Enquanto a continua o seu incontornável festival de salvação, luta e redenção de todos trabalhadores e explorados, enquanto esses mesmos ingratos trabalhadores e explorados insistem em não reconhecer os seus enviados messiânicos porque são confusos, pouco cultos e ignorantemente obscuros, enquanto o tolinho do José Rodrigues dos Santos insulta o decoro público com uma dança irónica e mercantilista sobre o cadavér do nosso sonho de alfabetização das massas, gracejando com as misérias intelectuais e políticas que o nosso povo alegremente infligiu a si próprio, enquanto o Tolan perde tempo com um autor menor como Thomas Mann, os exemplares mais reles da degradação humana tentam simplesmente compreender a sua estupidificante incapacidade de definir um projeto para a própria vida, sem bem que no meu caso, não chega bem a ser uma incapacidade, pois não me lembro de outro sentimento que me ocupasse tão profundamente a consciência como a muita antiga e enraizada sensação, objetiva e límpida, de um profundo e irrevogável declínio interior. Pessoas como eu, e julgo que, felizmente, não serão muitas, dão-se por felizes quando conseguem, eventualmente, escalar o pico de um só dia sem incomodar os seus concidadãos com os milhares de efeitos colaterais que a imunda e complexa pegada política do indivíduo impõe à inocente estrutura física das coisas, um conjunto de inter-relações simbólicas (e penso aqui na filigrana minhota e não em Braudillard) a que vulgarmente chamamos o quotidiano das pessoas normais.
Embora existam muitas teorias explicativa sobre a origem da linguagem, muitos têm sonhado que este nobre mecanismo deve ter sido criado perante o perturbador sentido de impotência, perante a beleza de um mundo incompreensível, e o protesto humano diante da destruição irreversível para onde caminha esse mesmo mundo. Não se trata de uma visão moral decadentista, trata-se de uma observação elementar extraída da História da Física. Quando Keynes tentava explicar que era inútil forçar o desempenho do trabalho a partir de uma economia deprimida, ou que era um desperdício de energia querer esmagar a força cega do trabalho organizado, e recomendava antes que se conduzisse o trabalho a caminho da prosperidade e se libertasse a força sindical dos seus medos, não abatendo os salários altos, mas elevando as remunerações mais reduzidas, recorria a uma belíssima metáfora, sugerindo que a política económica devia enfrentar as dificuldades tal como o oceano vem submergir as rochas numa maré crescente. As pessoas dividem-se assim entre as que compreendem o melancólico esforço deste homem elegante para falhar com dignidade numa tarefa intelectual nobre, e as que teimam em fazer desfilar a própria ignorância e a estridente auto-complacência num ruídoso jubilo de auto-satisfação.
A humildade é a mais inatingível das virtudes humanas, uma coisa que até um fundamentalista católico e mal casado com T. S. Elliott sabia, e por isso fez notar, na sua interpretação do crime do mouro ao serviço de Veneza, Othelo, quando assassina a sua amada Desdemona, que o que nos choca não é tanto o crime hediondo e gratuito mas os inacreditáveis e incompreensíveis sentimentos auto-justificativos que a boca daquele militar impulsivo, criado por Shakespeare, emite até ao cair do pano. Uma vez que é inútil seguirmos agora pela homiliética penitencial das nossas próprias consciências, uma vez que estamos agora demasiado cansados para abrirmos um velho livro de Séneca, uma vez que ninguém compreenderia que ressuscitássemos agora a auto-crítica marxista, uma vez que o António José Seguro vai a caminho da liderança do próximo governo constitucional, uma vez que o José Luís Peixoto se prepara para mais um retumbante triunfo literário com uma elegia viajante pela Coreia do Norte, uma vez que o Jorge Jesus ainda continuará a treinar o Benfica até ao desastre final, uma vez que W. G. Sebald continua a ser um nome irreconhecível para 99,9% das quase sempre bonitas e comoventemente diligentes empregadas do Pingo Doce, uma vez que me é cada vez mais difícil sustentar a dignidade do meu esforço, resta-nos apelar para a causalidade dos astros e manter, até onde nos for possível, um sorriso corajoso e um coração constantemente arrependido, sempre preparados para abandonar este país estrangeiro que é a vida.
