Duvido que seja possível (a alguma das variadas
espécies de seres vivos distribuídos evolutivamente pela vasta galeria do
planeta, incluindo os ratos-marsupiais australianos e os mochos europeus) continuar
a desconhecer a minha profunda aversão pelo estúpido do Senhor Professor Vítor
Gaspar e pelo minguadamente aberrante Senhor Professor António Borges, mas esta
simples evidência não pode dispensar-me de fazer aqui um exercício de amor pela
verdade, de sacrífico pela ciência, de imolação pela república, e que consiste
em explicar aos burros dos comunistas, nas suas várias aplicações informáticas,
que o problema da dívida é, como eles próprios repetem incansavelmente, um
problema de justiça social.
Ora, os juros que pagamos aos agiotas, aos caloteiros,
ao porco judeu Schylock e sua cobiçada filha, ou aos banqueiros Ulrich que
vieram de Hamburgo em 1755 para financiar a reconstrução do Terramoto que nos
rachou ao meio, dependem de um contrato jurídico assente sobre um mecanismo
lógico de harmonização do interesse de quem tem meios de pagamento com o
interesse de quem precisa de meios de pagamento, em face da necessidade que
todos temos de adquirir coisas, medir valor (para não sermos enganados pelos
agiotas e suas balanças de ouro que os pintores flamengos não se cansaram de
retratar em pequeninos quadros e que o Estado fez o favor de disciplinar,
regular e avaliar, com os seus Intendentes e Capitães do exército), e
transportar recursos para o futuro, a fim de nos defendermos dos Pedros Passos
Coelhos que por aí andam à solta.
Claro que as inteligências mais férteis, quer na
produção de rebuçados morais, quer no desenho de objetivos para a vida humana,
como o Daniel Oliveira, a Raquel Varela ou o descomunalmente burro do
António José Seguro, perguntam por que razão os portugueses devem pagar uma
percentagem tão elevada de interesse sobre o dinheiro que lhes foi emprestado.
É uma pergunta pertinente e podemos eventualmente argumentar sobre as
possibilidades de baixar estes juros, mas não ficamos esclarecidos sobre se os
representantes de um futuro melhor, defendem a abolição dos interesses sobre
empréstimos monetários, o cancelamento do euro – como padrão internacional
valorizado em taxas de câmbio - e sua substituição por pequeninos bustos de Lenine
em mármore de Vila Viçosa, ou simplesmente uma renegociação do mecanismo de
financiamento, mantendo a agiotagem, mas desta feita regando a dívida com água benta
comprada em Fátima.
Em caso de renegociação, o Daniel Oliveira e
a Raquel Varela podiam começar por responder a três perguntas que aqui deixo
com total sinceridade:
a) o que temos nós para oferecer a quem nos
emprestou o dinheiro, numa época longínqua do passado em que ninguém parecia
muito preocupado com os mecanismos de financiamento do Estado e consumia todo o
seu sentido de indignação com os prementes problemas da faixa de Gaza?
b) no caso de os juros baixarem significativamente,
devemos ou não distribuir o financiamento futuro do Estado por impostos que incidam
sobre os trabalhadores especializados em ganhar dinheiro com a gestão do
dinheiro, ou como eles gostam de dizer, tributando o grande capital, ou aplicar
um sistema fiscal adequado ao mercado e propiciador do investimento nos
nano-micro-pequenos empresários, isto é, empreender reformas, tão ao gosto de comunistas
como Mira Amaral ou Manuela Ferreira Leite?
c) Como organizaremos nós a nossa «liberdade
económica internacional» com a produção e a distribuição de recursos nos
mercados financeiros quando pusermos na ordem a agiotagem internacional?
Parece-me que existe aqui um tremendo problema de
compreensão em torno dos fundamentos económicos do capitalismo, do papel da
liberdade na promoção de injustiças e na própria conceção do comunismo como
etapa final do capitalismo industrial. É que não sei se alguém já explicou a
estas pessoas (mas eu caritativamente, uma vez que fui educado na perversidade
da fé católica, posso explicar) que foi precisamente a liberdade de iniciativa
saída das revoluções burguesas (que as gajas de mamas descaídas pretendem agora
invocar) que ditou o triunfo do dinheiro sobre a organização aristocrática da
sociedade e que foi justamente o sistema de preços a dissolver, numa grande transformação, as sociedades de
castas da idade média – e que tem permitido aos trabalhadores libertarem-se dos
nós antropológicos da simbologia tribal, do analfabetismo e da indigência
anti-escolar (em que viviam encerrados nas sociedades rurais). A liberdade dos
trabalhadores só tomou forma com a uniformização de meios de medição, peso,
transporte e comunicação, possibilitados pela circulação monetária, e apenas o
triunfo do dinheiro permitiu medir o trabalho, identificar a exploração, e
revelar pessoas alienadas, em relação a potenciais exploradores. Num sentido filosófico profundo, o dinheiro é a
gazua do comunismo mas os comunistas, como são mentalmente muito fracos, e
moralmente muito fortes, não o compreendem, e nisto colocam-se ao lado da casta
de cardeais, teólogos e outras aves raras que subscrevem a doutrina social da
igreja, esse caldo constituído por frases incompreensíveis, catequistas embalsamados e seres fantásticos.
