sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O fôlego do escafandrista

Oh Alf… olha que eu até gosto de te ler pá, se bem que me canse, mas tens de conter a exuberância e o conhecimento académico, isto de ler os teus posts requer pelo menos meia dúzia de canudos nas mais diversas áreas do conhecimento e um fôlego de escafandrista.
Ex-Vincent Poursan, 25 de Outubro de 2012 16:00

 
 
As pessoas que têm consumido neste blogue algum do seu tempo, apreciando o espectacular e exuberante desfile de tentativas que constituiem a nossa já vasta obra, sabem de ciência certa que o nosso mundo nasceu não só da operacionalização de um sistema de preços, não só da emotividade descontrolada de um Cícero, não só daquela ceia de taberna presidida por um judeu descabelado, não só da mecânica newtoniana, não só dos colhões do patriarca Abraão (andava há séculos para dizer isto), não só da paneleirice contumaz de um génio chamado Proust, não só das parvoíces socialistas nas suas mais diversas manifestações mas também da paciência militante e da virtude combativa de pessoas que não sedem à tirania da comunicação. Faço notar que não estou aqui a defender a opacidade dos discursos - deixo essa tarefa inteiramente a cargo da Maria Alzira Seixo que é aquela gaja responsável pela edição ne variatur do cada vez mais chaladinho António Lobo Antunes. Cada um falará por si, mas o que me traz aqui hoje é a vontade de confirmar que as pessoas devem saber ao que vêm quando, neste blogue, se debruçam sobre os textos onde está apostada a designação alf: vêm ler um gajo que lê livros e que sou eu.
 
 
Mas o facto de eu ser uma pessoa que lê livros, numa cultura que se habituou durante séculos a ajoelhar diante de um livro escrito numa língua que não entendia, significa que a última coisa que as pessoas devem vir aqui procurar é precisamente a compreensão de si próprias: para isso temos o José Tolentino Mendonça, e sei até de um teólogo que se doutorou nos dotes comunicacionais de Jesus Cristo e que defende a existência da palavra perfeita.
 
 
Quem vem aqui não tem outro remédio senão esforçar-se por entender-me, porque ao contrário do que dizem todos os tristemente ignorantes nas coisas gerais da vida, o escritor não espelha nenhuma natureza humana, não espelha nenhuma essência das nossas virtudes e misérias, não espelha nenhuma descodificação do drama universal, não espelha nenhum conhecimento que não necessite de ser refeito a partir de uma experiência individual, e se alguma coisa um escritor espelha é o seu inglório esforço, quase sempre desesperado e inútil, para tentar compreender o bizarro mundo submarino e fantasmagórico a que chama personalidade. Que as pessoas possam achar algum interesse em comparar o seu igualmente rico mundo interior com o mundo interior de um outro sujeito  - um sujeito que por maldição, acaso, ou mania, é capaz de representar o seu próprio mundo e torná-lo estranhamente visível para os outros, e nisto só consiste a vantagem do escritor - é o único prazer e satisfação que assiste aos leitores de textos literários. Quem quiser facilidades, compre vaselina. Aqui só há palavras minhas e um curto pedaço desta breve alegria que levamos desta vida, que é esquecer a nossa própria consciência no esforço de compreender as palavras dos outros.

8 comentários:

zé das couves disse...

pois é alf, pois é!

concordo com essa coisa de que escrever é, acima de tudo, ter capacidade de representar o mundo interior (seja lá o que isso for e independentemente do que querias dizer com isso).

mas, se me permites uma critica, bastava teres escrito isto. o resto é palha. e depois tem uns problema. deixas ideias interessantes a meio, como quem diz "sou muita bom, podia desenvolver esta merda, mas não desenvolvo, tenho mais que fazer". vem isto a propósito do chaladinho do lobo antunes da opacidade dos discursos. acho que tens toda a razão. mas isto sou eu que ainda estou numa fase intermédia de análise da obra de lobo antunes. e posso estar enganado. mas se tu lês livros, e se num texto onde te gabas de ler livros escreves uma porra destas, o mínimo olímpico a que te devias propor era explicar a porra que escrevestes e não perder tempo com os colhões do abraão.

estás a perceber?

tirando isto, gosto muito da tua obra.

beijos.

alma disse...

alf,
O que Leio na sua escrita é um talento digno de glória.:)))


Izzy disse...

"Faço notar que não estou aqui a defender a opacidade dos discursos"

"Quem vem aqui não tem outro remédio senão esforçar-se por entender-me,"

A gente esforca-se, e gosta, por isso eh que se da ao trabalho de comentar. Mas que as vezes custa a entender, nao me foda Alf, custa. Lembra-me os filmes do Terrence Malick em que a gente nao percebeu bem tudo mas acaba maravilhada com o genio.

Se o Alf nao quer comentarios, feche a caixa. Se so quer comentarios lambe-cus entao eh por um disclaimer la em cima. Afinal a casa eh sua, voce so deixa entrar quem quiser. Mas esta tudo bem. Prossiga.

alma disse...

Izzy,
heheheheh

Na minha consciência sabia que os egosféricos iam-se sentir feridos... :)

Uma das grandes vantagens da blogo é que o escritor poderá ter o feedback do leitor quase em tempo real:)
Há pessoas com muito talento por esta blogo fora. Sinto como um dever ser mais que uma voyeur e deixar um comentário a encorajar quem merece.
E O alf é dos que não só escreve muito bem,como é divertido informativo e até formativo:)

Izzy disse...

Tem toda a razao Alma mas o Alf "can't have his cake and eat it too". Quer feedback? Entao aguenta, valente. Afinal nunca se sabe quem anda a ler isto.

Ass: AmazonEncore ;)

AM disse...

eu. mundos interiores, é mais mónicas

F. disse...

Aos 4 anos senti ciúmes de Van Gogh e proibi a minha entidade paternal de ver o resto da exposição porque depois daquilo nunca mais iriam querer ver os meus desenhos. 20 anos mais tardeve sinto o mesmo em relação a estes textos.

A Bruta disse...

Concluindo e resumindo: