sábado, 27 de outubro de 2012

Cenas que um gajo às vezes

Existe toda uma constelação de pessoas interessadas na injusta acusação de que em certos casos eu sou apenas um gajo que envolvido na demonstração do seu génio, acaba por libertar a roda pirotécnica da sua consciência mas apenas egoisticamente e tão só até aquele ponto em que as crianças abrem a boca e deixam cair o gelado no chão. Nada mais injusto. Os milhões e milhões de pretoleiros da Lisnave carregados das pessoas que não me conhecem, não ignoram no entanto que é muito raro uma pessoa com a minha mais do que demonstrada capacidade deixar argumentos a meio, o que acontece é que.
 

 
 
Não sei se têm reparado mas o segundo programa artístico fundamental, no trabalho que tenho vindo a desenvolver junto do grande público, é justamente o continuado aperfeiçoamento das ideias de Northrop Frye acerca da consistência lógica e demonstração racional de uma valorização dos textos literários, uma vez que nesta vida ingrata, e como diziam de Garrett, não me importo de ver as piores porcarias, desde que não me sujeitem a uma frase mal escrita, tenham paciência, caralho. Posto isto, não é justo que tenham privado da sua cabeça, diversas e notáveis mulheres da Corte de Luís XVI -que sabiam mais de literatura, maturidade e foda a dormir do que o Tolan a vender as merdas que ele vende lá aos gajos que sabem como se vendem coisas - para que o mesmo Tolan possa agora reclamar-se de uma liberdade de opinião totalmente construída em cima do joelho feminino que é o dele, e de uma forma escabrosamente arbitrária e notavelmente desinstruída, para muito injustamente cuspir sobre o túmulo de uma nobreza, apesar de tudo cultivada até às lágrimas e o sangue nas belas letras, em troca da liberdade de comércio, direitos constitucionais, e umas centenas de visitas ao seu blogue de gajas e gajos burros que nem uma porta esculpida à cabeçada na talha dourada do entre Douro e Minho.
 
É por causa destas merdas que os comunas não respeitam o sistema de preços: é que os mesmos gajos que se sentem insultados porque as pessoas gostam da merda dos Ornatos Violeta e não gostam da merda de outra banda qualquer de analfabetos musicais, acham por bem dizer que ler Thomas Mann é bom, gratificante, e indiferentemente humano, tão normal como ler um americano alcoólico qualquer que mal sabe soletrar o seu nome, sem apresentarem sequer um argumento que ultrapasse a analogia mais absurda, e penso aqui nas comparações com os russos ou com o coitadinho do esquisitamente incompleto Mário de Sá Carneiro. Um bom sistema de preços não pode funcionar sem um sistema de controlo de qualidade, uma cena que até os ciganos da feira sabem, mas em matéria de livros, vale tudo, sobretudo se isso implicar arrancar os olhos dos gajos que percebem realmente de livros. Reparem que esta merda é especialmente grave porque se trata do Tolan: se fosse o valter hugo mãe, o Urbano Tavares Rodrigues ou outra múmia qualquer, tudo bem com toda a gente, mas estamos a falar do Tolan, uma pessoa que tem responsabilidades neste empreendimento de libertação que estamos a construir para as massas. Isto não me atingiria tão profundamente se não tivesse sido perpetrado por uma pessoa que aprendi a respeitar, por outras razões é verdade, mas ainda assim.
 
 
Amanhã por esta hora voltarei aqui para iniciar uma nova etapa no elogio da derrota que é a anunciada demolição programática da vigarice em que chafurda o meio literário português e fazer cabal demonstração do meu incompleto génio, cumprindo os desejos dos meus leitores com dois posts, a saber:

a) uma ampla elaboração sobre o argumento implícito acerca do desperdício imoral constituído pela criação e edição ne variatur da obra de António Lobo Antunes:

b) uma sustentada iluminação das relações entre a expressão literária do sentido masculino e viril da vida e a dominação monstruosa da mulher sobre o nosso coração de andorinha, a partir de um problema que tocando em Coriolanus, e na poderosamente sensual Volumnia, mas também no crianção fantástico e embriagado, Falstaff, de Henrique IV, nos tem continuadamente preocupado a todos, isto é, pretendo abordar de forma explícita directa e despudorada, a estreita ligação entre a nossa mãezinha, as protuberâncias mamárias e a recordação da doce e aveludada atmosfera do adormecimento infantil a que ligamos as mais secretas e profundas sensações de felicidade, de  tal forma que o maior génio vivo do século XXI, Marcel Proust, ao iniciar a monumental demonstração da sua vida interior através do uso da linguagem, se decidiu pela notificação pública de que durante muito tempo foi para a cama cedo. Estaremos todos nós ainda à espera de mama ou só os mais frágeis e abandonados é que se dão por insatisfeitos com o biberão de borracha que nos ofereceram por substituto?

