terça-feira, 9 de outubro de 2012

Do caralho que ta foda.

«Fear it, Ophelia, fear it, the shot and danger of desire»
Shakespeare, Hamlet, 10, 41.
 

Alguém por simples e mero acaso, tendo beneficiado de uma nesga de tempo entre as várias preocupações a que tem sido submetido pelo valente governo constitucional liderado pelo brilhante gestor da Tecnoforma, sabe quem é o Alexandre Borges? Não será o irmão daquele ensaio humorístico em forma de parolo açoriano e beneficiário de várias e esquisitas formas de financiamento, entre as quais a colocação dos dentes afiados na coxa da república, por intermédio de pagamentos por prestação de serviços à RTP 1 e 2, e se houvesse, também à 3, 4, 5 e 6? Não podemos afirmá-lo com toda a certeza, mas podemos pelo menos referir que o Alexandre Borges, quem quer que seja, veio recentemente, depois de um cruzeiro deslizante sobre a superfície dos profundos oceanos onde outrora sulcou a velha quilha do Pequod, puxar das suas profundas ideias políticas e denunciar, por meio de um argumento de autoridade, a irresponsabilidade dos líderes da oposição e dos fazedores de opinião, não devido a transferências estranhas de fundos comunitários, não devido ao abuso da política fiscal, não devido à colaboração com empresas fantasma, mas devido à produção de críticas ao governo: vejam só o despautério desta inqualificável irresponsabilidade; uma oposição que critica o governo, jornais que escrutinam decisões políticas; preparai-vos pois o fim do mundo está próximo.
 
 
O raciocínio é brilhante, posso assegurar, e reconhece que não se podendo pedir às pessoas que estão a ser fabulosamente fodidas pela continuação do regular funcionamento constitucional da república levado a cabo pelos magistrais mestres de sacríficios e torturas que assinam em nome do governo de coligação PSD/CDS, devemos, no entanto, e por outro lado, fustigar todas as irresponsáveis críticas à liderança do governo em nome do estado de excepção que nos anima a caminhar para o futuro esperando ansiosamente a vinda do amanhã que cantará para nós através das gargantas puras e cristalinas das crianças lourinhas e bem nutridas que, por mero acaso, sobreviverem à hecatombe fiscal que estamos absolutamente proibidos de denunciar.
 

Se o Alexandre Borges acha que nos devemos conter até ao dia em que o delírio generalizado venha a produzir efeitos práticos sobre a vida real, lamento informar este confesso anglófilo convicto - é o que se lê na sua biografia - sobre o que um outro anglófilo convicto, mas nascido em Inglaterra, celebrizou num aforismo célebre, sintetizando o tipo de raciocínio que devemos aplicar a todas as tentativas de decapitar o conforto das pessoas em nome de uma amanhã que canta, a saber: «a longo prazo estaremos todos mortos» e sem possibilidade de ouvir belas canções ou constatar os efeitos práticos produzidos pela má teoria sobre a hierática quietude da vida real.
 

Tudo isto é tão tristemente coerente como a  extraordinário e nunca justamente celebrada semelhança entre Carlos Moedas e Manuel Luís Goucha, pois o mesmo Alexandre Borges constata, em um outro lugar, serem os recibos verdes um instrumento de progresso, justiça e civilização, pelo facto de se ter habituado desde cedo e sem ressentimentos, a só ser pago por aquilo que produzia, achando a coisa mais lógica do mundo não receber dinheiro por estar estendido na praia (e logo o dobro do dinheiro do que aquele que receberia se estivesse a trabalhar). Aceitemos que o Alexandre Borges é uma pessoa com um monumentalmente aguçado espírito de equidade, capaz de inflingir sangrias e feridas profundas ao seu próprio corpo, capaz de abnegadamente apenas receber no bolso roto das pobres calças de sarja a parca recompensa da sua labuta diária, e isto sem emitir o mais pequeno balbuceio, a fim de que se produzam relações de justiça remuneratória, tão simples e somente fazendo uso de um pequenino papelinho da cor do Sporting chamado Recibo Verde.
 
