terça-feira, 27 de novembro de 2012

Depois não digam que eu não vos avisei

«Le dame, i cavalier, l'arme, gli amori/ le cortesi, le audeci imprese io canto»
Ariosto, Orlando Furioso

A distribuição de oportunidades em face dos limites da racionalidade humana e da escassez dos recursos poderia servir de mote a este post, uma vez que os recursos são escassos precisamente em face dos limites da racionalidade humana, uma coisa que até uma Judite de Sousa ou um Medina Carreira seria capaz de compreender e que os economistas insistem em não conciliar na econometria de carpinteiro com que continuam a sustentar os seus delírios psico-normativos, mas dada a ausência de argumentos racionais - uma vez que as faculdades de economia em vez de trabalharem cientificamente os sistemas complexos preferem dedicar-se ao naming bancário de salas e anfiteatros - prefiro recorrer ao clássico mecanismo da disputatio, que consiste em insultar violentamente as pessoas a quem não reconheço trabalho, inteligência, imaginação, memória, domínio técnico para enveredar pela profissão literária.
 
 
Após a chocante confissão de Tolan (abstinência crítica dos medíocres com vista a futuro convívio entre os medíocres) resta-nos continuar a nossa aproximação perigosa à fronteira do anonimato perpétuo ou do apedrejamento público, laborando contra os mestres chineses que insistem em ter como lema de vida a ideia de que «no fundo todos querem é ir para lá, e no dia em que lá estiverem, aparecerá outro qualquer a insultar os que lá estão porque no fundo, no fundo, o que quer é chegar lá também», não sendo preciso aduzir petroleiros de explicações sobre o facto de este raciocínio ser não apenas bovino como a natural consequência dos resumos Europa-América sobre a seleção natural, como encerrar ainda uma contradição lógica insanável (se assim é, temos que aprofundar a nossa economia do insulto e nessa medida, vão chatear o Francisco Sá e Miranda e deixem-me insultar quem muito bem quero) além de uma clara concepção falsamente relativista da natureza humana, uma vez que, sim é verdade, não existe natureza humana mas sim uma natureza geral a partir da qual o humano vai sendo qualquer coisa que não é possível definir o que seja, pelo menos de forma estrutural, satisfatoriamente abrangente e imobilizada no tempo. Ora, a minha simpática personalidade continua a achar que nada temos de superior relativamente à clareza de raciocínio no combate às nossas dificuldades.
 
 
O facto de o Diário de Notícias disponibilizar gratuitamente contos portugueses de autores como Fernando Alvim ou João Tordo, já sabemos que não constitui um crime, que caralho, escusam de vir aqui às caixas de comentário dizer que está tudo bem, que cada um faz o que quer, que no final do banquete vamos todos para o céu, onde haverá mártires ensanguentados, trompetas de bronze, delícias eternas e raparigas giras, uma coisa onde os muçulmanos são manifestamente deselegantes com aquele critério apertado e farisaico das virgens, miúdas em geral muito chatas e como dizem os brasileiros, com nariz de «chefía». Julgo que foi Kant uma das primeiras pessoas de bem a ultrapassar o problema da separação dos níveis entre codificação criminal e julgamento ético, pelo que o problema da crítica artística se coloca ao nível do atribulada conjugalidade entre sistema de valores morais, eficiência do mercado e igualdade de oportunidades na competição.
 
 
A gratificação monetária ou mesmo a qualificação de funcionários do Pingo Doce como Fernando Alvim tem evidentes repercussões naquilo que as editoras estão dispostas a pagar para assinar contratos com tipos como o Tolan (não falo de mim porque o meu campeanto é rebentar com o Alvim e as editoras de uma só bordoada), que segundo julgo saber, demoraram 3 anos a escrever um romance, quando o Alvim ou o Peixoto o podem fazer numa semana ou em três dias ou numa hora. É verdade que Melville escreveu Moby-Dick em seis meses e em seis meses escreveu Calvino O Barão Trepador, mas isto apenas confirma que as editoras deviam estar mais concentradas no que fazem e menos no que julgam fazer. Ao modelar o conjunto dos autores segundo um determinado nível de discurso, os editores ou os jornais, ou o Júlio Isidro, estão a projectar uma dada margem de lucro, e a selecionar uma preferência que o público não escolheu e é inteiramente falacioso dizer que as editoras publicam de acordo com as preferências do mercado, porque a formação de um negócio em equilíbrio implica desmutiplicação de mercados, desde o recrutamento do capital humano à distribuição das matérias primas.


Ora, o mercado da redação de livros, isto é, a seleção de um escritor potencial, permanece regulada por um sistema baseado no domínio tecnológico do australopiteco, o que não só contribuirá para o enfraquecimento do livro como objeto cultural, como ditará o fim da editora como modelo empresarial, uma organização que continua a ser vista pelas pessoas espectacularmente sapientes na sua calma conservativa em molho de tomate, como uma black box (uma merda que até os economistas já compreenderam) sem consequências para o preço do produto ou para o tipo de serviço que o mercado presta na distribuição de recursos. Não falo sequer das consequências para o estreitamente dos assuntos, do estrangulamento da abordagem, do definhamento do estilo, da redução da imaginação, do empobrecimento dos temas, é entrar numa livraria e anotar a predominância do rosa choque. Ou então, também podem comprar a Viagem no interior do Segredo que viaja secretamente, de José Luís Peixto para anotar logo na primeira página uma espectacular, imaginativa e fértil associação entre o ódio, o perfil de ferro, e a disciplina do militar comunista.
 