As pessoas que leram Marx (entre as quais não se
encontram a Raquel Varela e o Daniel Oliveira, porque são pessoas demasiado ocupadas em
programas de televisão, conferências universitárias e a liderança dos fracos e
oprimidos de todo o mundo conhecido e desconhecido) sabem perfeitamente que a
única forma de combater o Capitalismo é destruindo o mecanismo monetário,
uma coisa que até o mentecapto do Lenine percebeu. No entanto, muito pelo
contrário, os comunistas querem um sistema financeiro regulado, e um mecanismo
social mais redistributivo, baseado no trabalho (sem se explicarem se ser
filmado a fazer um broche, ou gerir uma editora comunista são duas atividades
que podem ser consideradas trabalho), isto é, os comunistas querem que o
capitalismo funcione melhor aqui do que na União Soviética, aspeto em que estamos
amplamente de acordo, mas não explicam de que forma querem melhorar aquilo
que prendem destruir. Calma, está tudo bem.
Neste ponto, convém introduzir um pouco da minha
raiva congénita contra as pessoas que não gostam de ler e citar um pequenino
mas muito virtuoso ensaio do emigrante arménio a quem a Raquel Varela, o Renato
Teixeira, o Ricardo Noronha, ou o Zé Neves, certamente gostariam muito de
elogiar se esse emigrante se não chamasse Milton Friedman. Este emigrante,
muito amigo de um outro filho de emigrantes pobres, também adepto do capitalismo,
explicou no já longínquo ano de 1962 (não há desculpa para os níveis de
ignorância orgulhosamente ostentados pelas pessoas de bem) que até os mais
críticos opositores do capitalismo aceitam o pagamento monetário do trabalho
efetuado. Sendo assim, e de acordo com o velho Marx (do jovem, ao contrário da
nova esquerda em geral, não gosto muito, bebia muita cerveja e escrevia mal)
todo o produto social decorre do trabalho, mas o trabalhador recebe apenas uma
parte, e foi a partir destas divisões pouco claras, ultrapassadas, mas
importantes na história da economia, entre produto recebido, transferido e
acumulado, que se construíram todas aquelas especulações confusas posteriores (e
conservadas em gelo pelos comunistas e marxistas) em torno do sobre-produto
social (surplus value, em inglês,
quem quiser saber em alemão pergunte ao Fernando Ulrich que ele deve saber).
Mas o ponto importante (e reparem agora, aqueles que
podem, no maravilhoso detalhe onde não chegam os Oliveiras e Varelas deste
mundo, nem aqueles que já desistiram de ler este post, e vão por isso perder o
mais valioso tesouro) é que só há exploração do trabalho em relação a um
cálculo de valor do produto (suponho que monetário, pois foi também
monetariamente que se efetivou o pagamento do salário exploratório) o que
obriga os críticos do capitalismo, e todos as raras espécies de comunistas que
ainda resistem ao esclarecimento e à higiene científica dos tempos modernos, a
reconhecer e aceitar as premissas capitalistas de Smtih e Ricardo (que Marx
como é sabido, embora discordando em parte, nunca conseguiu ultrapassar) pois numa
economia socialista, que pretende remunerar cada um de acordo com as suas
capacidades, esperando que cada um produza apenas o trabalho segundo a sua
habilidade, seria necessário comparar o que os diferentes tipos de trabalho
podem produzir, não com o que cada um recebe (recusando moralmente a sujidade
do dinheiro como um instrumento despersonalizante) mas com a habilidade de cada
um para fazer uma determinada coisa. Isto obriga a comparar o resultado do trabalho
(alheiras de Mirandela, poemas de José Luís Peixoto, queijos de Niza, canções
do Sérgio Godinho) não com aquilo que efetivamente produz mas com aquilo que as
pessoas precisam. Não sei se estão a ver a confusão monumental, mas julgo que,
apesar das toneladas de propriedade moral dos deputados comunistas, isto
explica os resultados eleitorais do PCP.
Deve aqui explicar-se que as imperfeições do sistema
de preços têm sido ignoradas e desvalorizadas na medida em que uma grande maioria de
pessoas (excluindo novamente os comunistas, os católicos, e todos os malucos em
geral) reconheceu as virtualidades da informação contida nos preços como sistema racional capaz de adequar as escolhas e os comportamentos
de milhões de indivíduos, distribuindo a remuneração do trabalho e permitindo tomar decisões sobre quais os recursos necessários para satisfazer, em tempo útil, as
necessidades de pessoas que vivem em liberdade e mudam de preferências com
pecaminosa, para não dizer diabólica, velocidade. Bendito seja o poder do
desejo, porque por ele chegaremos ao reino do prazer.
