terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pequeno longo comentário a uma pequena tragédia em forma musical.

Exuberance is beauty.
William Blake


Nada como um assunto onde um homem especializado se sente manifestamente especial em manifestar a sua especializadíssima ignorância, isto é, não percebo nada de mulheres, nunca percebi nada de mulheres, e pretendo continuar a não perceber nada de mulheres, de forma a não estragar a frágil e perigosa passagem de caninhas atadas com fios de seda que nos permite aceder aos gigantescos continentes de prazer possibilitados pelas sempre repentinas, circunflexas e recurvas manobras dedutivo-psicológicas das pessoas proprietárias de um sexo feminino.
 
 
As pessoas que generosamente comentaram a minha incursão no conhecimento das Crónicas do Rei da Boémia desconhecem, infelizmente, e em absoluto, o encanto de uma pessoa que enfrentou as revoltas estudantis anti-Sarkozy na Paris de aqui há uns anos de que agora não me lembro, em virtude de decisões que faço o favor de ignorar mas que parece terem lesado relativamente em grande escala o panorama estudantil francês, tendo inclusivamente a dita pessoa em causa que mudar de sala - as escadas do compartimento universitário previsto ardiam entre pedradas e gritos - para defender a sua tese de doutoramento, um trabalho de fôlego (isto adivinho eu, em face da alta intensidade mantida durante toda a noite) em torno da conhecida obra de Jean Froissart, um menestrel e bardo, e uma pessoa espectacularmente capaz de inventar todo o mapa sentimental das dinastias centro-europeias mas que não acertava uma localização geográfica, isto segundo a minha bonita e fascinante interlocutora.
 
 


Serviam vinho branco, fresco, inebriante, capaz de induzir em poucos segundos aquilo a que os críticos italianos do Renascimento chamavam sprezzatura, uma fusão entre coisa e movimento, mas que num jantar de responsabilidade, a decorrer em simultaneidade de tempo com o sempre actualizado pelas novas tecnologias S.C. Braga versus F. C. do Porto, poderia culminar com um violento e potencialmente mortal, por todas as razões conhecidas e deduzidas, «ó Pinto da Costa, vai pró caralho», pelo que tive que dividir a minha atenção entre as aventuras de Leonel de Antuérpia, a filha de Galeazzo Visconti, e o enchimento imparável de copos de vinho que os empregados providenciavam com meticulosa sequência com o especial intento de me foderem os planos. Estava eu no mais profundo sentimento ficcional de Fogo Pálido (do sempre inesquecível e companheiro Vladimir Nabokov - uma obra prima gloriosamente ignorada por todas as pessoas em geral) quando a dita pessoa me confronta com um conhecimento assombroso das qualidades políticas de Joana de Brabante, obrigando-me a um contra golpe que apetrechei de forma canhestra com uma parva invocação da obra de Milan Kundera, um dos mais piores  escritores de todos os tempos, e o mais desajeitado trunfo aproximativo sacado por uma pessoa semi-embriagada em toda a história da conversação cortesã da Europa Ocidental.
 
 
 

Quem, o escritor Francês? - perguntou ela.
Francês? - perguntei eu.
Sim, Kundera escreveu sobretudo em Francês, é um escritor de Paris - disse ela com um ar de quem tinha treze anos em Praga quando o muro de Berlim foi derrubado por uma horda de alemães embriagados. «Bem me parecia que devia ter lido o chatim do Kundera», pensei de imediato, fazendo um esforço homérico para convocar na minha mente ondulante o início do muito propriamente chamado romance, A Lentidão, em que uma gaja que nada na piscina, e o caralho, mas só via o Vítor Pereira, o Castro com as faces da cor do mar da Grécia e centos de pipas de vinho do Porto.
Esse gajo não denunciou um colega de trabalho durante a invasão soviética? - disse eu, sem pensar mas logo pensando, «merda, sempre esta minha mania persecutória», enquanto a frase desdobrava as suas asas negras e estriadas de fogo na monstruosa abóbada da sala sombria e repentinamente silenciosa. Respondeu-me ela de imediato, ainda trincando com delicadeza um pouco do veado com ananás gratinado em redução de vinho do porto (isto é a minha homenagem aos peixinhos da horta que aparecem entre os dentinhos das mulheres bonitas nos romances da Patrícia Reis) - Isso foi injusto - e sorriu comovida - foi um tempo de grande intensidade emocional, a polícia política, os interrogatórios - mas retomando a conversa, logo de seguida, certamente para não me deixar sofrer, e vibrando sem mais (ai de nós, que prazer) o golpe de misericórdia, já eu iniciava o meu processo de anestesia levando o copo de vinho branco aos lábios cada vez mais secos - além disso, os estudantes que denunciaram o caso, trataram o tema com grande insensibilidade.
Mas um bufo não é um bufo, qualquer que seja o contexto? - perguntei de súbito, engolindo de penalty o resto do vinho branco.

