sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Kara: história mundial das pessoas (em menos de 7 minutos).

Os mais preguiçosos podem mudar já de ideias e abandonar este blogue, procurar outra coisa qualquer no vasto mundo digital, coçar a micose ou ir à casa de banho, pois isto hoje é só para as pessoas espectaculares e capazes de bondade intelectual, uma vez que vão aqui ser ditas coisas muito importantes; apertem os cintos de segurança, ponham uma gravata riscada, penteiem o cabelo (não convém ser visitado por uma epifania mal apresentado) encostem-se numa cadeira confortável, e acima de tudo, comam qualquer coisa, por favor, que já a minha avó dizia que não convém fazer viajens longas em jejum.

 
Tal como previu o céptico militante que com a sua toga branca habita os cantos mais obscuros da minha consciência, o triste texto de Gonçalo M. Tavares no Público de ontem é não apenas gritantemente pretensioso (polvilhado de citações desconexas que vão das tribos sul africanas à poesia de Hölderlin) como um exímio resultado daquela espantosa confusão crescente em torno do conceito de máquina, constituindo ainda uma demonstração deprimente da impreparação e ignorância do nosso recente escritor mais premiado internacionalmente e que passa (é do caralho a tristeza das nossas Universidades) por ser uma racionalista e especialista em assuntos tecnológicos aplicados à literatura. O problema das pessoas que tentam pensar a máquina sem uma preparação matemática e científica adequada - e já agora sem terem prestado atenção à literatura e às coisas que nos rodeiam em geral - é a influência inconsciente, sobre a sua perceção, da muita antiga e bela ideia romântica de que existe uma divisão intransponível entre o domínio orgânico da natureza que nos precede e um domínio artificial constituído por mecanismos inanimados e produzidos pelo homem. Não negamos a existência de obscuridade nesta matéria, mas convém fazer os trabalhos de casa e avançar com a humildade do aluno em vez de fazer uso da arrogância sacerdotal e moralista do professor. Existirá alguém capaz de trilhar os caminhos da teleologia - essa enigmática disciplina filosófica - sem se perder em perguntas esfíngicas como por exemplo: o que é estar vivo? qual a diferença de substância entre uma rede neuronal e uma rede de circuitos eléctricos? qual o nível de autonomia na replicação dos seres considerados vivos? podem os seres biológicos ser reduzidos às suas partes materiais? existe um propósito na existência dos seres vivos? o que é a consciência?
 
 
Deixemos a poesia de Hölderlin, e os respetivos comentários de Heidegger, para os escritores aclamados e consultemos a Wikipédia, esse admirável mundo novo da produção democrática e anónima do conhecimento. O conceito de máquina parece derivar do uso de gruas de palco no teatro grego, em que para resolver um problema de enredo, podia ser introduzido um elemento exterior, sem ligação prévia com o desenvolvimento do argumento, podendo ser um deus ou um humano, de acordo com as dificuldades da ação. Aristóteles foi o primerio a criticar o uso de elementos exteriores no desfecho de um enredo, defendendo a evolução natural (olé) quer da estrutura de incidentes quer das relações entre os caracteres. Horácio vulgarizou o conceito em latim, instigando os poetas a não recorrerem a tal estratégia, possivelmente por considerar que era não só uma derrota das potencialidades imaginativas da mente do poeta como um recurso dramatúrgico menos eficaz junto do público. Até Shakespeare foi criticado pela abundante recorrência a elementos exteriores na resolução de várias dos seus extraordinários dramas.Temos por isso que a máquina, de acordo com a tradição literária, significa antes de mais uma contemporização perante a dificuldade, uma falta de atenção perante a lógica interna do enredo, uma desistência da criatividade, ou seja, a máquina é para a tradição trágica da retórica precisamente o mesmo que a matemática pretende ser para o cientista moderno, ou seja, e segundo Hilbert, uma guerra sem quartel contra a inconsistência.
 
 
O imortal Nietzsche contribuiu para o carrocel da confusão, pois já tinha perdido o comboio do seu tempo, e considerou este recurso a um elemento exterior  ao drama, deus ex machina, como um sinal da decadência trágica (e isto num gajo que estava a enlouquecer a olhos vistos, é do caralho) um enfraquecimento da antiga força conciliatória e metafísica da tragédia que teria sofrido uma corrupção a partir da cultura socrática e platónica. A Wikipédia selecionou muito justamente da argumentação do filósofo alemão, o exemplo do herói que surge no período da decadência sobre a forma de um gladiador e que alcança a liberdade, depois de atormentado pelo destino, na luta, movido pela energia das suas cicatrizes. Imperdoável desatenção do filósofo, considerar esta alteração uma decadência, e admirável manifestação das inúmeras estratégias ao dispôr da máquina, perdão, do animal humano.
 