Tentando iluminar as trevas que se abateram sobre
nós, Marx – e nisto foi seguido pela Raquel Varela e mais 18 economistas,
historiadores, filósofos, sociólogos, curandeiros, taxistas autores do contra-hegemónico-livro sobre o Estado Social – confundiu o
produto total da cooperação entre todos os trabalhadores e recursos, com o conjunto
adicionado ao produto, o que no jargão económico, segundo Friedman e os economistas
que passam nas cadeiras de Microeconomia I, se denomina produto marginal. Por outro lado, e
por mais incrível que isto possa parecer a quem passa a vida entre o suor e o
sangue dos trabalhadores, os intelectuais comunistas, marxistas e socialistas (mas também os infinitamente burros políticos da direita) usam o conceito de
trabalho com a despreocupação de quem nunca teve que trabalhar. Marx reconhecia
o papel do capital (o grande, na maior parte dos casos, mas também o pequeno,
para efeitos teóricos) na produção do produto social (é aliás a base de toda a
teoria de acumulação e exploração) mas continuou a criticar o capital, como entidade devoradora do trabalho social, ou sepulcro com
trabalho incorporado, o que na melhor das hipóteses significa a incapacidade teórica
de um intelectual formado nas abstrações (que Marx reconhecia e identificava) dos
economistas clássicos do século XVIII e XIX, mas que se revelou incapaz de ultrapassar a análise
económica baseada na suspensão do tempo, o que aprofundou a incapacidade de
separar o que no trabalho se deve ao operário dos efeitos multiplicadores dos
diferentes tipos de trabalho, incluindo a gestão do Capital e o sistema bancário. (Milton Friedman, Capitalism and Freedom, Chicago
University Press, 2002, 167-168)
Se me é permitido, terminaria com uma nota espetacularmente
erudita, um argumento de autoridade, e um juízo filosófico sobre a
desorientação do marxismo como filosofia social. No já muito afastado ano de
1902, na desesperadamente bela cidade de Palermo, Achille Loria destacou que Marx era
um metafísico a quem, não obstante o maravilhoso conhecimento da vida real, e
da história jurídica e política da Europa, nunca deixaram de fascinar os idealismos
hegelianos (e atenção que ao contrário de Karl Popper, eu li mesmo Hegel), o que o
empurrou para uma confusão entre o desenvolvimento «natural» das coisas e o
papel da filosofia como mértodo revelador e potenciador desses processos metafísicos em
que sentido e matéria se casam no fim dos tempos, processo que pode ser sintetizado em conceitos e expresso pelo desenvolvimento da consciência dos intelectuais até «o ponto da inteligência
teórica de todo o movimento histórico», tal como vem biblicamente referido no Manifesto do Partido Comunista. Não é
preciso grande sentido interpretativo para entender como a preocupação moral e o
uso abundante e abusivo do conceito de consciência são problemas de metafísica judaica
que chocam qualquer espírito científico contemporâneo e aborrecem qualquer pessoa minimamente saudável.
Gramsci, como é sabido, arrumou o problema das
pessoas inteligentes que querem transformar o mundo e denunciar as injustiças:
«Os trabalhadores intelectuais, ainda que aparentem ser indiferentes à manutenção
ou destruição da ordem social existente, estão em todo o caso, e até ao mais
fundo da sua natureza, interessados na sorte da superestrutura ideológica da
ordem social (funcionários empregados pelo Estado, magistrados, advogados)» - e eu
acrescentaria professores, médicos , enfermeiros e todas as pessoas lideradas por Bettencourt Picanço em geral (Scriti
Politici Giovanili, 1919-1928, Roma-Bari, Laterza, 1972, 16-25).
A todos os que continuam a acreditar nas luzes do entendimento,
na liberdade da vontade e na poderosa imaginação humana, posso assegurar que
neste blogue se continuará, sem tréguas e sem quartel, a luta contra o obscurantismo, a vigarice
e a ignorância das massas.




4 comentários:
Estou totalmente de acordo excluindo a parte em que escreve Nisa com Z. Tirando isso, vossa senhoria, à sua maneira, também não deixa de ser infinitamente espetacular..
Subscrevo o comentário do Anónimo.
É excelente e reconfortante saber que há gente que pensa e escreve muito, muito bem .
:)
Pois bem! Só ficou a faltar uma foto de corpo inteiro.
Grande confusão nessa cabecinha! Tirando isso, não está mal!
Enviar um comentário