terça-feira, 8 de janeiro de 2013

«Shannon, Wiener, Von Neumann e Turing alteraram radicalmente a imagem dos nossos processos mentais» disse Italo Calvino no gloriosamente longínquo mês de Novembro de 1967, o que significa que as pessoas da arte, da cultura e dessas merdas em geral têm andado todas a dormir, ou como diz de forma muito mais eloquente o tradutor do Google em menos de 1 segundo, «Shannon, Weiner, Von Neumann e Turing modificato radicalmente l'immagine dei nostri processi mentali », ha detto Italo Calvino nel mese gloriosamente lontano novembre 1967, il che significa che l'arte della gente, la cultura e la merda, in generale, questi sono stati tutti posti.

 
Mónica Maristain: Como é o paraíso?
Roberto Bolaño: Como Veneza, espero, um lugar cheio de italianas e italianos. Um sítio que se usa e se desgasta e em que se sabe que nada perdura, nem o paraíso, e que isso, ao fim e ao cabo, não importa.

Roberto Bolaño, entrevista à Playboy, Julho de 2003, o mês da sua morte.
 

A maior e mais dramática evidência da minha vida consiste numa gradual e pouco original mas nem por isso menos sofredora consciência de que a divisão entre as duas culturas (a ciência e as humanidades) nos está a incapacitar neste momento particularmente doloroso da nossa existência. Enquanto os magos da computação possuem as ferramentas técnicas para interferir na realidade, desconhecem em absoluto a genealogia e regras de produção dos teoremas da matemática discursiva que forma uma parte muito importante do que julgamos ser. O conceito de matemática discursiva é apenas uma forma estúpida, aprendida com os manhosos das humanidades, para objetivar aquilo que fazem os linguistas, historiadores, sociológos e filósofo. A verdade é que os programadores abandonam o estudo de toda a espécie de fórmulas discursivas como alma, destino, sentimentos, emoções, consciência, expontaneidade, amor, meu deus «amor», coisas que alegadamente caracterizam o fenómeno humano. Por outro lado, os estudiosos dos humanóides abandonam toda e qualquer organização sistemática do pensmento e fazem da incapacidade de desenvolver técnicas de eliminação da redundância uma questão de estilo, o que os mergulha no caldeirão da confusão eterna. Em todo o caso, a tentativa de isolar a complexidade humana nos píncaros da sua fragilidade principesca, que com emoção compreendo e aceito, arranca da desilusão quase patológica que tem atingido os engenheiros e programadores envolvidos na tentativa de replicar comportamentos humanos, ainda que a um nível tão primariamente motor quanto um jogo de futebol (ainda por atingir) ou um jogo de xadrez (já atingido). Mas não confudemos a computação com os computadores tal como não confundimos a astronomia com telescópios.


O aumento exponencial da capacidade de computação irá ultrapassar o nosso controlo e maluquinhos como Ray Kurzweil avançam com previsões bastante plausíveis: as nossas 100 triliões de conexões entre neurónios serão reproduzidas em circuitos artificiais e ainda que a força bruta da computação não defina em absoluto o humano, precisamente pelas diferenças do suporte físico da maquinaria de raciocíono (e este é um dos aspectos onde Kurzweil por defeito profissional perde o pé) é absolutamente provável - e  eu diria para escândalo dos leitores e deleite dos maluquinhos a quem peço que não me venham importunar com mensagens esquisitas - que a fusão entre máquinas e seres orgânicos venha a representar o próximo estágio da evolução. Calma, está tudo bem.

 
Em todo o caso, a definição que o maluquinho Kurzweil dá de humano é bastante mais satisfatória do que a que temos aqui avançado, embora infectada por um certo lirismo cinematográfico, a saber, os humanos são aquela espécie que procura extender as suas capacidades físicas e morais para lá das suas limitações correntes. Ora nem mais, o problema é descodificar de que forma os humanos expandem essa capacidade e se a anunciada taxa de crescimento exponencial da tecnologia e as suas influências na forma humana (deduções que estão longe de estar provadas) não incorrem no mesmo lamaçal  de esperança metafísica onde as humanidades têm perdido toda a sua credibilidade, tal é a confusão entre conceitos como intencionalidade, causalidade, indivíduo, mentalidade, cultura, e outros armas de arremesso. A obra de Roberto Bolaño vem lembrar-nos de forma magistralmente paradoxal que a violência, o horror, o desespero, são tão característicos da espécie como a felicidade, a bondade, o amor e que só a passagem do tempo e a arrumação ordenada do discurso, dos factos e da própria história económica, lança sobre os acontecimentos um determinado sentido de vitória que permite qualificar binariamente o passado. Um livro inesquecível como Nocturno chileno funda a sua originalidade na visão da História como máquina que avança segundo um programa de eficiência, triturando a beleza e a ingenuidade (um dos mais clássicos temas da narrativa humana, honrar aqueles que morrem injustamente) da mesma forma que 2666, esse  segundo grande momento do espírito humano no enfrentamento da face do mal (o primeiro foi logicamente Moby-Dick) comporta no próprio título uma cortante sensação de que a literatura precisa de se constituir como máquina e desafiar a tecnologia contra os potentes resultados da mecânica da morte. Se o mal é tão eterno e imenso como o mar, temos que passar a utilizar submarinos e abandonar os baleeiros mas a tradição é tão forte e constituinte nas religiões do livro como nos religiosos dos livros. O instinto que nos salva é o carrasco que nos amarra para a morte. Haverá alternativa?