 
Não deixa de ser uma tremenda manifestação do poder da ironia que seja precisamente no momento em que os mecanismos artificiais se aproximam da complexidade humana (ainda estão ao nível dos insectos mas só é vencido quem desiste de lutar) que os mais fracos dos humanos mais se esforcem para manter defendida a sua ridícula fortaleza diferencial. No fundo, desde as velas dos moinhos, passando pelos mecanismos hidráulicos e relógios de corda, até às gruas dramatúrgicas e catapultas de guerra construídas por Roma, estivemos sempre a falar da capacidade humana de resolver problemas com recurso à sua potência cerebral, de uma forma consistente e satisfatória, e de acordo com os próprios objetivos humanos, o que é o mesmo que dizer que a máquina não é mais do que um prolongamento da luta por outros meios, e o carácter redutor com que a forte tradição intelectual das pessoas  da cultura (amen) caracterizam os mecanismos, advém deste argumento que eu considero espúrio, e que pretende ver na manutenção da lógica interna do que já existe uma manifestação da pureza, da autenticidade, em suma, da natureza, ou seja, puro conservadorismo numa das suas mais elegantes e eloquentes manifestações.


Não estou com isto a dizer que a analogia entre mecanismo e organismo não comporte alguns problemas profundos. Que Descartes tenha feito da decomposição dos objetos um método de análise do real, que Newton matematizou de forma esplendorosa, não significa que os seres vivos sejam apenas a soma de componentes. Contudo, quem pode negar a capacidade explicativa que a técnica emprestou à descrição do mundo? Os biólogos empregam expressões deduzidas da tecnologia do século XX para descrever o mundo da célula, o que significa pelo menos que a metáfora da máquina consegue suportar o infinitamente pequeno e não tem necessariamente que ficar encerrada no cepticismo que faz da composição em partes do corpo um facto monstruoso, crítica maravilhosamente inaugurada pela bela mulher de Shelley ao descrever a tragédia de Frankenstein, no único conto da história universal da literatura que é horrível e belo ao mesmo tempo. Mas mais do que isso, a intuição divina de Alan Turing, de que todos os algoritmos podem ser associados a uma máquina para lhe conceder funcionalidade universal, fez explodir um mundo de possibilidades em que estamos já todos mergulhados mas de que poucos se apercebem, o que também não constitui novidade pois, ao que parece, o marido traído é sempre o último a saber. Na verdade, a máquina computacional já não é apenas o mecanismo dependente e decomponível do relógio ou da catapulta militar romana, uni-funcional, mas o início da fusão entre sistemas duplos numa única unidade com um nível de regulação interna e um nível de articulação com o meio, unidas por um sistema de estabilização, nos humanos o sistema nervoso.


Não fugirei às principais dificuldades deste post, lembrando, na companhia do imortal Darwin, que o acaso é o mecanismo de resolução dos problemas biológicos, por excelência, uma coisa que se aprende no liceu mas que todos os catedráticos e as pessoas em geral têm muita relutância em aceitar, quanto mais não seja porque neste momento do post, já só estou na companhia daqueles para quem eventualmente quero falar. A replicação encerra uma das grandes dificuldades das máquinas e explica a importância que Shakespeare dá ao colo de Julieta, razão porque todos os grandes escritores sempre concederam ao momento da paixão o lugar onde está encerrado um dos segredos da vida. Por outro lado, a transformação das formas e a mutação dos estados dos organismos ditos vivos constitui outro dos problemas seculares dos humanos; que o digam as fascinantes mulheres-rocha e adolescentes-árvore de Ovídio ou o homem-escaravelho de Kafka. Por fim, talvez o mais misterioso dos problemas - e aqui os bispos e sacerdotes de todas as religiões e todos os vitalistas do mundo, unidos, já festejam e abrem garrafas de champanhe sobre a minha melancolia - consiste num problema identificado pelo velho e nunca devidamente louvado Kant, ou seja, a capacidade de recíproca influência formativa dos mais ínfimos constituintes dos seres ditos vivos, e que parece ser uma característica única destes seres orgânicos, que se constituem num conjunto que é (do caralho) e em simultâneo «causa e efeito, fim e meio, da sua própria forma», uma frase tão obscura que só confirma o quanto ignoramos sobre o que somos.
 
 
 
Quando olhamos para esta espectacular demonstração das funcionalidades tecnológicas para videojogos não podemos deixar de ficar estarrecido com a clarividência artística e filosófica, ainda que involuntária, dos autores que neste particular revelam capacidade para meter Gonçalo M. Tavares no bolso pequenino das calças de ganga, para utilizar a expressão de um filósofo amigo. É que os anseios desta máquina somos nós, porque sempre fomos uma máquina que se quer compreender e é talvez o facto de nos aproximarmos da replicação de nós próprios - uma coisa monstruosa a que chamamos máquina - aquilo que permite que pela primeira vez nos vejamos com rigor e de olhos abertos num magnífico espelho que faz jus à nossa monstruosidade, daí o susto que pelos vistos apanham os mais desprevenidos.
 