Embora existam muitas teorias explicativa sobre a origem da linguagem, muitos têm sonhado que este nobre mecanismo deve ter sido criado perante o perturbador sentido de impotência, perante a beleza de um mundo incompreensível, e o protesto humano diante da destruição irreversível para onde caminha esse mesmo mundo. Não se trata de uma visão moral decadentista, trata-se de uma observação elementar extraída da História da Física. Quando Keynes tentava explicar que era inútil forçar o desempenho do trabalho a partir de uma economia deprimida, ou que era um desperdício de energia querer esmagar a força cega do trabalho organizado, e recomendava antes que se conduzisse o trabalho a caminho da prosperidade e se libertasse a força sindical dos seus medos, não abatendo os salários altos, mas elevando as remunerações mais reduzidas, recorria a uma belíssima metáfora, sugerindo que a política económica devia enfrentar as dificuldades tal como o oceano vem submergir as rochas numa maré crescente. As pessoas dividem-se assim entre as que compreendem o melancólico esforço deste homem elegante para falhar com dignidade numa tarefa intelectual nobre, e as que teimam em fazer desfilar a própria ignorância e a estridente auto-complacência num ruídoso jubilo de auto-satisfação.
A humildade é a mais inatingível das virtudes humanas, uma coisa que até um fundamentalista católico e mal casado com T. S. Elliott sabia, e por isso fez notar, na sua interpretação do crime do mouro ao serviço de Veneza, Othelo, quando assassina a sua amada Desdemona, que o que nos choca não é tanto o crime hediondo e gratuito mas os inacreditáveis e incompreensíveis sentimentos auto-justificativos que a boca daquele militar impulsivo, criado por Shakespeare, emite até ao cair do pano. Uma vez que é inútil seguirmos agora pela homiliética penitencial das nossas próprias consciências, uma vez que estamos agora demasiado cansados para abrirmos um velho livro de Séneca, uma vez que ninguém compreenderia que ressuscitássemos agora a auto-crítica marxista, uma vez que o António José Seguro vai a caminho da liderança do próximo governo constitucional, uma vez que o José Luís Peixoto se prepara para mais um retumbante triunfo literário com uma elegia viajante pela Coreia do Norte, uma vez que o Jorge Jesus ainda continuará a treinar o Benfica até ao desastre final, uma vez que W. G. Sebald continua a ser um nome irreconhecível para 99,9% das quase sempre bonitas e comoventemente diligentes empregadas do Pingo Doce, uma vez que me é cada vez mais difícil sustentar a dignidade do meu esforço, resta-nos apelar para a causalidade dos astros e manter, até onde nos for possível, um sorriso corajoso e um coração constantemente arrependido, sempre preparados para abandonar este país estrangeiro que é a vida.
10 comentários:
Bravo !!!
Por mera casualidade :) hoje, resolvi que vou começar por ler "os anéis de saturno".
Humildade o que é ?
li uma biografia do Keynes só para tentar perceber a sua ligação ao facebook da Virginia Woolf...
Mantenha um sorriso corajoso :)
E um coração forte :)
não li
parece que o shake e mais não sei quem entram nesta
assim sendo:
Therefore, since brevity is the soul of wit,
And tediousness the limbs and outward flourishes,
I will be brief.
(já não escrevia a palavra therefore vai para um colhão de tempo)
AM,
Não finja que não leu :)
Oh Alf, nao abuse tanto dos adjectivos.
(um conselho amigo de uma empregada do Pingo Doce)
Izzy, não brinque com coisas sérias. No caso de ser verdade que este blogue é lido por uma empregada do Pingo Doce (e juro que não utilizo aqui a mais pequena ironia) está demonstrado não só o espectacular conjunto das minhas ideias positivas sobre as empregadas do Pingo Doce em geral - ai os adjetivos - como está igualmente lançada a base de um caminho de salvação para a literatura.
Alf nao me surpreende que haja empregadas do PD que nos leiam. A atender pelo numero de licenciados que so consegue trabalhar la, e tendo em conta que ha cada vez mais pessoas com internet a probabilidade de termos alguem que trabalhe no PD e que leia blogues (mesmo obscuros como este) e bastante maior do que a que tu pintas. Se quiserem podemos por aqui uns numeros, mas assim so ficava ainda mais chato.
Nesse caso lamento imenso destruir o enorme mito que agora aqui se gerou e, pior, lamento o balde-de-agua-fria-que-despejo-do-terceiro-andar-enquanto-o-Alf-passa-ah-minha-porta que eh o ter de lhe dizer que nao, nenhuma empregada do Pingo Doce le este blogue. Pronto, la se foram as bases do caminho de salvacao.
E eu que apenas tentei suavizar a critica fazendo-me passar por alguem quase sempre bonita e comoventemente diligente, acabei a destruir bases ao Alf. Ha dias que mais vale nem sair de casa.
Pronto, bem me queria parecer que estava ser vítima da minha vontade de salvação das massas. Nesse caso, teremos que enfrentar o inimigo sem qualquer espécie de esperança.
A literatura vai mesmo falecer, e as empregadas do Pingo Doce, apesar de bonitas e diligentes, vão continuar a ler a Bárbara Norton de Matos.
Está tudo bem.
Pois vai, a literatura vai falecer, mas ha-de deixar-nos alguma heranca.
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