 
É verdade que insistir nesta audaciosa empresa é em si mesmo um motivo de canto, de tão surdos são os ouvidos de um país com um consumo de livros per capita ridiculamente baixo. Gostaria de saber por exemplo quantos livros compram por ano as pessoas que fazem a apologia da preferência dos consumidores e da liberdade de publicação dos autores oferecidos gratuitamente pelo Diário de Notícias. Já dizia o Professor de filosofia moral da Universidade de Edimburgo, Adam Smith: adoramos ser liberalmente generosos com o pilim dos outros, mas insistimos em ser extraordinariamente cautelosos com o nosso guito.

4 comentários:

alma disse...

Excelente :)))
Não tenho a menor dúvida que aquilo a que os editores chamam mercado é simplesmente o seu mercado mental.

Izzy disse...

Oh Alf, desculpa mas tu falas falas mas nao dizes nada, carai! Fartas-te de mandar vir contra as editoras mas ainda nao te vi propores uma solucao para este grande problema que obviamente te atormenta os dias. Os recursos economicos sao escassos, ja se sabe, mas hoje em dia, mais do que em qualquer altura na historia da humanidade, um escritor aspirante (ou aspirante escritor, whatever) tem ah sua disposicao um conjunto de recursos, muitos gratuitos (!) que lhe permitem rapidamente alcancar publico para as suas primeiras obras. Quantos escritores falhados do seculo passado se nao teriam suicidado se pudessem ter um blogue?

Ainda nao percebi bem o que propoes. Que se institua um painel de controlo de qualidade que impeca as editoras de publicar "lixo"? Nao vas por ai.

E nao achas que um Fernando Alvim, ou qualquer outro dos mediocres como tu os defines, sabem perfeitamente que nao sao o supra sumo da escrita? Na literatura, como em qualquer outro campo da natureza humana, ha os genios, ha os assim assim, ha os mediocres e ha os incompreendidos. E devem todos coexistir. Nem todos temos arcaboico para almocar no El Bulli, mas significa isso que o comensal do Noma ou do Next eh melhor do que o que se deleita com as batatas fritas do McDonald's? Tendo experimentado os dois te digo, olha que as batatinhas batem-se taco a taco com a gastronomia molecular. Apenas uma em cada 49 pessoas gosta de Jeppson's Malört (google it). Quem nao gosta nao bebe mais mas por causa dos poucos que gostam eh uma bebida de culto. Nao achas muito melhor para todos que haja um pouco de tudo?

E ja agora, quem somos nos para criticar a aspiracao do Tolan em se juntar aos mediocres? Podes tu em consciencia, negar que recusarias se fosses convidado, e preferirias antes o anonimato perpetuo? Criticar por tras de um "alias" eh facil Alf. Dar o corpo ao manifesto ja eh mais complicado.

AM disse...

tou com tu, izzy

Tolan disse...

Ai Izzy, tu levas sempre tudo tão a sério. Nem eu me queria juntar nem ele me estava meeeeesmo a critic...

Sobre o parágrafo do Peixoto, tenho a dizer que para primeiro parágrafo tem montes "estavas". O verbo estar é lixado na língua portuguesa mas por outro lado torna óbvios os problemas da prosa. O excesso de estavas também advém do uso excessivo da voz passiva e um tom abstracto que é aquilo que para mim torna a leitura de Peixoto uma tortura insuportável. É como se fosse aos soluços e num tom evocativo lamechas como alguém que se lembra de um trauma qualquer sob efeito de hipnose. "A minha mala estava sobre a cama de cima, à esquerda. "
Porque não escrever "Pousei a mala sobre o beliche de cima" (suponho que num comboio não se tratem de camas, mas sim beliches, mas enfim). E a cena do passaporte, quer dizer, o gajo tem o passaporte aberto como se o comparasse com a fotografia mas não olha para o passaporte. Caralho. Se não olha para o passaporte não é como se o comparasse com a fotografia. Podia simplesmente dizer que estava com o passaporte aberto na mão, mas não olhava para ele.

Depois há ali uma contradição no sentido do texto. O tipo começa por dizer que "entende o ódio" do outro e até mete o pormenor lamechas do "talvez pai de alguém da minha idade" que supostamente deverá humanizar o oficial. Mas se entende o ódio, como se explica que o olhar do outro o meta em tensão? Entender é perder o medo. De certa forma é perdoar. A cena poderia ter sido aproveitada para, em discurso activo e directo, mostrar a compreensão do tal ódio. Primeiro o gajo não entende e está em tensão mas depois aquilo resolve-se na cabeça "ah caralhos ma fodam, isto é disciplina e ordem e este gajo é pai de uma pessoa da minha idade" etc.