segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ao ver ontem o Câmara Clara, no intervalo da leitura do clássico por João Gobern, exclamei: Senhor lembra-te de mim quando vieres com a tua realeza; mas os gajos nunca se lembram, caralho.

Na concretização da minha nova vida há porém muitas coisas que seguem - como dizem os espanhóis - sendo continuadamente iguais ao que eram na minha vida anterior, como por exemplo, a capacidade de prever com incrível antecedência e perturbante rigor a mediocridade de alguns dos políticos eleitos democraticamente pela República e amplamente elogiados pelo conjunto de deficientes que enverga a carteira de jornalista. Nest post estatisticamente consagrado pelos nossos corajosos e incomparáveis leitores, fiz questão de prevenir com a devida antecedência todas as pessoas de bem (sobretudo as que apreciam a beleza não totalmente convencional da Claudia Schiffer) acerca dos problemas cognitivos do senhor Ministro das Finanças, denunciando ainda a sua carreira académica como um, digamos assim, embuste, para que não fossem mais tarde o remorso, a ingratidão, e o arrependimento (conceitos mais facilmente manobráveis pelo analfabeto do José Tolentino Mendonça) a destroçar o coração do contribuinte, cuja consciência corre o risco de ser inteiramente desnudada pelas sistemáticas vergonhas públicas a que se tem submetido votando em pessoas sobre as quais tudo desconhece.
 
 Não venha pois o indiano Ricardo Costa dizer que há uns meses atrás tudo era diferente, no sistemático exercício de desmobilização da inteligência perante a inquietante realidade (não venha também, como o fez recentemente, citar Shakespeare a este pretexto, mas aposto que pela versão cinematográfica mais recente), uma vez que as oscilações de cenário, longe de constituirem um factor de desnorte da previsão política, deviam ser o terreno de especialização dos deficientes que envergam a carteira de jornalista, dada a sua acumulada experiência em homens que mordem em cães, tragédias naturais, acidentes em cadeia, perversões sexuais e todo o tipo de anomalias consideradas chocantes pelo padrão de normalidade que os assiste. Há um estranho paralelismo entre os comentadores políticos e os comentadores futebolísticos: ambos os discursos são totalmente dependentes da marcha do resultado, o que os transforma em perfeitas inutilidades, a varrer rapidamente do panorama mediático. Uma pessoa minimamente informada ouve dez minutos de conversa de um outro qualquer ser humano e fica desde logo habilitada sobre as suas capacidades públicas: se a pessoa analisada merece o reino dos céus ou casar com a Mónica Belluci (o que talvez seja a mesma coisa) é já um assunto que não cabe ao Kantiano terreno da crítica.
 
 
Do mesmo modo, não venha o indiano José Manuel Fernandes passear com os seus duzentos quilos para a plataforma do metro da Baixa-Chiado quando eu me encontro a menos de dois metros de distância, obrigando-me a um esforço de contenção sem precedentes para não gritar «ó indiano: és mesmo parolo», temendo deste logo o engrandecimento da figura, sob a capa de um ataque injusto, cobarde e soez, onde o rendilhado do martírio racista teria certamente o seu lugar de honra. Mas não é nada disso ó indiano do caralho: é simplesmente uma questão teológica, uma vez que aprendi com uma catequista que envergava saia-casaco verde alface e uma permanente redondamente perfeita a partir de uma matéria-prima capilar de cor castanho-magenta,  que os hipócritas devem ser fustigados com a nossa indignação.
 
 
Outro gajo que me parece um indiano empresário de sucesso é o já supracitado José Tolentino Mendonça que ontem veio conspurcar a memória da literatura russa afirmando que Tchekov escolhe o ponto de vista de um carroceiro para demonstrar que o pobre pode ter uma palavra a dizer numa sociedade cuja galeria de personagens se encontra manipulada pela doença civilizacional da burguesia decadente. Não só Tchekov não escolhe qualquer outro ponto de vista que não seja o seu, como o primeiro conto do vol. 1 de Tchekov na versão portuguesa - de onde o padre Tolentino Mendonça não passou, e onde terá chegado pela bela interpretação de Nani Moretti no seu último filme, aposto (uma vez que não conheço ninguém que cite Levinas e tenha compreendido Tchekov) é precisamente,  e pelo contrário, um tremendo protesto perante a indigência e a indignação de ser pobre.  Filhos da puta dos que engordam a olhos vistos mas vêm depois elogiar a santa vida virtuosa dos pobrezinhos. Esses, cabem com toda a propriedade no conceito de hipócrita, desenhado por Nosso Senhor Jesus Cristo, já vai para dois mil anos.
 
 
O padre Tolentino está cada vez pior desde que cometi o tremendo erro de lhe solicitar um comentário a umas merdolas adolescentes que tinha escrito, sem pinga de qualidade diga-se, e o gajo, depois de não mexer um dedo pela publicação das ditas merdolas - que é o que todos queremos quando solicitamos opiniões deste tipo -, mostrou todo o interesse pelo caso humano, incitando-me até a continuar - sem fazer a ponta de um corno por isso, claro - quando o que devia ter feito era uma de duas coisas: a) ou abrir as portas à rápida edição das merdolas, uma vez que havendo tanta merda por aí não viria mal maior ao mundo, garantindo-me condições financeiras mínimas para evoluir, e pedindo-me, se o assistisse o mínimo de sentido higiénico e empreendedor, que corrigisse aquele material incorrigível (o que de todo o coração lhe agradeço não ter feito, dada a situação psico-moral da poesia em Portugal, um agremiado de desocupados maricas, avozinhas sapatonas e gajas que cheiram mal); b) ou dizer-me frontalmente que aquilo era uma grandessíssima merda sem ponta de interesse humano ou qualidade literária, o que era a pura, simples e cristalina verdade, além de óbvia conclusão a que eu próprio cheguei rapidamente, e sem ajuda.
 