 
Porém, para que se produzam os pretendidos efeitos escatológicos da justiça retributiva preconizada pelo açoreano esquisito,  teriamos que desagradavelmente aduzir à consideração sobre o mecanismo legal que formaliza a relação compensatória dos trabalhadores, uma justa análise sobre essa singela informação numérica contida na linha onde os ditos papelinhos verdes observam os valores remuneratórios do filho da puta do Alexandre Borges, não podendo deixar de perguntar, qualquer hipotético legislador que se prestasse ao exercício comparativo, se os supra-referidos valores recebidos pelo  caro Alexandre Borges, serão assim tão geometricamente proporcionais ao nível de combustão produzida pelo  seu estóico corpo, qual Rambo da precariedade justiceira, quando tem a sorte de não estar inutilmente estendido na praia e se consome no mais profundo sentido da vida que é o trabalho libertador e justamente compensado, remunerado por intermédio dos papelinhos verdes.  A julgar pela sua monumental obra, eu diria que o Alexandre Borges é um filho da puta e está aqui a utilizar um instrumento a que os monges beneditinos muito versados nas artes liberais chamariam falácia.
 

Para este Rambo dos recibos verdes, a justificação da ausência de contratos de trabalho (contratos, ouviste ó anglófilo do caralho, contratos, uma coisa que a Magna Carta regista desde o século XIII a fim de constituir um travão capaz de impedir os governos, os patrões e os aristocratas de irem ao bolso das pessoas, nomeadamente os pobres camponeses parolos) deve-se a uma queda económica do ocidente; pasme-se, uma queda económica do ocidente, o que segundo este anglófilo certamente produzido pelos filmes de Chuck Norris e Silvester Stalone, alugados entre 1985 e 1990 no cineclube de Angra do Heroísmo, o terá levado a produzir a seguinte maravilha declaratória:
 

 

Um momento. Nada mais? Nada mais? Mas haverá alguma função ao dispor das capacidades psico-motoras do ser humano que não caiba nesta lista? Isto é o mesmo que dizer que o Benfica deve concentrar os seus recursos na contratação de pontas-de-lança, médios, defesas, extremos, massagistas, treinadores de guarda-redes especializados em cruzamentos, roupeiros e guardas do túnel, ou que devemos concentrar a nossa atenção em gajas que tenham duas pernas, dois braços e um aspecto minimamente agradável, ou que devemos concentrar as nossas refeições em função da vontade que venhamos eventualmente a ter em ingerir alimentos, ou que devemos concetrar a polícia em hipotéticos locais onde possivelmente venham a ser cometidos crimes, ou que devemos fornecer medicamentos aos velhos sempre que eles se queixarem, ou que devemos pagar a todos os palhaços que venham dos Açores para nos fazer rir. Mas o Alexandre Borges não fica por aqui:


 

Posto este programa de reformas políticas, faço silêncio e pergunto se haverá necessidade de o povo português continuar cegamente a custear um Governo, uma Presidência e uma Assembleia da República? Digo prontamente que não, pois serão visivelmente «sobressalientes» tais instituições perante tão extraordinária plataforma estadualista capaz de nos conduzir a um futuro de paz, amor e prosperidade.
 
 
 
 

2 comentários:

Maria D Roque disse...

Grande texto !!! ... que muita gente devia de ler...

(PS.: desactivar a porcaria do verificador alfanumérico era fixe para os comentadores do blog)

alma disse...

Felizmente o texto termina bem :)

Sem sombras de dúvida concordo com o último parágrafo , não precisamos deles para nada.

Quanto aos recibos verdes não conheço outra forma de me pagarem os meus serviços como free ..., sim é precário e não recomendo a pessoas sensiveis :) exige não só um certo temperamento como uns nervos de aço.

Tenho raizes açorianas e devo a elas grande parte do que sou :)
Não faço ideia quem é o tal borges mas não
gostei de ler "açoriano" em termo depreciativo ou talvez tenha ficado cega... eh eh eh eh
Tomara os daqui terem a força e alguma profundidade dos portugueses dali:)