 
 
Estando a conversa neste ponto, uma mulher inteligente teria percebido a minha ignorância sobre todos os assuntos checos em geral mas uma mulher sobredotada percebeu de imediato que isso não tinha importância nenhuma e conversámos alegre e longamente sobre o mais recente título sensacionalista publicado em torno dos estudos de género nos Estados Unidos, The fall of Men and the Rise fo Woman. Foi um salto até chegarmos às implicações do romance de cavalaria na forma da novela e do romance moderno, aos príncipios de recorrência dos temas sentimentais, à crítica da estratégia dinástica tardo-medieval como problema político, à potência sexual do homem português (estou a brincar, disto não falámos), dos processos cíclicos do amor, e da deriva da repetição na natureza que torna o tempo intelegível diante dos nossos cansados olhos. Embora já me encontrasse movido a vinho branco, pensei logo comovidamente em Jorge Luís Borges - a forma do romance, que caralho, tão demasiado longa para os nossos olhos escurecidos e a merdosa brevidade da puta desta vida. Vivemos confusos entre rituais de origem biológica, o anoitecer, o crepúsculo, as fases da lua, solstícios, equinócios, nascimentos, iniciações desajeitadas, reproduções indesejadas e uma morte prematura e no meio de tudo isto, amplificando os horrores e os prazeres, o ciclo diário do sono ansioso e o regresso nervoso de cada despertar, a frustração sempre renovada, diária, do desejo e do triunfo, o despertar nocturno de uma personalidade que sofre a consciência titânica e que se debate com a vontade de domínio do que não conhece.
 


 

6 comentários:

Izzy disse...

"Vivemos confusos entre rituais de origem biológica, o anoitecer, o crepúsculo, as fases da lua, solstícios, equinócios, nascimentos, iniciações desajeitadas, reprodução indesejadas e uma morte prematura e no meio de tudo isto, amplificando os horrores e os prazeres, o ciclo diário do sono ansioso e o regresso nervoso de cada despertar, a frustração sempre renovada, diária, do desejo e do triunfo, o despertar nocturno de uma personalidade que sofre a consciência titânica e que se debate com a vontade de domínio do que não conhece."

Podes fechar este tasco porque nao escreves nada melhor do que isto.

AM disse...

no outro dia vi um doc. sobre o cosmos
no dia seguinte fiquei a olhar, parado, pasmado, para uns fungos numa parede
não sabemos nada de nada
exactamente o que eu disse

Tolan disse...

... mas comeste a gaja ou não? :|

Tolan disse...

Desculpa o meu comentário alarve.

Ex-Vincent Poursan disse...



E agora alf?... que posso eu, um bárbaro que caminha no deserto ao sol monótono e inclemente do meio dia destinado a morrer da picada dum vicio escorpião qualquer antes de se sentar no topo duma duna a contemplar um pôr do sol de mil cores e uma noite estrelada de mil interrogações, dizer?
Que há oásis que nunca alcançarei?
Que há melodias que nunca escutarei?
Que as minhas mãos desidratadas nunca enlaçarão uma taça de vinho branco fresco e docemente alucinante?
Que apesar de escutar o eco nunca dançarei essa musica distante?
Que talvez seres afáveis descubram nos traços que deixo nas paredes das cavernas onde me abrigo pensamentos que nunca tive?

É tarde. Um pé diante do outro e seguir caminho… eu e o escorpião encontrar-nos-emos.

alma disse...

Ou a insustentável beleza do ser :)