segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O medo acabou: que comece o jogo.



Terminei hoje uma decisiva fase psico-atlética da minha inacreditavelmente incontrolável carreira universitária, e estando demasiado fodido do miolo para explicar a ausência de um Parlamento em portugal, encabeçar uma revolução socialista, ou explicar às pessoas porque é que só agora o António Borges começar a atrair a minha simpatia, venho apenas solenizar o momento e partilhar com a república (que me vai permitindo esfolar os olhos em coias que muito aprecio) algumas pequenas reflexões, postas em movimento pela força melancólica das coisas cumpridas, e pelo estímulo sempre cinematográfico, feroz, americano (o que é mesma coisa, entenda-se) de uma viagem silenciosa pela cidade nocturna, enquanto regresso a casa, a saber: porque razão estou eu espantado com o facto de no mesmo dia em que me desfaço de cinco anos de trabalho empacotado oito vezes (versão impressa e digital) pelos cornos abaixo da estúpida da mulher da Secretaria da Universidade, ter sido inapelavelmente ameaçado, por esses mesmos enfeitiçados cornos, com uma singela multa de 2000 euros, isso mesmo, 2000 euro-caralhos, se não entregasse já, naquele momento, e perante aqueles dois terrivelmente gelatinosos olhos envidraçado em caixilho negro, o testemunho perene e imperecível do meu denodado esforço?

 

A resposta é simples e prende-se com duas ordens de razões, como diria o engenheiro Ângelo Correia nos tempos em que o Passos Coelho era apenas uma pessoa que morava em Massamá e coiso. A "primeira ordem de razões" (e pensamos aqui num belo coral de pérolas em colo alvo), é que estou perfeita e tristemente consciente de que me insiro numa merda de um sistema universitário de um país de merda de um sistema universitário, e assim sucessivamente, em que não só (uma gaja no macdonald´s acaba de me perguntar se eu quero café) espatifa recursos e energias em inutilidades como mesmo as poucas coisas que podia eventualmente transformar pelo método, a ciência e o trabalho, acabam metamorfoseadas em academices, ao ponto de as pessoas, valha-nos Santo Antão, confundirem o Vítor Gaspar com uma pessoa que estuda. (Não quero, já disse, vou-me já embora, tenha calma).
 
 
Eu não peço que se abram os portões do céu, e apareçam à direita os anjos, e à esquerda os mártires (neste caso, o seu equivalente, Joyce, Kafka, Proust e Pessoa). Já sabemos, Gogol soprou-me ao ouvido: «ao escritor de génio, não o hão-de esperar raparigas de dezasseis anos» (pronto 21, não quero chatices) mas eu só peço que esta merda seja a sério, e que haja um gajo para eu desfazer na discussão deste inacreditável evento que é a minha queda aparatosa no alçapão da Academia. E com isto entramos no segundo ponto.
 
 
 
Com efeito, ninguém mais do que eu está profundamente convicto de que não vale a ponta de um corno como exemplar universal, pois como é bem de ver, de universitário não tenho nada, e por isso, faço aqui, e desde já, a minha inteira justiça a todos os que corajosamente cospem nos cursos de papel e lápis (neste caso também mete Excel, que é a mesma coisa que lápis e papel, mas em digital) tentando alertar a opinião púbica para a falta de higiene genital que tem havido na abertura do ensino superior aos filhos dos carpinteiros, electricistas e canalizadores, um fenómeno que não tem passado (e digo-o com sinceras e amargas lágrimas correndo pela face) de um artifício manhoso, desses que Portugal não se cansa de produzir e devia começar a exportar, uma manigância das classes médias altas para colocarem em situação digna (um grande abraço ao filho da puta do Vasco Pulido Valente) os seus filhos segundos e terceiros que não conseguem entrar em Medicina ou Engenharia, tal como antigamente a Casa de Aveiro ou do Cadaval enviava os mais tapadinhos e mortiços para um arcebispado ou uma abadia. Façam um estudo sobre a ocorrência de burros de famílias ricas nas cátedras de ciências sociais e literatura e procurem não esmurrar a primeira pessoa que se vos deparar num raio de cinco metros após a divulgação dos resultados.

 

Que isto não me sirva, no entanto, como desculpa para a melancolia, porque como até o pai da Fanny sabe (sim, sim, não pensem que ando aqui a dormir), só há um motivo pelo qual vale a pena delapidar a nossa auto-estima, e que é a divina e rosseuanina perceção de que nos enganámos redondamente em tudo isto, a prodigiosa consciência de que estamos encurralados num equívoco, armadilhados dentro de uma metáfora, enclausurados incerteza torturante de políticas públicas que alguém desenha tristemente por desocupação ou falta de talento (num gabinete político ou universitário) e que vem depois a produzir, quarenta anos depois, 8 tristes resmas de papel impresso onde dormem quietos e entediados remotos acontecimentos do século XVIII e sobre os quais há um desconto proporcional ao conjunto de tempo que entre nós e esse passado se interpõe.


 
Deixem-me citar Leopardi, e enviar daqui um forte abraço à Teresa Guilherme, pois estará morta e sepultada em menos de quarenta anos, e para todo o sempre, quando de mim só apenas tiver começado o doce e grandioso murmúrio das almas jovens, sempre as primeiras a coroar os artistas deconhecidos: «E il naufragar m'é dolce in questo mare» que é uma forma de dizer que há qualquer coisa de épico nesta derrota militante (que aqui nos animea, neste estranho e novamente solitário lugar da blogosfera), não uma derrtoa mística, não um naufrágio nesses mares de ignorância natural que os monges orientais de cabeça rapada, zurzem nas suas infinitas fugas ao sentido da vida, mas uma derrota fundada na capacidade de tudo compreender, para tudo perdoar. Ó velhas damas da Corte de Luís XVI, que amavam sonolentas de manhã, em alcovas de veludo, com os seios generosos e arfantes do calor das lareiras, e à noite faziam ciência e ouviam preleções de Quesnay e Lavoisier, experimentavam químicos, resolviam equações, assitiam ao levantamento de  balões: quando será que estarei na vossa companhia? Tudo compreender, é tudo perdoar.

 
 
Entre o que sai do nosso entendimento e as sensações que julgamos poder interpretar, não há diálogo possível e como diria o poeta madeirense e obscuro, o que criamos, é sempre e apenas mais uma triste prova da nossa derrota irrevogável, um testemunho credível, profundo e corajoso de que estamos a morrer, mas fazendo gala de o manifestar ao mundo. Eu sei que apesar de tudo é preciso continuar, e eu vou continuar, mas agora nessa grande tapeçaria de guerreiros melancólios e amantes da música das flautas, mas  apostados em verter o próprio sangue até à última gota; agora vou continuar nos meus livros, finalmente liberto da pedra que eu próprio atei com fios de seda ao meu pescoço quando adolescente, uma pedra que me tem custado o silêncio sepulcral dos livros que trago na cabeça, e que agora conspiram na sombra a favor da vida que não mais será possível continuar a negar-lhes. Criar é morrer com mais velocidade e consciência, é desaparecer do mundo, mas com mais concisão. O vosso nobre e honroso papel é apenas testemunhar essa morte. Cito novamente o barbudo obscuro. «Obrigado por acompanharem a minha morte».

2 comentários:

alma disse...

Parabéns :)
Agora, no caminho ...

felicidades :)

binary solo disse...

sotor alf. aqui no exilio tenho um sofa-cama e uma cidade com muito mais para oferecer do que eu tenho para a aproveitar. Para nao falar do vinho.

ps e bom saber que acabou esse peso. venham outros que a morte e ja ali.