Boa noite a todos e bons sonhos.

4 comentários:

Ex-Vincent Poursan disse...

Fico a aguardar, com curiosidade, os teus dois próximos posts. Antes, se mo permites, tenho aqui uma espectacular síntese com discreta reclamação, um breve apontamento sobre palha, uma auto critica e uma nota de rodapé acerca de

Espectacular síntese e discreta reclamação ou vice versa;
O que respondeste ao menos espectacular dos espectaculares parágrafos que compõem o meu espectacular comentário, cuja leitura vivamente recomendo, foi:
“As pessoas que têm consumido neste blogue algum do seu tempo, devem saber ao que vêm. Vêm ler um gajo que lê livros e que sou eu. Quem vem aqui não tem outro remédio senão esforçar-se por entender-me. Quem quiser facilidades, compre vaselina.”

Um breve apontamento sobre palha;
O resto é palha?
Não!!!
Se for palha… como palha e gosto. O que não invalida o tijolo do meu comentário - eu escrevi conter e não anular -, pilhericamente cimentado em metáforas trágicas, que teria trabalhado muito melhor se me tivesse passado pelo bestunto a visibilidade que lhe deste. Está bem, exagerei no “tens”… a bola é tua e eu, se quiser jogar, vou prá baliza se para lá me mandares… ou não, que nessa cena da vaselina não alinho.
Regressemos à “palha”. Fora a insistência na tua robusta qualidade de leitor de livros e aquela peregrina ideia de que o único prazer e satisfação que assiste aos leitores de textos literários é achar algum interesse em comparar o seu igualmente rico mundo interior com o mundo interior de um outro sujeito – eu não me entretenho a comparar, digamos que parasito, na medida em que somo ao meu, muito do que me impressiona em textos literários e não só. E não me fodas porque fazes o mesmo. Esse murro no peito e o grito alfa do: eu leio livros; é o almíscar do teu -, fora isto, dizia eu… porque é que pensas que te leio???

Lá fugi ao registo habitual deste meu nick, eu merdas sérias não me convêm, resumindo o que queria dizer era:
Vai-te foder mais o post. Continua a escrever que te continuo a ler. Se quiseres desenvolver melhor, em posts diferentes, algumas das ideias que te saltam pró texto “como rameiras dum bordel incendiado”, com elegância concordo – as ideias, não as rameiras - cada vez que escreves um post… tudo bem para ti e para nós… se não, tudo bem na mesma. Mas, nas mesmas circunstâncias, voltarei com a do salgari… ou a do taxista, que do aeroporto ao marquês vai pelo parque das nações.

Auto crítica;
Olho pra este comentário e vejo como é fácil acumular caracteres numa cena escrita. Para quem, que não eu, tiver a destreza mental para os organizar em palavras, frases, textos, ideias… equiparada à manual duma rendilheira de Peniche… a síntese pé de flor, poderá não ser possível.

Nota de rodapé
Como tenho pra mim que um gajo que escreve também se deve esforçar por ser entendido… não somei ao meu milionário mundo interior o “Quem vem aqui não tem outro remédio senão esforçar-se por entender-me. Quem quiser facilidades, compre vaselina.”

Um abraço dum gajo que também lê umas merdas, mas os dois próximos livros que vai ler… são o “sem crescimento não há consolidação orçamental” e um calhamaço sobre análise financeira!!!

Izzy disse...

a) dispenso, passa ah frente...
b) ... e era mesmo aqui que queria chegar.

(A principio senti-me insultada como gaja leitora do Tolan das Botas mas curvo-me perante a grandiosidade de um insulto como "burros que nem uma porta esculpida à cabeçada na talha dourada do entre Douro e Minho".)

alma disse...

eheheheh
Trazer as leituras do Tolan à baila aqui na posta é interessante como meio de introduzir mais adiante as discrepâncias de gosto entre académicos.
Uma Maria Alzira para quem o Proust é tudo (perfeitamente normal ) não será menos interessante saber o que a faz apoiar o bizarro A.L.A.:)

alma disse...

Será que a M.Alzira não quer cair no erro de Gide?
eheheheheheh
pobres académicos que tentam ser visionários :)))

(para mim simples leitora o Proust é um dos que está na 1ª divisão de todos os tempos )