algo assim :)