 
Ignorando do alto da minha carapaça Kafkiana os mais críticos da redenção pelas lágrimas, confesso que comecei a chorar abundantemente aos 2 minutos e 54 segundos do vídeo, e só parei no final, pois o acontecimento revelado é exactamente o da minha experiência pessoal como pessoa, quando pelos treze anos adquiri consciência de que estava vivo - o horror, o horror - o que para a pobre Kara se manifesta na libertação daquelas extenções auxiliares da linha de montagem e que são uma das mais belas imagens para caracterizar o trauma doloroso da metamorfose do corpo na adolescência, onde sem mais, e simultaneamente, começa a nossa decadência e nos definimos como alguém que quer viver ou ser uma «máquina». A literatura não tem feito mais do que expressar a tragédia desse comovente grito «eu quero viver», onde misturadas as lágrimas, as garras do medo, a força da inteligência, a vitalidade de um sistema integrado e a vulnerabilidade de um objecto que se liga e desliga, tudo acaba por se confudir num enigma a que chamamos consciência. A tragédia do homem como mercadoria - que parece ser particular do mundo moderno - apenas acentuou o que para Shakespeare e para os praticantes do teatro isabelino era já uma clara noção de que nós, os humanos, demasiado humanos, apenas tristemente representávamos um papel mal decorado, «como o actor que esquece as suas próprias palavras», num mundo que é apenas e sobretudo teatro, e tendo que usar para sobreviver uma ferramenta tão ignóbil e limitada como a linguagem, eis a tragédia de Hamlet.

 
Nós pensamos que estamos vivos e olhamos  com sobranceria para as máquinas do alto da nossa consistência moral, mas o que somos nós? Onde está a fronteira de fogo que impede o contacto entre uns e outros? O grito de medo assinala a coroação do instinto que nos tem mantido vivos neste mundo ameaçador, e do meu ponto de vista, o que parece caracterizar a era da informação é a perigosa substituição do medo e das proibições morais por um sistema de sinais, organizado e regulado pelo aperfeiçoamento da linguagem plasmado na lógica, o que comporta o sentido de automatismo que vemos crescer ao nosso redor. Que as falhas neste esplendoroso mundo possam mergulhar tudo e todos na devastação é talvez o preço que pagamos pelas fronteiras que estamos prestes a atravessar, o espaço e o tempo. Se as máquinas inteligentes, como Turing gostava de lhes chamar, trarão um mundo novo, não sabemos, mas é pouco provavél. No entanto, se alguma coisa pode caracterizar o humano, os deuses louvem para sempre o imortal Homero, julgo que não é a sua bondade mas a coragem diante da morte.


As lanças dos soldados gregos rodeando as muralhas de Tróia significam que estamos encerrados numa guerra que nos ultrapassa. Não existe nada de filosoficamente novo na construção artificial de humanos a não ser a luta contra a morte; as máquinas sempre foram a materialização dos nossos desejos, e se alguma coisa significam é apenas uma intensificação da nossa antiga e perdurável tragédia. Conhecemos o terror do nazismo e mesmo assim não recuamos perante o automatismo e  o controlo, pois queremos viver num mundo transformado e manipulado à nossa medida, o que é a marca da eterna juventude e da atração pela beleza que nos caracterizam. Os biólogos sabem que a manutenção de vastos caracteres juvenis é talvez a nossa mais interessante distinção em relação a outros animais. O crescimento da autonomia e funcionalidade das máquinas não significa a morte do homem, significa que estamos prestes a viver pela primeira vez. Os deuses amavam aqueles que morriam jovens mas os humanos amarão ainda mais aqueles que para sempre permanecerem vivos, ou pelo menos, sem medo de morrer.

7 comentários:

Izzy disse...

Alf, Alf, Alf. Meu doce chorao Alf. Entao tu nao sabes que o Universo nao passa de uma simulacao de computador?

http://news.discovery.com/space/are-we-living-in-a-computer-simulation-2-121216.html

Sossega o teu coracaozinho artificial. Esta tudo bem.

o anão gigante disse...

*polvilhar

alf disse...

Grato pela correção, já devidamente introduzida.

Anónimo disse...

*pretensioso

alma disse...

Se o tempo é algo que não sei bem o que é :)

falando de o maior mistério que é a vida :) há 2000 anos que andamos a tentar seguir o maior livro de instruções :)e sempre repetimos os mesmos erros :)
talvez a máquina humana esteja programada para só de vez em quando vislumbrar a grandeza :)))

penso que foi Nietzsche que disse: se um mosquito falasse iriamos perceber que ele se achava o centro do universo :)
:)))
e por defeito tento não ultrapassar as minhas limitações :)

Era engraçado que a nossa vidinha não passasse de uma realidade virtual:)))

heheheh
a maior invenção da vida é a morte(ouvi o steve jobs), não gasto muita bateria a pensar :) guardo a minha energia para o último sprint :)a
revelação :)))
coragem, bondade são os momentos altos da nossa vidinha tudo o resto é tudo vão :)

silvia disse...

A coragem e a bondade são o positivo :)
a vaidade e a preguiça são o negativo :)

beleza é quando a coragem se alia à bondade

inveja é o resultado da vaidade aliada à preguiça

silvia disse...

Adenda ao que li da alma
e que acrescentei pela minha inteira responsabilidade :)
quer dizer :)
precisava de uma máquina que chupasse o meu pensamento cá para fora e o arrumasse de forma coerente e bela :)