quarta-feira, 24 de outubro de 2012

José Rodrigues dos Santos, a mão do diabo e o braço musculado de um indivíduo de raça negra: como são misteriosos os caminhos do triunfo da realidade sobre a ficção.

As flies to wanton boys are we to th' gods,
They kill us for their sport.

Shakespeare, King Lear: 4, 1, 32–37


Acabo de ver um indivíduo de raça negra transportando a mais recente obra de José Rodrigues dos Santos debaixo do seu musculado braço direito, um braço por certo esculpido em ébano através de repetidas operações de nivelamento de paredes, ou talvez pelos circulares movimentos repetidos no afagamento de soalhos, ou em outra qualquer outra forma de trabalho precariamente remunerado, e este é o ponto prévio a toda e qualquer ideia que vos queira comunicar: a verdade é que ainda não me refiz do susto e sou forçado a dizer que eventuais gralhas neste post se devem exclusivamente ao tremelicar das minhas mãos, efeito que se deve ao nível de perturbação em que me encontro, devido a esta inesperada e supreendente epifania sociológica que me arrastou para muito perto de modificar toda a minha artilharia psico-política sobre o papel da ficção no mundo pós-industrial. A realidade está a ganhar terreno, um singelo facto que longe de constituir uma ameação à nossa vida espiritual, pode ser apenas o próximo capítulo desta longa história em que somos, para  desporto dos deuses, como moscas perseguidas por rapazes travessos*.
 
 
Com efeito, é preciso respeitar indivíduos que são capazes de colocar milhares de pessoas a ler, incluindo indivíduos de raça negra, ou pelo menos manter a dúvida perante autores que induzem, mesmo que mafiosamente, milhares de pessoas a comprar livros, sendo que não é justificável insistir em cânticos democráticos para depois nos consumirmos em exercícios circenses, e penso aqui na Teresa Paula Moura Pinheiro Ricou, e no Câmara Clara, onde as mãozinhas impecavelmente luzidias do Mário de Carvalho recentemente nos explicaram que a grande literatura é produzida por pessoas que já leram muitos livros, presumo que apenas para fruição dos poucos que são capazes de entender o conteúdo da grande literatura, uma vez que por este prisma bicudo, como esperar que, precisando o mundo de quem faça camas, limpe o nosso lixo, construa casas, desenrole tapates de alcatrão nauseabundo, haja tempo para que todos sejamos capazes de ler os livros que o Mário de Carvalho julga serem essenciais para iniciarmos a nossa civilizada conversa sobre o que é um grande livro? Não estou a sugerir que as pessoas consideradas de segunda classe devam ser obrigadas a ler livros que parecem ter sido escritos por crianças da segunda classe, estou apenas a sublinhar pela enésima vez como é curioso que as pessoas de esquerda se sintam particularmente atraídas por argumentos de autoridade.
 
 
Por muito que a minha simpatia pela hierarquização cultural, a acumulação do trabalho mental e a exigência intelectual me empurrem para as vizinhanças ideológicas do Mário de Carvalho - um escritor banal, demasiado esforçado por parecer inteligente, com um vocabulário ultrapassado e deprimentemente escravizado pelo génio de Jorge Luís Borges, diga-se em passo de corrida - devo manter o meu programa artístico e ser coerente com as posições previamente assumidas: um sorriso corajoso e um coração arrependido, eis tudo aquilo de que necessita tanto um grande escritor como o seu leitor ideal.
 

Até ver um preto passar com um livro de Mário de Carvalho debaixo do braço (também pode ser um preto a passar com o Mário de Carvalho debaixo do braço), a minha paciência compreensiva (e perdão) vai toda para o José Rodrigues dos Santos, um autor que sendo uma nulidade em todos os capítulos da escrita - falta de imaginação, cultura escassa, ausência total de domínio da língua, abundância de expressões pobres, uso prolixo de banalidades comparativas, manifesta deselegância das frases, excesso de parágrafos explicativos do «ambiente político e cultural», e até ideotismos ridículos - tem levado as pessoas normais a comprar livros, o que é o primeiro e mais importante passo para chegarmos a produzir, como sociedade, como cultura, como merda que somos, um escritor digno desse nome. Até que nova epifania irrompa inesperadamente na minha triste existência, também eu me recuso a participar nesta passeata, não obstante o Ano da Morte de Ricardo Reis ser claramente o ponto mais alto da longa e bem sucedida passeata de José Saramago pelo exigente reino da competição literária, num livro tão delicadamente equilibado entre a explosão sentimental e a contenção elegíaca que chega a ser doloroso avançar até ao fim pelas suas páginas, se nos acontece sermos forçados a lê-lo em público, porque será impossível afastar a inaudita ameaça de nos encontrarmos a nós próprios, de lágrimas nos olhos, diante de desconhecidos.


Comunico ainda a todo o mundo e às galáxias mais distantes que a Bárbara Norton de Matos publicou um novo livro chamado Espero por ti, alegadamente  o relato das aventuras e dramas de uma famosa atriz que vê a sua vida amorosa e os seus segredos mais íntimos expostos na praça pública. Calma. Está tudo bem.
 