 
Porém, o referido reverendo não enveredou por  nenhuma destas estratégias, ambas consistentes e apropriadas, e andou por ali a engonhar uma ou duas semanas, chegando a telefonar-me, o cabrão. O que eu lhe pedi para que afirmasse com toda a sinceridade se ali estava por motivos literários ou movido por critérios pastorais. Afirmou sem pestanejar que não costumava responder a pedidos de avaliação, mas foi totalmente inconclusivo nas respostas, e nenhuma das explicações avançadas para aquele tratamento diferenciado foi esclarecedora. Partilhar conversas privadas: ingratidão da minha parte, dirão uns; é o que se recebe quando se quer ajudar um jovem escritor irresponsável e imoral, dirão outros. Enfim, se aqui conto publicamente este estranho e bizarro episódio da minha biografia é por motivos edificantes, e para proteção geral de todos os jovens escritores que caiem na tentação de procurar figuras públicas para subir mais rapidamente a longa escadaria da fama, para fugir ao incontornável calvário da originalidade e da inteligência, procurando obter fama sem ter de enfrentar o cálice, os espinhos e a cruz destinados a todos os filhos de deus. Por vezes, perturba-me a seguinte pergunta: estaria o gajo interessado em pontas? Não o posso dizer, mas certo, certo, é que já rezei duas novenas a Santa Rita por ter mantido os meus santos olhos bem longe da influência sapuda, melosa e pouco atlética do padre Tolentino. De um ponto de vista meramente literário, não posso terminar este post sem uma opinião crítica da obra do padre Tolentino: como crítico, uma merda. Como poeta, apesar de frouxo e casual, nos últimos trintas não é do pior que se tem publicado, embora possa ser arrumado, em histórias da literatura futuras, como uma versão em muito pior, mais urbana mas menos culta, de Eugénio de Andrade.
 
 
É verdade que continuo um escritor limpidamente objetivo no estilo, mas editorialmente obscuro, o que apenas apurou as minhas capacidades e acentuou a minha raiva, o que confesso, pode prejudicar a minha objetividade, embora mantenha uma significativa confiança na minha qualidade crítica. Lembro que desde pequenino, para aí 10 anos, as minhas preferências nunca foram para Jesus Cristo (um tipo esquisito que me lembrava os drogados de camisa havaiana impacientemente esbofeteados por Don Johnson em Miami Vice) mas sim para o ladrão a quem já nada resta e que mesmo perante uma execução nada agradável, segundo dizem os arqueólogos da Universidade de Jerusalém, ainda tem energia mental para, em vez de se pôr com pedidos adolescentes ao papá, emitir um juízo político da maior clareza, tentando livrar o maluquinho de serviço, e reconhecendo, nobremente, toda a merda que ele próprio, um reconhecido ladrão, fez durante a vida: reconhecimento dos próprios erros; ora aí está uma coisa de que Jesus Cristo se mostrou totalmente incapaz até ao fim.
 
 
E depois há aquela frase eloquente, que é um comentário irónico sobre a salvação, e que é um pedido de reconhecimento humilde, concerteza acompanhado por um sorriso calmo, que o evangelista por falta de talento literário não anotou. O ladrão sabe que não virá de lado nenhum nenhuma realeza, mas mesmo assim revela urbanidade suficiente para alimentar a fantasia do maluquinho durante mais uns minutos. Além do mais, fez a sua jogada inteligente: em caso de dúvida, tendo em conta a confusão tremenda de teorias político-religiosas que para aqui vão, potenciadas pela racional dominação romana, mais vale um gajo não descartar mesmo as hipóteses mais bizarras (um dia, quem sabe, se por aí vieres, lembra-te de mim). Mas como sempre, foi o maluquinho a triunfar, e do ladrão muito pouca gente se tem lembrado.
 
 
 
 

3 comentários:

alma disse...

Chamuças e coca cola :) será que os seus indianos também apreciam ?!

quanto aos tolentinos conheço pouco apesar que já assisti a uma palestra fui a uma missa e concordo com o alf
é ...

Quanto a Cristo acho uma figura fabulosa, compreendo as posições dos dois ladrões um pela salvação e o outro mantendo-se fiel a si próprio até ao fim como o Eric que morreu na semana passada :)

Agora com a net quem é que precisa de editores de vão de escada:)

Seja grande e publique por aqui :))) enquanto não é chamado para uma câmara clara, eheheh :)
O bom produz eco ...

AM disse...

uma merda que m'irrita é esta mania de escrever "desocupados maricas" em vez (não teria ficado tão mais melhor...) em vez de "maricas desocupados"
no resto, quanto a bibliotecas finanças e o cepo, estou como o outro:
três centrais NÃO é o meu mini stério

alf disse...

Cumprimentos aos dois

venho por este meio reconhecer que a expressão «desocupados maricas» desempenharia muito melhor a função para a qual foi concebida

até breve, se não morrer antes de desgosto