Esse grande explorador das trevas que me foi apresentado pelo ngonçalves, Robert Rosen, lembrou que os filósofos lembram desde há séculos que a única coisa que apreendemos e conhecemos somos nós próprios, juntamente com as sensações e impressões que interpretamos como vindas de fora e com a tranquilidade dos grandes, Rosen afirma na frase seguinte, e sem pestanejar, que não existe grande diferença entre a ciência e a paranóia (que é basicamente uma busca de relações entre as coisas que não existe de facto) o que me obriga a aduzir aqui, fazendo uso da minha inútil erudição em humanidades e outras porcarias, que essa é precisamente a definição de arte de um velhinho (que dedicou a sua vida a tentar ser inventor, pintor, desenhador, escritor e outras merdas em geral, e que enviou as condolências ao irmão, quando soube do nascimento do sobrinho) chamado Leonardo da Vinci.


Com isto, entro com filarmónico alarido no que pretendia dizer: estamos nas mãos do acaso, um facto que nos impede de disfrutar, com plena emoção, do que a vida, o mundo, as vitórias, as Mónicas Belluci têm para nos oferecer, e a percepção que temos do sofrimento resulta da clara consciência de que não estamos a participar na festa com todas forças do nosso coração e entedimento como diria Santo Inácio de Loyola, por isso recuamos repetidamente para zonas de segurança, controlo e previsão, tais como o «amor», a «alma», o «bem». É possível que tanto o Kafkiano sentimento de impotência - que Bolaño (olé) considerava simultaneamente a mais alta e moral literatura do século XX - como a sua reação cristológica nas várias aplicações para Android ainda não robotizadas (desde o marxismo até ao vegetarianismo e outras parvoíces animadas) sejam elementos que longe de caracterizar o humano representem apenas a projeção utilitária, maquinal (olé) da máquina que sempre fomos e continuamos a ser, sendo que algo me segreda ao ouvido, e não estou ainda maluco porque me preocupa uma má utilização de Gaitan no Domingo à noite, que o ódio contra a máquina é apenas o ódio contra um elmento que não sabemos definir, e que aí vem para nos substituir neste teatro, por isso nos esforçamos tanto por manter esse primo vindo da província bem longe dos convidados que temos no salão (Marcel Proust manda-vos um abraço aqui da parte do local onde os grandes se encontram). No fundo, apenas a força bruta de computação e cálculo - possivelmente a breve prazo utrapassando a lenta velocidade das reações electro-químicas e atingindo a velocidade da luz - permitirá abandonar esta ainda tão nossa característica tendência para projectar sobre os outros uma natureza global, com o intuito de neutralizar os efeitos eventualmente nocivos, quer dos adversários, quer do ambiente.

 
É por esta razão que apesar dos diversos restos mortais dos circuitos eléctricos - na altura repletos apenas de transístores - que o meu pai abandonava numa casa de madeira situada num terreno periférico, onde estava localizada a sua oficina electrotécnica, apesar do fascínio intelectual suscitado, e sobretudo da expressão alegórica confusa daqueles objectos - pois mais do que a um cérebro eu associava aquelas placas de rádio e televisão a cidades em miniatura, com as suas estradas, depósitos de gaz, linhas de comboio, centrais eléctricas, hospitais, armazens - foi para mim sempre claro que a literatura, entre o lixo abundante que a constitui, encerra também um extraordinário tesouro, as vozes magníficas daqueles que percebendo a complexidade da evolução, fabricam instrumentos de decifração do seu mundo interior, constituindo-se como cronistas do espectáculo da sua própria insignificância do ponto de vista da espécie (o velho Kant manda-vos um abraço aqui deste local onde convivem os grandes).

3 comentários:

alma disse...

Acabei de receber isto :)
deixo para o caso de interessar a alguém:)

http://www.edge.org/conversation/the-normal-well-tempered-mind

agora vou jantar :)
até logo

silvia disse...

Só sei que a minha relação com net é uma relação de amor profundo :)

alma disse...

Não tendo nós o escudo de Aquiles :)não é nada mau haver alguém que sintetiza por nós tão o valor da boa escrita.

"as vozes magníficas daqueles que percebendo a complexidade da evolução, fabricam instrumentos de decifração do seu mundo interior, constituindo-se como cronistas do espectáculo da sua própria insignificância do ponto de vista da espécie."

os deuses foram generosos connosco ao não pre-determinarem o nosso futuro definitivo.
fingindo com os tais acasos que somos livres:)