 
É curioso notar que o cansaço nos atingiu como uma imprevisível praga enviada por deuses coléricos e ressentidos, parecendo claro ao autor destas linhas que a ficção se tornou insuportável e que é absolutamente inútil apelar para a imaginação, para a autoridade dos livros lidos, ou para a capacidade de desenhar narrativas que voltem a sossegar os nossos sonhos juvenis. O mundo envelheceu, é inevitável sair de casa e abandonar a infância. Não tarda muito, seremos forçados a encontrar um companheiro ou companheira de circunvoluções amorosas, ser-nos-á dito que é absolutamente normal sofrer como um cão, ser esmagado por humilhações, assistir ao triunfo dos mediocres. Alguém comunicará que a vida será breve e que nada levaremos daqui, e por último aparecerá uma lacónica autoridade, que veste de acordo com os mais secretos terrrores de cada um, para acender o letreiro luminoso que celebra, por uns breves dois minutos, a nossa definitiva extinção. É bom que os leitores se habituem ao processo revolucionário em curso. Se quiserem saber o que vem aí, leiam W. G. Sebald. Podem começar pelos Anéis de Saturno, como a mais fiel comentadora deste blogue, mas sigam rapidamente até Austerlitz, o momento mais eloquente da mosca fugitiva que somos, se iniciarmos a contagem  em Calvino, e considerarmos a realidade como um rapaz travesso, mimado e pouco imaginativo.


* Antes que se multipliquem na caixa de comentários os insultos, ameaças, convites para duelo, acusações, libelos, anátemas sobre o meu alegado racismo, recomendo a leitura atenta do post, de forma a que possa ser identificada a probabilidade de eu estar exatamente a apontar para uma conclusão contrária à que o leitor se sente impelido a atribuir-me, estando o leitor a ser induzido pela ação insidiosa de dois costumados vícios da humanidade: a velocidade de juízo e o julgamento fácil, dois antigos tiranos, especialmente cruéis na nossa época.

7 comentários:

Izzy disse...

Eh feio ser racista. Racista erudito, eh certo, mas racista ah mesma. Eh feio, honey boo boo. Please change.

Izzy disse...

Antes que chegue a habitual enxurrada de comentarios e a polemica se instale, li o post outra vez e identifiquei a tal probabilidade. Eh baixa.

A nao ser que a chave esteja contida neste paragrafo sem sentido: "A realidade está a ganhar terreno, um singelo facto que longe de constituir uma ameação à nossa vida espiritual, pode ser apenas o próximo capítulo desta longa história em que somos, para desporto dos deuses, como moscas perseguidas por rapazes travessos*." Pelamordedeus, que caralho eh que isto quer dizer?

O que eu concluo do post, eh que o Alf acha que eh de louvar um autor como o JRS porque poe "pessoas normais" (what the fuck is that?) e pretos das obras a ler livros. Que snob literario me saiu o Alf. Um individuo de raca negra com um livro debaixo do braco provocou-lhe um grande susto e uma epifania epistemo-psico-socio-politica? Que menino!

o quase mais peor disse...

aqui pode-se abardinar como na causa?

binary solo disse...

O que nos queremos e que abardinem. E q o FCP n ganhe campeonatos. Ambos bastante improvaveis

alma disse...

Heheheh
Já tinha lido o texto sem a nota de rodapé :)
Não vi racismo, li só como um elemento para dar cor à mensagem que vinha a seguir :)
perfeitamente normal .
Calhou ouvir o tal Mário carvalho (que não consegui ainda passar das primeiras páginas)que há autores ingénuos para leitores ingénuos talvez seja isso. Mas não é só isso , a maioria das pessoas não tem culpa de não ter um alf à mão que indique o caminho das estantes correctas.
Vá lá sempre lê os comentários :)

Anónimo disse...

que se foda o racismo.

o que mais me fode neste post é que o autor diz que "José Rodrigues dos Santos, um autor que sendo uma nulidade em todos os capítulos da escrita ... tem levado as pessoas normais a comprar livros, o que é o primeiro e mais importante passo para chegarmos..."

não sei onde vamos chegar com os livros do josé rodrigues dos santos. mas sei que as pessoas normais (seja lá que caralhos isso for) sempre compraram livros. foda-se. revistas gina, livros de bolso, enciclopédias de todas as cores e feitios, colecções de ficção cientifica, etc.. etc.. etc..

o meu pai tem a 4 classe e sempre comprou livros. foda-se até tenho cá em casa coisas dos russos do antigamente, os dostoievskis e o tolstois e os pasternaques e o caralho. tudo comprado pelo meu pai, gajo mais normal do mundo. o que acontece é que as pessoas normais, gostando de ler como as anormais, estão-se cagando para a porra que leem e muito menos para as interpretações e importancias várias que as obras literárias que adquirem, como a revista gina, podem ou não ter. resumindo, sempre lemos muito e não crescemos um caralho civilizacional por termos lido. que se foda a literatura. temos de inventar a roda outra vez se queremos avançar civilizicionalman foda-se, civilizicionalnis, ai caralho, civilizacionalmente.

o josé rodrigues dos santos apercebeu-se desta merda, escrevinhou umas porras sobre o os templarios, sobre o vaticano e agora sobre o diabo, meteu essas porras em capas com luzinhas, as livrarias adoraram e meteram as luzinhas nas estantes mais acessiveis e os as pessoas normais, cagando e andando para tudo o que as rodeia, ou nao fossem as pessoas normais as grandes culpadas de tudo o que acontece no mundo, bom e mau, compraram a merda saida da mente de rodrigues dos santos.

percebeste?

nem eu. mas é isto.

dizer que rodrigues dos santos meteu as pessoas a ler é tão abusivo como dizer que sá pinto meteu o sporting a jogar futebol de merda. o sporting sempre jogou futebol de merda. o problema nunca foi sá pinto. o vercouterem vai ter o mesmo sucesso.

Barão Trepador disse...

Pretos 6 - amor sexuado da fatinha 0. Foda-se, estamos mesmo em crise :)